8.4.15

 

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Ave-Marias e Pelouros

 

 

 

“Com muitas Ave-Marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num Credo” conta Fernão Mendes Pinto da abordagem ao junco do pirata Cimilau no Mar da China. Os europeus começavam meio milénio de domínio do mundo que estamos a ver acabar “in real time” e sem anestesia.

 

Hoje, Ave-Marias, não sei se chegaríamos ao fim duma, quanto mais de muitas que a fé é pouca e preguiçosa neste recanto temperado do hemisfério Norte — 5% da população, 20% do produto e 50% da despesa social do mundo não se cansa de lembrar Angela Merkel. E pelouros dos nossos dias – armas “state of the art” – custam dinheiro que povos europeus amantes da paz (e de que os deixem em paz) preferem gastar noutras coisas enquanto Rússia e China aumentam substancialmente todos os anos os seus orçamentos de defesa — isto é, de ataque. Continuamos a depender da protecção dos Estados Unidos para nos defender de quem nos queira atacar (ou para que quem tal queira, pense duas vezes e não ataque). Mas é menos certo hoje do que durante a Guerra Fria que ataque a qualquer Aliado seja inexoravelmente tomado por Washington como ataque aos Estados Unidos. Nós — portugueses e outros — estamos muito menos seguros do que estávamos quando a União Soviética existia. Pior ainda, aqui e agora, as pessoas não vislumbram guerra - como não a vislumbraram em 1913…

 

Assim, ganhar força para a luta não vai ser fácil. Na União Europeia e arredores, a combater como Fernão Mendes Pinto, só me ocorrem as hostes do ISIS, as arrebanhadas localmente e as brigadas internacionais emigradas da Europa, rapazes e raparigas que encontraram sentido a dar à vida. A fé é outra mas a mistura de vigor espiritual e engodo material é a mesma. Nos dois casos, creem que Deus os ajudará a limpar a face da terra de infiéis e, com especiarias que abarrotavam o junco do Cimilau ou com petróleo de Mosul, enchem os cofres da causa.

 

E batermo-nos por quem? A União Europeia é uma grande cooperativa de produção e consumo, capaz de nos dar o melhor viver quantificável do mundo mas incapaz de levar seja quem for a morrer ou matar por ela. Para Super-Pátria não dá. Na Europa já se morreu e matou por Deus, por Príncipes e por fim por Pátrias. Hoje, abafadas pelo cobertor comunitário, as pulsões que estas nos dão são como dores fantasmas em membros amputados. Mas é o que há.

 

E, quando a guerra vier, como derrotar a barbaria sem criar outra? Primeiro, é preciso estarmos convencidos de que temos razão e eles não a têm. Segundo, querermos vitória e só vitória. Terceiro, sabermos que ‘quem mata primeiro, ganha’ (lição aprendida em Pretória do motorista Vasco, que usava pistola porque ia e vinha todos os dias do township onde vivia). Quarto, reforçarmos a OTAN (até porque, sem os americanos, quem mandaria?). E, quinto, pormos botas no terreno (só com aviões e drones não se irá lá).

 

E se nos furtarmos a guerra assim? Em vez de passarmos de cavalo para burro passaremos de cavalo para burro morto.

 

 

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link do postPor VF, às 10:37  comentar

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