3.6.15

 

 

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Europa, filha do rei de Tyr, raptada por Zeus 

 

 

 

 

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Irmãs da namorada de Zeus

 

 

 

Há anos, no Itamaraty, perguntei a diplomata brasileiro como era o Paraguai. “É assim como o México” respondeu ele “mas, como não mudam de 7 em 7 anos, roubam menos”. Era o presidente que não mudava; pouco tempo depois o ditador Stroessner foi corrido – para exílio no Brasil – pelo que hão de ter passado a roubar mais. Mas o pior não é isso: há mês e meio, miúda de dez anos, grávida depois de violada pelo padrasto, foi levada ao hospital pela mãe pedindo que a fizessem abortar. As autoridades, espaldeadas pela igreja católica, disseram que não (prendendo a mãe como cúmplice). Em vários outros países da América Latina, as gravidezes juvenis também são muito mais frequentes do que na Europa e mais difíceis de prevenir por uma mistura de ignorância, machismo e doutrina católica.

 

Passando para outra das irmãs da namorada de Zeus e para outros desmandos: na sexta-feira passada, federações nacionais de futebol, sobretudo de África, votaram sem hesitação para renovar o mandato de Sepp Blatter à frente da FIFA, apesar de indignação de muitos entendidos e de outras federações. (Michel Platini, presidente da europeia, exortou publicamente Blatter a não se recandidatar). Como a investigação de crimes graves veio do FBI, esboça-se movimento para caracterizar o caso como expressão de imperialismo americano atrabiliário contra costumes, diferentes mas honrados, de gente menos rica e menos forte por esse mundo fora.

 

Um que logo se manifestou nesse sentido, alto e bom som, foi Vladimir Putin que, de súcia com o alto clero da igreja ortodoxa, continua a restringir cada vez mais as liberdades na Rússia – no rosário de repressões: há dias fundações que recebam dinheiro do estrangeiro foram consideradas inimigas da nação e do estado – para consolidar a sua cleptocracia; deverá saber ou suspeitar de trafulhices na escolha do seu país para acolher mundial de futebol e verá também oportunidade de reforçar a sua excelente imagem interna, fomentada por controle quase total de jornais, telefonias e televisões e por serviço de segurança levado ao nível do KGB.

 

O que me levou a outra irmã da Europa, a Ásia, de que a Rússia também faz parte embora não esgote, muito longe disso, as malevolências dela. Igualmente em notícias dos últimos dias, encontramos emigrantes, refugiados de tentativas de genocídio, postos à deriva no alto-mar com promessas de nova vida sem que países que os poderiam ajudar mexam um dedo para tal fazer, da Tailândia à Austrália (esta já na Oceânia, última irmã de Europa). Assim escancarada, a indiferença pelo próximo nesses países não encontra termos de comparação na Europa de hoje. Entretanto, sobre a terra e sobre o mar dessa parte do mundo, acena a presença totalitária e impiedosa da China.

 

No começo e no fim do dia, lembremo-nos da sorte que tivemos em nos ter calhado a filha do Rei de Tyr, raptada por Zeus (disfarçado de touro para escapar à vigilância ciumenta da mulher – o Mediterrâneo mudou pouco).

 

 

 

 

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