23.7.14

 

 

 

Malaysia Airlines Ukraine Crash Slideshow 16.jpg

 

 Destroços do voo 17 da Malaysia Airlines próximo de Hrabove, leste da Ucrânia, manhã de 19 de Julho de 2014.

(Dmitry Lovetsky/Associated Press)

 

 

 

 

 

A Cereja no Bolo

 

 

“Primeiro julguei que tivesse sido o Mossad, para distrair a nossa atenção de Gaza” disse a rapariga, sentada de Ipad ao colo. “Mas o que se foi sabendo não dava para isso. Entre russos e ucranianos…”

 

Conversa em Bruxelas, quando não restavam dúvidas quanto à origem do míssil terra-ar que deitara abaixo um avião da Malaysia Airlines com 298 pessoas a bordo sobre o leste da Ucrânia. Mas para muitos europeus dos nossos dias, criados no soft power e na correcção política, a maldade de Israel não tem limites e Vladimir Putin até nem é mau de todo, dada “a sobranceria com que os Estados Unidos trataram a Rússia a seguir ao fim da União Soviética”. Santa simplicidade.

 

Nesse fim de semana, em Paris e noutras cidades de França, numerosos manifestantes solidários com o povo da Palestina, enquanto partiam montras e ameaçavam sinagogas, gritavam palavras de ordem antissemitas — “Mort au juif!” — como não se via e ouvia em França já há muitos anos. (Coincidência de datas: o primeiro-ministro presidiu a cerimónia de desagravo comemorativa da concentração de 13.152 judeus, incluindo 5.051 crianças, num velódromo parisiense — o Vel d’Hiv — a 16 e 17 de Julho de 1942 antes de serem despachados para extermínio em Auschwitz). O antissemitismo francês tem tido altos e baixos.

 

Quanto ao avião da Malásia e a Putin, a verdade veio depressa ao de cima. Entre gabarolices e aldrabices, os rufias da República de Donesk, locais ou mercenários russos, deixaram poucas dúvidas sobre a selvajaria da sua proeza, e meios nacionais americanos de observação (NSA, etc.) revelaram com precisão cirúrgica o que se passara. Em muitas capitais do mundo, o patrão do Kremlin, cuja fanfarronice nacionalista inspirara a desordem armada no leste da Ucrânia — e cuja intendência lhe fornecera logística — é visto como corresponsável pela criação de ambiente propício à prática da atrocidade. Na União Europeia, até alemães e italianos concordaram no endurecimento de sanções à Rússia.

 

Quanto a Gaza, o horror de civis mortos e feridos por fogo israelita continua e continua também a incompreensão do que se está a passar. Gaza, com uma das mais altas densidades de população do mundo, é gigantesco e trágico escudo humano da armadilha onde Israel tem caído desde que se retirou do território em 1994. O Hamas dispara de lá todos os dias foguetões sobre Israel e cava túneis para por eles fazer mais ataques. Quando Israel pretende atingir rampas de lançamento ou quer escavacar túneis mata e fere inevitavelmente civis. A tática do Hamas não é original (em 1992, muçulmanos da Bósnia mandavam morteiros contra sérvios de pátios de hospitais) mas a escala desta vez é épica. E, lembrava Marx, alterações quantitativas conduzem a alterações qualitativas.

 

O Hamas, que não reconhece o Estado de Israel, tem agora muito menos apoios no mundo árabe. Mas a direita israelita de hoje está como Abba Eban disse um dia dos árabes: não perde uma oportunidade de perder uma oportunidade.

 

 

 

 

 

 

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11.6.14

 

 

Yalta, 1945

A Crimeia era a sala de visitas do Kremlin

 

 

 

 

 

 

Olivença sur mer?

 

 

Pedro Monjardino (pai do João e do Carlos) era homem sábio que usava regras simples para primeira abordagem de problemas complicados. Por exemplo, quando no hospital, no consultório, na clínica, alguém espavorido o avisava “Ai Senhor Doutor vem aí um maluco!”, Pedro que era alto e forte, pegava numa cadeira, levantava-a no braço direito e esperava. Das vezes que tal aconteceu, o tresloucado acalmou e deixou-se levar a bem.

 

O Ocidente – a que os alemães ainda pertencem – embora mais lento e menos decidido do que o meu chorado Pedro, conseguiu fazer o homem do Kremlin vislumbrar a bordoada que levaria se não ganhasse juízo. De há semanas para cá Putin começou a emendar a mão; as relações entre Kiev e Moscovo irão melhorar — Países Bálticos e Moldova darão suspiros de alívio — porque entendimento entre os dois é inevitável (e benéfico quer para eles, quer para nós). Mas levará o seu tempo porque ambos vêm de muito longe. Ministro ucraniano explicou-me um dia: “Na universidade estudávamos materialismo dialéctico, marxismo-leninismo, planificação económica, história dos regimes comunistas, Marx, Engels, Lenine, em suma, sabíamos tudo sobre como transformar um regime capitalista num regime comunista. Mas não sabíamos nada sobre o contrário”.

 

Não se irá, porém, a caminho de paz perpétua de Kant enquanto durar a ocupação da Crimeia pela Rússia. Nem é sarilho fácil de resolver. Por um lado, com desplante pré-moderno, a Rússia quebrou compromissos internacionais solenes que tinha assumido quando da independência da Ucrânia após o colapso da União Soviética e a comunidade internacional não pode senão condená-la. Foi golpe dado à legalidade nas relações entre estados que se procura promover desde a fundação das Nações Unidas — com ânimo novo depois do colapso da União Soviética — para bem de toda a gente e de todos os países. Por outro lado, a vasta maioria dos habitantes da Crimeia (salvo cerca de 10%, tátaros que Estaline perseguiu, deportou e entretanto voltaram) sente-se russa. A Crimeia faz parte do imaginário da Mãe Rússia. Não lhes passará pela cabeça voltar à Ucrânia.

 

A Crimeia não fora conquistada pela Ucrânia, fora-lhe oferecida pela Rússia em 1954 e houve casos no mundo mais ou menos comparáveis, como Macau. Quando Robin Cook disse a Madeleine Allbright que os advogados dele pensavam que o bombardeamento da Sérvia em 1999 era ilegal ela respondeu-lhe que arranjasse outros advogados. Assim, na Crimeia, se Putin indemnizasse pelos estragos e não se tornasse a portar mal (dois grandes ses), dever-se-ia encontrar saída airosa para a crise: talvez outro Krutschef ucraniano pudesse oferecer agora a Crimeia à Rússia, recebendo parte da sua riqueza energética em contrapartida. Talvez advogados pudessem negociar arranjo viável que salvasse faces e enchesse bolsos.

 

A Crimeia é grande e rica demais para ficar num limbo, espécie de Olivença à beira do Mar Negro, de que Moscovo e Kiev pudessem fingir que se esqueciam.

 

 

 

 

 

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21.5.14

 

 

 

Anúncio do cognac feito pela família de Jean Monnet, inventor da Europa moderna

 

 

 

 

 

Votos, omeletes e ovos cozidos

 

 

De Gaulle menosprezava a construção europeia: as nações eram ovos cozidos e com ovos cozidos não se faziam omeletes.

 

Salvador da França juntamente com os comunistas contra o governo de Vichy, tratando depois da vitória a Alemanha de Bona com magnanimidade (gostava tanto da Alemanha que dizia preferir que houvesse duas), deixou o poder sobre quezílias da paz em 1946, atravessou o deserto em Colombey-les-Deux-Églises de onde o foram buscar em 1958 para presidir à República e salvar segunda vez a Pátria. Em 1969 voltou para Colombey e, morrendo a fazer uma paciência de cartas em 1970, foi poupado à reunificação alemã.

 

Quando Mitterand, inquilino do Eliseu da altura, se deu conta do risco desta já não havia nada a fazer – no Kremlin, Gorbachev fora persuadido por um Kohl determinado como Bismark e pródigo como o Emir do Qatar; de Washington, Bush pai forçara a mão a Londres e Paris. Chirac, sucessor de Mitterand, percebera que tinha acabado a papa doce e começara tentativas de reintegração da França na estrutura militar da OTAN que Sarkozy finalizaria enquanto, colando-se a Angela Merkel, fingia que ainda mandava na Europa. François Hollande tentou entrada de leão mas terá saída de sendeiro.

