18.5.16

 

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Escolher o burro ?

 

 

 

Ou, quando se passa de cavalo a burro, como está a acontecer agora à Europa, nem a essa escolha se tem direito? Eu, se mandasse nalgum país ou nalguma instituição da União Europeia – “But that is not real, it’s politics isn’t it?” palpitou caixeira de um Brooks Brothers de Washington a diplomata europeu seu freguês – faria o que pudesse para que a besta não mudasse muito na metamorfose. Porque quando se olha à roda do globo terrestre – que cada um vê à sua maneira: eu, por exemplo, aos 8 anos, na escola da D. Maria Prego na Travessa da Capelinha ao Largo da Igreja de São Francisco, fiquei a saber que Portugal tem a Nova Zelândia como país antípoda, que se se começasse a cavar, cada vez mais fundo, debaixo dos nossos pés e se resistisse às temperaturas extremas do centro da Terra e se continuasse a cavar, mais e mais, acabaria por se sair para o ar livre, furando a crosta de dentro para fora, numa das ilhas da Nova Zelândia, o que dava a esta, de certa maneira, quase uma espécie de vizinhança. Depois, durante a Guerra – lá em casa eramos anglófilos – quer em Lisboa, quer na Ilha Terceira, quer outra vez em Lisboa depois do Pai ter sido desmobilizado, os ingleses enchiam-nos de propaganda e um dos livros mandados por eles era de Ngaio Marsh, escritora neozelandesa de policiais, de que gostei muito. Passadas algumas décadas, descobri Popper – foi descoberta maior: durante um par de anos impingi A Sociedade Aberta e os seus Inimigos a gregos e troianos, sobretudo a troianos (pelo andar da carruagem desde Outubro do ano passado, devia tê-la impingido muito mais ainda) e, de caminho, soube que o homem, judeu fugido da Viena nazi, antes de se ter instalado em Inglaterra, onde meteu Wittgenstein na ordem sobre a maneira de tratar visitas e foi armado cavaleiro pela Rainha Isabel II, ensinara na Nova Zelândia o que me caiu bem. E há pouco mais de dez anos fiz amizade em Princeton com o italiano Nicola Di Cosmo, autoridade na história das relações da China com a Ásia Central desde a Pré-História com quem muito aprendi, chegado em 2003 da Nova Zelândia.

 

Se o mundo fosse só Portugal e a Nova Zelândia a passagem de cavalo a burro não faria diferença nenhuma. Infelizmente não o é e todo o cuidado é pouco. Entre os dois antípodas a agitação do mundo não para mas enquanto a Europa vai vendo fatias do bolo que dantes lhe cabiam caberem agora a outros sem transtorno de maior para a sua gente (apesar de queixa permanente), os candidatos a senhores futuros, os chamados BRICs, não estão – salvo talvez a Índia – a dar conta do recado. A China é ditadura atroz; a Rússia para lá caminha; do Brasil nem falar. Nenhum soube criar aquilo a que chamamos estado de direito e protecção satisfatória dos direitos do homem. Entretanto, quando a Europa era rica e poderosa inventou a sua União. Ainda o é - mas muitos europeus julgam que não e culpam a União por isso. Insensatez perigosa que eu espero que os ingleses contrariem a 23 de Junho.

 

 

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30.4.16

 

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geringonça
ge.rin.gon.ça
nome feminino
(do provençal antigo, gergon, «linguagem corrompida ou incompreensível»)

 

A origem deste termo parece ser a mesma da palavra francesa a que fomos buscar o nosso «jargão», que designa a linguagem de um grupo, mais concretamente o léxico específico de um grupo profissional ou social (o mesmo que gíria, portanto), nisso diferindo de calão, que é um fenómeno similar, mas em registo mais circunscrito e grosseiro.
Certo é que a palavra adquiriu uma nova vida, isto é, um outro sentido, que é praticamente o único que encontramos no português contemporâneo, e que também existe no equivalente espanhol jeringonza. E, assim, a geringonça é um artefacto rudimentar que, podendo ser relativamente astucioso (característica que partilha com engenhoca), é especialmente imperfeito ou mal feito, mal engendrado, tosco, grosseiro, mal-amanhado, mal-enjorcado, atamancado, albardado, de tal modo precário na sua construção – a qual podemos ver como estando presa por fios ou por arames – que a qualquer momento ameaça partir-se, desfazer-se, desconjuntar-se, descompor-se, desmanchar-se.

 

 

 

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23.4.16

 

 

 

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bofetada

bo.fe.ta.da

Nome feminino

(de bofete + ada)

 

A definição geral é a de um golpe facial assente, ou plantado, com a palma da mão. Também as há dadas com a parte de trás da mão, tomando nesse caso, popularmente, o nome de mosquete ou mesmo de safanão. Porém, quando se dão ou se prometem bofetadas, que não sejam «sem mão» ou «de luva branca», formas mais sofisticadas e exemplares, há que ter em conta a imensa variedade de matizes e subtilezas que este gesto envolve, conforme quem o desfere, a sua origem social, o nível cultural, a idade, a região do país, o contexto desencadeador e o estilo pessoal; e, claro, o grau de violência com que é desferido ou, até, a zona atingida, como no caso da orelhada, de boa tradição alentejana, o sopapo ou o trompázio.
Deste ponto de vista, bofetada é até o termo mais suave, mais cândido, mais «totó» ou «nini» se quisermos, juntamente com a palmada ligeira que é o bofete ou a tapa, termos mais açucarados e outro-atlânticos. Muito abaixo portanto do clássico tabefe (de origem árabe), breve e enérgico, com a mesma secura eloquente do estalo e da estalada. Talvez por isso todos estes se apliquem indiferentemente a crianças e adultos, homens e mulheres, cidadãos e cidadãs, homo ou hétero, bi ou poli, e até mesmo a transgéneros.
A bofetada popular tem uma variedade de expressões. Umas de carácter impiedoso, que revelam a intenção e a força usada (ou a usar) como chapada, lambada, lampana ou latada; outras são eufemismos estilosos, maneirismos, e revelam mais sobre quem as pronuncia do que outra coisa: pastilha, galheta, bilhete, bolacha ou bolachada, estampilha e sorvete. De resto, a variação de intensidade ganha particular nitidez no mundo, ou melhor, no mar de diferenças que existe entre a sardinha e a solha, passando pela sarda.
Lugar à parte, pela sua riqueza expressiva, mas também pelo seu desuso corrente, tem a palavra sinapismo como sinónimo de bofetada: impregnada dos ardores da mostarda, ela é, entre todas, a única que remete para remédio ou tratamento.

 

 

 

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13.4.16

 

 

 

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Em April, águas mil.

 

 

 

Gente mais lida do que o comum dos mortais deste maravilhoso país que tão generosamente acolhia no seu seio o meu chorado A. B. Kotter (Ei Bi para os amigos), inglês da Várzea de Colares - mais lida e mais provinciana (os piores sãos que acham que o não são, como disparou um dia a Teresa Gouveia, irritada já não me lembro com qual deles) quando, diante dos incómodos e contradições pós-equinociais do quarto mês do ano, gosta mais de dizer “Abril é o mês mais cruel” e, de preferência, dizê-lo em inglês - April is the cruellest month - papagueando a primeira e mais célebre linha do mais célebre poema moderno do século XX na língua do Bardo, The Waste Land, publicado em Londres em 1922, escrito por americano de Missouri com tal mania de ser inglês que se naturalizou, protestante, na Church of England mais precisamente depois da vinda para Inglaterra, e com tanta vontade de ser Católico Apostólico Romano que só a liturgia da High Church o contentava, educado em Harvard e vindo continuar os seus estudos de lógica formal em Merton College, Oxford, visitando também muito Bertrand Russell em Londres, que não só lhe ensinou lógica mas também lhe seduziu a mulher, muito neurótica, a quem aventuras como essa infelizmente não salvaram nem o casamento nem a saúde e acabou sozinha num hospício, enquanto o marido se foi inclinando cada vez mais para o vers libre (a mãe, numa carta a Russell, contava não dar nada por essa fantasia e esperava que ela passasse deixando o terreno à reflexão filosófica: quando T.S. Eliot veio a receber o prémio Nobel da literatura em 1948 já a Senhora tinha morrido) acompanhando muito com outro americano, Ezra Pound - que viraria fascista antes da Segunda Guerra Mundial havendo sido internado – cuja mestria poética é universalmente reconhecida, reviu e emendou The Waste Land que Eliot lhe dedicou chamando-lhe Il miglior fabbro.

 

Chuva e sol no dia de ontem levaram às ruminações acima, com 8 horas passadas no aeroporto de Lisboa, chamado singelamente da Portela (o meu nome preferido é Figo Maduro, mais aerogare do que aeroporto porque as pistas são as da Portela). Chegara a Lisboa na véspera com saída de Zaventem, aeroporto de Bruxelas, por corredores e salas improvisadas e erigidas muito depressa depois das atrocidades de 22 de Março, com pessoal dedicadíssimo que ia tratando uma a um, com vigilância atenciosa, quem rumava aos aviões. Menos de um quinto das descolagens diárias normais estão programadas e pôr a zona de embarques novamente como nova poderá levar nove meses. Depois do que se soubera de ineficácias belgas, a caminho e logo a seguir aos ataques terroristas, entrei no Airbus da TAP com admiração respeitosa e grata por aquela gente.

 

Ontem, à volta, balde de água fria. Sobre a diligência do resto do pessoal e perante indignação geral no país, os controladores aéreos belgas meteram-se a greves intermitentes que já estavam programadas. A espécie humana dá uma no cravo, outra na ferradura.

