19.2.14

 

 

 

Portugueses prisioneiros dos alemães na Primeira Guerra Mundial (1916) Wikipédia

 

 

 

 

 

 

Duas lições da História

 

 

Lisboa tinham-na os mouros.

                                                                        

Quem a havia de tomar?

                                                                                

El-Rei D. Afonso Henriques

                                                                          

Com os Cruzados a ajudar.

 

 

 

O espírito dos Lusíadas fora assim afunilado no livro de leitura da terceira classe dos meninos e meninas portugueses, no começo dos anos 50 do século passado. Graças sobretudo a cartas de dois dos cruzados conhecem-se alguns pormenores do feito, praticado em 1147. As cartas não referem porém o episódio que ficou gravado para sempre na história militar lusitana, lembrado por pais a filhos, com nome de Largo na Baixa de Lisboa e tudo. Martim Moniz, fidalgo próximo de El-Rei, uma vez aberta fresta entre os batentes da porta principal da fortaleza, atravessou-se nela, dando a vida pela vitória. O seu corpo impediu que os mouros conseguissem voltar a fechar a porta, os cristãos entraram por ela e conquistaram a cidade.

 

 

A tradição não conta que na véspera à noite se teria travado viva discussão entre conselheiros de D. Afonso Henriques. Uns preconizariam o ataque directo à porta principal, aproveitando a passagem dos cruzados e antecipando a chegada de quaisquer reforços mouros vindos do sul. Outros porém, sustentariam que tal esforço seria vão e custoso em vidas, que o cerco acabaria por esfomear os sitiados e os levaria à rendição, e até que, entretanto, ficariam tão enfraquecidos que dentro de duas semanas se poderia fazer ataque surpresa à noite, escalando a parte mais baixa da muralha, nas traseiras do castelo. É plausível — se bem que as fontes utilizadas não sejam geralmente consideradas fidedignas por medievalistas — e, embora não diga de que lado se colocara Martim Moniz, sabe-se o que aconteceu depois e há uma lição a tirar.

 

 

A política externa conduzida quer à maneira europeia de hoje (“Não há rapazes maus”) quer à maneira universal de Clausewitz (de armas na mão, se preciso for) exige determinação, sentido de oportunidade e coragem. Se estes tivessem faltado a D. Afonso Henriques há 1867 anos o destino da cidade de Ulisses teria sido outro e não haveria heroísmo de Martim Moniz para nos inspirar.

 

 

Segunda lição. Em 1916, Portugal entrou na Grande Guerra contra os alemães. Tropas portuguesas combateram em África e no norte de França, tendo sofrido muitas baixas na batalha de La Lys onde as nossas forças se bateram ao lado dos ingleses. Conheci há muitos anos tenente-coronel  reformado, visita de casa de amigos açorianos, que nessa batalha comandara uma bateria de morteiros. Era uma santa pessoa. Tão bom e tão piedoso que, disse-me ele, de cada vez que atirava um morteiro contra os alemães, rezava pedindo a Deus para não matar ninguém.

 

 

Lição: guerras, que dão largas ao pior que há no homem, despertam também às vezes o melhor nele. Politicamente incorrecto? Talvez, mas é assim.

 

link do postPor VF, às 09:08  comentar

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