 

A União que vai a votos esta semana para o Parlamento Europeu não é a do tratado de Maastricht. Não por termos passado de 12 a 28 países mas por duas outras razões. A União Soviética colapsou e acabou o medo dela que unia o Ocidente (Putin é incómodo mas não mete medo comparável porque, por um lado, não prega ideologia subversiva e, por outro, conta com quinta coluna de industriais alemães, banqueiros ingleses e vendedores de armamento franceses ao pé dos quais os partidos comunistas mais estalinistas do Ocidente durante a Guerra Fria eram brincadeiras de criança). E à nossa Alemanha Ocidental com a capital em Bona, discreta para se fazer perdoar pelo Holocausto e mais crimes, sucedeu país da Europa Central com capital em Berlim que retomou alento, herdou tiques geoestratégicos (do reconhecimento da Croácia em 1992 até ao moralismo luterano/calvinista com que sufocou os países do Sul 20 anos depois), manda mais na União do que qualquer outro mas continua uma democracia exemplar.

 

Hoje, em autocarros de Bruxelas, anúncios exortam-nos a votar para escolher “o governo da Europa”. É propaganda mentirosa (o governo da Europa está nas capitais dos países e não nas instituições de Bruxelas) mas não é só propaganda. Na selva da globalização nós, os europeus, só nos safaremos unidos. E contra nacionalismos populistas a União só terá força se os povos sentirem que precisam dela. O caminho passa também pelo Parlamento Europeu por pouco votado, frívolo, irresponsável e distante que nos pareça hoje.

 

Perante concorrência desenfreada e impiedosa do resto do Mundo está-se a descobrir que os ovos afinal talvez não estivessem tão cozidos como isso tudo. A omelete não será baveuse mas, se não a quisermos comer, morreremos de fome.

 

 

 

 


30.4.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais uma Guerra Mundial?

 

 

As comemorações de 1914 (ano do começo da Guerra que pôs Fim à Paz, como lhe chama Margaret MacMillan num livro magistral sobre as suas causas) em televisões, telefonias, editoras, revistas, e o à vontade pré-modernista de Vladimir Putin, cujo apetite russo de território evoca o Lebensraum nazi, levam-me a sentir que a nossa paz, o caldo de cultura da construção europeia, ficou de repente muito menos garantida.

 

Até ao fim da Guerra Fria, medo salutar da União Soviética fizera os europeus gastarem dinheiro em defesa (sempre menos do que deviam mas os Estados Unidos, embora queixosos, cobriam a diferença). Quando a União Soviética colapsou inventou-se o “dividendo da paz”. Governantes de quase todos os países europeus — menos Reino Unido e França — ignorantes ou esquecidos da história reduziram orçamentos de defesa a proporções ridículas com a justificação de que o colapso soviético eliminara o inimigo e não havia outro à vista. Agora há — mas há também quem não o queira ver.

 

A questão não é de meios — é de falta de vontade. 1945 foi há 69 anos, 1991 há 23 e, a quem não faça regime, a paz engorda. A Guerra Fria acabou sem tratado que ajustasse regras: essa ambiguidade ajuda Putin a pintar a manta, jogando na curteza de vistas cobarde dos europeus. Grandes patrões têm ido a Moscovo garantir-lhe pessoalmente ‘business as usual’. Apesar disso, os governantes da União Europeia (e todos os do G7), perante o desplante reafirmado do patrão do Kremlin e exortados por Washington têm alinhavado sanções contra a Rússia — começando pelos cortesãos do Czar — a pouco e pouco mais consequentes mas muito longe de causarem a dor precisa para parar provocações com que Putin nos põe à prova.

 

Se impusermos mais sanções económicas e se, simultaneamente, tornarmos bem visível por exercícios militares, patrulhas aéreas, etc., conduzidos na Polónia e nos países bálticos, a capacidade bélica da OTAN e a nossa disposição de recorrermos a ela se um dos Aliados for atacado, ganharemos. Sanções económicas trar-nos-iam prejuízos de curto prazo, exigindo explicação a eleitores mas seriam tão gravosas para a Rússia que Putin teria de encolher as garras. A capacidade de sofrimento do povo russo é grande (nenhum outro teve tantos mortos nas duas guerras mundiais) e a propaganda do Kremlin dissemina catadupas de aldrabices mas no nosso tempo tudo se conhece, se compara e o regime iria mudando. Depois, à Ucrânia e seus demónios daríamos o jeito possível, até com ajuda da Rússia.

 

Se não dermos um murro na mesa já, será depois difícil parar Putin sem guerra. E entretanto o nosso poder no mundo vai levando rombos. Quando votámos agora contra a Rússia na ONU, Brasil, India, África do Sul abstiveram-se. Os nossos valores em direito internacional e direitos do homem não serão universais mas que ao menos sejamos capazes de lutar por eles, com menos retórica e mais acção. Como disse um presidente americano: falar baixinho e trazer um grande cacete.

 

 

 

 

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16.4.14

 

 

 

 

 

 

 

Cem anos depois

 

 

A Primeira Guerra Mundial começou vai fazer cem anos no princípio de Agosto. Livros e televisões evocam o cheiro pungente de milhões de mortos — desde 7.000 para Portugal até 1 milhão e 600.000 para a Rússia — ruínas de cidades e descampados. Os horrores que foram filmados, aqueles sobre os quais se lê e os que se adivinham são muitíssimos. E o horror maior é que menos de 21 anos após o fim da Primeira Guerra Mundial a Segunda havia começado.

 

Durou de 1939  a 1945, matou mais gente ainda (portugueses, só em Timor) e acabou, tal como a Primeira, pela derrota da Alemanha e seus aliados. A Alemanha ficou arrasada e dividida; em vez de a fazerem pagar pela guerra, perdoaram-lhe dívida e houve o Plano Marshall, foi-se recompondo sem revanchismos que levassem a outro Hitler e à tentação de nova guerra. Reunificada, democrática, cívica e próspera (até 2010, a única das grandes potências europeias invariavelmente decente com os pequenos) os incómodos que, nos últimos anos, a sua fobia patológica da inflação tem causado a vizinhos pequenos e pobres são graves mas não se comparam com a anexação nazi dos sudetas.

 

Os sudetas têm sido lembrados agora não por causa da Alemanha mas por causa da Rússia. O ex-KGB Vladimir Putin anda a armar aos czares e resolveu anexar a Crimeia (dito e feito), perturbar a parte oriental da Ucrânia e não se sabe que mais ainda. Outras terras europeias com minorias russas — Estónia, Letónia, Lituânia (três estados-membros da União Europeia, aliados na OTAN) — sentem-se ameaçadas pela retórica expansionista e revanchista do Kremlin. Juntamente com Polónia e Suécia — e E. U. A — querem que a Rússia seja avisada em termos inequívocos. Além das sanções aprovadas depois da anexação da Crimeia, deveriam explicitar-se sanções mais graves a serem aplicadas se a Rússia tornar a pôr pé em ramo verde. Apesar de Putin insistir em exercícios militares perto de fronteiras, fomento de rebelião na Ucrânia e retórica perigosamente ambígua, membros da União do sul, entre eles Portugal e às vezes Alemanha, estão relutantes a elevar o tom e recomendam “prudência e diplomacia”.

 

Atenção. O Kremlin sabe que nenhum poder ocidental mandará rapazes e raparigas matarem e morrerem pela Crimeia (e presume que pela Ucrânia também não). No mundo pre -1945 que Putin parece imaginar à sua volta, europeus e americanos devem figurar como poltrões anafados e sem chefe, incapazes de resistirem ao quero, posso e mando do Senhor de todas as Rússias.

 

Mesmo sem comemorar a Primeira Guerra Mundial com o começo da Terceira poderíamos sair vitoriosos desta embrulhada. O poder económico conjunto de Europa e Estados Unidos é tão superior ao da Rússia que sanções inteligentes levariam o Kremlin à glória. Mas seria preciso que alemães, britânicos, franceses, todos, fizéssemos pequenos sacrifícios a curto prazo.