 

 

 

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6.4.16

 

 

 

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Monumento aos soldados portugueses mortos na 1ª Guerra Mundial

António Teixeira Lopes (1928)

La Couture, França

 

 

 

 

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O primeiro pecado é ser pobre

 

 

 

Assim escreveu Bernard Shaw, irlandês saído da minoria protestante da ilha, no começo do século passado acrescentando que quando alguém diz “sou inculto mas é porque sou pobre” está a desculpar um mal com outro pior. É como se estivesse a dizer sou coxo mas é da sífilis. Escreveu também que o dinheiro não dava felicidade mas dava uma coisa tão parecida que só um perito era capaz de as distinguir. Amiga minha a quem anos de vida nos Estados Unidos instilaram bom senso revivificante nas sinóvias morais instaladas em menina e moça pelas Doroteias gosta de lembrar às vezes com algum schadenfreude que “mais vale ser rica e saudável do que ser pobre e doente”. Conheci no Alentejo profundo Senhora chamada Antónia, mulher de taberneiro-seareiro com pendor filosófico, tão enérgica, metódica, esperta e diligente na lida do seu negócio, trazendo a taberna num brinco enquanto o marido preguiçava, que eu achava que ela, tal como Wolfgang (Amadeus Mozart), Pablo (Ruiz Picasso) e William (Shakespeare) não deixava “criar gordura ao músculo do dia”.

 

Fora Portugal assim… Mas não é. Se o meu entusiasmo lírico era evidente, já o Senhor Teófilo, compadre dela e secretário da Junta de Freguesia, se queixava: “É boa rapariga, a Antónia – é pena ter aquela coisa do lucro.” Aquela coisa do lucro… O lucro ser coisa má é convicção que parece permear o país de alto abaixo e de lado a lado, desde a direita das sacristias tradicionais (as Misericórdias, por exemplo, limitavam rigorosamente o juro – baixo - a que emprestavam dinheiro) até à esquerda dos sindicatos modernos (“La propriété c’est le vol” foi Proudhon quem o disse primeiro mas não era por isso que Marx o detestava). “Hoje fiz manhã de rico!”, expressão que ouvi também no Alentejo a jovem funcionário do Grémio da Lavoura com quem encalhei no café central da terra, sentado diante de um café com leite e de uma torrada às onze da manhã, deixaria qualquer milionário americano, por um lado, indignado por se pensar que as manhãs dele eram assim e, por outro, relutante diante de sugestões de investimento num lugar onde se julgava que os ricos assim eram – talvez por ser o caso dos indígenas ricos. A América dos negócios ficara inquieta quando descobrira que Ronald Reagan descia ao seu escritório na Casa Branca às 9 da manhã, em vez de ser às 7 como qualquer protestante anglo-saxónico branco que se prezasse.

 

Algures entre a apresentação de Os Lusíadas a D. Sebastião e as três invasões francesas perdeu-se o fio à meada. O pai dizia que não somos descendentes dos que foram à Índia: somos descendentes dos que cá ficaram. Em tudo. Quarta-feira passada lembrei-me de Fernão Mendes Pinto, dizimando chineses a poder de Avé-Marias e pelouros; hoje lembro-me de um tenente-coronel reformado adorável, muito de casa do meu primeiro sogro, que na batalha de La Lys comandara uma bateria de morteiros. Contou-me que sempre que mandava um para o outro lado rezava para não matar ninguém.

 

 

 

 

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23.3.16

 

 

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Samora Machel e Ramalho Eanes

 

 

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Nobre povo

 

 

 

Quando o Presidente Ramalho Eanes visitou Moçambique em 1981 a expectativa local era imensa. Pela primeira vez desde a independência, que tinha sido só há seis anos, um presidente português visitava o país, havia espíritos claros e espíritos baralhados e houve ajustes de última hora a fazer. Do nosso lado, por exemplo, para o banquete oferecido por Eanes, em retribuição do banquete de boas vindas que Samora Machel, Presidente de Moçambique, lhe oferecera, o Protocolo do Estado em Lisboa fizera imprimir cartões de convite na boa cartolina do costume com espaço em branco onde os nomes dos convidados fossem depois escritos à mão na embaixada em Maputo: O Presidente da República/ tem a honra de convidar (espaço em branco), etc.. Os cartões chegaram felizmente alguns dias antes e, de entrada, o Protocolo não percebia ser preciso corrigir a asneira: então não era o Presidente que convidava? Era com certeza, mas não estava em Portugal e seria por isso preciso precisar que era o Presidente da República Portuguesa. Em Moçambique, “O Presidente da República”, sem mais nada, significaria Samora Machel ou, pior, daria a entender que Portugal não se dera ainda bem conta da volta dada pelo mundo.

 

Do lado moçambicano o equívoco foi muito diferente e muito maior. Chovia a potes no dia em que Eanes chegou a Moçambique e em Moçambique chuva dá sorte. Animado, o povo saiu à rua sem necessidade do enquadramento e dos cantes da Frelimo, correntes à época para louvor de causas que o regime achasse nobres – “Vamos para a Tanzania/Agradecer ao Presidente Nyerere”, etc. -, aplaudindo e provavelmente esperançado que depois da chegada do presidente português chegasse outra vez comida. Não chegou mas, apesar disso, toda a gente, dum lado e doutro, achou a visita um sucesso. As relações entre Lisboa e Maputo nunca se estragaram e o actual Presidente de Moçambique foi o único chefe de estado dos PALOP convidado e presente na cerimónia de tomada de posse do novo presidente português.

 

Não sei se entendimento entre os povos nos está na massa do sangue ou não mas imprensa estrangeira especializada na coisa europeia, distante do ‘peito ilustre Lusitano’ e por isso mais ‘objectiva’, como os comunistas gostavam de dizer, tem, nos últimos dias, feito notar que, em contraste flagrante com os seus colegas da União, o nosso primeiro-ministro acha que não nos mandaram refugiados a mais mas sim a menos e pede que venha mais gente. Atitude de nobreza rara nesta tragédia dos fugitivos da guerra na Síria, quando tantos dos seus pares se levantaram contra Angela Merkel num espectáculo de falência moral equivalente à dos entusiastas de Donald Trump nos Estados Unidos. Contra a corrente, entendo que se vai chegar a alguma decência europeia porque amor do próximo lá levará. E não fará mal lembrar que entre os “retornados” havia muitos que nunca tinham estado em Portugal, muitos que não eram brancos, e muitos que eram muçulmanos e hindus. Nação valente e imortal.

 

 

 

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9.3.16

 

 

 

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edição FFMS 2016

 

 

Quando as notícias deram conta, a propósito do livro de Henrique Raposo, das manifestações daquela «vocação do energúmeno» de que Nemésio fala no seu belíssimo prefácio a um livro sobre Polémicas Portuguesas[1], desta vez sob a forma de auto-de-fé, senti que talvez tivesse de contrariar a minha aversão a meter o nariz onde não sou chamado. Ou admitir que havia chamamento, afinal.

 

É que de imediato reconheci o espírito – ou, melhor, a falta dele – que estava por detrás das ditas manifestações, e quase por instinto decidi que queria estar na apresentação pública do livro (e na altura nem sabia que Rentes de Carvalho usaria da palavra!). A minha vivência alentejana difere, no tempo, no espaço e na duração, da experiência de Henrique Raposo: é mais antiga, mais interior (em sentido duplo), mais longa e abrangente. Mas talvez igualmente distanciada e crítica.

 

Estimo a ousadia de Henrique Raposo, que não conheço pessoalmente, e creio que ele dá corpo a algumas intuições certeiras. Estimo igualmente a genica com que procura um paradigma diferente na abordagem do Alentejo e das suas mitologias. Mas também penso que é por vezes demasiado ligeiro, até abusivo, nas generalizações, e, malgré lui, dominado por um certo romantismo.

 

A minha ideia de ir à apresentação era, em primeiro lugar, marcar presença (coisa que só para mim contaria), aliás logo justificada ao notar a presença façanhuda e pesporrente de algumas personagens entre a assistência. Conheço bem o género. Depois, chegar à fala com o autor e dizer-lhe: parabéns pelo seu livro, que li com interesse, também eu sou alentejano, não há como ver-me livre disso e lido bem com a coisa, e gostaria um dia de trocar impressões sobre um certo número de ideias, factos e memórias.

 

Fiquei-me pela presença. O resto fica aqui dito.

 

Jorge Colaço

 

[1] Direcção de Artur Anselmo, 2 vols., Verbo, 1964 e 1967.

 

 

 

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Alentejo

 

 

 

Robert Lowell dava aula no colégio de All Souls em Oxford. Um estudante quis saber o que é que ele pensava de literatura “engagée”. Que era uniformemente má. O estudante insistiu: “E o livro de Norman Mailer sobre o Vietname?” “O livro de Norman Mailer sobre o Vietname não é sobre o Vietname é sobre Norman Mailer”.

 

Isto à laia de introito ao Alentejo prometido de Henrique Raposo, que é mais sobre Henrique Raposo do que sobre o Alentejo, sem por isso perder qualidade. Li-o com gosto e curiosidade e fico à espera de investigação sistemática e pormenorizada sobre temas nele aflorados – passado de violência e suicídio, por exemplo – para ficarmos a saber melhor o que por lá houve e haja ainda. O que Raposo publicou é estimulante mas é pouco e impressionístico.

