10.6.15

 

 

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10 de Junho

 

 

 

“Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo”. Este verso da Feira Cabisbaixa de Alexandre O’Neill ressoa em mim. Tentei ver-me livre dele por via post-moderna — “Portugal é questão que Alexandre O’Neill tem consigo mesmo” — mas, sendo o post-modernismo um rosário de asneiras, a esperteza não me ajudou a sair do labirinto.

 

Alguns anos depois, o homem de teatro Mário Viegas, em campanha para a Presidência da República, lançou esta palavra de ordem: “Europa não. Portugal nunca!”. Também ressoou em mim. Deveria ser adaptada e divulgada em todas as línguas da União. Os europeus – 7% da população, 25% do produto, 50% da despesa social do mundo… E ainda se queixam? – terão de perceber que se não há ninguém melhor do que eles, tampouco eles são melhores do que seja quem for. É claro que píncaros éticos assim são para Espinosas, não para mortais comuns. Mas, se não quisermos outra vez guerras entre nós, é para esse lado que se deve esticar a corda e não para o outro como fazem agora patriotas finlandeses, lepenistas franceses, ukipistas ingleses, tantos outros. (Hoje digo sim à Europa. Sabe-se que, para quem não tenha muita fé, não há nada pior do que ir a Roma; no meu caso, quinze anos de vida em Bruxelas fizeram de um eurocéptico um europeísta. E passei a preferir Portugal sempre a Portugal nunca: sabedoria ou senilidade?)

 

Entre os dizeres de O’Neill e Viegas, Portugal vivera a 25 de Abril de 1974 o seu terceiro grande sobressalto no século XX. Hoje a maioria não se lembra do Estado Novo. António Alçada Baptista, em 1998, escreveu sobre ele: “(…) no tempo do antigo regime vivi com alguma ansiedade a condição de ser português. Não tínhamos liberdade e aguentámos uma guerra colonial que era para mim uma vergonha. O governo tinha tomado conta de todos os valores patrióticos e religiosos e por isso era com muita dificuldade que eu conseguia ter orgulho no meu país”.

 

Era assim nesse tempo com muitos de nós, católicos ou ateus, monárquicos ou republicanos. Ditaduras e guerras dão tratos de polé ao patriotismo. Em 1940, o regime francês de Vichy, presidido pelo marechal Pétain, julgou à revelia o general De Gaulle, refugiado em Londres, e condenou-o à morte por traição à pátria. Por sua vez, em 1945, o regime francês de Paris, presidido por De Gaulle que ajudara a derrotar a Alemanha nazi, condenou Pétain à morte por traição à pátria. De Gaulle, cujo único filho varão era afilhado de Pétain, comutou a pena em prisão perpétua.

 

Na paz e democracia do Portugal europeu de hoje, um inglês da Várzea de Colares - Deus lhe tenha alma em descanso – gabava-se ser o único colunista da imprensa lisboeta que gostava de Portugal; os seus confrades lusos não paravam de dizer mal do país. Alguém lhe explicou. Ele louvava Portugal mas se estrangeiros viessem atacá-lo meter-se-ia no primeiro avião para Londres. Os confrades lusos talvez não gostassem de Portugal mas amavam-no e, se estrangeiros investissem, morreriam por ele. Simples, no fundo.

 

 

 

link do postPor VF, às 00:42  comentar

De Helena Cardoso a 10 de Junho de 2015 às 12:23
Simples, no fundo :)

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