27.5.15

 

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Voltas que o mundo deu

 

 

 

“Ó tio, posso ler o Bonjour tristesse?” perguntou a adolescente, espernegada numa cadeira de lona do jardim.

 

“A menina feche as perninhas e leia o Pim Pam Pum” respondeu o tio, militar distinto que saía da casa de jantar, sentindo-se in locus parentis no calor daquele serão de Agosto.

 

Cumpridora, a pequena uniu com recato as coxas debaixo da saia de algodão; o tio voltou para junto dos crescidos e a ordem natural das coisas não foi beliscada pelo sobressalto.

 

Mas o homem põe e Deus dispõe; a velocidade de mudança do mundo não para de aumentar; desde 1954, ano da revelação de Françoise Sagan (quando falaram do editor a aceitar o manuscrito, tiveram de telefonar mais tarde porque a menina ainda estava a dormir e a criada não a quis acordar) até ao momento em que bato estas linhas num computador que terá de ser substituído muito brevemente por outro mais moderno e por isso mais rápido, andamos todos numa lufa-lufa (para usar um dos termos predilectos do Senhor J. Fonseca). Naquela noite, a adolescente obedeceu ao tio: fechou as perninhas e não pegou no livro da Sagan, mas passado algum tempo percebera que gostava de mulheres e por aí seguiu, primeiro às escondidas, depois meio às escondidas, depois à vista de toda a gente, agora, com a lei nova, até é capaz de ter passado por alguma repartição de Registo Civil. As mudanças de costumes convieram à sua inclinação e embora haja momentos de nostalgia de segredo completo e de fruição de ilegalidade - como do dia em que se percebera melhor a si própria, deitada num quarto por se ter sentido fraca em festa de casamento, e uma irmã do noivo viera ver como ela estava, começara a fazer-lhe festinhas, encetando nessa tarde as duas ligação que duraria cinco anos – a vida agora é mais como deveria ser.

 

Com o tio – que era mesmo tio e não apenas assim tratado por convenção nas maneiras do meio em que a sobrinha vivia, por ser um meio bem (nalguns casos, ultimamente, acontece também em meios que querem parecer sê-lo) – a história foi outra. Militar distinto, o 25 de Abril apanhou-o já general e desempenhou nos dois anos a seguir a essa data histórica cargos muito importantes na hierarquia das forças armadas não por ser de esquerda, como se dizia na altura, ou por ter sido, como alguns camaradas seus foram, inebriado pelo poder que as instituições militares ganharam nessa altura e fez alguns dos seus protagonistas desempenharem papeis que não lhes teriam sido atribuídos em tempos normais da vida da Pátria mas exactamente por ser um militar pundonoroso, atento à disciplina e às obrigações das servidões e grandezas da sua carreira, respeitador de superiores e fazendo-se respeitar por subordinados, exerceu funções e cumpriu deveres que nem sempre agradaram a camaradas e familiares do mundo donde vinha.

 

A História amaciou o caminho da vida da sobrinha; o tio viu cortadas as asas da sua alma mater, as quais, em 1910, 1926 e 1974, tinham ajudado a mudar o destino da Pátria.

 

link do postPor VF, às 07:26  comentar

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