4.2.15

 

 

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Évora-Monte, berço do Portugal moderno

 

 

 

 

 

 

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Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico

 

 

Numa taberna grega, o ambiente é tenso e competitivo, com zaragatas à flor da pele. Numa taberna portuguesa vigora camaradagem: se dois fregueses brigam, os outros, em vez de tomarem partido, metem-se a separá-los.

 

A Grécia moderna começou em 1830, arrancando-se ao Império Otomano com ajuda de brigada romântica internacional (Lord Byron morreu lá); importou para rei um príncipe alemão (cujo descendente foi corrido do trono com a junta dos coronéis em 1974); a seguir à Primeira Guerra Mundial más relações com a Turquia deram limpeza étnica; a seguir à Segunda, guerra civil violenta — ganha à justa e ainda hoje razão de ódios — fê-la entrar para a OTAN e não para o Pacto de Varsóvia.

 

O Portugal moderno começou em 1834, na Convenção de Évora Monte (mas com 7 séculos atrás, lembrados de mãe para filha) que pôs termo a guerra civil, vivida à portuguesa. Em Lamego as forças vivas houveram-se de maneira a que nem liberais nem miguelistas locais fossem mal tratados, estivesse quem estivesse na mó de cima no país. Em Monsaraz, miguelista até ao fim, a seguir à Convenção a Câmara escreveu à Rainha D. Maria II protestando lealdade “que o jugo do usurpador há muito fizera calar em seus peitos fieis”. Em 1965, proprietário alentejano a quem perguntei como eram as relações com o governo de Lisboa durante a República respondeu-me: “Isto, senhor doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há”. Só depois de democrata, em 1976, Portugal foi autorizado a candidatar-se às Comunidades Europeias mas assinámos o Pacto do Atlântico em 1949. Com coisas sérias não se brinca.

 

Ao contrário dos gregos — e talvez dos espanhóis que armaram, entre 1936 e 1939, guerra civil assanhada — não vamos eleger demagogos de extrema-esquerda para governo. Nem de extrema-direita: escapámos-lhes agora apesar de austeridade e muito estrangeiro por cá e, há quarenta anos, apesar de mais de meio milhão de retornados. O acolhimento aos retornados foi momento alto da nossa história; a aceitação da austeridade imposta pela Alemanha, um dos mais baixos. A sua moralidade é um embuste e, se Berlim não der por isso a tempo, a Alemanha conseguirá o que não lograra duas vezes no século XX: destruir a Europa.

 

Com Aliado na OTAN em apuros, Barrack Obama deu aviso à navegação. A Grécia tem de mudar muita coisa mas é difícil quando o nível de vida baixou 25%. A longo prazo sociedade e sistema político não aguentarão. A melhor maneira de reduzir défices é obter crescimento.

 

Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico de Orlando Ribeiro há mais de meio século ajudou-me a perceber o país, bem como Ensaios Etnológicos de Jorge Dias e Structure and Growth of the Portuguese Economy de Xavier Pintado. Muitas coisas mudaram mas muitas mais estão na mesma.

 

A Grécia clássica inventou a filosofia. Certo. E há muitos anos, numa taberna de Campo de Ourique, ouvi um bêbado perguntar a outro: “Eu só quero que você me diga uma coisa: merda é verbo?”

 

 

link do postPor VF, às 10:09  comentar

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