24.6.15

 

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A asneira da austeridade

 

 

Em tempo de vacas gordas, haver ricos conforta os pobres e vive tudo na paz do Senhor. Em tempo de vacas magras, o Diabo põe-se à coca e faz das suas. De entrada, a esperança teima: para o ano vai ser melhor, pensam muitos (e depois pensam poucos). Quando anos passam e quase nada melhora, o azedume rói as almas. O mau viver instala-se a pouco-e-pouco; cava-se um fosso entre o mundo cada vez mais pequeno dos ricos e o mundo cada vez mais vasto dos pobres e acaba por se estragar tudo — mesmo em lugar tão cordato e tão pouco dado a excessos quanto Portugal.

 

Estamos a chegar aí – tal como vários outros países europeus – graças a política de austeridade que de há quase cinco anos a esta parte os países que têm o euro como moeda resolveram adoptar. Em lugares do Sul animados por tradições de guerra civil, como a Espanha e a Grécia, a violência formiga à flor da pele. Mais acima no Continente, os países decisores ou por falta de visão (tais aqueles jogadores de futebol que olham para a bola em vez de olharem para o campo) ou por ignorância de história (a qual lhes diria que, em 1953, a Alemanha Ocidental ter um superavid primário foi crucial para a decisão de lhe reduzir drasticamente a dívida) estão a minar a segurança e o bem-estar dos europeus. É certo que em 1953 os europeus ocidentais tinham pavor salutar da URSS. Mas hoje a Europa inteira deveria ter medo geral profilático: da Rússia; da concorrência desregrada dos outros BRICS; do descalabro sanguinário do Próximo Oriente. Somos uma jangada de paz e decência em mar alto onde borbulham monstros.

 

E nem é hoje a Alemanha que nos empurra para o abismo. Finlândia, Holanda, Eslováquia, Eslovénia falam mais grosso ainda. Mas com chefe à altura de Adenauer, que puxou os seus do fundo do opróbio; ou de Churchill que salvou a Democracia das garras de Hitler e Estaline; ou de De Gaulle que, em 1945, fez da França vencida França vencedora – tudo iria ao sítio. Mesmo sem eles, talvez vá se Angela Merkel tiver unhas para essa guitarra. Talvez as tenha.

 

Escrevo da Nova Iorque dos pobres, onde houve festa da música no Solstício de Verão. No bistrot da esquina, com mesas cá fora, quarteto francês de jazz (The Blues Syndicate, amadores cinquentões) veio dar acompanhamento ao aperitivo e, depois de jantar, ao serão. “Perdemos Waterloo mas ganhámos os blues” disse o guitarrista entre duas peças. Quinta-Feira, à reconstituição comemorativa dos 200 anos da batalha tinham vindo o Rei dos Belgas, o Príncipe Carlos, descendentes de Napoleão, de Wellington, de Blücher, outros estadistas europeus. Os franceses têm mau perder e mandaram só o embaixador em Bruxelas. Os alemães fizeram o mesmo mas porque, desde a atrocidade nazi, ganhar dá-lhes amargos de boca — por muito antigo que o ganho haja sido.

 

Isso deveríamos todos aprender com eles. Na minha experiência, a Alemanha era o único grande país europeu que se portava decentemente com os pequenos e dizem-me que continua a sê-lo.

 

 

 

Imagem: aqui

 

 

link do postPor VF, às 07:06  comentar

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