16.4.14

 

 

 

 

 

 

 

Cem anos depois

 

 

A Primeira Guerra Mundial começou vai fazer cem anos no princípio de Agosto. Livros e televisões evocam o cheiro pungente de milhões de mortos — desde 7.000 para Portugal até 1 milhão e 600.000 para a Rússia — ruínas de cidades e descampados. Os horrores que foram filmados, aqueles sobre os quais se lê e os que se adivinham são muitíssimos. E o horror maior é que menos de 21 anos após o fim da Primeira Guerra Mundial a Segunda havia começado.

 

Durou de 1939  a 1945, matou mais gente ainda (portugueses, só em Timor) e acabou, tal como a Primeira, pela derrota da Alemanha e seus aliados. A Alemanha ficou arrasada e dividida; em vez de a fazerem pagar pela guerra, perdoaram-lhe dívida e houve o Plano Marshall, foi-se recompondo sem revanchismos que levassem a outro Hitler e à tentação de nova guerra. Reunificada, democrática, cívica e próspera (até 2010, a única das grandes potências europeias invariavelmente decente com os pequenos) os incómodos que, nos últimos anos, a sua fobia patológica da inflação tem causado a vizinhos pequenos e pobres são graves mas não se comparam com a anexação nazi dos sudetas.

 

Os sudetas têm sido lembrados agora não por causa da Alemanha mas por causa da Rússia. O ex-KGB Vladimir Putin anda a armar aos czares e resolveu anexar a Crimeia (dito e feito), perturbar a parte oriental da Ucrânia e não se sabe que mais ainda. Outras terras europeias com minorias russas — Estónia, Letónia, Lituânia (três estados-membros da União Europeia, aliados na OTAN) — sentem-se ameaçadas pela retórica expansionista e revanchista do Kremlin. Juntamente com Polónia e Suécia — e E. U. A — querem que a Rússia seja avisada em termos inequívocos. Além das sanções aprovadas depois da anexação da Crimeia, deveriam explicitar-se sanções mais graves a serem aplicadas se a Rússia tornar a pôr pé em ramo verde. Apesar de Putin insistir em exercícios militares perto de fronteiras, fomento de rebelião na Ucrânia e retórica perigosamente ambígua, membros da União do sul, entre eles Portugal e às vezes Alemanha, estão relutantes a elevar o tom e recomendam “prudência e diplomacia”.

 

Atenção. O Kremlin sabe que nenhum poder ocidental mandará rapazes e raparigas matarem e morrerem pela Crimeia (e presume que pela Ucrânia também não). No mundo pre -1945 que Putin parece imaginar à sua volta, europeus e americanos devem figurar como poltrões anafados e sem chefe, incapazes de resistirem ao quero, posso e mando do Senhor de todas as Rússias.

 

Mesmo sem comemorar a Primeira Guerra Mundial com o começo da Terceira poderíamos sair vitoriosos desta embrulhada. O poder económico conjunto de Europa e Estados Unidos é tão superior ao da Rússia que sanções inteligentes levariam o Kremlin à glória. Mas seria preciso que alemães, britânicos, franceses, todos, fizéssemos pequenos sacrifícios a curto prazo.

 

Sem a coragem de conter Estaline não teria havido OTAN nem União Europeia. Esperemos que Putin chegue para nos endireitar outra vez a espinha.

 

 

 

link do postPor VF, às 08:15  comentar

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