3.9.14

 

 

 França, 2014

 

 

 

 

 

 

Si t’es pas bi, t’as rien compris

 

 

Se não és bissexual não percebeste nada, dizia frase tirada do texto e posta em relevo, a meio de artigo sobre bissexualidade que parece agora estar na moda entre adolescentes franceses, numa revista para senhoras, também francesa, com fotografias a preto e branco de miúdas e miúdos a beijarem-se na boca, rapaz a rapaz, rapariga a rapariga. Nenhuma intenção pornográfica, só diligência informativa. Aprender até morrer.

 

Sempre, indo para velha, a gente mudava. O que é novo, de há menos de três séculos para cá, é que o mundo parece mudar mais depressa do que nós, e nos últimos tempos, muito mais depressa ainda. Desconfiança das vantagens da Revolução Francesa começou logo com ela e teve, desde então, protagonistas convictos. O meu amigo Chico Quevedo, por exemplo, quando ainda ia de automóvel de Bruxelas para Lisboa acrescentava mais de uma centena de quilómetros de estrada para evitar Paris. A Revolução Industrial também teve logo detractores – o poeta William Blake fulminou “the dark, Satanic mills” — e continua a apoquentar ecologistas mas sai-se muito melhor do que “Liberté, Égalitè, Fraternité” sempre que a gente toma um comprimido de Aspirina e a dor passa.

 

No meu tempo de liceu, de bissexualidade quase não se falava e, de qualquer maneira, tínhamos, por assim dizer, mais ralações do que relações sexuais. Nessas coisas a mudança foi e, pelos vistos, continua ser, enorme — e ainda bem. Como ainda bem também as mudanças em governação: internacional (onde não existe mas se tenta compensar e, com sorte, talvez se preveja melhor do que em 1914) e nacional (onde as pessoas podem cada vez mais dar palavra) mas o desinteresse pela coisa pública e a desconfiança dos políticos alastra assustadoramente. O húngaro Victor Orban, admirador de Putin, foi ao ponto de declarar que a democracia é um mau sistema de governo porque enfraquece os povos e os regimes autoritários são preferíveis porque os reforçam. Tentações assim pulsam cada vez mais pela Europa fora.

 

Europa que, com islamitas do Califado no Iraque e na Síria, por um lado, o Czar Vladimiro, por outro e — cereja no bolo — um banana indeciso na Casa Branca, começa sombriamente a convencer-se de que se não for capaz de se defender de quem lhe queira mal, ninguém o fará por ela. A reconversão urgente e penosa de recursos e de ideias necessária à nossa sobrevivência será aproveitada pelos inimigos da liberdade — desde protectores de interesses corporativos em agricultura, comércio, indústria, serviços até almas ofendidas com a variedade de práticas sexuais aceites. Toda essa gente tem de perceber que onde as suas preferências de ordem e de respeito pelo passado imperam e onde o chefe quer, pode e manda, são, perto de nós, o Califado do Iraque e da Síria, ou, em versão light cristã, a Ucrânia oriental.

 

(Lembrete: os soldados com maior reputação de bravura de toda a antiguidade clássica vinham de Esparta, onde a bissexualidade era de rigueur.)

   

   

  

 

link do postPor VF, às 14:02  comentar

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