8.7.15

 

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O Concerto no Ovo, Hieronymus Bosch (c.1450-1516)

 

 

 

 

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Europeus

 

 

 

«Ih patrão, um homem pra ser um homem tem de ter feitos de alarve!» explicou rapaz que se tinha atirado a um pego no Guadiana sem saber nadar durante festa de campo e fora salvo à justa.

 

Assim fizeram no Domingo os gregos que votaram ‘não’. Mas ao contrário de Guilherme Gião, da Herdade da Abegoaria, que achou graça ao rapaz, os patrões do Norte e do Centro da Europa não acharam graça nenhuma e, açulados pelos eleitores - as bases são sempre muito mais intolerantes do que as cúpulas – gostariam de continuar a tirar aos gregos coiro e cabelo (mas agora fia mais fino) não porque tal melhorasse economia grega ou europeia, pelo contrário, mas porque os gregos pecaram e têm de expiar os seus pecados.

 

Tal convém a Angela Merkel: por um lado, fazer o que os eleitores querem segura votos; por outro, tal como para o Pai Bush, a vision thing não é para ela (no dia da queda do Muro de Berlim, cidade onde vivia, em vez de ir molhar a sopa ou pelo menos assistir à destruição, foi à sauna - porque era dia de sauna) de maneira que quem precise de timoneiro para a viagem europeia terá de bater a outra porta. E há mais, lembrou-me amiga perspicaz: criada desde os 3 anos na República Democrática entre os vencedores da Segunda Guerra Mundial – o heróico povo alemão, ajudado pelo heróico povo russo, derrotara o nazismo e derrotaria um dia o capitalismo – nunca sentira a culpa salutar que fizera Helmut Kohl ter uma regra: quando o Chanceler alemão encontra o Presidente francês, começa por fazer três reverências.

 

Nos dias de hoje, para ela, eleitores e partido vêm à frente da Alemanha e a Alemanha muito antes da Europa. Até à reunificação muitos alemães ocidentais consideravam-se europeus antes de alemães mas esse chão deu uvas. Deutschland über alles.

 

Não há, em princípio, mal nenhum nisso. Cosi fan tutte. Gregos, atirando-se à água sem saberem nadar para mostrarem que são homens. Polacos, cuja cavalaria atacou tanques alemães a sabre, em 1939. Suécia, que se deu à eutanásia há 80 anos mas se arma em sogra do mundo e prega moral. Portugal, convencido de que, apesar do tiro-liro-liro estar lá em cima e nós estarmos cá em baixo, não há de ser nada. Inglaterra, capital da excentricidade, de onde The Economist faz em cada número obituário de morto ilustre (nossos, lembro-me de Amália e Melo Antunes) e escolheu a semana passada não uma pessoa mas uma gata, célebre no Japão onde era chefe de estação e Vice-Presidente honorária de companhia de combóios e, diz The Economist, sabia que era divina.

 

Gente variada, os europeus. Não se dão mal uns com os outros desde que um deles não queira mandar no resto e pôr todos à sua imagem e semelhança. Ora, depois de mais de meio século caladinha, a Alemanha recomeçou a afirmar-se. Terceira investida em cem anos, desta vez a bem – mas se não a refrearem vai de novo criar cizânias. Não por mal mas por desejo irreprimível de meter tudo na ordem sem nunca perceber que a sua ordem possa não convir aos outros.

 

 

 

link do postPor VF, às 07:22  comentar

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