21.1.15

 

Je suis Charlie 3.jpg

Paris, Place de la République, 11 de Janeiro de 2015 *

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Vidas decentes

 

 

“Il faut de tout pour faire un monde” disse eu, resignado a já não sei que iniquidade. “É por isso que o mundo é tão mal feito”, respondeu o António Alçada.

 

Ocorreu-me essa resposta lapidar do autor de Peregrinação Interior depois de ver, ouvir e ler em resultados de inquéritos que, desde o Papa Francisco até ao Rei da Jordânia, passando por 42% dos cidadãos da República Francesa, muito boa gente acha que os humoristas do Charlie Hebdo assassinados no dia 7 tinham ido longe demais e que os sobreviventes haviam reincidido no número da semana passada, vendido aos milhões. Daí a achar-se que as razões do morticínio inadmissível possam ser entendidas – se um homem insultasse a minha mãe eu dava-lhe um murro, teria dito o Papa a jornalistas – vai caminho curto demais para salvaguarda da decência do nosso viver.

 

Quem sacrifique liberdade a segurança não merece nem uma nem outra, explicou Benjamim Franklin, revolucionário de 1776, um dos” Pais Fundadores” dos Estados Unidos da América, e evoco-o porque quando, a seguir ao massacre, milhões de pessoas ostentando “Je suis Charlie” encheram ruas e praças de Paris e outras cidades francesas, não estavam a subscrever o que os cronistas e caricaturistas do semanário houvessem escrito ou desenhado, estavam a afirmar e a defender o direito que estes tinham de o fazer.

 

Esse espírito, espinha dorsal da França desde a Revolução de 1789, que resistiu à restauração do Império, à Comuna de Paris e à sua punição brutal, ao regime de Vichy durante a Segunda Grande Guerra, mas que nas décadas de prosperidade e paz que vieram a seguir e no marasmo quezilento dos últimos anos parecia ter adormecido, endireitou-se agora quando o estandarte sangrento da tirania se levantou outra vez. Espírito capaz de mover montanhas, muitos conspiram para o abater mas nele reside a esperança da França e da Europa. E toda a conversa de “Je ne suis pas Charlie” , de Charlie ter ido longe demais no insulto a crenças e ideias de outros – neste caso muçulmanos; em casos anteriores cristãos e judeus – é falso remédio que aumenta o mal em vez de o curar.

 

Mesmo que não nos debrucemos sobre lugares onde houve queima da bandeira tricolor (embora se lembre, para exemplo, que no Paquistão as últimas manifestações anti-ocidentais antes destas haviam sido contra a atribuição do prémio Nobel da Paz à pequena que os Talibãs tinham tentado assassinar por advogar educação feminina e que na Chechénia o cacique sanguinolento que lá reina mandou manifestar também) essa conversa ataca a base de sociedades como a nossa: a liberdade de pensar e dizer o que se pensa; o direito à vida quer se creia quer não se creia em Deus. Os dois estão ligados como irmãos siameses: se se restringir a liberdade de expressão para não ofender almas sensíveis que possam ser levadas a assassinar quem faça troça do seu Deus (ou impedir que mulheres saibam ler e escrever), começa a destecer-se o pano em que é talhada a decência do nosso viver.

 

 

 

 

Foto: David Futscher Pereira

 

link do postPor VF, às 08:51  comentar

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