6.5.15

 

 

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Felicidade para todos?

 

 

 

“Reflexões sobre o Leito de Morte de Voltaire ou A Arte de Morrer na França do Século XVIII” - o título de opúsculo saltou-me à vista na montra da Oxford University Press, na High Street da cidade epónima, a primeira vez que lá passei. Tratava-se da lição inaugural do Professor de Divindade, comprei-a, li-a, perdi-a mas, mais de 50 anos passados, lembro-me do teor e conto-o à leitora.

 

Voltaire (1694-1778) era ateu mas monárquico e respeitador das convenções sociais do seu tempo. Não gostaria de impor a família e amigos o escândalo de não ser sepultado em campo santo, o que forçosamente aconteceria se o cura da paróquia, com quem se dava bem mas privava pouco, se convencesse sem sombra de dúvida do seu ateísmo. Na doença final o pároco passou a visitá-lo amiúde, tentando levar a conversa para o que lhe interessava, mas o filósofo, polemista de primeira, ia-lhe trocando as voltas sem o deixar chegar ao assunto. No último dia, apercebendo-se do fim próximo, o cura foi directo e perguntou-lhe: “Acredita na divindade de Jesus?” “Deixe-me morrer em paz…” suspirou o filósofo – e assim fez, sendo enterrado em campo santo com todos os ritos devidos.

 

Quanto à República, só chegou a França depois do tempo de Voltaire, começou entrecortada por insistências monárquicas e por dois impérios napoleónicos (um a sério; outro a fingir) mas acabou por se firmar e foi-se refinando cartesianamente. Hoje os que querem mudar de regime político em França não propõem uma Monarquia, propõem a Sexta República – da qual Voltaire tampouco gostaria, como não teria gostado das 1ª, 2ª, 3ª, 4ª e 5ª. De tal maneira de governar dissera, lapidarmente: “A infelicidade de cada um para a felicidade de todos” e quanto mais a espécie se vai refinando, desde a cartografia de genomas à idade de pinturas rupestres em grutas (por acaso, francesas), menos provável é que o número de contentes cresça e o número de descontentes diminua. Mesmo que grupos pluridisciplinares, primeiro nos Estados Unidos ou na Escandinávia, e, a seguir, um pouco por toda a parte, inventem novas maneiras de ir arrumando a espécie, aumentando o número e a variedade de cacifros personalizados de forma a que gostos e preferência individuais não atentem uns contra os outros – por outras palavras: que o bem disponível, em vez de ser limitado, passe a ser infinito; que a riqueza do meu vizinho não me faça pobre a mim e que a filha dele ser uma galdéria não faça da minha uma Santa – tudo de agora em diante acomodado como bonecas russas ou caixas chinesas, da mais pequena freguesia à capital política e administrativa do mundo (Manhattan? Pequim? Basileia?) com olho em todos nós para que nenhum possa ser mau.

 

Voltaire escapou a isto. Talvez - com muita sorte - escapemos ao pior. O Rei Faruk do Egipto, deposto em 1952, dizia que no século XXI só haveria 5 Reis no mundo: de ouros, de copas, de paus, de espadas e de Inglaterra. Um brinde de boas vindas à Princesa de Cambridge?

 

 

 

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