 

Sobre suicídio, tinha-me telefonado faz já algum tempo porque há quase meio século publiquei monografia sobre outra parte do Alentejo e oficiais do mesmo ofício gostam de comparar notas. Não pude ser-lhe de grande utilidade: sim, também havia suicídios por onde eu tinha andado – as mulheres normalmente atiravam-se a poços com as saias atadas para não flutuarem; os homens davam tiro de caçadeira na boca, o gatilho puxado pelo dedo grande do pé – e disso já ele sabia. Só agora, lendo o livro, percebi porque é que o fenómeno do suicídio lhe fez tanta impressão e não ma tinha feito a mim. Henrique Raposo tem objecção moral ao suicídio e eu não. Além disso, nado e criado nos arredores de Lisboa, foi tentar perceber a terra donde vinham os seus pais a partir de instituições e valores morais muito marcadas pelas do Norte de Portugal. Para muitos alentejanos, o suicídio, por mal que possa fazer a gente próxima do suicida e por distúrbio na comunidade que cause, não constitui ofensa a Deus porque Deus não existe. E as razões da sua prevalência em terras transtaganas - as estatísticas parecem inequívocas, embora se deva lembrar que, em lugares onde o suicídio seja grande pecado e socialmente muito mal visto, certidões do óbito possam não o mencionar – terão, julgo eu, fundamento histórico simples.

 

Enquanto a cristianização do Norte de Portugal coube ao clero secular de dioceses e paróquias, a cristianização do Alentejo foi sobretudo feita por Ordens religiosas. Se a densidade populacional era mais baixa no Sul do país do que no Norte, a densidade de pessoal religioso era muito mais baixa ainda e, com a extinção das ordens religiosas do Liberalismo, a situação piorou. No começo da República, as coisas não se passaram muito mal: mais padres no Alentejo do que no Norte do país aceitaram ser pagos pelo Estado. Mas em 1960, menos de metade das paróquias tinham pároco no Alentejo: “país de missão”, chamava-lhe a Igreja. Não creio que, entretanto, tenha mudado muito.

 

 

NB Alentejo prometido é interessante e bem escrito. Mesmo que o não fosse, a agressão alentejana a autor e livro por pimpões e pimponas ofendidas, no século XXI e na Europa Ocidental, deixa este alentejano de boca aberta.

 

 

 

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2.3.16

 

 

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Lord Ismay, 1º secretário-geral da OTAN, no seu gabinete, palais de chaillot,  1953

© OTAN/NATO

 

 

 

 

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Olhar por nós

 

 

 

 

Com segurança não se brinca. Seis anos de guerra sem quartel acabando em rendições incondicionais da Alemanha e do Japão em 1945 temperaram os Estados Unidos, deixando-os aptos a chefiarem aquilo a que chamávamos o Mundo Livre durante a Guerra Fria.

 

Em geração próxima – Churchill seria um dos vencedores de duas guerras mundiais; Hitler, um dos vencidos –, a seguir à vitória de 1918, o Senado desfizera os sonhos do Presidente Wilson, recusando que os EUA se juntassem à Sociedade das Nações. Entretanto, as condições leoninas impostas à Alemanha vencida ajudaram ao colapso da República de Weimar e ao triunfo eleitoral do nazismo. (Convém nestes dias de Trumps, Le Pens e Putins, lembrar que Hitler não tomou o poder pelas armas; apanhou-o do chão em eleições livres e limpas).

 

Assim, em 1945 a Alemanha, ou pelo menos a parte dela que coube ao Ocidente, foi poupada a exacções ruinosas. Pelo contrário, em 1953, quando até mesmo os franceses tinham percebido que o inimigo passara a ser a Rússia e deixara de ser a Alemanha, quase toda a dívida que restava das duas guerras lhe foi perdoada para a ancorar melhor ainda no Ocidente. Washington queria ter os pés bem assentes no chão: só depois de alguns europeus terem criado organização de defesa própria – a União da Europa Ocidental – os americanos se dispuseram a negociar com eles e alguns outros, quase todos democracias (Portugal era a excepção e a base das Lajes a razão dela - com segurança não se brinca) o Tratado de Washington, assinado em 1949. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN/NATO) estabeleceu-se em 1952. A maior e mais reputada aliança militar do mundo contemporâneo desimaginou durante quarenta anos a URSS de aventuras insensatas e ganhou a Guerra Fria sem ter de dar um tiro (salvo em exercícios de fogos reais).

 

Desde essa altura houve quem achasse que devia acabar: amantes imprevidentes da paz, que não são poucos e nunca aprendem; anti-americanos primários, convencidos de que a Rússia deixara de ser problema e, sobretudo, a Rússia de Putin que diz ser o alargamento da OTAN a Leste uma provocação agressiva (dado que Geórgia e Ucrânia, vizinhos da Rússia que estão fora da OTAN, são atacados pelos russos, e outros vizinhos, dentro dela, não o são, é preciso ter lata).

 

Único instrumento colectivo de defesa de que dispomos, para além de continuar a meter respeito profilático desempenha outro papel crucial: refreia nacionalismos militaristas dos Aliados, pondo os europeus na bicha e não virados uns contra os outros. Defender-nos-á de eventuais invasores - terroristas, cibernéticos, nucleares, convencionais. (E, se o Kremlin ganhar um dia boa-fé, será interlocutora ideal na discussão de interesses europeus e americanos).

 

Só não serve para a vergonha actual: 500 milhões, prósperos e anafados, enxotando como pestíferos escassas centenas de milhares de homens, mulheres e crianças fugidos de guerra nas suas terras, no engodo enganado dos valores europeus.

 

 

 

 

 

 


25.2.16

 

 

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Recolher, preservar e divulgar as memórias de gente comum, reconhecendo que esses testemunhos de vida contribuem para o conhecimento da história e da identidade nacionais, é a missão do Arquivo dos Diários, associação cultural criada há dois anos, que lançou o concurso “Conta-nos e Conta Connosco”, destinado a enriquecer o seu acervo.

 

Agora que dispõe de uma equipa e de um espaço na Biblioteca de São Lázaro, graças a uma parceria com a Junta de Freguesia de Arroios, a associação está em condições de começar a reunir cartas e diários através dos quais os portugueses poderão contar a sua história. Diários, cartas, fotografias e filmes caseiros ou simples evocações feitas pelas pessoas são uma parte importante na construção da memória de cada um. Mas esses documentos servem também para ajudar a construir a narrativa de uma comunidade. A ideia é catalogar por temas tudo o que for recebido e, no futuro, disponibilizar o acervo num meio digital. 

 

Existem já em vários países europeus arquivos dedicados a recolher a memória popular, designadamente o Archivio Diarístico Nazionale, em Itália, que serviu de referência a Clara Barbacini e Roberto Falanga, fundadores deste projecto.

 

 

 

 

 

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© Soraia Martins 

 

 

 

O principal obstáculo, admitem, é chegar às pessoas e mostrar-lhes que as suas memórias e objectos pessoais podem ajudar a desenvolver outros projectos interessantes, do cinema ao teatro, da ficção à investigação, ou simplesmente servir para consulta de quem tem curiosidade por histórias de outros tempos.

 

“Espero que os portugueses desmintam o pudor como traço da sua cultura”, diz Roberto. “Sei que vai ser complicado, mas desafiante. E acho que só o facto de alguém se questionar se deve ou não entregar [os diários e cartas da sua família] já é bom. Estimula o pensamento. Nesse tempo de reflexão o tema esteve ali, a ser considerado.”

 

Também sabem que poderá haver resistências à entrega de materiais e à publicação. “Sabemos que estamos a tocar assuntos muito delicados”, asseguram. Recordam o caso de uma mulher, vítima de violência doméstica, que ganhou em Itália um concurso semelhante ao agora lançado em Portugal e só anos mais tarde recebeu o prémio, depois de o marido morrer. Há também questões legais que podem colocar-se, por exemplo, no caso de pessoas que encontram ou compram materiais que não se importam de doar mas que dizem respeito a terceiros.

 

Tal como em Itália, está prevista a publicação anual de pelo menos um diário: quem entrega os seus materiais pode escolher participar num concurso aberto até 1 de Março próximo. Depois, um painel de dois júris – um popular e um técnico – escolherá um vencedor. Será publicado pela Penguin – Companhia das Letras.

 

As entregas podem ser feitas na Biblioteca de São Lázaro todos os sábados das 11h às 13h ou enviadas por correio e a associação tem um site com toda a informação em www.arquivodosdiarios.pt. Tem também uma página de Facebook aqui.

 

Arquivo dos Diários

Biblioteca de São Lázaro

Rua do Saco, 1  Lisboa 1169-107 (Freguesia de Arroios)  

 

 

Agradecimentos:

 

artigo de Vanessa Rato no jornal Público, artigo de Samuel Alemão em “O Corvo” e textos reunidos no site Arquivo dos Diários.

 

Fotos gentilmente cedidas por Arquivo dos Diários e Soraia Martins

 

 

 


19.2.16

 

 

Os textos do Romanceiro português e respectivos registos sonoros, quando conservados, vão passar a estar disponíveis online e em acesso livre na plataforma Romanceiro.pt. A preservação deste património, através da digitalização, era urgente, já que a sua manutenção nos formatos em que se encontrava (cassetes áudio e fotocópias em papel) constituía uma séria ameaça à sua preservação. 

 

A plataforma digital será apresentada amanhã, pelas 16h, na Fundação Manuel Viegas Guerreiro (Loulé), pelo coordenador do projecto, o investigador Pedro Ferré.