 

Sem a coragem de conter Estaline não teria havido OTAN nem União Europeia. Esperemos que Putin chegue para nos endireitar outra vez a espinha.

 

 

 

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26.3.14

 

 

 

 

 

 

 

Uma invenção recente

 

Há guerras desde que há homens; a paz é uma invenção recente — escreveu jurista inglês do século XIX. Até ao aborrecimento da Crimeia, o pessoal governante dos países da União Europeia e os Democratas de Obama nos Estados Unidos pareciam convencidos de que a invenção chegara para ficar. Mesmo Ângela Merkel, filha de pastor luterano e com juventude passada de Stasi à coca, teria dito a Obama que Putin vivia “noutro mundo” — subentendendo que o “mundo real” era aquele em que o presidente dos Estados Unidos e ela própria viviam.

 

Não perceberam nada — tal como o alto funcionário da Comissão de Bruxelas que me disse há anos, discutindo o lugar da Europa no mundo, que a ideia da União Europeia entrar em guerra era inconcebível para ele. Muitos falavam então no “dividendo da paz” — desde o fim da Guerra Fria não era preciso gastar dinheiro em defesa — esquecendo a exortação romana “se queres paz prepara a guerra” (ou Duff Cooper, ministro de Churchill, quando escreveu que desarmar para evitar a guerra seria como fechar as esquadras de polícia para acabar com o crime). Muita gente caricaturou o académico americano que depois da derrota do comunismo anunciou o fim da história — íamos todos, no mundo inteiro, viver para sempre em democracia+economia de mercado — mas os governos europeus portaram-se como se tivessem levado a caricatura a sério.

 

Arruaceiros de países pequenos e mais ou menos distantes foram metidos na ordem sem grandes custos (com ajuda de Washington). Países maiores que, por exemplo, nos vendam petróleo, podem pintar a manta dentro de casa que a gente não os apoquenta. Regras simples. A hipótese de mau comportamento egrégio, contra os nossos interesses e a nossa bazófia moral, da parte de um dos grandes, terá levado estados-maiores a planos secretos mas não se esperava que tornasse a acontecer mesmo, pelo menos no nosso tempo. Toda a gente acha que governantes como os da Segunda Guerra Mundial — De Gaulle, Churchill, Roosevelt — já não há: até Putin, por incómodo que seja, não chega aos calcanhares de Estaline.

 

Além disso, desde Jack Kennedy em 1960, passou a estar na moda escolher chefes políticos muito novos. A União Europeia está cheia deles e tal acrescenta à impopularidade da classe política numa altura em que esta é acusada de não ter sido capaz de prever a crise económica, de lhe ter acudido de maneira nociva e (se Putin não tomar juízo) de ter deixado a Europa indefesa.

 

Ora o juízo de Putin não é o nosso. Deu-se por missão fazer com que a Rússia torne a meter medo ao mundo, os russos estão com ele — pelo menos até ao preço do petróleo baixar — e a impopularidade dos políticos ocidentais é notória.

 

Para manter paz e honra será preciso vencê-lo pela economia. Começando por fazer do tratado comercial que europeus e americanos estão a negociar, e aumentaria os PIBs respectivos, um objectivo estratégico. A URSS perdeu a Guerra Fria por não ser capaz de competir economicamente com o Ocidente.

 

 

 

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12.3.14

 

 

 

 

 

 

 

Prepotências, roubalheiras, aldrabices

 

 

Em 2008, corriam os Jogos Olímpicos de Pequim, a Rússia capturou militarmente à Geórgia duas partes do seu território — a Ossétia do Sul e a Abkhásia — de estatuto autónomo e muitos habitantes russófonos. Bush, em Washington, protestou menos do que Obama agora perante Ucrânia e Crimeia. Nós, os da União Europeia, com Sarkozy à frente, inventámos uma “mediação” que nada devolveu à Geórgia, sossegou a Rússia e nos deixou de consciência tranquila. Para o conforto ensimesmado dos europeus (5%, 25% e 50% da população, do produto e da despesa social mundiais, respectivamente) foi como se a crise da Geórgia não passasse de tempestade num copo d’água.

 

Com o Kremlin, continuou-se business as usual. A França vendeu à Rússia navios de guerra que a ajudaram no emprego e na balança de pagamentos; a Alemanha, a Itália e a Holanda pouco fizeram para diminuírem a sua dependência energética da Rússia; Londres e os paraísos fiscais cobertos pelo Reino Unido —  das Ilhas do Canal às Ilhas Cayman — continuaram a gerir e a lavar bem os milhões dos oligarcas (e preços de casas em Londres chegaram à estratosfera). Do outro lado do Atlântico, Barack Obama — que tal como Jimmy Carter com Brejnev, parece convencido de que no fundo, no fundo, Putin reconhece que ele tem razão — meteu-se há anos a tentar pôr no são as relações com a Rússia e com tal inépcia o fez que, em vez de ganhar lealdade de um novo amigo levou o Kremlin a perder o respeito que, antes dele, ainda tinha pela Casa Branca. Entretanto, com a Geórgia no papo, Vladimir Vladimirovich sente-se seguro na sua missão histórica de recuperar a grandeza russo-soviética. Como se diz por lá: comer abre o apetite.

 

E agora, por causa de zaragatas na Ucrânia e na Crimeia, lugares longínquos sobre os quais quase todos os europeus — ainda não refeitos de Lehman Brothers / dívidas soberanas / banca à nora — sabem pouco e mal, porque muito do que nos chega é propaganda russa, espera-se que os nossos governos e o americano se unam e façam recuar o Kremlin. Há de ter que ver. Sem chefia americana e com vendilhões a encherem os nossos templos, receio que as medidas que forem tomadas fiquem aquém do  preciso para fazer a Rússia largar a Crimeia.

 

Na Guerra Fria confrontavam-se capitalismo e comunismo. Hoje de um lado estão estados de direito com sufrágio universal e do outro o feixe de brutalidades, roubos e mentiras que dá pelo nome de capitalismo de Estado. Os europeus que sabem na carne dessa poda — Bálticos; ex-Pacto de Varsóvia — procuram que combatamos por todos os meios ao nosso alcance a opressão asfixiante e corrupta que a Rússia quer impor à Ucrânia, com sanções imediatas que doessem mesmo ao Kremlin e promessa a Kiev de adesão à União Europeia. Alemães, britânicos, franceses, outros, arrastam os pés.

 

Nem Estados Unidos nem União Europeia mandarão os seus morrer pela Ucrânia. Mas com visão, coragem e determinação poder-se-ia travar Putin sem guerra — por enquanto.

 

 

 


5.3.14

 

 

 

 

 

 

Prolegómenos a qualquer Europa futura que possa apresentar-se como potência

 

 

Ao anunciar sanções contra o (antigo) regime ucraniano a União Europeia mostrou que afinal existia. Vários dos seus membros tinham, até aí, sido contra pois receavam que tal fosse provocar a Rússia (e provocou mas, como dizia o outro, quem não tem competência não se estabelece).

 

As sanções foram anunciadas em Bruxelas. Em Kiev os MNEs de Alemanha, França e Polónia mediaram acordo que diminuía os poderes do presidente e antecipava eleições — mas os manifestantes não desarmaram e o parlamento, com muitos deputados da maioria presidencial a juntarem-se aos da oposição, depôs o presidente, substituiu-o, até às eleições, pelo presidente do parlamento, e nomeou um governo provisório.

 

Apoiando o novo regime, a Europa agiu escudada nos seus valores. Putin de entrada ficou calado; Medvedev disse que o novo poder em Kiev era ilegal; houve manobras militares. A seguir Putin fez rufar tambores na Crimeia (doada à Ucrânia em 1954, muita gente lá acha que estaria melhor entregue a Moscovo do que a Kiev), ameaçando integridade territorial que considerara sagrada no caso da Síria — “a lei é a lei e temos de a cumprir, gostemos dela ou não” dissera na altura. Entre ecos de ópera bufa e avisos de tragédia, o homem para quem o colapso da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século XX está a obrigar Europa e Estados Unidos a encontrarem maneiras de o conter. Não é fácil. A nostalgia post-imperial russa assusta; a Ucrânia não é uma pera doce. Obama parece às vezes julgar que a razão, irmã do amor e da justiça, levará sempre a melhor; moles, muitos europeus acham que não é com eles. Mesmo assim, graças sobretudo à Alemanha (mesmo a Alemanha da prudente Merkel) o cerco vai apertando. Se a União Europeia não perder cabeça e coragem e abrir a porta à Ucrânia — e se a Ucrânia perceber que sem estado de direito não sairá da cepa torta — a nossa segurança terá dado um salto em frente.

