9.7.14

 

 

 

 

 

João e o Papa

 

 

“Só quando estiverem cumpridas as condições” respondeu-me João, emigrado a seguir ao 25 de Abril, daí a um par de verões no Algarve, à pergunta voltaste à Pátria? “Salazar no poder, Marcelo Caetano na oposição, Freitas do Amaral na clandestinidade!”. (Para leitoras novas: nesses dias Freitas do Amaral era um político de direita).

 

As pessoas e os pianos pioram com a idade. Não tenho visto o João mas consta-me que a sua visão das desigualdades do mundo se agravou e é hoje igual à da gente do Tea Party nos Estados Unidos (ou da falecida Margaret Thatcher, nos dias em que a fúria contra os sindicatos a cegava): a culpa de haver pobres é dos pobres porque Deus assim quis. É disparate quase tão estúpido quanto a culpa de haver pobres ser dos ricos mas pouco lhe fica atrás. A crise veio açular opiniões extremas de ambos os lados — quando as coisas azedam procura-se inspiração na tradição revolucionária europeia e passa a falar-se do “outro lado da barricada”.

 

Na Europa onde, para quem a imagine do Sudão do Sul, só há ricos, o tempo das vacas gordas — quando se sabia que o dia de amanhã seria melhor do que o dia de hoje tal como o dia de hoje fora melhor do que o dia de ontem — não era tempo propício a invejas nem rancores. Mas campeiam agora no tempo das vacas magras em que entrámos circa 2010 e que entendidos garantem ser para a vida como eram dantes os fatos feitos em bons alfaiates e os automóveis Rolls Royce.

 

A direita pré-industrial e pré-cristã de João e dos Tea-Parties que odeiam os pobres assusta mas a exaltação franciscana da pobreza traz riscos próprios. Bernard Shaw escreveu que o primeiro pecado era ser pobre — se alguém lhe dizia que era inculto porque era pobre estava a desculpar um mal com outro pior, assim como se dissesse: sou coxo mas é da sífilis.

 

O Papa Francisco sente os pobres e quer ajudá-los mais do que fizeram os seus dois últimos predecessores, obcecados por comunismo e por sexo, condenando diferenças abissais entre pobres e ricos que se têm acentuado nos últimos decénios — aumento de desigualdades que, pensa o Papa, pensa gente de outras fés e pensam agnósticos e ateus, está a tornar o mundo mais injusto e mais perigoso. Francisco tem verberado a tirania da autonomia dos mercados e condenado proezas do capitalismo, com carradas de razão. Desde o colapso da União Soviética e o fim da ameaça comunista o capitalismo tomou o freio nos dentes em muitos momentos e lugares causando grande dano a milhões de pessoas e, salvo em raros casos nos Estados Unidos, ninguém foi preso e condenado por isso até agora. Continuou, porém, a ser, como tinha sido antes, o maior diminuidor de pobreza e criador de liberdade jamais inventado desde que o mundo é mundo.

 

Em 1323, um século depois da morte de S. Francisco de Assis, o Papa declarou herético quem pretendesse que Jesus vivera em pobreza absoluta e fez executar alguns franciscanos mais entusiastas. A alma humana é um abismo e estas coisas nunca são simples.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 07:21  comentar

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