24.9.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Nous avons tous des trous dans les chaussettes”

 

 

Assim me surpreendeu o médico das pernas quando eu lhe disse que, no osteopata, antes de o vir ver a ele, reparara no buraco da peúga. Lembrei-me do historiador A. J. P. Taylor para quem a convicção amarga da decadência da civilização vinha do facto de, dantes, os professores de história terem pessoal doméstico e agora serem eles a lavar a sua roupa. O agora dele era há 50 anos em Oxford; receios de decadência da civilização ainda não atingiam Portugal onde os professores universitários tinham criadas de servir e o resto vinha à proporção: na minha mocidade conheci camponês analfabeto e canalizador semiletrado inteligentíssimos bem como catedrático de filosofia burro como uma porta. No agora de hoje, Portugal está muito mais perto da Europa do que estava nessa altura. “Que ele seja médico não me espanta; o que me espanta é que tenha aprendido a ler”, sentença cruel que ouvi ao nosso médico de família (cujos atestados, a partir de 1947, começavam: ‘Francisco Pulido Valente, professor catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa compelido à reforma por motivos políticos’) punha o dedo na ferida: em Portugal licenciava-se quem tivesse família com dinheiro para lhe pagar os estudos, mesmo que levasse 20 anos neles. Era a vida, diria o Engenheiro Guterres.

 

Hoje, a decadência da civilização toca todos os europeus, os do Norte, protestantes e mais ricos; os do Sul, católicos romanos ou ortodoxos e menos ricos, mordendo até a economia alemã. A Alemanha manda. Antes da reunificação, a inflação já era, para Bona, pecado mortal mas quem mandava era a França, onde uma pitada de inflação fora sempre o sal da economia. Desde 2008 Sarkozy e Hollande foram incapazes de lembrar convincentemente a Merkel que, a seguir à guerra de 39/45, a Alemanha só fora aceite à mesa das nações decentes por a França lhe ter estendido a mão. Com a economia estagnada sob a batuta austera de Berlim, vendo mirrar o seu quinhão do comércio mundial, quase desarmada num mundo cada vez mais agressivo e desordeiro, uma vasta classe média europeia, ensanduichada entre tantos desempregados que o welfare state se torna insustentável e 1% de ricos-ricos a quem cabe percentagem escandalosa da riqueza total, passou a ver o túnel ao fundo da luz: pela primeira vez desde que alguém se lembre os filhos irão ser mais pobres do que os pais. E — a acreditar no médico das pernas que viu mais pés sem sapatos do que a leitora ou do que eu — toda a gente tem buracos nas peúgas. Pequenezes de fim de civilização.

 

Escócia

   

Sensatez e tolerância na Escócia (e no Reino Unido) merecem celebração. Como merece o discurso de 13 minutos de Gordon Brown que, entre políticos que falam como quem venda apólices de seguro, elevou o debate a tom Shakespeareano. Por fim, a Rainha, constitucionalmente calada, tem, pela mãe, 50% de sangue escocês, pelo pai 50% de sangue alemão e, quer por um quer por outro, 0% de sangue inglês. Magia da realeza. 

 

 

 

 

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