18.12.13

 

 

 

NYSE 

 

 

 

 

 

Sem Marx nem Reagan

 

 

Nos restaurantes imaginativos que há agora as palavras “ Marx” e “Reagan” deveriam ser escritas a giz branco sobre a ardósia preta do menu, na secção “Sabores do Dia”.

 

Estão os dois na moda — se se pode chamar moda à péssima fama que ganharam — Marx já lá vão duas décadas; Reagan apenas há um lustre. 24 anos depois do derrube do Muro de Berlim anunciar o fim da grande ilusão da esquerda, inchada como um balão pelo génio do panfletário de Trier, e 9 anos depois da morte de Ronald Reagan, paladino bem disposto do triunfo do privado sobre o público, dos empresários sobre os burocratas – “o governo não é parte da solução, é parte do problema” —  25 desde que deixara de ser Presidente dos Estados Unidos, 19 depois de anunciar que sofria de Alzheimer e — desta vez para mal dos seus pecados — 5 anos passados sobre a falência de Lehman Brothers, damos connosco desamparados no meio dos órfãos dos dois, convencidos alguns deles de que o pai ainda está vivo.

 

Estado a mais, decorrendo das prescrições do judeu alemão londrino e de Lenine, seu Paulo de Tarso, pôs metade do mundo de pantanas (os chineses sobreviveram ao pior porque negócio e jogo lhes estão na massa do sangue). Na nossa parte do mundo, Estado a menos, como pregava o cowboy da Califórnia, acabou por deixar a rapaziada bancária e para-bancária tomar o freio nos dentes - ainda por cima com chorudos bónus anuais a desencorajarem quem tentasse prever para lá do curto prazo.

 

In medio stat virtus - mas como chegar lá? A “Regra de Volker”, aprovada nos Estados Unidos, conjunto de medidas destinadas a impedir os bancos de arriscarem demais, como é costume de Obama começou por declaração eloquente aos americanos e acabou em mil páginas cheias de ambiguidades que vão dar rios de dinheiro a advogados sem morigerarem ganâncias em Wall Street. Dinheiro é poder. E, disse em 1640 D. Luísa de Gusmão, mais vale ser rainha uma hora do que duquesa toda a vida. Regulamentar a banca sem matar a galinha de ovos de ouro não é para idealistas nem para demagogos. Mas terá de haver correcções. A finança nunca tomou tão grande proporção da actividade económica; os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres; as classes médias, motor da Europa desde o fim da Idade Média, atacadas por todos os lados estão a deixar de poder cumprir o seu papel. A Alemanha, esquecida do perdão das dívidas de guerra de 1953, mostra falta de solidariedade chocante. Se ao menos um presidente francês ameaçasse acabar com o Eixo Franco Alemão, retirando a Berlim o atestado de bom comportamento que readmitiu a Alemanha no concerto das nações.

 

O mundo à nossa roda não perdoa. Num discurso a partidários do Presidente Yanukovich arrebanhados até Kiev, o primeiro ministro da Ucrânia disse que tomar o caminho da Europa era apoiar o casamento gay e mais imoralidades ofensivas da alma ucraniana. Putin acha bem. Foi em Kiev que S. Vladimiro baptizou os russos e o Kremlin não quer largar a presa.

 

 

 

Post Scriptum  Ainda Portugal e o apartheid. Numa manhã de Verão de 1990, estava eu numa sala de espera da sede do ANC em Joanesburgo antes de ser recebido por Nelson Mandela quando a porta se abriu, um preto alto, atlético e sorridente entrou e me perguntou: “É o embaixador de Portugal?”. “Sou”. “Desculpe irromper assim mas soube que estava cá e tinha de vir dizer-lhe muito obrigado! Não calcula quanto apreciámos o que nos mandou. Tornou os nossos serões agradáveis e entretidos. Não podia deixá-lo sair de aqui hoje sem lhe apertar a mão e lhe agradecer pessoalmente”.

 

Eu tinha-o reconhecido: era Tokio Sexwale, chefe de relações públicas do ANC, que passara 13 anos preso em Robben Island. Álvaro Mendonça e Moura, encarregado de negócios de Portugal durante muitos meses, entre a partida do meu predecessor e a minha chegada à África do Sul, havia-lhe mandado, e aos seus colegas de cativeiro, cassetes de futebol português, nomeadamente a da final da Taça dos Campeões entre o Porto e o Bayern de Munique que o FCP ganhara em 1987. Era isso que ele agora viera agradecer-me.

 

Não arriscaria generalidades sobre as relações entre Portugal e a Africa do Sul, ou sobre as relações entre os emigrantes portugueses e os nativos de variadas cores do país que os acolhe. Mas uma coisa posso assegurar: nos últimos tempos do apartheid as relações entre as autoridades portuguesas e a direcção do ANC não poderiam ter sido mais cordiais do que foram. 

 

 

 

Imagem: aqui 

 

 

 

link do postPor VF, às 20:43  comentar

De duplamente colega a 19 de Dezembro de 2013 às 05:00
Dear Ambassador,
graças a um post da Vera F.P. no facebook descubro-o bloger! Vou passar a passar por aqui, claro.

O seu Duplamente Colega



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