26.2.14

 

 

 

 

 

 

 

 

A peste homofóbica

 

 

(Mas, antes dela, noto que a Islândia, vítima há anos de colapso bancário ruinoso, anunciou desistir de candidatura à União Europeia. Saiu da crise ajudada pelo FMI, com flexibilidade que impediu o país de endividar gerações vindouras. No Sul da Europa tivemos menos sorte. A Alemanha, que queria salvar os seus bancos, impôs-nos austeridade com as consequências conhecidas. Moral da história: teria sido perfeitamente possível sair da crise sem pôr o futuro no prego. Faltou visão a Berlim e coragem a todos).

 

Voltando ao título. Como erradicar a peste homofóbica que grassa hoje na África e na Rússia contra mais de um século de progresso social e de decência promovidos na Europa Ocidental e nos Estados Unidos? A maior e mais maltratada das minorias, em todo o mundo, são as mulheres (demograficamente em maioria como os pretos na África do Sul do apartheid) que gozam hoje, na teoria e na prática europeias e norte-americanas, quase dos mesmos direitos e deveres que os homens. Homossexuais, minoria mais pequena, deixaram de ser discriminados, como se sabe, nas leis desses estados. Em cada vez maior número deles, podem casar e adoptar. Nessas sociedades vibram ainda focos de oposição religiosa e de deferência pelos costumes mas liberdade e tolerância têm levado a melhor no debate que continua.

 

Em contraste vivo, o Parlamento da Rússia de Putin, a pretexto de proteger as crianças de riscos de pedofilia, passou legislação que na prática criminaliza a homossexualidade e deixa homossexuais à mercê de arbitrariedades da administração e do público.

 

O que se passa em África é mais alarmante ainda. De 54 estados do continente, 38 criminalizam a homossexualidade (3 —  Sudão, Mauritânia, Somália — e o norte da Nigéria, que adoptam a charia, preveem pena de morte). Nigéria e Uganda endureceram há pouco as suas leis. Mesmo na África do Sul, apesar de ocidentalizada pelo humanismo de Mandela, existe ambiente homofóbico (lésbicas submetidas a violações colectivas, “para as curar”). Uma declaração do Presidente da Gâmbia ilustra o quadro africano: “A homossexualidade nunca será tolerada e poderá incorrer a pena máxima pois quer levar a humanidade a extinção inglória. Combateremos essa bicharia, os chamados homossexuais ou gays como combatemos os mosquitos da malária ou com mais vigor ainda. No que me diz respeito, LGBT só pode significar Lepra, Gonorreia, Bactéria, Tuberculose; coisas nocivas. Esclareço também que a Gâmbia não poupará nenhum homossexual e portanto a imunidade diplomática não será respeitada no caso de diplomatas homossexuais”.

 

David Cameron disse que queria “exportar o casamento homossexual” para o mundo inteiro. Foi logo acusado de neocolonialismo. Tiranetes cruéis encontraram mais desculpas para o mal que faziam. Não sou fanático do progresso; é prudente respeitar tradições mas, neste caso, norte-americanos e europeus têm razão e quem se lhes opõe faz subir marés de fel no sinistro mar da dor humana.

 

 

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link do postPor VF, às 08:22  comentar

De Pedro Oliveira a 26 de Fevereiro de 2014 às 15:25
Mesmo nos EUA as coisas há estados onde a tolerância é pouca: http://dezanove.pt/arizona-aprova-lei-que-permite-621079

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