 

O objetivo é tornar acessível ao grande público um arquivo sem par no contexto ibérico, que alberga já perto de 14000 imagens de documentos de grande relevo no âmbito da literatura patrimonial portuguesa, nomeadamente do Romanceiro de tradição oral, e cuja expansão está prevista.

 

Nos últimos anos, os investigadores do CIAC  Pere Ferré, Mirian Tavares e Sandra Boto trabalharam o acervo da Fundação Manuel Viegas Guerreiro, que compreende 660 horas de gravação em 609 cassetes áudio ali depositadas, e onde estão guardadas 3632 versões inéditas de romances e acolhe 10096 versões de romances publicadas entre 1828 e 2010. A plataforma Romanceiro.pt é o resultado do projeto “O Arquivo do Romanceiro Português da Tradição Oral Moderna (1828-2010): sua preservação e difusão”, uma parceria entre a Fundação Manuel Viegas Guerreiro (Loulé) e o CIAC – Centro de Investigação em Artes e Comunicação/FCT (Universidade do Algarve / Escola Superior de Teatro e Cinema) com o mecenato da Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do Concurso de Recuperação, Tratamento e Organização de Acervos Documentais (2013).

 

 

 

 

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O Romanceiro é um género poético tradicional que circula desde os finais da Idade Média na memória dos povos de expressão portuguesa, galega, castelhana e catalã, difundindo-se desde então oralmente de geração em geração. Trata-se, portanto, de um património imaterial de uma vitalidade excepcional e de uma riqueza ímpar que importa preservar, numa altura em que a disseminação das novas tecnologias e dos media parece ter aniquilado talvez definitivamente a sua vitalidade e função no seio das comunidades rurais em que ainda permaneciam até há pouco tempo.

 

Remonta a 1421 o primeiro documento conhecido onde se fixa uma versão de um romance, o "Gentil dona, gentil dona", pela mão do estudante maiorquino Jaume de Olesa. Foi, contudo, o Romantismo que encetou o interesse sistemático por este género poético. Desde 1824, foram coligidas milhares e milhares de versões de romances em Portugal, em Espanha e nos países da diáspora portuguesa e espanhola, sem falar na memória romancística que os judeus expulsos da Península Ibérica nos finais do século XV transportaram com eles pelo mundo e que ainda hoje é preservada.

 

Poderíamos, para o caso específico português, referir-nos ao contributo das recolhas e publicações de versões de romances realizadas a cargo de nomes como Almeida Garrett, Teófilo Braga, Leite de Vasconcellos, Consiglieri Pedroso, Alves Redol, Michel Giacometti, Maria Aliete Galhoz, Manuel Viegas Guerreiro, entre tantos outros. Este arquivo alimenta-se, justamente, dos trabalhos de recolha e publicação do romanceiro tradicional português que estes e muitos outros interessados na literatura de tradição oral levaram e continuam a levar a cabo no presente.

 

 

 

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10.2.16

 

 

 

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25 de Abril de 1974: Francisco Sousa Tavares no Largo do Carmo

 

 

 

 

 

 

 

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Outro 25 de Abril?

 

 

 

Na manhã do dia 25 de Abril do Ano da Graça de 1974 durante o qual nasceram meninas que caminham agora para balzaquianas – o livro de Balzac que inspirou o adjectivo chama-se A Mulher de Trinta Anos (1842) mas progressos da ciência, desde a pílula ao botox, e aligeiramento dos costumes coevo, do corpete às maminhas ao léu, da ‘menoridade’ perante pais e maridos à liberdade de género e de preferência sexual, foram juntando decénios ao protótipo que estará hoje entre os sessenta e os setenta anos – eu tinha ido cedo da minha casa de Belsize Park para o meu gabinete na London School of Economics onde às oito e meia recebi telefonema da Teresa. O João Monjardino, nosso vizinho em Hampstead, telefonara porque o irmão Carlos, banqueiro em Paris, lhe telefonara dizendo que tinha havido um golpe militar em Portugal. (Tudo telefones fixos; não tínhamos outros na altura). “Da direita ou da esquerda?”, perguntei. A essa hora nenhum dos citados acima parecera saber ao certo mas depressa se percebeu - antes das chegadas do estrangeiro de Álvaro Cunhal e de Mário Soares – e há fotografias do Tareco, marido da Sophia e pai do Miguel, arengando a multidão de cima de uma guarita, diante do quartel do Carmo em Lisboa.

 

A Pátria viveu depois ano e meio de Montanha Russa (às vezes com toque de Montanha Americana diria gente de humor barato, ao qual procuro resistir mas o sentimento estava lá: amigo do peito que já morreu achava que se deveria ter erguido na Outra Banda estátua de Frank Carlucci que pudesse emparelhar com a do Cristo Rei). A 25 de Novembro de 1975 a Montanha Russa parou de repente e nos anos menos sacudidos que se seguiram havia de vez em quando quem se exaltasse: “Se isto continua assim, qualquer dia apanhamos com outro 25 de Abril!”. Aí, o António Alçada Baptista, outro amigo que já lá vai, perdia a paciência. “Outro 25 de Abril? Para isso era preciso outro Estado Novo, outro Império Colonial, outras décadas de reviralho, outra tropa farta de comissões de serviço… Nunca mais.” E recordava muitas tentativas falhadas da oposição portuguesa perante população desconfiada de mudança que parecia aceitar tudo do regime e achar, como lavrador alentejano que conheci no tempo antigo: “Isto, Senhor Doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há.”

 

Alguém se lembrou de nos oferecer outra volta na Montanha Russa. Talvez dure mais do que os seus inimigos vaticinam. As quatro décadas sem ela acabaram porque em Outubro passado os portugueses não deram votos que chegassem a liberais mascarados de sociais-democratas. Talvez já estejam arrependidos mas, entretanto, também mascarados de sociais-democratas, vieram comunistas que preferem autoridade e mando do Estado a liberdade e iniciativa de cada um. Será que afinal calam fundo em gente que prefira o conforto preguiçoso de estar bem com a lei que há ao trabalho arriscado de tentar ir mudando a lei? Haverão os portugueses de ser sempre os mesmos por não haver outros?

 

 

 

 

 

 

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3.2.16

 

 

 

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Luís Sttau Monteiro  1926-1993 

 

 

 

 

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Austeridade

 

 

 

Better nouveau-riche than no rich at all, como eles diziam em Palm Beach. Diziam e hão de dizer ainda, que a espécie por lá não está em vias de extinção. Por cá a história é outra: o primeiro de que me lembro a declarar-se nouveau pauvre foi o Luís Sttau Monteiro no tempo do Almanaque, há um ror de anos - estavam as guerras coloniais a começar.

 

Era um percursor até porque, no geral, havia pouco dinheiro (o Luís um dia, irritado com Joaquim Figueiredo Magalhães, o excelente editor libertino que dirigia a revista, disse-me “Se este gajo continuar a chatear-me despeço-me e o dinheiro que ganho aqui vou prá praia e poupo-o” - Deus tenha as almas dos dois em descanso); a primavera marcelista trouxe algum; o 25 de Abril, reavivando medo salutar da União Soviética, fez os nossos aliados ocidentais abrirem os cordões à bolsa e trouxe mais; pré-adesão e adesão às Comunidades Europeias vieram cobrir o bolo de cerejas. O forrobodó continuou até a aldrabice das ‘subprimes’ e a falência de Lehmann Brothers inaugurarem a grande a crise de 2008 por mor da qual Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional, a cujas portas batemos quando reparámos que os cofres estavam vazios, resolveram, por inspiração alemã aceite por todos os governos da União, aplicar-nos o remédio da austeridade.

 

Sempre achei essa receita péssima mas nunca se deve subestimar um povo. Talvez não sejamos descendentes dos que foram à Índia e sejamos, sim, descendentes dos que cá ficaram: pouco importa. No começo do quarto quartel do século XX, em meia dúzia de meses absorvemos mais de meio milhão de refugiados das antigas colónias, sem que houvesse mortos nem feridos, sem gerar uma extrema direita raivosa e com aumento do PIB. Feito colectivo notável, capacidade de encaixe a revelar o estoicismo brando que austeridade e troika trouxeram outra vez para a ribalta nos últimos anos - e estava a fazer-nos sair da crise. Estava. A ânsia de mostrar diferença junta-se a preconceitos ignorantes e à convicção ingénua de que os outros europeus nos querem ajudar.

 

Entretanto, as pessoas que em Portugal consideramos da classe média (sem as quais não há economia que cresça nem cultura que não embote) passaram quatro anos a ver os proventos mirrarem e, pelo andar da carruagem, vão passar assim mais alguns, em vez de recuperarem o gosto do cheirinho a desafogo. Mostraram até agora compostura exemplar mas governo novo, com sangue na guelra, convicto de que o mundo há de querer tratar-nos bem (porque carga de água? Já não há quem se lembre do Syrisa?), excitado por bandarilhas de fogo cravadas pela esquerda apressada que diz apoiá-lo, poderá meter-nos por atalhos inviáveis, esgotar a paciência de quem nos pudesse ajudar e atirar a retoma para as calendas gregas.

 

E nouveaux pauvres cada vez há mais. O que é que se diria deles em Palm Beach? Que seriam melhores do que quê? Do que os pobres sem lembrança de melhores dias que houve sempre? Fraco consolo.

 

 

 

 


27.1.16

 

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Execução de Giordano Bruno 

 

 

 

 

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Velhice do velho continente

 

 

 

Nunca houve tanta gente quanta a que há agora. Somos hoje mais do que a soma de todos os homens e mulheres que viveram e morreram no planeta, desde que o Homo sapiens apareceu até ao fim do século XIX.

