6.8.14

 

 

 

 

 Corridinho algarvio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cá em cima está o tiro-liro-liro…

 

 

Dantes, era tudo mais simples. Em Janeiro de 1975, vindo de Londres, dei por mim no Rocio ao fim de um dia de encontros, com hora e meia antes do encontro seguinte e fui comer um bife ao Nicola.

 

“Que cervejas tem?”

“Tenho todas.”

 

Havia cinco cervejas no mercado lisboeta e o resto ia à proporção — mesmo depois de entremeados os Capitães de Abril que em 1974, na peugada dos seus camaradas de 1926 e 1910, tinham virado de pernas para o ar a política na Pátria. Chão que deu uvas. Os golpes de estado agora são mudanças ordeiras e burocráticas, supervisadas por Bruxelas e Berlim, e o povo come e cala — já mandava Salazar… — porque se não calar, não come.

 

Em Janeiro de 1993, quando Clinton se tornou presidente dos Estados Unidos, havia 50 páginas na Internet. Hoje há milhões; amanhã haverá milhões de milhões. Google, redes sociais, twitter, tabletes, Skype, telefones: a bisbilhotice cacofónica não pára. Em raros sítios espertos e felizes o cliente tem sempre razão, os eleitores defendem-se bem dos eleitos, a justiça consegue ser independente, todos os sexos e todas as fés coexistem e o tempo dos humanos, curto no tempo do Universo, corre com mais bem-estar do que mal-estar.

 

Em sítios menos felizes “a dor humana busca amplos horizontes/ E tem marés de fel como um sinistro mar” (disse o Poeta). E, como o apetite por desgraças alheias é insaciável, em pouco mais de 100 anos passou-se de cantigas de cegos na rua que, nos casos céleres corriam o que corre um cavalo a galope (em 1815, a notícia da vitória de Wellington em Waterloo só chegou a Londres quatro dias depois da batalha) para partilha imediata de imagens e sons, com repórteres dando-nos a conhecer à hora de jantar o pior da maldade humana. Com canais e agências em concorrência desenfreada. Com homens, mulheres e crianças cheios de água na boca à espera dos desastres do dia. Tudo isto, mais o inventado em jogos e fantasias que embotam e ensandecem almas.

 

Entretanto, nós por cá todos bem. O 25 de Abril dera-nos sensação de centro do mundo que não experimentávamos desde o tempo de D. Manuel “O Venturoso”, quando havia em Lisboa cinco perfumadoras de luvas por cada mestre-escola. Essa falsa centralidade esvaiu-se, voltamos ao rame-rame triste, chegou a miséria da troika, mas vimo-nos livres desta e o governo começa a impressionar. De entrada — contra mundo — lembrava os liberais de D. Pedro IV, cercados no Porto por país miguelista. Agora poder e povo começam a entender-se, sendo abatidos pelo meio interesses de corporações, de seitas, de famílias. Será desta?

 

Para mudar a História, não chega. Era preciso fazer cantar nas escolas:

 

em cima está o tiro-liro-liro,                                                                  

em baixo está o tiro-liro-ló”

 

a ver se acabavam de uma vez séculos de vocação de mó de baixo em Monarquias, República, Estado Novo e Democracia.

 

 

 

Imagem aqui

 

 

 

link do postPor VF, às 09:07  comentar

pesquisar neste blog
 
mais sobre mim
Translator
sitemeter
contador sapo