20.8.14

 

 

 

 Tony Silva em "O Tal Canal" de Herman José, RTP 1983/1984 

 

 

 

 

 

O rame-rame

 

 

 “Que lentement passent les heures/Comme passe un enterrement./Tu pleureras l’heure où tu pleures/Qui passera si vitement/Comme passent toutes les heures” rimou Apollinaire na cadeia, acusado injustamente de cumplicidade no roubo da Gioconda do Louvre em 1911. (O Secretário de Estado das Belas Artes quisera matar-se. Roubo parecido na Europa de hoje levaria governante equivalente a dizer logo que a culpa não fora dele mas em 1911 havia honra — talvez até houvesse demais: três anos depois, os Imperadores da Alemanha, da Áustria e da Rússia, o Monarca constitucional do Reino Unido e o Presidente da República Francesa mandaram os europeus irem matar-se uns aos outros. E eles foram, a rir e a cantar). No devagar depressa dos tempos, chamou Marcello Mathias, com vénia a João Guimarães Rosa, aos diários que foi publicando.

 

Agosto vai escorregando pela ravina que leva a Setembro. Consta-me que de Carnide se vê um país cada vez mais triste: quem ande fora tem medo de cá voltar. Que da Quinta da Marinha se descobre que o mal chegar a alguns não faz bem a ninguém. Que entre os pobres de pedir as coisas vão melhor: já não os há como no tempo de Raúl Brandão e na versão moderna, com salários, subsídios e pensões abaixo da fasquia dos cortes e a vida levantada como um barco pela maré tecnológica — ecografias, mezinhas, baixas — mesmo se meninas e meninos forem para a escola em jejum esfomeado, nunca estiveram tão bem. Já quase todos têm posses para comer manteiga de vaca. Tirando o percalço de África e os descaros libertários e libertinos de Internet & Cia o Dr. Salazar, se voltasse agora, não estranharia muito o país.

 

Como no resto da Europa, falta grandeza. Dos nossos dois maiores políticos, Francisco Sá Carneiro morreu cedo demais e Mário Soares — a quem os portugueses devem mais do que a qualquer outra pessoa, incluindo o general Eanes, terem sobrevivido ao 25 de Abril em democracia — desbarata crédito em retórica disparatada de há dez anos para cá. Como no resto da Europa, quem manda tem a visão do saguão e o instinto da escada de serviço. Existirá alguém com cabeça e temperamento que nos arranquem deste rame-rame?

 

Há muitos anos, o dramaturgo Augusto Sobral inventou a “Adivinha” seguinte: “De meia tigela veio/E ficou meia tigela./Ficou a tigela em meio/Porque era meia tigela.” Podia ter sido inventada antes. Em 1963 pequeno proprietário, grande na sua aldeia alentejana, disse-me: “Isto, Senhor Doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há”. E em 1834 a Câmara do seu concelho, miguelista como quase todas as câmaras durante a guerra civil, escreveu à Rainha D. Maria II afirmando lealdade “que o jugo do usurpador há muito fizera calar em seus peitos fiéis”.

 

Fará mesmo falta animar a malta? Valerá a pena?

 

                                                                                                                                                                                                               

 

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