26.3.14

 

 

 

 

 

 

 

Uma invenção recente

 

Há guerras desde que há homens; a paz é uma invenção recente — escreveu jurista inglês do século XIX. Até ao aborrecimento da Crimeia, o pessoal governante dos países da União Europeia e os Democratas de Obama nos Estados Unidos pareciam convencidos de que a invenção chegara para ficar. Mesmo Ângela Merkel, filha de pastor luterano e com juventude passada de Stasi à coca, teria dito a Obama que Putin vivia “noutro mundo” — subentendendo que o “mundo real” era aquele em que o presidente dos Estados Unidos e ela própria viviam.

 

Não perceberam nada — tal como o alto funcionário da Comissão de Bruxelas que me disse há anos, discutindo o lugar da Europa no mundo, que a ideia da União Europeia entrar em guerra era inconcebível para ele. Muitos falavam então no “dividendo da paz” — desde o fim da Guerra Fria não era preciso gastar dinheiro em defesa — esquecendo a exortação romana “se queres paz prepara a guerra” (ou Duff Cooper, ministro de Churchill, quando escreveu que desarmar para evitar a guerra seria como fechar as esquadras de polícia para acabar com o crime). Muita gente caricaturou o académico americano que depois da derrota do comunismo anunciou o fim da história — íamos todos, no mundo inteiro, viver para sempre em democracia+economia de mercado — mas os governos europeus portaram-se como se tivessem levado a caricatura a sério.

 

Arruaceiros de países pequenos e mais ou menos distantes foram metidos na ordem sem grandes custos (com ajuda de Washington). Países maiores que, por exemplo, nos vendam petróleo, podem pintar a manta dentro de casa que a gente não os apoquenta. Regras simples. A hipótese de mau comportamento egrégio, contra os nossos interesses e a nossa bazófia moral, da parte de um dos grandes, terá levado estados-maiores a planos secretos mas não se esperava que tornasse a acontecer mesmo, pelo menos no nosso tempo. Toda a gente acha que governantes como os da Segunda Guerra Mundial — De Gaulle, Churchill, Roosevelt — já não há: até Putin, por incómodo que seja, não chega aos calcanhares de Estaline.

 

Além disso, desde Jack Kennedy em 1960, passou a estar na moda escolher chefes políticos muito novos. A União Europeia está cheia deles e tal acrescenta à impopularidade da classe política numa altura em que esta é acusada de não ter sido capaz de prever a crise económica, de lhe ter acudido de maneira nociva e (se Putin não tomar juízo) de ter deixado a Europa indefesa.

 

Ora o juízo de Putin não é o nosso. Deu-se por missão fazer com que a Rússia torne a meter medo ao mundo, os russos estão com ele — pelo menos até ao preço do petróleo baixar — e a impopularidade dos políticos ocidentais é notória.

 

Para manter paz e honra será preciso vencê-lo pela economia. Começando por fazer do tratado comercial que europeus e americanos estão a negociar, e aumentaria os PIBs respectivos, um objectivo estratégico. A URSS perdeu a Guerra Fria por não ser capaz de competir economicamente com o Ocidente.

 

 

 

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link do postPor VF, às 10:17  comentar

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