 

A maioria da população da Terra é gente nova mas, quando se vai por continentes há uma excepção: a nossa. Há hoje na Europa mais gente velha do que gente nova; diz quem percebe destas coisas que a tendência vai reforçar-se no futuro previsível. A nossa gente nova sobrevive, às aranhas, desanimada, eviscerada por desemprego altíssimo (embora haja casos a contrapelo, até em Portugal: conta The Economist da semana passada, num estudo especial sobre a juventude no mundo, que cá vive e trabalha uma rapariga, génio da informática, que criou empresa inovadora sua e tem clientes por toda a parte do mundo). A Europa, cujos dirigentes políticos passaram gerações a dá-la como exemplo de maneira de viver às outras nações, esquecendo que o milagre europeu assentava, por um lado, em medo salutar de Estaline e dos seus sucessores enquanto a União Soviética durou, medo que aconselhava as pessoas a terem juizinho em casa não fosse o caldo entornar-se (quem se lembre ou conte com quem lho saiba contar, traga à mente três datas emblemáticas lusitanas do século XX - 25 de Abril, 11de Março, 25 de Novembro - e medite sobre o bom-senso) e assentava também, por outro lado, na apólice do seguro de vida garantido pela aliança militar com os Estados Unidos chamada vulgarmente NATO, contra eventuais agressores exteriores, isto é, a dita União Soviética, seguro que dissuadiu o Kremlin de tais maus pensamentos, sendo a Guerra Fria ganha sem ter de se dar um tiro.

 

Tudo isso já lá vai. Em 2008 a doença financeira trouxe para tratamento a austeridade. Emenda pior do que o soneto mas é pior ainda quando xicos-espertos, animados pelo grego da moto, bancam num jeitinho a dar que eles saberão explicar aos alemães. Dessa, nós por cá ainda não estamos livres.

 

Entretanto inépcia do poder americano e cobardia dos confortos europeus deixaram à solta a atrocidade síria cujos fugitivos estão a escavacar pretensões morais europeias, acordando o pior em muitos corações: da brutalidade da Hungria à hipocrisia da Dinamarca. Quando Angela Merkel abriu a porta aos infelizes que não se tivessem afogado pelo caminho, esqueceu-se que a alma das pessoas de bem é um horror.

 

Há pior, por toda a parte. A grande ilusão comunista foi remédio que falhou. A julgar pelos feitos do Estado Islâmico, pelos budistas a irem ao pelo aos muçulmanos na Birmânia, pelo apoio dos evangélicos americanos a Donald Trump, a fé religiosa não nos tirará de apuros.

 

Montesquieu, Voltaire, a razão? Tem-se tentado, sem ela não teríamos chegado a separar a igreja do estado, ingrediente sine qua non de decência de vida. Está a ser agora muito atacada (exactamente por causa disso). Talvez gente nova, europeia ou outra, entre robots e inteligência artificial, encontre outra vez rumo.

 

 

 

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13.1.16

 

 

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 Foto: Catherine Boutaud

 

 

 

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Mouros

 

 

Há anos, amigo tripeiro assistia a jogo de futebol entre Boavista e Salgueiros quando o árbitro alfacinha apitou para mandar marcar um livre. A claque castigada não gostou e um entusiasta gritou, furioso contra o árbitro: “Ah mouro, se num fossemos nós ainda andavas de lençol à cabeça!”

 

O brasão de Évora ostenta cavaleiro medieval a galope, na mão direita um montante levantado, na esquerda, agarradas pelos cabelos, duas cabeças - de homem velho e mulher nova - degoladas de fresco. Celebra o feito de Geraldo Geraldes, por alcunha O Sem Pavor, fidalgo expulso da corte de D. Afonso Henriques que para voltar às boas graças do Rei decidira ajudá-lo a tomar Évora aos mouros. De torre no campo que se via da muralha, vigia fazia sinais de fogo diferentes conforme hostes que se aproximassem à noite fossem amigas ou inimigas. Geraldo meteu-se a namorar a filha do vigia, ganhou a confiança do pai, uma noite combinou com compinchas henriquinos que viessem preparados para conquista e saque, quando eles se aproximaram matou o pai e a filha, deu sinal de fogo de chegada de amigos, a porta da cidade foi escancarada e os cristãos tomaram Évora enquanto o Diabo esfrega um olho. (É o que a lenda diz. Reparei outro dia que hoje, no brasão, as cabeças aparecem em baixo, separadas uma da outra, nada indicando ter sido o cavaleiro a cortá-las. Esboço de correcção política?).

 

Durante alguns dos anos da República (1910 – 1926), o jornal O Eco de Reguengos publicava as actas das sessões da Câmara Municipal da (então) vila. Numa delas a discussão sobre já não sei que questão animara de tal maneira que a certa altura o Presidente deu um murro na mesa, exclamando: “Irra, meus Senhores. Isto não é Marrocos!”

 

O que me traz memória menos antiga. Em 1987, era eu director político no MNE, a minha secretária veio dizer-me que o embaixador de Marrocos me queria ver urgentemente. Pedi-lhe para transmitir que se fosse muito urgente eu o poderia receber às quatro e meia; se não fosse, agradecia-lhe que viesse no dia seguinte. Era mesmo muito urgente e às quatro e meia lá estava. Homem inteligente, bem-educado, bom conversador, foi falando até que às cinco horas eu lhe perguntei qual era o assunto urgente. Não havia nenhum: tinha-lhe apetecido conversar comigo porque em Lisboa não sentia a falta de Marrocos, ao contrário do que sempre lhe acontecera noutros postos (incluindo Marselha, onde fora cônsul). Estava entre nós como na terra dele; trocar impressões comigo acentuava esse sentir-se em casa.

 

Evocações trazidas pelo réveillon de Colónia. Não se poderia ter passado aqui nem portugueses constam dos suspeitos de lá. Lembro-me de Paula Rego, aos 20 anos, vinda de Londres, contar em casa da minha mãe dos olhares malcriadamente ostensivos que os homens em Lisboa deitavam sempre na rua a partes do seu corpo. Tempo foi. Uma das maiores mudanças a que assisti na minha vida foi as mulheres terem passado a ser tratadas quase como seres humanos em Portugal. Quase.

 

 

 

 

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6.1.16

 

 

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Vontade nacional

 

 

 

“… parecer-me-ia muito interessante que escrevesse sobre um dos mais difíceis factores mensuráveis (?) do poder de um Estado - a vontade nacional. Onde está a nossa vontade nacional? Existe? Para onde caminha? O que se espera da nação? Ainda somos um estado-nação?”

 

Bom conselho de politóloga, se nos quisermos pôr a pau perante o que são Mundo, Europa, euro, democracia, desemprego, temperaturas, Maomé, Cristo, Buda, terroristas, velhos, refugiados, mulheres veladas e sem véu, passado, futuro. Embora eu olhe para o assunto de outro jeito por achar que a ciência política não ajuda muito a entendê-lo (nem a entendermo-nos a nós por via dele). Já a História ajuda, se for bem contada como foi, por exemplo, a da guerra do Peloponeso; histórias ajudam também, tal a de Anna Karenina ou as de outras infelicidades; versos; frescos; estátuas; música – e fica um ror sem fim por entender. Não é só coisa de hoje e de aqui. “Mundo mundo vasto mundo,/ se eu me chamasse Raimundo/seria uma rima, não seria uma solução” escreveu o brasileiro Carlos Drummond de Andrade no dia de Natal de 1928.

 

Seremos ainda um estado-nação? Duas vezes na vida julguei entender do que é que essa questão trata. Primeira. Quando fui embaixador em Moçambique, cinco anos depois da independência, tinha na residência três criados moçambicanos. Lourenço, Jacinto e Salomão garantiam-me o serviço da casa; eu mantinha-os livres da sua liberdade. Um estado fizera reverência à boca de cena e retirara-se para deixar outro estado tomar conta do palco. Uma nação esboroara-se. Mas, quanto a nós os quatro, o ritual que nos regia continuava a ordenar o nosso mundo. (But to the four of us the center/ Holds escrevi eu então, a rematar versos de circunstância).

 

Segunda. O massacre islamita de 13 de Novembro passado, em Paris, foi planeado ao pormenor por residentes, alguns deles franco-árabes, do bairro bruxelense de Molenbeeck, lugar com tradição jiadista antiga – de lá saíram os assassinos do comandante Massoud do Afeganistão em 2001 – e ruas onde a polícia há décadas não põe pé. As polícias secretas europeias passam constantemente informações umas às outras e a investigação do massacre de Novembro mostrou que as autoridades belgas não tinham usado, ou tinham usado pateticamente mal, informação recebida; bem aproveitada poderia provavelmente ter impedido o massacre. Porque não há na Bélgica vontade nacional: flamengos e valões detestam-se; de alto abaixo, múltiplos níveis de decisão comunicam pouco e mal entre si; a disfunção do estado é permanente.

 

Em Maputo percebi que, em transições, anseio de ordem protegida encontrará maneira de se satisfazer, mesmo à custa de incongruências, porque de dentro para fora - do lugar onde dói – estas contam pouco.

 

Em Bruxelas percebi que boa-vai-ela tolerante de antijacobinos como eu não sabe defender-se de quem queira dar cabo dela. Caricatura premonitória de Europa sem estados-nação?

 

Entretanto, e como dantes, nós por cá todos bem.

 

 

 

 

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23.12.15

 

 

 

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 Presépio de Estremoz. Alentejo, Portugal.   

