15.4.15

 

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Fofocas

 

 

 

Na semana passada a Vera tinha-me prevenido – “Aqui ninguém pensa em guerra; têm medo de outras coisas mas guerra não lhes passa pela cabeça” – e eu modificara o texto mandado antes, procurando colocar o público em terreno que me conviesse.

 

Êxito mitigado. Leitora entre as happy few a quem eu mando o Bloco já paginado - escusam de o ir buscar elas (e eles) ao web, assim como dantes se faziam de livros pequenas tiragens fora do comércio, com exemplares numerados e impressos em melhor papel – pilar de discernimento na minha vida, foi a primeira a disparar: “Acho que estás a precisar de apanhar um bocadinho de sol, de ver o Guincho… ” Leitor com a cabeça mais bem arrumada que encontrei fora de grandes universidades inglesas e norte-americanas surgiu a seguir: “Almocei umas iscas de leitão muito simpáticas e estava bastante contente da vida, quando quiçá por praga rogada pela mãe do reco, me chega este murro do real para dificultar a pacífica digestão. Irra lá terei de chupar uma Rennie, para tentar recolocar-me no paraíso artificial.”

 

A leitora já foi sobrinha por afinidade do leitor - e também minha por, digamos, contra-afinidade. A família de pai, mãe, filhos, filhas, cognaticamente alargada, apesar das muitas bordoadas levadas desde que a minha geração chegou à idade de descasar, continua a ser o núcleo indestrutível e indispensável da vida dos portugueses (como verificou elegantemente num pequeno estudo empírico a Dra. Isabel Marçano, que não conheço nem sei se lê estes Bloco-Notas).

 

Em Portugal, a seguir à família, talvez o mais importante corrimão de escada seja o lugar de onde se venha, aquilo a que o emigrante Alves – conheci-o em Maputo mas a diáspora começara em França – chamava “a minha parvónia”, no meu caso Évora, Alto Alentejo. Deste, na semana passada, disseram também de sua justiça patrício e patrícia do meu mundo de correspondentes. Ele percebia o “desânimo que te provoca a cultura de mercearia europeia que não tem um só motivo para que qualquer jovem (e os respectivos progenitores) aceitasse morrer por ela”. Ela foi sucinta : “Que grande texto!” – tinha gostado da substância e da forma. Devo acrescentar que, já antes destes encómios, se eu tivesse de organizar duas bichas alentejanas, uma de homens e outra de mulheres, pô-los-ia à cabeça de cada uma delas.

 

Como os do Tejo para cima não têm no meu coração canto menos acolhedor do que os transtaganos (ou os algarvios), perguntei se teria sido pessimista a estrangeira que conhece o direito e o avesso da Europa comunitária e conhece Portugal sem a ternura difusa dos residentes estrangeiros (ricos) nem a raiva uns aos outros dos indígenas (ricos e pobres). Achou que eu não fora pessimista mas fora brutal. “Brutal como Al Capone ou como o Sermão da Montanha?” inqueri . “Como o Sermão da Montanha.”

 

Fiquei todo babado pois o mesmo me palpita que na altura tenha dito ao Filho Nossa Senhora, acrescentando à parte para Santa Ana: “Ai este rapaz, este rapaz…”

 

 

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