17.6.15

 

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Maleita grega; mezinha alemã

 

 

Waterloo foi há duzentos anos. Despachado para Santa Helena, Napoleão passou a ruminar o passado. O fiel Las Cases tomava notas; regressado a França depois da morte do Imperador, publicou-as em livro que foi best-seller na Europa inteira. Em página arrancada ao Memorial de Santa Helena, ilustração a cores mostra o Imperador junto de uma palmeira, mãozinha na barriga, cogitando sobre cette pauvre machine humaine, tão diferente em cada um de nós. “Et c’est par se refuser à cette vérité qu’on commet tant d’erreurs. Pensava em pessoas – reis, marechais, bispos, banqueiros, patriotas, amigos e inimigos – avaliadas na sua carreira meteórica; lamentava escolhas mal feitas. Mas há também enganos colectivos e alguns estão a dar cabo da Europa de hoje.

 

Os alemães parecem inabalavelmente convencidos de que os outros europeus deveriam ser todos como eles. A ingenuidade desta convicção é quase comovente mas ajuda a consolidar miopia que mina o bem-estar europeu. O folhetim seria cómico se não fosse trágico – “Atenas e os seus credores” – e é resultado de se quererem tratar os gregos como se fossem alemães quando não o foram, não o são nem o serão nunca. Vamos em 5 anos do baile de máscaras da austeridade e apesar de tudo estar pior na Grécia (o superavid primário obtido antes de Syrisa chegar ao poder – isto é, o estado grego ter passado a receber mais do que paga, excluído o serviço da dívida – dado o montante astronómico desta, só pode dar satisfação a quem finja que a dívida não exista ou imagine que ela seja perdoada). Ora tal reestruturação é anátema para Berlim, Bruxelas, até FMI (Strauss-Kahn faz muita falta) que privilegiam preconceitos ideológicos em lugar de bom senso. Não é tanto por ultra liberalismo económico (embora desde o fim da Guerra Fria o capitalismo financeiro tenha tomado o freio nos dentes). É sobretudo por  Mário Monti disse-o  os alemães entenderem que a economia é um ramo da filosofia moral.

 

Falta de solidariedade mina a União Europeia e anima nacionalistas eurocépticos como a francesa Le Pen ou o inglês Farage. Ignorantes, não perceberam que a União não é capricho de fortes: é necessidade de fracos. Enquanto os europeus foram poderosos mataram-se uns aos outros e, a partir do século XV, foram também matar além-mar. Mas não há bem que sempre dure — e a guerra de 1939-1945 deixou-os de rastos. Medo de Estaline e ajuda americana – OTAN; Plano Marshall – levaram-nos ao que é hoje a União Europeia. Mas a URSS acabou, Washington não tem mãos a medir, o euro foi mal enjorcado, já nenhum governante europeu se lembra da guerra e, em países do sul, serão os nossos netos a pagar as nossas dívidas (nada de inédito, mas frustrante para quem julgava ter inventado o futuro).

 

A Grécia produz 2% do PIB europeu mas maleita grega e mezinha alemã fazem mal desproporcionado. Nas costas dos gregos: 79% destes preferem manter o euro. Terão afinal mais confiança na troika do que nos eleitos do povo?

 

 

link do postPor VF, às 09:03  comentar

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