Foto: Estúdio Novais, 1936 

 

 

 

 

 

 

 

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Natal

 

 

 

Há meio século, quando eu vivia em Oxford e ia muitas vezes a Londres (ou uns anos mais tarde quando eu vivia em Londres e ia poucas vezes a Oxford) o Luís de Sousa (que nessa altura vivia em Londres e agora vive em Oxford) contou-me que um professor de história de arte de cujo nome me esqueci e dava aulas já não sei em qual dos colégios da Universidade de Londres, quando chegava às escolas ou maneiras da pintura europeia das últimas décadas do século XIX e das primeiras décadas do século XX ensinava aos alunos: “No Impressionismo, pinta-se o que se vê; no Expressionismo, pinta-se o que se sente; no Neorrealismo, pinta-se o que se ouve” (as aulas eram em inglês e o professor dizia social realism em vez de neorrealismo mas é o mesmo).

 

A sentença ficou-me gravada no canto da memória onde estão arrumados os julgamentos estalinistas dos anos trinta na Rússia, quando centenas e centenas de funcionários do partido comunista da União Soviética, dos mais altos aos mais baixos na nomenklatura, em tribunal confessaram falsamente (com boa consciência) terem traído a pátria e o partido, às vezes ao serviço de potências estrangeiras, sendo condenados à morte e executados, para exemplo do povo em geral e opróbrio de suas famílias, bem como arrumada nesse canto está a lembrança de um dia no Outono de 1991 em Argel, em visita oficial, com a cidade, entre europeia e africana, pobre, mal cuidada mas ainda bonita ao sol, fazendo-me pensar que Lisboa seria assim se Vasco Gonçalves se tivesse aguentado uma dúzia de anos no poder – e como vai ser também guardado o momento contado por amiga que há dias num elevador apinhado de Luanda, ouviu jovem triste do MPLA responder ao “Então?” matinal de um colega, dizendo: “Sofremos felizes”. 

                                  

Sou um dos muitos portugueses que consideram que o país, logo a seguir ao 25 de Abril, ficou a dever a liberdade da democracia à visão e à coragem de Mário Soares. Durante quatro décadas não tive disso a menor dúvida e não a tenho agora. Pelo contrário: nas últimas semanas, maus augúrios levam-me a recear mais pobreza e mais demagogia inspiradas de cima – e a apreciar melhor ainda a barragem de bom senso e decência oposta por Soares a disparates de esquerda e de direita.

 

Mas é semana de Natal, não neva na província, esqueço estas coisas todas e lembro um poema (neorrealista?) de que gosto muito.

 

 

Natal

 

 

Foi numa cama de folhelho,

entre lençóis de estopa suja

num pardieiro velho.

Trinta horas depois a mãe pegou na enxada

e foi roçar nas bordas dos caminhos

manadas de ervas

para a ovelha triste.

E a criança ficou no pardieiro

só com o fumo negro das paredes

e o crepitar do fogo,

enroscada num cesto vindimeiro,

que não havia berço

naquela casa.

E ninguém conta a história do menino

que não teve

nem magos a adorá-lo,

nem vacas a aquecê-lo,

mas que há-de ter

muitos reis da Judeia a persegui-lo;

que não terá coroas de espinhos

mas coroas de baionetas

postas até ao fundo do seu corpo.

Ninguém há-de contar a história do menino.

Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo.

 

 

 

Álvaro Feijó

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                                                                                                                        

    


16.12.15

 

Trudeau aeroporto.jpgO Primeiro Ministro Justin Trudeau acolhe os primeiros refugiados sírios no aeroporto de Toronto

 

 

 

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Sem anestesia

 

 

 

A feminista marroquina Fatima Mernissi, dada a aforismos e com jeito para os inventar, escreveu um dia que o pessimismo era o luxo dos poderosos. Lembrei-me deste aforismo dela – mulher bonita que envelheceu bem, ao contrário de tantas velhas e velhos que ninguém atura a não ser a literatura e outros velhos (Alexandre O’Neill dixit) – neste tempo em que os europeus, por um lado, estão a acabar de perder o poder que dantes tinham no mundo, sendo os últimos talhes da amputação sofridos sem anestesia e, provavelmente por isso mesmo, por outro lado, são pessimistas quanto ao futuro, isto é, acharia a grande dama marroquina, alardeiam – alardeamos – ainda por cima dessa maneira manias de grandeza acima das nossas posses.

 

Li que sondagens mostram haver hoje muitas mulheres e homens convencidos de que as suas filhas e os seus filhos pequenos terão em crescidos vidas piores do que aquelas que eles próprios tiveram e estão agora a deixar de ter. Por piores presumo que se queira dizer mais pobres e não com teores mais baixos no sangue de substâncias geradas pelo nosso próprio organismo que nos façam sentir felizes, quer chova ou quer bata o sol. Porque, embora a Sabedoria das Nações apregoe que o dinheiro não dá felicidade (e muitos o recordem logo, acenando que sim com a cabeça, sempre que alguém o lembre quando se saiba de rico apanhado na tenra idade pela Grande Ceifeira), outra máquina eficaz de criar aforismos, George Bernard Shaw, ensinou-nos que o dinheiro não dá felicidade mas dá uma coisa tão parecida que só um perito é que é capaz de distinguir. (Há mais ou menos três quartos de século, romancista italiano medíocre, Pittigrili, popular em Portugal e no Brasil – ou pelo menos os exemplares dos seus livros que os meus tios maternos tinham eram naquele impressos e publicados - criara fórmula menos subtil do que a de Shaw mas perfeitamente satisfatória para as necessidades estilísticas de leitores nos Aquém e Além Mar de Gago Coutinho e Sacadura Cabral: “O dinheiro não dá felicidade, principalmente quando é pouco”.

 

Austeridade – teimosia em aplicar às nossas economias receita de alemães, por alemães e para alemães não nos deixa passar da cepa torta. Refugiados – incapacidade de entender que a Europa precisa de muito mais mão-de-obra ainda do que aquela que as guerras na Síria, no Afeganistão e alhures lhe estão a meter pelas portas dentro envenena tudo (os nossos primeiros ministros deveriam ter feito como o canadiano Justin Trudeau que foi esperar os primeiros refugiados que lhe couberam ao aeroporto de chegada). Terrorismo – desleixo de décadas em defesa e segurança e agora incitações populistas à xenofobia por chefes de governo ou de oposição fazem muito mal, especialmente a prevenção e combate ao terrorismo. (Uma política externa digna desse nome também teria ajudado – mas seria pedir muito).

 

Teimosia, incapacidade, desleixo. Sem progresso neste tripé não haverá Europa nem – ipso facto – Portugal que se segure.

 

 

 

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25.11.15

 

 

 

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Chocalhos

 

 

 

A UNESCO, organização educacional, científica e cultural das Nações Unidas, a que muitos países pertencem, alguns, como nós, por inércia, outros devido a diligência burocrática própria de regimes que sistematicamente violam direitos humanos e julgam que a organização lhes confere respeitabilidade (falta-lhes a lucidez de Groucho Marx: “Eu teria vergonha de pertencer a um clube que me aceitasse como membro”) vai distinguir Portugal no universo do Património Cultural Imaterial da Humanidade - mais uma vez, pois já o tinha feito quanto ao Fado, ao Cante Alentejano e à Dieta Mediterrânica, neste caso sendo a distinção partilhada com Espanha, Marrocos, França, Itália, Grécia e, salvo erro, Tunísia.

 

Agora são os Chocalhos de Alcáçovas, concelho de Viana do Alentejo, distrito de Évora, a subir ao pódio (dizem-me que também ainda há artesãos vivendo de fazer chocalhos na Ilha Terceira dos Açores e em Trás-os-Montes mas foi a ‘comunidade representativa’ das Alcáçovas que meteram à liça e Alcáçovas será o nome que a distinção contemplará). À minha pergunta “Porquê Imaterial?” a resposta veio em duas partes. Primeira, que a UNESCO estabelece a terminologia para os seus programas, prémios e distinções e, a pedido, esclarece termos menos claros a quem, prima facie, não os entenda. Segunda, que é o som dos chocalhos que passa a Património Imaterial por pertencer ao que os antropólogos chamam “paisagens sonoras”, as quais vão mudando, esperando a UNESCO, presumo eu, que a entrada no Património da Humanidade ajude a suspender o desaparecimento progressivo do rumor chocalhal das calçadas da província portuguesa. Palpita-me que seja esforço vão – assim como os que são feitos quando o Estado decide usar dinheiro do contribuinte para salvar empresas cuja vocação é a falência. As Alcáçovas trazem-me outra memória: a mulher de Évora mais bonita do seu tempo (e de todos os tempos entre o seu tempo e o nosso de hoje) que lá viveu pequena, tão inteligente e tão direita que por esse dom e essa virtude mais vezes é lembrada do que pela beleza ímpar. Ainda hoje faz falta.

 

Na UNESCO confirmei uma certeza política e ganhei outra. No Verão de 1974 fiz parte da delegação portuguesa no nosso regresso à organização depois do 25 de Abril em reunião geral que durou várias semanas. Coube-me cobrir sessão noturna em que discursaram representante da Albânia e chefe estudantil do Chile, fugido dos algozes de Pinochet. O albanês demoliu primeiro o Capitalismo, depois o Comunismo Soviético e, quando estava quase a convencer-nos, rendeu elogio abjeto ao camarada Enver Hoxha. Entusiasta, o estudante gabou o paraíso que o país perdera com o fim brutal de Allende e do seu governo.

