5.2.14

 

 

Aeroporto de Berlim, Foto © Michele Tantussi/Bloomberg

 

 

 

 

 

 

 

Síntese dialéctica

 

 

“Luanda é a síntese dialéctica de Fátima e da Costa da Caparica” troçava o Gérard quando lá ia vender fitas, na transição entre o fim do Império e o começo da cleptocracia. “Síntese dialéctica” estava muito em voga na altura. Intelectuais de esquerda usavam-na para tentar emprestar rigor científico a palpites. (Nas casernas da Revolução dizia-se “consenso”).

 

Há dias, amigo antigo e sabedor, reconheceu que continuávamos os dois com um diferendo de opinião sobre remédios para a crise europeia —  da qual ele acha que estamos a começar a sair. Na sua tese, a austeridade havia sido a única alternativa viável para Portugal (e para os outros países europeus assistidos). Fora aplicada, com troika e tudo, porque sem ela já ninguém nos emprestaria um tostão e rapar o fundo dos cofres do estado não dava para pagar vencimentos no mês seguinte. De acordo.

 

A minha antítese diz respeito à maneira como a crise europeia foi combatida logo que começou na Grécia, quando o então primeiro-ministro revelou ao mundo o estado catastrófico das finanças do país – segredo de Polichinelo em Bruxelas mas ferida aberta para as narinas dos mercados que mordem sempre que lhes cheire a sangue fresco. A perspicácia colectiva do G20 inclinou-se para a austeridade e, na Europa, a Alemanha assegurou que sem ela não estaria disposta a ajudar ninguém. Nisso, governo, parlamento e povo alemães foram unha com carne, juntando a exigências técnicas Schadenfreude perante o castigo de pecadores.

 

Ora, penso eu, se Helmut Kohl fosse nessa altura Chanceler da Alemanha — mesmo que já da Alemanha reunificada — teria chefiado os seus em vez de lhes ter obedecido e haveria declarado: “A dívida grega é uma dívida europeia. A gente toma conta dela”. Os mercados iriam farejar sangue alhures; o preço do dinheiro não teria subido como subiu para Atenas, Dublin, Lisboa, Roma, Madrid; na Grécia e nos países depois assistidos, as dívidas externas seriam hoje mais pequenas do que tinham sido em 2010 em vez de serem escandalosamente maiores; solidariedade alemã à cabeça teria levado a reformas internas; haveria muito menos desemprego; a criatividade das classes médias não teria sofrido um rombo; não haveria êxodo da juventude.

 

Kohl não teria declarado a dívida europeia por ter bom coração mas por ter visão da História, passada e futura. Vivera a guerra e sabia que solidariedade europeia era condição sine qua non de uma Alemanha viável e duradoura. Que sem União Europeia a guerra voltaria.

 

Nenhum dos governos europeus chamou à pedra a curteza de vistas de Merkel. Daí a “síntese dialéctica”: para sair o menos devagar possível do buraco é preciso continuar a cumprir o que governo e Presidente determinarem. A oposição deve fustigar o governo em tudo o resto mas juntar-se-lhe no que diga respeito a políticas, constitucionais, acordadas com credores e fiadores para pôr fim à crise - até para as melhorar. É o único comportamento responsável se quiser um dia voltar a ser governo.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 10:09  comentar

De 64358ug a 5 de Fevereiro de 2014 às 14:50
Estou completamente de acordo. A visão mitteleuropa da RDA que a sra. Merkel carrega com ela resultou numa Europa desigual, desunida e vamos ver o que sai das eleições europeias. O artigo é excelente mas vai desagradar a muita direita bem pensante. Os meus parabéns pela visão lúcida. Saudades de Kho.l

De Alvaro Mendonça Moura a 11 de Fevereiro de 2014 às 04:25
MUITO bom artigo . Dois pontos apenas: primeiro,mesmo Kohl teria OBRIGADO às reformas, da dimensão de que falamos nenhum país as faria apenas pela solidariedade alemã. Segundo, ainda não estamos no fim da crise, talvez estejamos a sair, depende.Da Europa, de nós, do mundo, por esta ordem.

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