4.6.14

 

 

 

 

 

 

 

 

E agora, José?

 

 

Verso de Carlos Drummond de Andrade, que às vezes me vem à cabeça depois de chatices. Desta vez, das eleições europeias. Conhecido meu de Oxford receia que historiadores futuros lhes chamem o toque de alvorada que não acordou a Europa (“wake up call” poder-se-ia traduzir por “campainha de despertador” mas seria pouco solene e muito individualista). A avaliar por recriminações, hesitações e ausência de decisões dos chefes europeus reunidos em Bruxelas a 27 de Maio, dois dias depois da divulgação dos resultados, o receio do homem de Oxford é capaz de ser fundado.

 

Ou talvez não seja. Com história 30 vezes mais curta do que a da Santa Sé, o “processo europeu” começa a assemelhar-se-lhe na capacidade de resistir quer a golpes dados de fora — por exemplo, a agressividade russa na sua vizinhança próxima e no fornecimento de energia — quer a golpes dados de dentro — por exemplo, ‘não’ em referendos na Holanda e na França em 2005; instauração precipitada da moeda única e, a partir de 2010, uso moralista e contraproducente de austeridade para acudir ao estrago daí resultante. Palpita-me que a minoria eurofóbica agora instalada em Estrasburgo, com brigas internas e propostas de medidas nocivas para os países, não será, por definição, cavalo de Troia, e dará mais incómodo do que prejuízo.

 

Mas exame de consciência ou autocrítica ou catarse de quem dirige a Europa política (28 governações de potências pequenas e médias, três das quais infelizmente convencidas de que ainda são grandes, mais a intendência semi-politizada de Bruxelas) é urgente. Desde que o colapso da União Soviética lhes tirou dos ossos o medo de Deus e, do mesmo passo, a Alemanha geopolítica ressuscitou, reunificada, têm dado muito má conta do recado. O voto populista de Maio, à direita e à esquerda, meteu-lhes um susto mas — tal como, na primavera de 1914, os governantes das grandes potências europeias julgavam que, saídos em paz de várias crises graves na última década, dessa vez também não haveria de ser nada — arriscam-se a não fazer o preciso, já e bem.

 

Nós, os da União, somos 7% da população mundial e criamos 25% da riqueza. Mercado de 500 milhões de habitantes, com comércio externo florescente, ditamos também ao resto do mundo as regras de concorrência. E procuramos fortalecer-nos mais ainda, metendo economia digital e energia no mercado interno. O futuro deveria ser nosso.

 

Mas o gigante económico é anão político, cheio de desentendimentos, sem uma voz única para o exterior. Quanto a defesa, se fossemos atacados e ninguém nos acudisse ou nos rendíamos logo ou nos matavam todos num Credo.

 

Não apareceu ainda quem desse o tom certo. Merkel é sinónimo de austeridade. Cameron quer tanto agradar aos seus que não se dá ao respeito. Hollande, nem os seus o querem. Renzi? E, antes de escolherem o novo feitor, deveriam explicar o que cada um de nós perderia sem o poder económico da União e o que ganharia se visionários da Europa ideal metessem a viola no saco.

 

 

link do postPor VF, às 10:06  comentar

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