17.9.14

 

 

 

 

 Cosimo de Medici 

 

 

 

 

 

Progresso?

 

 

“Quem saiba a língua sabe a cultura e quem saiba a cultura entende as pessoas” dizia o professor de antropologia social em Oxford. Por estudar gente do meu país —  e da minha província natal — em vez de estudar gente de fala, lugar, manhas e fé diferentes das minhas, eu tinha meio caminho andado. Sobre isso, para Evans-Pritchard  (EP como a gente lhe chamava), não havia a menor dúvida. Concordei.

 

Hoje não concordaria. A conversa foi há cinquenta anos e cinquenta anos agora não são o que eram cinquenta anos há cinquenta anos. As diferenças entre passado e presente são maiores do que alguma vez haviam sido desde o Big Bang, ou, para tentar entender, desde que a consciência humana inventou e mediu espaço e tempo. Mais perto de nós, longe dos mistérios do tempo cósmico e dos buracos de traça do tempo histórico, no tempo pessoal de cada um, a velocidade da mudança acelerou como nunca acontecera. A língua falada pelos netos afasta-se da língua falada pelos avós e o confronto entre as duas roça a incompreensão. A escrita, desde os tijolos gravados da Caldeia ao processador de palavras que estou a usar, passando pela Bíblia de Gutenberg, o Dicionário de Moraes, a cartilha de João de Deus, fora acompanhando e resistindo, guardando e deitando fora, mantendo-se viva ao contrário do latim e do grego clássico. Hoje é diferente.

 

“[O] blog está a perder fluidez: trazes muitos temas colaterais à colação. A net exige uma escrita mais linear, frases mais curtas e menos ornamentos de erudição sobre o assunto principal” escreveu-me leitor fiel a quem Verão dantesco revelou que amigos do peito eram, afinal, amigos de Peniche, afastando-o algumas semanas de rotinas que incluíam a leitura destes Bloco-Notas. “Eu não sou especialista mas estive a vê-lo com os meus filhos [que o são] e aquilo que observo foi deles que o ouvi”.

 

Devem ter razão mas a pressa competitiva, inventando maneiras cada vez mais curtas e rápidas de dar recados para espalhar notícias antes da concorrência ou ganhar milhões em fracções de segundo, está a afunilar a língua, reduzindo ou conseguindo mesmo eliminar ambiguidades, preferindo certezas a dúvidas, acção a reflexão, usando, para referir maneiras de agir ou reagir, metáforas que reflectem métodos financeiros, investigação económica, práticas comerciais e se afastam cada vez mais do ciclo das estações, tal como no supermercado se encontra sempre agora fruta que não é da época. (A popularidade de Twitter, que restringe comunicações a 142 caracteres, atesta gosto pela brevidade mas não era bem disso que Tchekov falava quando dizia: “escrever bem é escrever com concisão”).

 

O banqueiro Cosimo de Medici, dono da melhor biblioteca de Florença e o mais sábio dos irmãos, detestava a invenção de Gutenberg. Os livros não se comparavam em qualidade com os seus incunábulos. A cultura acabara.

 

Enganava-se mas quem saiba a língua hoje não sabe por isso a cultura nem entenderá melhor as pessoas. Como fazem agora os antropólogos?

 

 

 

 

 

  

link do postPor VF, às 08:47  comentar

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