11.11.15

 

 

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 Lisboa, 2015

 

 

 

 

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O futuro?

 

 

 

A família donde se venha (pai, mãe, avôs, avós, irmãs, irmãos) prepara-nos para a vida, inclusive porque, sem a gente sequer dar por isso, tantas vezes nos leva a amar pessoas de quem nunca gostaríamos. Com países é diferente: cada um tem os vizinhos que tem e ou se gosta deles ou não se gosta: daí não se sai. Pelo sim pelo não, dantes qualquer país que se prezasse tinha o seu Ministério da Guerra. De há décadas a esta parte passou a dizer-se Ministério da Defesa. Valha-nos S. Jorge Orwell.

 

Vizinhos, vizinhos, nós portugueses só tínhamos um; daí a prudência. “De Espanha nem bom vento nem bom casamento” é prevenção tão ancestral que o tratado internacional de entreajuda mais antigo do mundo ainda em vigor foi assinado por Portugal e a Inglaterra em 1386. E também para garantir mais independência à dinastia que inaugurava, o Mestre de Avis foi buscar mulher à casa inglesa de Lancaster. Histórias de poder: veio a seguir o Tratado de Tordesilhas dividir o mundo descoberto e a descobrir entre Portugal e Espanha. Depois, já com Os Lusíadas escritos – há países para quem a epopeia é ao mesmo tempo o epitáfio, disse há quase século e meio Oliveira Martins - regras dinásticas trouxeram-nos o primeiro rei Filipe (segundo de Espanha) para, sessenta anos depois, revolta popular e fidalga nos livrar do terceiro (quarto de Espanha). São águas passadas. Neste nosso tempo em que a fatia europeia do bolo mundial continua a mirrar o único vislumbre que pessoalmente tive do que seria o “espírito de Tordesilhas” aconteceu quando, havendo eu sido escolhido para Secretário-Geral da União da Europa Ocidental em 1994, Javier Solana foi escolhido para Secretário-Geral da OTAN em 1995. Mas não éramos patrões – éramos só gerentes.

 

Entretanto, bem entendido, Espanha e Portugal tinham aderido às Comunidades Europeias. Entre ambos a corrida, por assim dizer, passara a ser com touros embolados ou, abandonando folclores, a nossa vizinhança passara a ser outra, fora da União. Essa preocupa e poderá dar maus exemplos, sobretudo agora que um toque de Terceiro Mundo parece convir às predilecções de parte do novo poder político. Já existe espalhado em Portugal, mesmo para lá da extrema esquerda, um apoio bem intencionado mas faccioso e ignorante à “luta do povo palestiniano”, condimentado por laivos frequentes de antissemitismo (o velho antissemitismo europeu, com longas raízes históricas, mudou-se no nosso tempo da direita para esquerda). Sobre esse caldo de cultura alguns poderão agora ser tentados a imitar jeitos dos que se impacientam com as delongas da democracia formal e preferem ganhar batalhas políticas e sindicais na rua. A ir deitando pela borda fora costumes de civilidade democrática estabelecidos desde o fim do Estado Novo. A parecerem dar razão, em suma, àqueles e àquelas que, de vez em quando, olhando para trás e olhando à sua roda, sombriamente se convencem de que Portugal é incapaz de criar no seu seio elites sustentáveis. É pena.

 

 

 

link do postPor VF, às 08:51  comentar

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