 

A União Europeia tem fronteiras seguras a Norte, Ocidente e Sul. A Sudeste menos: o Médio-Oriente é viveiro de conflitos (a adesão da Turquia, prometida há décadas mas negociada com vagares de lesma, deve ser acelerada; será melhor tê-la dentro da barbacã, virada para fora, do que fora, virada contra a barbacã). Por fim, a Oriente: Ucrânia significa fronteira. O acordo com a União Europeia que à última hora o presidente deposto se recusara a assinar seria mais um passo para a pôr do nosso lado dessa fronteira. É do nosso maior interesse dá-lo e impedir que a Rússia faça o que sempre fez: mude os marcos da propriedade para ir ganhando terreno.

 

A União Europeia não é empresa multinacional ou ONG filantrópica. É uma ambição política, entrançada com vontades nacionais centenárias. Se quer o seu lugar de grande potência no mundo terá de falar com uma só voz e dar-se ao respeito por toda a parte. Como acontece hoje na Ucrânia, com a Alemanha à frente ou, com a França à frente, no Mali.

 

 

 

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26.2.14

 

 

 

 

 

 

 

 

A peste homofóbica

 

 

(Mas, antes dela, noto que a Islândia, vítima há anos de colapso bancário ruinoso, anunciou desistir de candidatura à União Europeia. Saiu da crise ajudada pelo FMI, com flexibilidade que impediu o país de endividar gerações vindouras. No Sul da Europa tivemos menos sorte. A Alemanha, que queria salvar os seus bancos, impôs-nos austeridade com as consequências conhecidas. Moral da história: teria sido perfeitamente possível sair da crise sem pôr o futuro no prego. Faltou visão a Berlim e coragem a todos).

 

Voltando ao título. Como erradicar a peste homofóbica que grassa hoje na África e na Rússia contra mais de um século de progresso social e de decência promovidos na Europa Ocidental e nos Estados Unidos? A maior e mais maltratada das minorias, em todo o mundo, são as mulheres (demograficamente em maioria como os pretos na África do Sul do apartheid) que gozam hoje, na teoria e na prática europeias e norte-americanas, quase dos mesmos direitos e deveres que os homens. Homossexuais, minoria mais pequena, deixaram de ser discriminados, como se sabe, nas leis desses estados. Em cada vez maior número deles, podem casar e adoptar. Nessas sociedades vibram ainda focos de oposição religiosa e de deferência pelos costumes mas liberdade e tolerância têm levado a melhor no debate que continua.

 

Em contraste vivo, o Parlamento da Rússia de Putin, a pretexto de proteger as crianças de riscos de pedofilia, passou legislação que na prática criminaliza a homossexualidade e deixa homossexuais à mercê de arbitrariedades da administração e do público.

 

O que se passa em África é mais alarmante ainda. De 54 estados do continente, 38 criminalizam a homossexualidade (3 —  Sudão, Mauritânia, Somália — e o norte da Nigéria, que adoptam a charia, preveem pena de morte). Nigéria e Uganda endureceram há pouco as suas leis. Mesmo na África do Sul, apesar de ocidentalizada pelo humanismo de Mandela, existe ambiente homofóbico (lésbicas submetidas a violações colectivas, “para as curar”). Uma declaração do Presidente da Gâmbia ilustra o quadro africano: “A homossexualidade nunca será tolerada e poderá incorrer a pena máxima pois quer levar a humanidade a extinção inglória. Combateremos essa bicharia, os chamados homossexuais ou gays como combatemos os mosquitos da malária ou com mais vigor ainda. No que me diz respeito, LGBT só pode significar Lepra, Gonorreia, Bactéria, Tuberculose; coisas nocivas. Esclareço também que a Gâmbia não poupará nenhum homossexual e portanto a imunidade diplomática não será respeitada no caso de diplomatas homossexuais”.

 

David Cameron disse que queria “exportar o casamento homossexual” para o mundo inteiro. Foi logo acusado de neocolonialismo. Tiranetes cruéis encontraram mais desculpas para o mal que faziam. Não sou fanático do progresso; é prudente respeitar tradições mas, neste caso, norte-americanos e europeus têm razão e quem se lhes opõe faz subir marés de fel no sinistro mar da dor humana.

 

 

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12.2.14

 

 

Lo mismo.

Goya - Los Desastres de la Guerra - No. 03 

 

 

 

 

 

O sem-fim

 

 

A Guerra de Espanha fora a derrota da democracia pelas forças negras do fascismo ou fora a última Cruzada? Mobilizado como médico militar nos Açores, o pai visitava colega de curso preso na Ilha Terceira por ter combatido numa Brigada Internacional. Amigo dos irmãos da mãe, filho de notário de Évora, morrera abatido no avião de caça franquista que se voluntariara para pilotar. Paixões extintas?

 

A Segunda Guerra Mundial veio a seguir, 21 anos depois de acabar a Primeira (tão má que os franceses lhe chamaram, esperançados, “la der des der”, a última das últimas). Poucos anos depois de nazismo e fascismo perderem em 1945, começou a Guerra Fria entre democratas e comunistas que acabou com o colapso da União Soviética em 1991. (Não passou a Quente por Washington e Moscovo disporem de arsenais nucleares capazes de destruírem várias vezes a humanidade, dando juízo a cabeças políticas e militares. O Dr. Strangelove ficou-se pelo cinema. Mas quando Zawahiri, chefe de Al Queda, excomunga grupos seus que matam na Síria, por serem indisciplinados e agirem por conta própria, a violência serve a anarquia. Bombas atómicas nas mãos de anarquistas fanáticos seriam realmente um grande perigo).

 

Depois do fim da Guerra Fria um académico americano julgou que a História tinha acabado: íamos todos ser capitalistas e democráticos. Por seu lado Vladimir Putin declarou que o desaparecimento da União Soviética fora a maior catástrofe geopolítica do século XX. O americano estava enganado — a História voltou em força — mas o engano não teve a menor importância. A convicção de Putin, essa, é assustadora quer quanto ao que se imagine ser a evolução interna da Rússia regida pela sua batuta quer quanto à atitude da Rússia em relação ao “estrangeiro próximo”. Ainda a História. No começo do Código da Imperatriz Catarina, redigido no século XVIII, diz-se que a Rússia é grande demais para ser governada por mais do que uma só pessoa. E, quer antes quer depois de S. Vladimiro os converter ao cristianismo em Kiev, os russos só aceitaram as fronteiras que têm quando alguém do outro lado lhes bateu o pé e disse: daqui não passam!

 

A Ocidente nada de novo. Em França e Espanha governos incapazes de convencerem os seus do que era economicamente possível — como Schroeder fez — armaram-se em modernos noutras questões — homossexualidade, aborto — e despertaram Pétainismos e Franquismos latentes que agora pintam a manta. Alemães —  que fizeram de súcia com a Rússia pipeline no Mar Báltico para evitar a Polónia — não querem incomodar muito Moscovo. Ensimesmados, os ingleses afastam-se da Europa e deixam de ser ponte para os americanos. Em suma, os europeus preferem fugir a chatices a pensar no futuro. Washington, virada também para dentro por Congresso demente e Presidente frouxo, já não mete o respeito que metia ao mundo.

 

Em Kiev o frio não arrefece os espíritos. A janela de oportunidade fecha no fim dos jogos de Sochi. Alguém ajuda os ucranianos a baterem o pé?