 

Saí para a noite de Paris confirmado no que pensava dos horrores da Albânia mas convicto de que, se o regime de Allende houvesse durado, o Chile teria passado por muitas e penosas baralhadas.

 

Vem a propósito lembrar isso quando cá se celebra – ou devia celebrar-se – o 25 de Novembro.

 

 

 

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15.11.15

 

 

 

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 Samuel van Hoogstraten (1664)

 

 

Queridos Leitores,

 

o blog faz hoje sete anos, os últimos dois com a presença semanal do Bloco-Notas de José Cutileiro. São já mais de cem crónicas com o respectivo boneco, como ele diz. São textos que me orgulho de publicar e estou-lhe muitíssimo grata por isso. Grata ainda pela ajuda que tem dado a manter vivo este espaço e por me deixar exercer funções de iconógrafa – mot savant que ouvi há uns anos numa conferência no Instituto Francês e a que logo me identifiquei. 

 

Este ano o Retrovisor recebeu outras contribuições valiosas: as fotografias de João D’Korth, cerca de 300 imagens dos anos 30 e 40, que Henrique D’Korth Brandão pôs à minha disposição e ajudou a digitalizar, e a série My Years in Angola (1950-1970) graças à colaboração de Elizabeth Davies. Agradeço ainda a Jorge Colaço, amigo e colaborador deste blog desde o princípio. 

 

Ao longo destes anos tenho acompanhado com interesse a expansão dos conteúdos em português na rede, muito graças à blogosfera, e detectado lacunas também. Ainda há personalidades do século XX em Portugal com pouca ou nenhuma presença na net. A fotografia vernacular começa a despertar mais interesse – neste momento estão patentes em Lisboa fotografias dos álbuns da Raínha D. Amélia e dos Retornados das ex-colónias – mas quanta coisa não se terá já perdido ou continua a desbotar no fundo duma gaveta? 

 

Há pouco tempo, para ilustrar um artigo sobre o poeta Tomaz Kim, o Jornal de Letras usou uma fotografia deste blog (muito bonita apesar de um pouco estragada). No verão passado o jornal Observador usou imagens que tenho coleccionado das praias de antigamente, algumas das quais eu própria descobri na rede. As fotografias de João D’Korth da Exposição do Mundo Português contêm surpresas apesar de tratar-se de um evento tão amplamente registado. Espero continuar a mostrar aqui curiosidades do mesmo género, que no entanto não vêm ter comigo ao ritmo a que eu desejaria.

 

Aos leitores que visitam pela primeira vez, ou que do Retrovisor conhecem pouco mais que o Bloco-Notas de José Cutileiro, convido à leitura de anteriores posts de aniversário.

 

Muito obrigada pela visita!

 

 

*

 

 

Álbum de Família (2008)

 

Queridos Leitores, (2011)

 

Cabinet de Curiosités (2011)

 

Na blogosfera desde 2008 (2012)

 

Cabinet de curiosités 2 (2013)

 

Tags (2013)

 

 


11.11.15

 

 

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 Lisboa, 2015

 

 

 

 

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O futuro?

 

 

 

A família donde se venha (pai, mãe, avôs, avós, irmãs, irmãos) prepara-nos para a vida, inclusive porque, sem a gente sequer dar por isso, tantas vezes nos leva a amar pessoas de quem nunca gostaríamos. Com países é diferente: cada um tem os vizinhos que tem e ou se gosta deles ou não se gosta: daí não se sai. Pelo sim pelo não, dantes qualquer país que se prezasse tinha o seu Ministério da Guerra. De há décadas a esta parte passou a dizer-se Ministério da Defesa. Valha-nos S. Jorge Orwell.

 

Vizinhos, vizinhos, nós portugueses só tínhamos um; daí a prudência. “De Espanha nem bom vento nem bom casamento” é prevenção tão ancestral que o tratado internacional de entreajuda mais antigo do mundo ainda em vigor foi assinado por Portugal e a Inglaterra em 1386. E também para garantir mais independência à dinastia que inaugurava, o Mestre de Avis foi buscar mulher à casa inglesa de Lancaster. Histórias de poder: veio a seguir o Tratado de Tordesilhas dividir o mundo descoberto e a descobrir entre Portugal e Espanha. Depois, já com Os Lusíadas escritos – há países para quem a epopeia é ao mesmo tempo o epitáfio, disse há quase século e meio Oliveira Martins - regras dinásticas trouxeram-nos o primeiro rei Filipe (segundo de Espanha) para, sessenta anos depois, revolta popular e fidalga nos livrar do terceiro (quarto de Espanha). São águas passadas. Neste nosso tempo em que a fatia europeia do bolo mundial continua a mirrar o único vislumbre que pessoalmente tive do que seria o “espírito de Tordesilhas” aconteceu quando, havendo eu sido escolhido para Secretário-Geral da União da Europa Ocidental em 1994, Javier Solana foi escolhido para Secretário-Geral da OTAN em 1995. Mas não éramos patrões – éramos só gerentes.

 

Entretanto, bem entendido, Espanha e Portugal tinham aderido às Comunidades Europeias. Entre ambos a corrida, por assim dizer, passara a ser com touros embolados ou, abandonando folclores, a nossa vizinhança passara a ser outra, fora da União. Essa preocupa e poderá dar maus exemplos, sobretudo agora que um toque de Terceiro Mundo parece convir às predilecções de parte do novo poder político. Já existe espalhado em Portugal, mesmo para lá da extrema esquerda, um apoio bem intencionado mas faccioso e ignorante à “luta do povo palestiniano”, condimentado por laivos frequentes de antissemitismo (o velho antissemitismo europeu, com longas raízes históricas, mudou-se no nosso tempo da direita para esquerda). Sobre esse caldo de cultura alguns poderão agora ser tentados a imitar jeitos dos que se impacientam com as delongas da democracia formal e preferem ganhar batalhas políticas e sindicais na rua. A ir deitando pela borda fora costumes de civilidade democrática estabelecidos desde o fim do Estado Novo. A parecerem dar razão, em suma, àqueles e àquelas que, de vez em quando, olhando para trás e olhando à sua roda, sombriamente se convencem de que Portugal é incapaz de criar no seu seio elites sustentáveis. É pena.

 

 

 

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4.11.15

 

 

  

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 Mário Soares na manifestação da Fonte Luminosa, Lisboa 1975.

 

 

 

 

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Salvar a Pátria outra vez?

 

 

 

Talvez o Dr. Mário Soares pudesse salvar a Pátria, tal como fez durante o PREC há 40 anos. Não estamos juntos há algum tempo. Mas se nestas coisas sentir como quando me lembro dele no Verão quente de 1975 e saísse do silêncio das últimas semanas, proclamando alto e bom som que sem defesa constante da liberdade, da democracia parlamentar e da Europa não há caminho para Portugal, talvez número suficiente de dirigentes socialistas retomassem o rumo sensato e moderado do Partido - cortassem com o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda, deixassem passar no Parlamento o governo de Passos Coelho e cumprissem o seu dever patriótico de oposição parlamentar.

 

Dizem-me que tudo isto é muito improvável. Mário Soares não intervirá; mesmo que interviesse, poucos dirigentes socialistas lhe dariam ouvidos; mesmo que alguns lhos dessem, partidos políticos no poder são hoje máquinas eficazes de distribuição de serviços e influências e muitos socialistas, há 4 anos afastados da cornucópia do governo central e ávidos dela, dando por si de repente tão perto, preferem fazer vista grossa sobre o estratagema tosco que lá os fez chegar e, encorajados por desajeitamento natural e impopularidade à esquerda de Passos Coelho e Cavaco Silva, pretendem que tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos democráticos possível. É erro moral de consequências pesadas previsíveis, algumas das quais se começam já a sentir. Nestes últimos dias, duas pessoas cujas sensibilidade e visão aprecio sentiram no ar um cheiro de guerra civil; outra escreveu, lapidarmente: “A linguagem da ‘esquerda unida contra a direita’ e dos ‘pobres contra os ricos’ é um dos distintivos do ‘terceiro mundo’ e uma das causas da pobreza”.

 

‘Terceiro mundo’ para cujo estilo de vida poderemos resvalar. Enquanto, em 1974 e 1975, a União Soviética existia e, por isso, trabalhistas e conservadores britânicos, sociais-democratas e cristãos democratas alemães, decididamente contra ela, nos puseram a mão por baixo como Deus faz aos borrachos, agora, a Europa, haja ou não de nos mandar troika e nos pôr de castigo, tem muito mais e pior com que se preocupar. Além disso, quem possa trazer dinheiro fresco de fora, sem o qual não sairemos do buraco, olhará para a estabilidade do regime e, se esta não o satisfizer, irá bater a outra porta aberta. Em regabofe pré-governativo, socialistas, comunistas e bloquistas não parecem ter-se dado conta disso. Nem, os dois últimos, de implicação perversa: vão mandar às urtigas convicções temperadas pelos anos para apoiar governo que agirá contra elas?

 

Continuo a pensar que a austeridade não é maneira boa de tratar da crise financeira. Mas os governos da zona euro e as instituições europeias, incluindo o Banco Central, entendem que sim. Passos Coelho fez bem o que pôde, ao fim de 4 anos ganhou os votos e estávamos a começar a viver com menos aperto. A manobra para o deitar abaixo, imprópria de pessoas de bem, vai demorar a saída da crise.

 

 

 

 

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28.10.15

 

 

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Jacob van Ruisdael 

 

 

 

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E agora, José?

