26.8.15

 

4-inquisio-26-638.jpg

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Fés

 

 

 

Foi no século XX que se descobriu que o Bispo Pedro de Santa Maria, um dos mais zelosos inquisidores espanhóis, tinha nascido judeu, chegara a rabino em família de rabinos, e só aos trinta anos virara católico. Quem se espante, não devia. No mundo de twitters, Facebook, selfies, ponha os olhos nos rapazes e nas meninas que em Bordéus, Manchester, Santa Comba Dão – poderá acontecer lá também - troquem confortos multiculturais do estado social europeu pela certeza sangrenta que oferece o Estado Islâmico do Iraque e da Síria. (Alexandre O’Neill sabia que a sociedade de consumo iria dar para o torto: Sonetos garantidos por dois anos./E é muito já leitor, que mos compraste/Para encontrar a alma que trocaste/Por rádios, frigoríficos, enganos…)

 

Poderemos mais pacatamente lembrar-nos dos neocons americanos que desencaminharam George W. Bush ou de alguns liberais europeus apologistas da austeridade. Viveram, uns e outros, juventudes embebidas nas extrema-esquerdas dos respectivos países. Muito inteligentes e lidos, na minha experiência do seu convívio partilham uma pecha. Sem folga entre certezas ideológicas da juventude que repudiaram e certezas ideológicas da idade madura que abraçaram, são incapazes de perceber que as vidas das pessoas não se regem nem por umas nem por outras. Quase dão razão ao alentejano orgulhoso, baixo com cara de homem alto, que um dia me perguntou: “O que é que vem nos livros que um homem da minha idade não saiba?”

 

Geralmente são incorruptíveis - o que no Portugal de hoje os torna bentinhos – mas não confundir alhos com bugalhos. Não esquecer que incorruptíveis também foram Robespierre, em França; Salazar, em Portugal; o Mullah Omar, no Afeganistão. Vão fazendo muito mal ao mundo porque a sua paranoia doce os leva, num passe de mágica, de premissas incontestáveis a conclusões dementes.

 

Florescem muito bem em tempos de crise. Em Les Dieux ont Soif (Os Deuses têm Sede), romance de Anatole France passado na Revolução Francesa durante o Terror, Évariste Gamelin, pintor, membro do Comité de Salvação Pública, jacobino apaniguado de Robespierre, cruza-se num jardim de Paris com mãe burguesa nova e bonita acompanhada por filho pequeno brincando com uma bola que rola até aos pés do pintor. Este devolve-a, recebe sorriso contente e grato da burguesa e a seguir pensa, com tristeza resignada, que para que aquela criança viesse a ser feliz em crescida, talvez fosse preciso guilhotinar a mãe.

 

A jantar com liberal iluminado – marxista duro nos seus verdes anos - e católico reflectido, daqueles a quem o Dr. Mário Soares chamava “a direita inteligente”, tornei a confirmar o meu preconceito. Não há mais erudito, racional (e bem educado) do que o liberal mas, fosse ele a mandar, galoparíamos para a chamada luta de classes com vigor inédito desde a guerra de Espanha. O católico constante sabia que, embora o Bem esteja sempre longe, muito mal pode ser evitado usando de bom senso, decência e - lembrai-vos? - amor do próximo.

 

 

 

link do postPor VF, às 11:06  comentar

pesquisar neste blog
 
mais sobre mim
Translator
sitemeter
contador sapo