16.9.15

 

 

berlim 45.jpg

 

Berlim, 1945 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

E se afinal não fossemos tão bons?

 

 

 

“Dê um beijinho a este Senhor, que era muito amigo do seu bisavô”. Quinze anos - doze a parecerem quinze que a gente nova agora deita muito corpo? - a miúda obedeceu à mãe e estendeu-me bochecha salpicada por grãos de areia pois vinha de fazer surf no Guincho.

 

Longevidade e caldeirada de classes, sexos, ocupações e idades estão a esvaziar de autoridade aforismos do século passado. “O passado é outro país. Lá, fazem as coisas de maneira diferente” – lá e cá também, na manta de retalhos fruta cores a que chamamos presente. “A longo prazo, estaremos todos mortos” – era bom, era: agora, a longo prazo, muitos de nós estarão ainda por cá, meio cegos e meio surdos, a vermos passar a banda.

 

Tudo isto em União Europeia rasgada nos últimos anos por querelas de dinheiro entre a formiga Norte e a cigarra Sul e agora, perante maré de refugiados, entre Oeste generoso de vistas largas e Leste egoísta de vistas curtas. Tão entretidos nisto andamos que parecemos esquecidos de que o milagre que nos aconteceu (mais de meio século de paz; abandono de costumes milenários de provocar, enganar e atacar vizinhos) foi fruto de circunstâncias. Em 1945, nenhum de nós podia com uma gata pelo rabo; tínhamos medo salutar de um inimigo comum, a URSS; amigo comum grande, os EUA, deu-nos dinheiro do Plano Marshall e protecção militar. As circunstâncias agora são outras: somos uma parte próspera do mundo; Putin é velhaco mas não mete medo que se compare ao que metia Estaline; os EUA – a hiperpotência, chamou-lhe Hubert Védrine – já não precisam tanto da Europa quanto precisavam durante a Guerra Fria, ajudam-na menos e esperam mais dela.

 

Escrevi milagre avisadamente. Há dias, numa excelente conferência internacional (daquelas que há quase vinte anos a Fundação Oriente promove no Convento da Arrábida, muito tempo presididas por Peter Carrington e agora por Chris Patten) ouvi três oradores do Japão, da China e da Índia (um diplomata, um académico e um homem de negócios respeitado no circuito das relações internacionais) dissertarem sobre as relações dos respectivos países. Ouvi-os fascinado – foi, para um europeu, viajar para trás no tempo. Governos, oposições formais ou não e as populações em geral, mais ou menos manipuladas pelos governos, vivem em desconfiança dos vizinhos e medo de guerra (há sempre um Belzebu de estimação. Para os indianos é o Paquistão – e ambos têm bombas atómicas). Questões de fronteiras, terrestres (India/China) e marítimas (China/Japão e alguns outros) são regularmente levantadas, mesmo quando não haja tensões. No dia em que o Presidente chinês começou visita de estado à India, avião militar chinês violou o espaço aéreo indiano. A 8.000 metros de altitude, ninguém deu por isso salvo quem trate dessas coisas, mas Nova Deli foi lembrada de que o assunto não está esquecido.

 

Nós dantes também éramos assim, com cláusulas secretas em tratados e tudo, e se não tomarmos juízo, depressa o voltaremos a ser.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 11:36  comentar

pesquisar neste blog
 
mais sobre mim
Translator
sitemeter
contador sapo