6.5.11

 

É um dos escritores que cito no meu livro, a propósito da criação do Círculo Eça de Queiroz. As suas memórias são incontornáveis para quem se interesse pela história dos nossos costumes no século XX. Esta sua bela carta a Marcello Caetano, que faz parte do IV volume de Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo, editado postumamente, tem obviamente um significado especial para mim. 

 

 

 

Salvador, Bahia, 15 de Outubro 1976

 

 

Meu querido Marcello

 

Tem sido minha sina escrever-lhe, principalmente nos últimos anos, os da sua Presidência, em parte talvez por propensão minha a expor as ideias mais facilmente por escrito do que de viva voz, em parte também pela dificuldade do diálogo. O que até há dois anos nunca supus foi que teria de lhe escrever para o exílio, como de Lisboa algumas vezes já fiz e como hoje volto a fazer desta doce terra da Bahia, que nos recorda dolorosamente a nossa grandeza passada e perdida. Não por qualquer sentimento nostálgico de já não sermos hoje, como há dois séculos, senhores da Bahia. Mas pela tristeza de meditarmos na civilização tão idêntica que estávamos a erguer nas terras de África e que criminosamente destruímos.

 

Tem hoje esta carta dois propósitos. O primeiro dizer-lhe quanto me comoveu voltar a vê-lo depois deste intervalo longo e tão fundo. Longo de trinta meses. Tão fundo que nele tombou sem remédio tudo que nas nossas vidas ficou para trás.

 

O segundo propósito é o de o esclarecer sobre a posição que Você se atribuiu e que ditou a sua atitude de não comparência à minha posse na Academia Brasileira de Letras e à minha conferência no Gabinete Português de Leitura. Manteve-se Você ausente duma e doutra cerimónia por considerar que, aceitando eu as atenções ou homenagens do Embaixador e dos cônsules de Portugal, pactuava com o regime que domina Portugal e era (tenho ideia que foram até aí as suas palavras) de qualquer maneira representante dele. As minhas palavras de repúdio de tal interpretação devem ser completadas, para que o equivoco não se mantenha a ensombrar uma amizade que qualquer diferença de critérios não deve prejudicar.

 

Vim ao Brasil a título inteiramente particular, sem qualquer auxílio ou intervenção do Estado Português, como escritor independente que sempre fui e continuo a ser. Essa independência não me trouxe quaisquer prémios no regime anterior e manteve-me inteiramente isolado enquanto passava a procissão dos aderentes no triste Carnaval, no trágico cortejo fúnebre da vida portuguesa dos dois últimos anos.

 

Mas se no Brasil o Embaixador e os cônsules de Portugal quiserem homenagear em mim o escritor independente que sou, entendi que seria grosseiro da minha parte repelir esses gestos de estima, vindos alguns da parte de amigos meus do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Fui vinte e cinco anos funcionário desse Ministério e nunca me considerei representante do regime — o qual, aliás, servi com independência que não excluiu a maior lealdade — mas representante do meu país, como na actual conjuntura considerei aqueles funcionários não representantes exclusivos dum determinado regime, o actual, cujas culpas não lhes cabem, mas representantes de Portugal.

 

Olhando para trás, para estes dois anos e meio decorridos, para o que sofri - e nesse rol contam-se alguns insultos —, para o que perdi, a fortuna honradamente amealhada ao longo de meio século de trabalho, a posição na TZR, que com tanta dedicação servi ao longo de trinta anos — e disso tudo nada me ficou, nem uma pensão de reforma —, olhando para trás sinto que tenho alguma autoridade para calar no Estrangeiro as minhas queixas, para não rasgar mais as feridas que despedaçaram a nossa pátria e dentro de nós tudo que nela amávamos, e manter com isenção e serenidade, neste Brasil que nos observa, uma certa esperança, débil que seja, em que Portugal, ferido quasi de morte, ainda encontrará condições de sobrevivência. E servindo como escritor o espírito português, eu sirvo Portugal.

           

De resto, considerando, sem qualquer equívoco, traidores à Pátria os militares que tinham por missão defendê-la e de 25 de Abril de 74 a final do ano passado procederam com desígnio implacável à sua destruição, não posso envolver nesse apodo os civis que no exercício hoje duma actividade política legítima procuram, melhor uns do que outros, servir o país no plano da governação. Portugal tem de ter quem o sirva, mesmo a braços com esta situação angustiosa que Você próprio não soube ou não pôde evitar-lhe.

 

Traidor, não posso considerar de forma alguma o seu cunhado, o Prof. Henrique de Barros, membro destacado do actual governo. E quando, antes de partir para os Estados Unidos, o meu filho João Filipe exerceu durante uns meses, já este ano, as funções de adjunto do secretário de Estado da Emigração, Sérvulo Correia, ele serviu o nosso país e não o bando de traidores que o apunhalaram.

Portugal precisa de todos os seus bons filhos. Infelizmente ainda se movimentam muitas ovelhas ranhosas no rebanho. Mas isso levar-nos-ia muito longe e transcende o objectivo desta carta, esclarecimento devido à sua amizade, que tanto prezo.

 

Lembre-nos a sua Irmã, com muita estima, e com as lembranças da Graça e minhas, abraça-o o velho, grato e dedicado amigo

 

 

Joaquim

 

 

 

Joaquim Paço d'Arcos

in  Correspondência e textos dispersos 1942-1979  aqui  

 

Selecção, organização e notas de João Filipe Paço d’Arcos e Maria do Carmo Paço d’Arcos

© Publicações Dom Quixote, 2008

© 2008, Joaquim Paço d’Arcos

 

 

Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo aqui

 

 

 

 


  

 

Jornal "Voz de Portugal"

 

 

 

JOAQUIM BELFORD CORRÊA DA SILVA (PAÇO D'ARCOS) nasceu em Lisboa, a 14 de Junho de 1908. Na sua infância e juventude acompanhou seu pai, oficial da Marinha, em diversos governos no Ultramar: em 1912, em Angola; em 1919, com 11 anos, atravessando os EUA para Macau, onde reside cerca de três anos, passando temporadas em Hong-Kong e visitando o Sul da China; anos mais tarde, secretário do Governo da Companhia de Moçambique, na Beira (1925-1927). Com 20 anos foi para São Paulo, no Brasil, como antiquário, exercendo também o jornalismo. Em França, em 1931, escreve o seu primeiro romance, Herói Derradeiro. Em Lisboa, foi empregado bancário, trabalhou na Companhia Nacional de Navegação e, em 1936, vai dirigir os serviços de imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Mantém-se nesse posto até 1960 e, ao longo desse quarto de século, entrecortado por inúmeras viagens aos mais variados pontos do globo, e por dramáticos acontecimentos mundiais, foi erguendo a sua abundante e vigorosa obra literária, com 50 títulos publicados, como romancista - donde se destacam os seis volumes de Crónica da Vida Lisboeta -, novelista, contista, dramaturgo, ensaísta, poeta. Os seus livros de memórias ficaram interrompidos no final do terceiro volume por ter falecido a 10 de Junho de 1979, em Lisboa. Este livro corresponde, afinal, a um IV volume de Memórias da Minha Vida e do meu Tempo, editado postumamente. 

 

 

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