 

 


22.1.14

 

 

Pax Americana, 1988, Winston Smith 

 

 

 

 

 

 

 

Adeus Pax Americana

 

 

A “capacidade inimaginável de mentir sem pejo” dos nossos políticos alarma amiga minha (e devia alarmar toda a gente: se os valores em que assenta a decência de viver forem esquecidos teremos vendido a alma ao Diabo). Mas será o fim da raça — anunciado prematuramente em 1934 por  Pessoa, em 1875 por Eça e, alguns séculos atrás, pelo Velho do Restelo? A minha amiga receia que sim. Eu tenho dúvidas. A Espanha, a partir-se aos bocados, não tem queixada para nos abocanhar e à Europa de Bruxelas falta vocação de Pátria. Para o mal e para o bem, não há de ser nada.   

 

Seja o que for que por aqui medre, porém, terá, mais o resto da Europa e os outros 4 Continentes, de aprender a viver sem os Estados Unidos como Senhores do Mundo. Haviam passado a sê-lo desde o colapso da União Soviética. A 11 de Setembro de 2001 levaram grande bordoada – pior do que o bombardeamento japonês de Pearl Harbour em 1941 porque o Havai é um arquipélago no Pacífico e Nova Iorque e Washington são o coração do país – outras bordoadas, pequenas e não tão pequenas, externas e internas, se foram seguindo. O mundo está-lhes a escapar das mãos e eles já não sentem tantas ganas de o agarrar. Ora, se de vez em quando a Pax Americana importunou muitos de nós, o incómodo de viver com ela não era nada comparado com o incómodo de sem ela viver.

 

Patrão fora, dia santo na loja –  ou, mais a propósito, guerras sem fim. Sem Washington a meter-se decisivamente nas questões, desavenças agravam-se, feridas em vez de sararem infectam. Sofrimento indescritível — e evitável — aflige cada vez mais gente. A tragédia humanitária da Síria que indecisões americanas deixaram avolumar à nossa beira para lá de remédio programável e plausível é a que dá mais nas vistas. Mas não faltam outras pelo mundo fora.

 

Não existe potência capaz de desempenhar papel comparável ao que fora até há pouco o da América. A China, de que às vezes alguns se lembram, vem carregada de dificuldades de sua própria invenção. Capitalismo desenfreado em regime de partido único criou classe média — e milhares de milionários — exigindo voz na coisa pública e prenunciando grandes sobressaltos. Desenvolvimento selvagem criou desastres ecológicos duradouros. A política “um filho só” criou distorções demográficas que levarão gerações a corrigir. E a capacidade militar chinesa não dará para Pequim distrair mal-estar em casa com aventuras fora.

 

A Rússia continua a ser “O Alto-Volta com bombas atómicas” (Helmut Schmidt dixit). A Índia é uma democracia mas desigualdades abissais – até entre homens e mulheres – atrasam-lhe ambição de bem-estar geral, quanto mais de hegemonia. O Brasil do rolezinho está longe de poder ajudar a pôr o mundo em ordem. E a Europa, com a História, zangada, a voltar a galope sobre a desunião cavada pela austeridade, perdeu a vez.

 

Em mundo sem rei nem roque teremos de olhar melhor por nós. Começando — talvez dissesse a minha amiga — por dar crédito e autoridade à virtude.

 

 

Imagem: aqui

 

 

    

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15.1.14

 

 

 

 

 

 

 

Azar dos Távoras

 

 

A minha amiga Graça correu muito mundo. Quando nos vimos depois da passagem de ano disse-me: “Kung hei fatchoi”, acrescentando que assim lhe desejavam bom ano novo (chinês) quando ela por lá vivia e que a resposta a dar era “Laisi tai loi”, em tradução livre —  sentimentalmente conforme com o original — “passa p’ra cá o dinheiro”. Os chineses que conheceu só pensavam em duas coisas: na família (pai, mãe, marido, mulher, filho ou filha. A chamada “família extensa” — empecilho à iniciativa privada em África, na América Latina, no sul da Europa — desaparecera do seu universo) e no dinheiro.

 

O Partido Comunista Chinês governa sem estados de alma quanto a estado de direito, direitos do homem e outras predilecções ocidentais, e favorece liberdades e tropelias que levem à criação de riqueza. Milionários medram como cogumelos e bilionário é o estatuto mais apetecido pelos milhões de rapazes e raparigas denodados que constroem o futuro. Essa ganância antiga, desde Confúcio mais ou menos enquadrada por tentativas de a apertar num colete de forças moral, permitiu à China resistir a tentativas europeias de colonialismo, às guerras do ópio, ao marxismo-leninismo e à selvajaria de Mao Tse Tung.

 

O Presidente Xi, Imperador do nosso tempo, começa a virar a China outra vez para fora, depois de 500 anos ensimesmados dentro da Grande Muralha. Nos mares, a sul e a leste, crescem tensões sino-nipónicas. A Academia Chinesa de Turismo anunciou que, em 2012, 82 milhões de chineses tinham visitado o estrangeiro, que o número continuará a crescer e  que em 2020 serão 200 milhões. A propensão ocidental à culpabilização não será a melhor arma contra a ignorância chinesa do arrependimento.

 

Século XX comparável ao que a China teve deixou a Rússia pelas ruas da amargura: alcoolismo a aumentar, esperança de vida a diminuir e economia incapaz de aproveitar riqueza natural em gás e petróleo para se diversificar. Talento rufião de Putin para enrolar Obama na Síria e para assediar vizinhos pequenos — com os chineses não se mete — obrigam-nos a prestar atenção à Rússia.

 

Além disso, entre 1990 e 2010 o número de gente vivendo em extrema pobreza (menos de US $1,25 por dia) no mundo inteiro diminuiu de metade. Nunca tanta gente viveu tão bem quanto vive agora. Em muitos outros países além da China — Brasil, India, Indonésia, África do Sul, México, por aí fora – mais e mais pessoas estão a passar à classe média, achando-se com direito a conforto cada vez maior e a levantar a voz na coisa pública. Nunca as mulheres estiveram menos dependentes da vontade dos homens das suas famílas — até em muitos países islâmicos e em pequenas bolsas de cristianismo misógino.

 

Entretanto os europeus queixam-se. A austeridade agravou as perspectivas de recuperação económica e deu uma machadada na solidariedade europeia. Desde 1957 nunca sofremos concorrência tão forte do resto do mundo nem, azar dos Távoras, tivemos chefes políticos tão medrosos e curtos de vista.

 

 

Imagem aqui 


18.12.13

 

 

 

NYSE 

 

 

 

 

 

Sem Marx nem Reagan

 

 

Nos restaurantes imaginativos que há agora as palavras “ Marx” e “Reagan” deveriam ser escritas a giz branco sobre a ardósia preta do menu, na secção “Sabores do Dia”.

 

Estão os dois na moda — se se pode chamar moda à péssima fama que ganharam — Marx já lá vão duas décadas; Reagan apenas há um lustre. 24 anos depois do derrube do Muro de Berlim anunciar o fim da grande ilusão da esquerda, inchada como um balão pelo génio do panfletário de Trier, e 9 anos depois da morte de Ronald Reagan, paladino bem disposto do triunfo do privado sobre o público, dos empresários sobre os burocratas – “o governo não é parte da solução, é parte do problema” —  25 desde que deixara de ser Presidente dos Estados Unidos, 19 depois de anunciar que sofria de Alzheimer e — desta vez para mal dos seus pecados — 5 anos passados sobre a falência de Lehman Brothers, damos connosco desamparados no meio dos órfãos dos dois, convencidos alguns deles de que o pai ainda está vivo.

 

Estado a mais, decorrendo das prescrições do judeu alemão londrino e de Lenine, seu Paulo de Tarso, pôs metade do mundo de pantanas (os chineses sobreviveram ao pior porque negócio e jogo lhes estão na massa do sangue). Na nossa parte do mundo, Estado a menos, como pregava o cowboy da Califórnia, acabou por deixar a rapaziada bancária e para-bancária tomar o freio nos dentes - ainda por cima com chorudos bónus anuais a desencorajarem quem tentasse prever para lá do curto prazo.

