18.6.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sem rei nem roque

 

 

Senhor antigo, dos verões de Sintra, indignava-se com a maneira como nos vestiam: “Filho meu, aos quinze anos, calça comprida, chapéu e gravata!”

 

Lembrei-me dele por causa da sucessão do meu amigo Zé Manel na Comissão de Bruxelas. Como está hoje quase esquecido, a União Europeia foi inventada para acabar de vez com guerras entre alemães e franceses que fizeram milhões de mortos. Tarefa difícil porque a guerra está-nos na massa do sangue (21 anos depois do “Nunca Mais!” jurado a seguir à Primeira Guerra Mundial, começou entusiasticamente a Segunda) mas facilitada em 1945 por duas razões. A Alemanha, rendida sem condições e dividida, deixaria por muitos anos de poder apoquentar fosse quem fosse. E terror salutar de Estaline fazia europeus ocidentais entenderem-se como nunca se tinham entendido antes (nem depois: se não houvesse União Europeia não a teríamos inventado agora). Plano Marshall e guarda-sol nuclear ajudavam a firmar a construção; Washington nessa altura sabia o que queria.

 

De caminho, criou-se o Parlamento Europeu que, desde 1979, passou a ser eleito por sufrágio universal. O que se passou a seguir não tem pés nem cabeça. Como, de 5 em 5 anos, a percentagem de votantes nele ia descendo sempre, os governos nacionais — eleitos, esses sim, com participações significativas de votantes — outorgavam-lhe cada vez mais poderes, na esperança de ganharem eleitores. Mas 9 eleições em 45 anos só os foram perdendo. E, por fim, o paradoxo deu nó-cego. O Parlamento — de calça comprida, chapéu e gravata como os crescidos — alegando, de má-fé, mais legitimidade democrática do que os governos, arroga-se o direito de designar o novo presidente da Comissão. Muitos governos, desta vez cheios de bom senso, não irão nisso. O ambiente é de cortar à faca. A decisão final será de Ângela Merkel (as coisas são o que são: o domínio da Europa que Berlim não ganhou em 11 anos de duas guerras mundiais conquistou-o desde a reunificação em 15 anos de paz). Se ela pender para os governos o Parlamento chumbará o candidato e abrirá crise constitucional que durará muito tempo. Se pender para o Parlamento não haverá crise constitucional mas o crédito das instituições europeias nos mundos dos negócios e da política levará rombo irreparável (sem falar da provável saída do Reino Unido, privando-nos da sua sensatez e deixando-nos à mercê de rigidezes alemãs e fantasias francesas).

 

Briga de comadres num canto do mundo apostado em perder o poder que ainda tenha? Talvez. Mas tudo seria menos grave se os Estados Unidos continuassem convencidos de que a sua hegemonia era boa, não só para americanos e seus amigos mas também para o mundo em geral. Duas presidências catastróficas seguidas talvez levem os yankees a recolherem a penates — embora separações assim sejam como divórcios quando há filhos pequenos. Certas obrigações perduram, diz-me amiga perspicaz que a vida moderna doutorou em fraldas antes de doutorar em filosofia. Deus a ouça.

 

 

 

   

  

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