20.5.15

 

 

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 Ponte Vasco da Gama - Há valores seguros.

 

 

 

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Verniz a estalar

 

 

Os sapatos de verniz levados a S. Carlos estalavam depressa mas não fazia mal: só novos-ricos queriam tudo novo em folha e, como o bom senso de Miami (Better nouveau riche than no rich at all), não tinha chegado à capital deste Império, ricos-velhos, nouveaux pauvres (o Luís Stau Monteiro dizia que era um desses), todo o resto da tribo olhavam por cima da burra para volframistas, africanistas, brasileiros, porque nisto de dinheiro, o único bem ganho e moralmente aceite era o herdado. Na novela de José Régio “Davam Grandes Passeios aos Domingos”, que decorre em Portalegre, Alto Alentejo, entre a primeira e a segunda Guerras Mundiais, o melhor partido para meninas casadoiras nos filhos de lavradores ricos, o Chiquinho Paleiros, não estudava “porque não precisa”, de rica que a família era. “Manhã de rico” queria dizer levantar-se tarde por não ter de trabalhar para outros nem para si. Quem não tivesse nascido rico e começasse a alardear dinheiro levantava logo suspeitas e – até mais ou menos ao fim do século do XIX  se não pudesse provar ter encontrado tesouro escondido em cova no campo ou buraco de ruína, da fama de trafulha não se livrava (no século XX, se não tivesse ganho a Lotaria, mais tarde o Totobola ou o Euro milhões). Gente de bem não mudava a ordem das coisas e das pessoas. Ainda no Alentejo: um golpista era muitas vezes chamado de “pulante” ou “trampolineiro” – alguém que queria chegar acima da sua condição. Por isso também, em grandes apertos financeiros da Nação, se esperava dos ricos que pagassem a crise. Entretanto, serões de ópera, de boa música sinfónica ou de câmara entretinham-nos, ataviados como reis, diante da casa onde nasceu Fernando Pessoa. Vivia-se ao tempo em que o meu chorado Alexandre O’Neill ouviu no mestre Escama, barbeiro, um agente da P.S.P. afirmar didaticamente ao resto da freguesia: “Ser polícia dá cantina, barbeiro, autoridade!” (E o senhor engenheiro responder ao engraxador residente que hoje não engraxava porque engraxava na Baixa).

 

Já houve quem dissesse que o passado é um país estrangeiro. Talvez, mas eu além de me ir afastando no tempo, vivo fora e apesar de tudo isso cada vez que volto acho que o país não mudou no essencial, apesar de três diferenças conspícuas: os novos são mais altos, os velhos são mais velhos e as pequenas fodem todas. À parte isso, às vezes, quanto mais diferença querem, pior. Exemplo: a Ponte Salazar passou a Ponte 25 de Abril não por nós termos mudado mas por não termos. “Isto, Senhor Doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há” disse-me homem bom da sua aldeia em 1965. O acolhimento aos retornados, a cerviz vergada à austeridade, não lhe tornariam a dar razão?

 

Hoje, brutalidade da polícia indigna os portugueses. Em 1965 cabo chefe de subposto da GNR contou-me que quando lhe vinham fazer uma queixa, ele ouvia e dava logo a seguir um par de estaladas ao queixoso/a. Se a queixa fosse mantida, abria processo.

 

Não há de ser nada.

 

 

 

link do postPor VF, às 07:44  comentar

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