 

In medio stat virtus - mas como chegar lá? A “Regra de Volker”, aprovada nos Estados Unidos, conjunto de medidas destinadas a impedir os bancos de arriscarem demais, como é costume de Obama começou por declaração eloquente aos americanos e acabou em mil páginas cheias de ambiguidades que vão dar rios de dinheiro a advogados sem morigerarem ganâncias em Wall Street. Dinheiro é poder. E, disse em 1640 D. Luísa de Gusmão, mais vale ser rainha uma hora do que duquesa toda a vida. Regulamentar a banca sem matar a galinha de ovos de ouro não é para idealistas nem para demagogos. Mas terá de haver correcções. A finança nunca tomou tão grande proporção da actividade económica; os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres; as classes médias, motor da Europa desde o fim da Idade Média, atacadas por todos os lados estão a deixar de poder cumprir o seu papel. A Alemanha, esquecida do perdão das dívidas de guerra de 1953, mostra falta de solidariedade chocante. Se ao menos um presidente francês ameaçasse acabar com o Eixo Franco Alemão, retirando a Berlim o atestado de bom comportamento que readmitiu a Alemanha no concerto das nações.

 

O mundo à nossa roda não perdoa. Num discurso a partidários do Presidente Yanukovich arrebanhados até Kiev, o primeiro ministro da Ucrânia disse que tomar o caminho da Europa era apoiar o casamento gay e mais imoralidades ofensivas da alma ucraniana. Putin acha bem. Foi em Kiev que S. Vladimiro baptizou os russos e o Kremlin não quer largar a presa.

 

 

 

Post Scriptum  Ainda Portugal e o apartheid. Numa manhã de Verão de 1990, estava eu numa sala de espera da sede do ANC em Joanesburgo antes de ser recebido por Nelson Mandela quando a porta se abriu, um preto alto, atlético e sorridente entrou e me perguntou: “É o embaixador de Portugal?”. “Sou”. “Desculpe irromper assim mas soube que estava cá e tinha de vir dizer-lhe muito obrigado! Não calcula quanto apreciámos o que nos mandou. Tornou os nossos serões agradáveis e entretidos. Não podia deixá-lo sair de aqui hoje sem lhe apertar a mão e lhe agradecer pessoalmente”.

 

Eu tinha-o reconhecido: era Tokio Sexwale, chefe de relações públicas do ANC, que passara 13 anos preso em Robben Island. Álvaro Mendonça e Moura, encarregado de negócios de Portugal durante muitos meses, entre a partida do meu predecessor e a minha chegada à África do Sul, havia-lhe mandado, e aos seus colegas de cativeiro, cassetes de futebol português, nomeadamente a da final da Taça dos Campeões entre o Porto e o Bayern de Munique que o FCP ganhara em 1987. Era isso que ele agora viera agradecer-me.

 

Não arriscaria generalidades sobre as relações entre Portugal e a Africa do Sul, ou sobre as relações entre os emigrantes portugueses e os nativos de variadas cores do país que os acolhe. Mas uma coisa posso assegurar: nos últimos tempos do apartheid as relações entre as autoridades portuguesas e a direcção do ANC não poderiam ter sido mais cordiais do que foram. 

 

 

 

Imagem: aqui 

 

 

 


14.12.13

 

 

 

 

 

Com a chegada do Bloco-Notas de José Cutileiro ao Retrovisor, e a pensar nos seus leitores, dediquei umas horas a arrumar a casa, ou seja a criar novas categorias ou etiquetas, as chamadas tags. A primeira crónica — O baú do Kremlin — inaugurou as categorias Alemanha, Rússia e Capitalismo.

 

Acrescentei ColonialismoComunismoCristianismoNazismoTerrorismo 

e Estados Unidos, temas que têm sido abordados neste blog e que faz agora todo o sentido terem tag própria.  

 

Tenho sido económica nas tags porque comecei com categorias o mais latas possível, que permitem agregar material muito diverso e se vão destacando na chamada nuvem de tags (na coluna da direita) à medida que cresce o seu conteúdoMuitos dos escritores citados neste blog estão assim simplesmente agrupados na tag Autores

 

Boa parte do material dos espólios familiares está em ÁlbumÁlbuns, Casas, Recordações.

 

Próximas "gavetas" a arrumar melhor serão Photographia, Fotografia e Snapshot. Na primeira estão guardados os textos de Autor sobre fotografia e as imagens até aos anos 20 do século XX.

 

Para encontrar um nome nos arquivos aconselho pesquisar neste blog, no topo da coluna direita.

 

 

Boa navegação!

 

 

A crónica O baú do Kremlin aqui

 

O Bloco-Notas de José Cutileiro sai à quarta-feira.

 

 

 

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11.12.13

 

© Reuters / ABC

 

 

 

 

 

 

 

 

O baú do Kremlin

 

 

Escrevo longe da Pátria. A 1 de Dezembro era domingo, talvez haja quem nem se lembre de que já foi feriado. “Portugueses celebremos/ O dia da Restauração…”, 1640, a defenestração de Miguel de Vasconcelos (em todas as crises da nacionalidade houve fidalgos que traíram, lembrava o meu chorado Iá), o regresso a penates da Duquesa de Mântua, a chegada ao trono dos Braganças, quarta dinastia que durou mais do que qualquer das anteriores (370 anos) - tudo para esquecer.

 

Cabeças fracas, admiradoras bacocas de luteranos e calvinistas do Norte frio da Europa, querem fazer de nós gente essencialmente prática e, achando que tínhamos feriados a mais, cortaram a eito sem uma pálida ideia do que faziam. Não só por não saberem História mas também por pouco mais saberem seja do que for para além das preparações técnicas que receberam. E nem nessas são bons: para remédio da doença das nossas finanças os alemães impuseram austeridade e elas aplicaram-na no estado de espírito daquela senhora violada no pinhal da Azambuja por salteadores que tinham amarrado o marido a uma árvore. Quando acabaram e se foram embora ela libertou-o, contrita: “O que é que eu podia fazer, filho?”. “Nada, filha, mas escusavas de dar tanto ao rabo”.

 

É o dar ao rabo, o contentamento em punir madraços (que não somos, salvo aos olhos vesgos do Norte da Europa) que o povo não perdoa aos nossos governantes, tanto mais quanto os programas que pressurosamente adoptaram foram emenda pior do que o soneto. (Comparem-se números de há 5 anos com números de agora, na economia e nas finanças dos países a quem a austeridade foi imposta). Até o Papa, cujo reino não é deste mundo, se indigna com o que se anda para aí a fazer.

 

Tratar o povo por cima da burra está na moda. Na Rússia de Vladimir Putin, antigo coronel da ex-PIDE-DGS local, a empresa Louis Vuitton fez construir na Praça Vermelha, à beira do mausoléu de Lenine, um pavilhão de exposições em forma de gigantesco baú – 10 metros de altura, 30 de comprimento – no estilo inconfundível da bagagem da casa, que tapava a vista da igreja de S. Basílio. Iria receber a exposição “Alma das Viagens” feita pela GUM, (antiga loja do Partido, hoje dos plutocratas), com patrocínio de super-modelo russa dada à caridade, namorada de um filho do patrão de Vuitton.

 

A Praça conheceu melhores dias. Antes de ser Vermelha, vira passar czares; depois, tivera Lenine eterno, paradas militares da URSS, Iuri Gagarin, regressado do espaço. Desde o fim da Guerra Fria, concertos rock, rinque de patinagem, passagens de modelos, saltos de moto, foram-na dessacralizando. O baú de luxo foi a gota de água: afirmação tão descarada do triunfo do capitalismo levantou contra ela não só os saudosos de Estaline mas outros filhos da Mãe Rússia, desgostosos com a modernidade. O baú não durou 24 horas: as autoridades que o tinham aprovado mandaram-no desmantelar.

 

Excessos eslavos? Ou lembrança de que o povo é fogo e quem brinca com ele acaba por se queimar?

 

 

 

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2.5.13

 

Num conjunto muito variado de textos, Eduardo Côrte-Real discorre com simplicidade e humor sobre a descoberta doutras paisagens, povos e mentalidades à luz dos seus autores de cabeceira e da sua história pessoal de filho do Império: 

 

"nesta parte do mundo [Macau], os portugueses fizeram-se à vida sozinhos, verdade que nem sempre se conta, só isso já dá a dimensão da aventura de quem vai para a China, para a civilização mais antiga de todas, agora um gigantesco casino, com Moulin Rouge e tudo" ... "Em Moçambique o apartheid era uma realidade, nunca tive um colega de escola preto e fiz lá o liceu todo. Naquele tempo, entretido a crescer, não me parecia estranho. Os únicos pretos com quem falávamos eram os nossos criados — sete."

