19.3.14

 

 

Cerco do Porto: desembarque dos Bravos do Mindelo aqui

 

 

 

 

 

As coisas são o que são

 

 

Há muitos anos, a almoçar com o Luís Sttau Monteiro numa tasca em Algés, mandámos vir bacalhau à Braz e favas com chouriço mouro. O bacalhau estava óptimo; as favas bastava vê-las para duvidar. O Luís provou-as e disse: “Ná, não é isto. Mas a verdade é que nós também não somos”.

 

Desde que vivemos em democracia — não era o caso quando o Luís e eu íamos à tasca de Algés — sempre que me indigno com qualquer coisa feita ou desfeita pelo governo português lembro-me dessa pérola de sabedoria.

 

A democracia veio com a Europa que nos mimou não fôssemos, perdido o Império, cair no comunismo. Quando chegou o euro ficámos com o rei na barriga. Dinheiro de fora, barato, gasto durante década em que a economia não cresceu, deu o “milagre português”: toda a gente se achava melhor do que as favas de Algés. Depois veio a troika - alternativa politicamente correcta a ocupação estrangeira, ditada por países do Norte (que inocentaram os seus bancos de tropelias aqui feitas) – para nos ajudar a sair do buraco. De maneiras lembrando a inabalável fé dos comunistas que sabiam como nos salvar, entre Março e Novembro de 1975. Queres Paraíso na Terra? Só depois de Inferno intermédio.

 

Para o resto do mundo a Europa não é modelo, é incómodo. A globalização assusta-nos por já não a comandarmos, ao contrário do que aconteceu em globalizações anteriores — desde Vasco da Gama até às décadas de progresso que precederam a Grande Guerra foram 400 anos a mandar vir. Agora, depois de meio século de paz, os europeus estão azedos uns com os outros: países ricos do Norte contra países remediados do Sul; nenhum disposto a mandar soldados reforçarem soldados franceses na República Centro-Africana (depois de alguns o terem prometido); os que percebem que Putin é um perigo universal contra os que acham que bálticos, polacos e suecos deviam era ter juízo e não provocarem o Czar de todas as Rússias. Se já sabia que atrasava a recuperação económica do mundo por inépcia própria, a União Europeia sabe agora que andou a pregar o direito e o bem acima das suas posses morais.

 

Cada um tem as suas fezes. Em Portugal a imposição de costumes luterano/calvinistas de gente habituada a tratar directamente com Deus a gente calhada na mediação de Santos e de hipóstases de Nossa Senhora é obra. Não há precedente na nossa história, salvo talvez nas leis de Mouzinho da Silveira que, cercado no Porto, fez do Portugal medieval um estado moderno. A legislação só foi aplicada depois do fim da guerra civil em 1834 - mas nem tudo mudou. Por 1900 a dívida externa era tal que, sem a Grande Guerra, Alemanha e Inglaterra teriam partilhado as nossas colónias.

 

Os portugueses hão de ser sempre os mesmos porque não há outros dizia o primeiro Duque de Palmela. Colega de Mouzinho, não só se bateu de armas na mão como convenceu banqueiros de fora a emprestarem dinheiro para os liberais ganharem a guerra.

 

Deplorável situação permanente, diria Jorge de Sena. Ou vigor do Sebastianismo?

 

 

link do postPor VF, às 07:01  comentar

De Comentário sem relação com o post . a 22 de Março de 2014 às 17:58
"...Por 1900 a dívida externa era tal que, sem a Grande Guerra, Alemanha e Inglaterra teriam partilhado as nossas colónias..." ao ler isto lembrei-me de ter lido algures que, precisamente no ano de 1900, a taxa de analfabetismo na Suécia era de UM por cento e de depois ter lido de Filomena Mónica que, nos anos 30 do sec XX a mesma taxa era em Portugal de OITENTA por cento. Tempos depois li, de outro autor que não recordo, que não seria tanto mas sim SETENTA e CINCO por cento. E isto lembrou-me da terratenente da minha terra, após o 25 do 4 de 74, exclamando incrédula e indignada, no café da terra, sobre a pretensão dos trabalhadores das suas terras : " Férias! Querem férias!" E isto ainda lembrou-me aquela amiga do MRPP comentando (admirada ) sobre alguém : " é electricista MAS é um gajo porreiro!"
E isto tudo lembrou-me um "post" de Sophia Bragança Bucholz no 31 da Armada clamando contra o CHEQUE DENTISTA para os pobres com os seus (dela) impostos. Enfim, nada a ver com o teor do seu artigo, peço desculpa!

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