23.4.14

 

 

Proles Wall, 1984 (detalhe)

Paula Rego 

 

 

 

 

 

Abriu a caça ao Barroso

 

 

O falecido A.B. Kotter — dos Bilhetes de Colares — distinguia-se dos colunistas portugueses porque se sentia bem em Portugal e eles não. Tal desgosto da Pátria há de ser o pano de fundo das maledicências com que, entra o ano, sai o ano, os “fazedores de opinião” da imprensa lisboeta — e notáveis em geral — se mimoseiam uns aos outros dentro e fora de portas. A 25 de Abril de 1974 o português fora destapado: o fim da Censura Prévia trouxera animação inédita; ultimamente redes sociais, blogosfera e outras invenções oferecem-lhe virtualidades novas. Egos e ids zumbem à solta, tal pragas de gafanhotos. Como se tudo isto não chegasse, hipocrisias calvinista e luterana do Norte da Europa descarregaram-nos em cima a mania da ‘transparência’ e o lado mais escuteiro dos Estados Unidos exportou a correcção política.

 

Há 25 anos, em Estrasburgo, na véspera de uma sessão da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, António Vaz Pereira e eu lembrámos a Diogo Freitas do Amaral que não podia no discurso do dia seguinte dizer mal do Presidente do país de que era ministro dos estrangeiros (como vinha no texto que mandara de Lisboa para traduzir). Eanes e Aliança Democrática não se davam bem mas seria infeliz badalar a desavença no estrangeiro.  Diogo, homem inteligente e bem formado, mudou o discurso.

 

Num quarto de século o ambiente geral deteriorou-se muito o que me leva à abertura da caça ao meu amigo Zé Manel. Tem feito correr rios de tinta mas serei curto e simples. Há duas razões principais que enraivam os portugueses contra ele. Ter trocado o seu lugar de primeiro ministro de Portugal pelo lugar de presidente da Comissão Europeia. Ter aplicado a Portugal programas de austeridade que, segundo muita gente, prejudicarão o país durante gerações. Quanto à primeira: presidentes anteriores da Comissão Europeia honraram os seus países (até Roy Jenkins na eurocéptica Inglaterra) e o ex-primeiro ministro belga, escolhido para primeiro presidente permanente do Conselho Europeu, diz que, entre os seus, é como se tivesse sido beatificado. Em Portugal, inveja e o sentimento de que qualquer bem alheio me faz mal a mim toldam o entendimento. É como se ter um português presidente da Comissão Europeia fosse uma vergonha para Portugal.

 

Quanto à austeridade (a meu ver, haveria melhores remédios) foi primeiro alvitrada no G20 e depois aprovada sem uma voz contra no Conselho Europeu. A Comissão contribuiu a pô-la em prática no que lhe competia, juntamente com o Banco Central Europeu e o FMI. Durante estes anos difíceis, a Comissão Barroso ajudou Grécia, Irlanda e Portugal a desenvencilharem-se o melhor possível. No nosso caso, Sócrates e Passos Coelho o atestarão.

 

Em 1943, ministro de Churchill louvava-lhe os méritos de De Gaulle até Churchill lhe dizer que não valia a pena insistir: “You like the man and I don’t”. Há sempre opiniões contrárias de cada homem político; Durão Barroso tem amigos e inimigos. Mas factos são factos.

  

 

link do postPor VF, às 09:37  comentar

De 64358ug a 23 de Abril de 2014 às 18:15
O sr. embaixador tem toda a razão: há quem goste de Barroso e há quem o deteste. Eu sinto-me cada vez menos bem em Portugal, meu país, tal como o sr. dos Bilhetes de Colares. Mas não gosto de Durão Barroso e não é por ele ter trocado Portugal pela Comissão e por nos ter imposto programas de austeridade que a sra. Merkel se ia segredando ao ouvido. Não gosto dele porque o acho um videirinho sempre à procura do tachinho mais conveniente para um ego que daria uma mongolfière que até D. João V ficaria surpreso. Olhe, não gosto porque não gosto.

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