 

O Médio Oriente, a Rússia e a China registados pelo autor nos finais do século XX também já não são hoje exactamente os mesmos, e nesse subtil desfasamento reside outro dos interesses deste livro. 

 

 

 

 

 índice de capítulos aqui

 

 

Tive a sorte de viver, longamente, em três continentes - África, Ásia e Europa. O persa de Homero, esse ainda desconhecido dos eu­ropeus e, no entanto, a viver ao nosso lado, foi o meu best friend nesses idos. Também gosto imenso da América, tanto do norte como de al­guns países do sul, daqueles onde não mora o pecado como no Brasil, a glória portuguesa. Gosto de árabes — o que é raro nos europeus — uma matriz complicadíssima porque política e religião são do mesmo grupo de conceitos neles. [...] Não há lares de terceira idade na China, o filho mais velho toma conta dos pais até eles morrerem. É assim. Praticar o Li (o bom caminho) não é muito diferente das éticas gerais, religiosas ou ateias. Individuo versus Universo é a questão do confucionismo chinês. O Ocidente individualista deusificou a Humanidade - mais interessante para filosofar — que a abstração dessa alma coletiva chinesa, nunca individual. No confucionismo não há salvação isolada, egoísta, nem alminhas. O historiador, o antropólogo, o humanista ocidental europeu, o jornalista, levo-os a todos como se fosse a escova de dentes, se possível sem eurocentrismos que são só excesso de peso. Não é só fazer a mala. É saber ao que vamos.

 

Eduardo Côrte Real

in Vagamente à procura de Pasárgada (Introdução)

© RCP Edições 2012 

 

Leia o poema Vou-me Embora pra Pasárgada de Manuel Bandeira aqui

 

 

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31.3.13

 

 

 

 



Presented to Alexandra Feodorovna by Nicholas II

Dated 1912

Designed in the style of Louis XV, this egg is carved from a solid block of lapis lazuli of superb quality, and is enclosed in an elaborately carved and chased gold cage-work composed of conventionalized motifs including scrolls, shells, baskets of flowers, winged cherubs and the Imperial double-headed eagle beneath a canopy hanging from a fretted arch. The crowned Imperial monogram and the year are shown under a rect­angular portrait diamond surmounting the egg; a large brilliant diamond is set in the base. Inside the egg, a crowned double-headed Imperial eagle, richly set back and front with rose diamonds, frames an oval miniature painting of the Tsarevitch Alexey; this important jewel is supported on a diamond-set base with four diamond leaves, curled to serve as feet. The reverse side frames a miniature showing the back of the eight-year-old Prince.


Here in this whole composition is a striking instance of the beauty of the frame, sur­passing by far the picture it holds, for it must be confessed that the miniature portrait, which is understandably not signed, provides in its weakness of execution, a melancholy anti-climax to a good design.


Signed by Henrik Wigstrom. 

In the Lillian Thomas Pratt Collection of the Virginia Museum of Fine Arts.

 

 

Kenneth Snowman

in The Art of Carl Fabergé

New York Graphic Society Ltd 1964

© Kenneth Snowman 1962 

 

 

 





 
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21.1.12

 

 

  

Véra Obolensky, São Petersburgo, 2010

  Foto: Jean-François Blézot

 

 

 

uma entrevista com Véra Obolensky aqui

 

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3.3.11

 

 

 

D. Day

Foto de Robert Capa

 

 

 

Merci aux Américains, aux Anglais, aux Canadiens, aux Australiens, aux Polonais qui m'ont sauvé un reste de famille, merci à ceux qui permirent aux Français d'aujourd'hui de n'être pas contraints à penser nazi ou stalinien, merci à ceux qui brisèrent le mur de l’Atlantique et nous aidèrent jusqu'à la chute du mur de Berlin. Sans D. Day, pas de nouvelle Europe à 6, à 15, à 25 et plus. Je suis encore, privilège de l’âge, habité par la joie cosmique, extatique, qui éclatait au-dessus de ma tête d'enfant, lorsque les grandes personnes prononçaient le mot «libération».

 

II fallut attendre le milieu des années 70 pour qu'un président de la République fédérale reconnaisse clairement et distinctement que l’Allemagne, à l'issue de la Deuxième Guerre mondiale, ne fut pas «envahie», mais «libérée». C'est pour que la différence entre les deux mots affiche son évidence décisive que mes proches et mes lointains, à Lyon, à Omaha beach, à Stalingrad sont morts. On parle à tort et à travers, par les temps qui courent, de «légitimité internationale». La seule, la vraie fût inaugurée sur les plages normandes. Si l’ONU, malgré son côté capharnaüm, ne ressemble pas tout à fait à la triste SDN, c'est que ses fondateurs à San Francisco avaient juré que le Japon et l’Allemagne ne seraient ni conquis ni colonisés, mais purement et simplement libérés du fascisme. D'où deux principes qui, étayant silencieusement la Charte des Nations Unies, surdéterminent ses inévitables ambiguïtés et contradictions : 1/le droit des peuples à être libérés, 2/ l'autolimitation du droit du vainqueur, interdit de conquête mais introducteur de démocratie.

 

Le droit des peuples à être libéré d'un despotisme extrême - droit au D. Day - prime sur le respect ordinaire des frontières et le principe séculaire de souveraineté. Eu égard à la Déclaration universelle des droits de l'homme, expérience des totalitarismes aidant, le très essentiel droit des peuples à disposer d'eux-mêmes ne doit ni garantir ni impliquer le droit des gouvernants à disposer de leurs peuples. Le débarquement en Normandie fonde les interventions récentes au Kosovo, en Afghanistan et en Irak, même sans couverture du Conseil de Sécurité. Pour une raison décisive : la légitimité inaugurale qui présida à la constitution de l'ONU l'emporte en autorité sur la jurisprudence ordinaire des institutions issues de cette légitimité fondatrice. […]

 

Les Etats-Unis peuvent-ils encore se réclamer du droit d'ingérence baptisé dans le sang versé pour libérer l'Europe? Oui. Malgré les ignominies récentes commises dans les prisons irakiennes? Oui. Car dans le pire comme pour le meilleur, les Etats-Unis demeurent une démocratie. Et même la plus exemplaire des démocraties, la seule à ma connaissance qui n'ait pas censuré, en pleine guerre, la publication des crimes commis par ses soldats. La seule où la presse et la télévision dévoilent en quelques semaines l'ampleur des exactions et scrutent librement les tenants et les aboutissants du crime accompli. La seule où les commissions d'enquête parlementaire citent à comparaître un président, des ministres, des généraux, les chefs des services secrets en les interrogeant sans ménagement ni restriction.

 

 

André Glucksmann

in Le Discours de la Haine pp. 128-129

© Editions Plon, 2004

 


26.2.11

 

 

 

 

Warsaw Pact invasion of Czechoslovakia in August of 1968

Photo: Ladislav Bielik  aqui

 

 

 

At Wenceslas Square at the center of Prague, below the bullet-scarred facade of the National Museum, tens of thousands of people with transistors to their ears milled around in streets filled with crushed automobiles and pieces of masonry that had been shot down from the surrounding buildings. Walls were covered with painted slogans. Trucks draped with Czechoslovak flags rammed into the Russian tanks and the air rang with the sound of intermittent gunfire.


Standing in the crowd, I felt that this was the supreme moment of our lives. During the night of the invasion, when we lost everything, we found something that people in our world hardly dare to hope for: ourselves and each other. In all those faces, in all those eyes, I saw that we all thought and felt alike, that we all strove for the same things.


Prague resisted in every way it could. Street signs disappeared or were turned around so that the invaders were unable to find their way through the city. License plate numbers of Soviet Security cars were painted in large digits on the walls. Radio and, later, television broadcasts were transmitted from makeshift facilities that were moved from place to place, eluding the Russians. At the same time, the train carrying Russian radio station-detector equipment was lost on its way to Prague. For days it was shunted from siding to siding by Czechoslovak railwaymen. And throughout the city, hungry Russian soldiers who could not get a crumb of food or glass of water from the population wandered through streets where all the traffic signs pointed in one direction: back to Moscow.

 

 

Heda Margolius Kovály

in  Under a Cruel Star – A Life in Prague 1941-1968

Translated from the Czech by Franci Epstein and Helen Epstein with the autor

Holmes & Meier, New York

© Heda Margolius Kovály, 1986

 

 

 

 

 

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9.11.09

 

 

 

Para o melhor e o pior, Vasco Luís e Margarida Futscher Pereira não assistiram à queda do muro de Berlim em 1989 nem ao 11 de Setembro de 2001. Foram outros os acontecimentos e as catástrofes que presenciaram, mas o tempo em que viveram preparou o nosso.

 

 

Isto escrevi eu no texto de apresentação de Retrovisor um Álbum de Famíliajá que o desgosto de os meus pais não terem assistido ao fim da Guerra Fria só teve paralelo no alívio de não terem visto os atentados de Nova Iorque e Washington. 

 

 

Sobre a queda do Muro de Berlim sugiro a leitura do artigo "Seven Minutes that Shook the World" do jornalista Daniel Johnson aqui

 

 

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4.11.09

 

 

 

 Le corps d' Hector  

Jacques-Louis David, 1778

 

 

 

 

Le nihilisme a été, est et sera. Il persévère non point comme une fatalité ou un système, mais comme une permanente et polymorphe adversité, un chapelet d'ombres dont la modernité ne saurait se défaire, bien qu'elles menacent de l’engloutir. Face à l'ampleur des destructions possibles, dès son origine l'Occidental se donne le choix. Soit il se laisse fasciner et se précipite, à corps perdu, dans la fournaise. Soit il prend du recul, tels Priam et Achille, le vieux roi de Troie et le jeune héros grec, pleurant, chacun dans ses pensées, près du cadavre d'Hector. Le recueillement, qui conclut L’Iliade et lui confère une hauteur inégalée, impose son silence au fracas des armes comme aux cris des enthousiastes. Les Grecs nomment pudeur, aidos, la distance qu'ils savent prendre avec le sang qu'ils versent et la fureur qui les habite. Soljenitsyne plaide pour le «principe capital» de  l’autolimitation des États, des sociétés et des citoyens, seul frein susceptible de contrôler les fantastiques puissances de la modernité. L'écrivain russe retrouve sous un autre vocable l'exigeante pudeur grecque qui tente de dompter par la douceur et la pitié réciproques les tempêtes et les audaces de la trop humaine hybris. Il y a cependant une différence. À partir de quoi la pudeur prend-elle sa si nécessaire distance? À partir de Dieu, conseille Soljenitsyne, qui recommande aux contemporains de retrouver un «sentiment totalement perdu : l'humilité devant Lui». Homère est plus direct. C'est devant le bruit et les larmes, le sang et la fureur, que la pudeur opère son mouvement de recul, c'est de l'horreur dévisagée telle quelle qu' Achille, Priam et Homère lui-même se distancient.

 

Aujourd'hui, l'Européen «vit comme si Dieu n'existait pas», observe le pape Jean-Paul II. Et dans la patrie de Soljenitsyne, au-delà des simagrées des locataires du Kremlin, seuls 4% des habitants sont orthodoxes pratiquants. L'expérience phare n'est plus religieuse, elle est redevenue littéraire et artistique, comme elle le fut à l'origine homérique de l'Occident. Grâce à Flaubert et Dostoïevski, Tchekhov, Chalamov et  Soljenitsyne lui-même, il n'est nullement avéré que nous ayons perdu au change.

 

L' Européen vit sans Dieu, force est de constater qu' il vit bien. Mais il vit aussi comme si le mal n'existait pas et risque de finir mal.

 

André Glucksmann

in Dostoïevski à Manhattan  p. 243-244

© Éditions Robert Laffont,S.A., Paris 2002

 

 

 

 

 

 


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20.10.09

 

 

 


Photo: Tomasz Kizny 

 

 

L'univers concentrationnaire entraîne l'éclipse de Dieu. Il interpose entre l'homme et le divin la Révélation d'un mal total. Un mal extrême, tel qu'il est impossible d'en imaginer plus destructeur. Un mal général, dont la contagion et la reproduction toujours possibles interdisent de garantir son éradication. Si la foi fonctionne en preuve ontologique, elle découvre sa contre-preuve dans l'épreuve humaine de «faire le mal pour le mal» (P. Levi), la capacité d'instaurer le néant tout en affirmant l'être. «Il est généralement dans le fait d'être homme un élément lourd, écoeurant, qu’il est nécessaire de surmonter. Mais ce poids et cette répugnance n'ont jamais été aussi lourds que depuis Auschwitz. Comme vous et moi, les responsables d'Auschwitz avaient des narines, une bouche, une voix, une raison humaine, ils pouvaient s'unir, avoir des enfants: comme les Pyramides ou l'Acropole, Auschwitz est le fait, est le signe de l'homme. L'image de l’homme est inséparable, désormais, d'une chambre à gaz (1)»
.

La foi avait allégrement assumé la non-existence des Êtres Suprêmes sur la terre. Elle remettait leur venue au monde à plus tard. Elle promettait d'y travailler. La nouvelle mort de Dieu bouscule pareilles professions de foi. C'est l'essence de nos grandes notions qui se vide dans une irrattrapable hémorragie... Dieu tout-puissant où es-tu? Perdu ? Absent ? Malentendant? Quand l'horreur surgit, si le Seigneur est toute-puissance, ou bien il n'est pas toute-sagesse, ou bien il n'est pas toute-bonté. Si le Seigneur est omniscient et s'il est charitable, il faut croire qu'il est impuissant. Le concept traditionnel de l’être parfait devient fou (2). Son double profane, le concept d'Humanité, ne se porte pas mieux. Il dégringole en sa compagnie. At Auschwitz not only man died, but the idea of man, poursuit Élie Wiesel. Pas seulement l'homme mais l'idée de l'homme meurt (3).


«Tous les sentiments humains, l'amour, l'amitié, la jalousie, l'amour du prochain, la charité, la soif de gloire, tous ces sentiments nous avaient quittés en même temps que la chair que nous avions perdue pendant notre famine prolongée... Le camp était une grande épreuve des forces morales de l'homme, de la morale ordinaire et quatre-vingt-dix-neuf pour cent des hommes ne passaient pas le cap de cette épreuve... Les conditions du camp ne permettent pas aux hommes de rester des hommes, les camps n'ont pas été créés pour ça.» Passant les portes du Goulag, Varlam Chalamov a répondu en écho (4). Les rescapés parlent toutes les langues, ils viennent d'horizons, de pays, de partis, de conditions diverses. Après l’orage, s'ils survivent, ils empruntent des chemins divergents. Néanmoins le défi que tous lancent est identique. La négation totale de ce qu'ils tenaient auparavant pour souhaitable, imaginable, permis et défendu, pensable ou impensable impose, bon gré mal gré, une remise à plat radicale des catégories évidentes, «les hommes normaux ne savent pas que tout est possible»(5).

 

 
 
André Glucksmann
in La troisième mort de Dieu  p. 168- 167
© NiL éditions, Paris 2000

notas:


1) G. Bataille, Oeuvres complètes tome II, Gallimard, 1970, p. 226.

 

2) «Auschwitz a été pour moi une telle expérience qu'elle a balayé tout reste d'éducation religieuse... Il y a Auschwitz, il ne peut donc pas y avoir de Dieu. Je ne trouve pas de solution au dilemme. Je la cherche, mais je ne la trouve pas.»

Primo Levi, in Conversation avec Primo Levi, Gallimard, 1991, p. 74-75.

 

3) C. Wardi, Le génocide dans la fiction romanesque, PUF, 1986, p. 46 s.

 
4) Varlam Chalamov, Récits de Kolyma, Maspero, 1980, p. 31, II.
 
5) David Rousset, L'Univers concentrationnaire, Hachette poche Littérature 1998, p. 181. 

 

 

 

 

 

 

Imagem: fotografia de Tomasz Kizny. Um artigo sobre o trabalho deste fotógrafo aqui

 

 

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