 

 

 

“Isto o que é preciso, Senhor Doutor, é a gente estar bem com a lei que há” respondeu-me há meio século grande proprietário de aldeia alentejana minúscula – peixe grande em redoma pequena – a quem eu perguntara como eram as relações com o poder - com o Governo Civil de Évora; com os ministérios em Lisboa – no tempo da República (nessa altura o Estado Novo apodrecia no marcelismo e não era preciso dizer Primeira porque só tinha havido uma). Homem letrado para o seu tempo, o seu lugar e a sua condição - mesmo que o modo conjuntivo lhe escapasse às vezes - deixou-me essa pérola de sabedoria cartesiana: quem não estivesse bem sob uma ditadura (ou não estivesse bem numa democracia…) tinha obrigação de saber que se agisse em consequência o faria por sua conta e risco. Era por assim dizer a tábua rasa onde se jogava. Valeu até à semana passada.

 

Acabado este parágrafo, copio para a leitora o que velho amigo acaba de me escrever. “O País que é o nosso perdeu mesmo a vergonha. Depois de 4 anos abúlicos perante uma violência estúpida e destrutiva de pessoas, bens, património e instituições a noviciada esquerda unida prepara-se para nos servir de bandeja dentro de meia dúzia de meses mais 4 ou 8 anos de coligação PAF que acabará definitivamente com o que temos para terminar honradamente as nossas vidas. Se isto não é o finis Patria do G. Junqueiro não sei o que será”.

 

Carradas de razão: a seguir aos desmandos da obsessão neo-liberal, iremos sofrer golpadas populistas do pior oportunismo e nos próximos votos, que depressa nos irão pedir, a direita ganhará forte e feio, deixando o PS Pasokificado, como agora se diz (não esquecer que durante esta campanha eleitoral o único partido que propunha a união das esquerdas não elegeu um único deputado). Mas eu talvez acrescentasse que, com Guerra Junqueiro ou sem ele, a Pátria ganhou o costume, desde há uns 150 anos para cá, de ser vista de vez em quando a chegar ao fim por alguns dos seus filhos mais insignes. Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Alexandre O’Neill - e agora cabeças pensantes que escrevem para jornais e receiam que a crise de estima e de confiança nos partidos políticos se agrave mais, a seguir às faltas de tento, de patriotismo e de maneiras exibidas por quase todas as chefias nacionais e partidárias desde as eleições de 4 de Outubro, e ponha em perigo a democracia. (Tem sido um espectáculo triste, de que somos todos responsáveis. No tempo do Dr. Salazar, quando as coisas iam mal, achava-se que a culpa era dele – ou, para os salazaristas, do reviralho e de Moscovo. Passou a ser nossa).

 

Mas os portugueses hão de ser sempre os mesmos porque não há outros, como dizia o primeiro Duque de Palmela, a quem chamavam em Lisboa o Inglês-Mor – ou, pelo menos, assim me contou um dia o Vasco Pulido Valente. O que não torna cada finis Patria menos desagradável. Pelo contrário. No que atravessamos agora sinto-me, pela primeira vez na vida, sem saber qual é a lei que há. Muito grave.

 

 

 

 

 

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25.10.15

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A primeira série dos “Cadernos” (1940-42) foi organizada pelos três poetas referidos e engloba cinco números antológicos; a segunda (1951) foi concretizada por Jorge de Sena, Ruy Cinatti, José Blanc de Portugal e José-Augusto França com sete fascículos. A terceira teve três números (1952-53).

 

 

 

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21.10.15

 

 

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Sala de Actos do Colégio do Espírito Santo, Évora

 

 

 

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Aldeia da roupa branca

 

 

 

Amiga do coração, voltando de sessão solene universitária, passada algures em sala bonita na província deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio – assim escreveria o meu chorado A.B. Kotter, da Várzea de Colares - saíra dela tão bem impressionada que me disse “[H]oje senti-me muito feliz e orgulhosa de Portugal”.

 

Conto isto aqui à leitora metendo A.B. Kotter pelo meio porque há muitas maneiras de se ser do país de onde se é e há também diferenças marcadas de país para país. Num dos Diários do Marcello Mathias, não me lembro qual deles e é de memória que arrisco, Marcello está de visita a uma catedral inglesa (Salisbury?) quando o espaço da igreja e inscrições várias nas suas paredes, algumas sobre mortos pela Pátria em guerras contra estrangeiros, o levam de repente a perceber que ser inglês is a full time job.

 

Ser português nem sempre parece tal. Nós somos menos intensos; dá-nos a coisa nalguns dias, noutros não tanto. Por exemplo, na derrocada de honra e de bom senso que, desde a noite do passado dia 4, no rescaldo das eleições legislativas, alguns insistem em nos apresentar como construção do futuro – de um futuro cheio de amanhãs que cantam – é só em oásis de tempo ou de espaço que muita gente portuguesa se poderá agora sentir bem com Portugal.

 

O avesso – como na roupa – da apregoada brandura dos nossos costumes, refractária a guerras civis, revoluções e motins por tudo e por nada, que, sem alarde ou vanglória, cometeu o maior feito histórico do país desde 25 de Abril de 1974 – a absorção pacífica de centenas de milhares de retornados de África, muitos dos quais nunca cá tinham posto pé - revela-se no bom modo com que o país sustentou quatro anos de austeridade sem tugir nem mugir. É o reverso da medalha.

 

Ora longos períodos de apatia cívica definham a fibra do respeito por si próprio, da mesma maneira que, mutatis mutandis, longos períodos de imobilidade física vão definhando as fibras do tecido muscular e chegam, por vezes, a fazer desaparecer os músculos. Assim enfraquecida, incapaz de perceber bem quem é, atordoada pelo rumor da vida a dar socos na porta cada vez mais ensurdecedor de há século e meio para cá, desde que telégrafo, e depois telefone, telefonia, televisão, internet, redes sociais e o mais que virá, se verá, ouvirá e sentirá, mudaram de alto abaixo a nossa residência na Terra – nos foram dilacerando da tribo sem nos armar em cidadãos do mundo – a gente tenta agarrar-se à aldeia, enterrar a cabeça como as avestruzes. Na aldeia de cada um às vezes tudo parece possível: o novo primeiro ministro do Canadá vai deixar de bombardear o Estado Islâmico; os trabalhistas britânicos escolheram Corbyn para chefe; em Portugal uma suposta ‘esquerda unida’, apesar de diferenças de crença que tornam tal união impossível, entende que o povo a quer para governo, apesar dos resultados do voto de 4 de Outubro não indicarem isso de todo. Terá a nossa aldeia perdido a vergonha?

 

 

 

 

 


14.10.15

 

 

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 O Rei Jorge V de Inglaterra e um mendigo no Derby

 

 

 

 

 

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Broncalina do camandro?

 

 

 

“De resto, cá vamos andando – agora observando este impasse da política portuguesa, com um misto de incredulidade e apreensão. Vamos lá ver como é que o António Costa faz o seu jogo – francamente não gostava de estar no lugar dele. A Social-Democracia está numa situação impossível um pouco por todo lado, não é? Como diria o seu amigo designer de quem fez o obituário há uns meses, é uma broncalina do camandro…” desabafou correspondente lisboeta, em e-mail sobre outro assunto.

 

Está, sim senhor – desde o fim da União Soviética, embora nem toda a gente tenha dado por isso. Os regimes comunistas foram logo ao ar (tirando a Coreia do Norte e Cuba) mas quase só Tony Blair percebeu que a social-democracia também estava condenada. Ela existira como mal menor – os dirigentes sindicais vendiam metade da alma ao Diabo para serem aceites pelo patronato mas a outra metade chegava para lhes dar credibilidade junto dos seus e toda gente vivia em paz e sossego na prosperidade ocidental – mas, com o mal maior extinto, o mal menor deixou de ter razão de ser. Blair, Brown (e Mendelson, a cabeça pensante do partido) adoptaram a “terceira via” (a arte de cortar pensões a velhinhas com boa consciência, chamava-lhe um cínico); não tivesse havido a desastrosa guerra do Iraque talvez ainda hoje governassem o Reino Unido. De resto sociais-democratas só se aguentam na Alemanha como parceiros menores, em coligação com Merkel e, na Suécia, depois de quase meio século de poder, desapareceram há anos do governo.

 

A partir da “terceira via”, terá de se inventar melhor senão está o caldo entornado, porque as desigualdades económicas hoje são excessivas. Os ricos estão cada vez mais ricos: nos Estados Unidos, por exemplo, enquanto os rendimentos de operários estagnaram ou diminuíram, entre 1978 e 2012 o pagamento dos CEO das grandes companhias aumentou 876%! Como Marx lembrou, alterações quantitativas acabam por levar a alterações qualitativas e se a tendência continuar não é preciso perspicácia de Papa ou de trotskista para prever balbúrdia.

 

O desabafo do meu amigo lisboeta também se preocupa com o jogo que fará o Secretário-Geral do Partido Socialista português. Para isso, 1974 devia ser exemplo. A URSS era forte, os amanhãs que cantam pareciam evidentes a muitos, havia no PS muita gente à esquerda de Mário Soares e o marxista-leninista Manuel Serra disputou-lhe o lugar. Acordados com Soares, alguns militantes (entre eles Victor Cunha Rego, Vasco Pulido Valente) apresentaram moção social-democrata, colocando ao centro Soares que derrotou Serra e manteve rumo sensato, decente e patriótico, ganhando eleições em 1975 e 1976 e, de caminho, salvando o país. Bem para lá do talento táctico o que deu força a Soares foi a sua crença inabalável na democracia parlamentar e na Europa (a cuja porta bateu logo que primeiro-ministro). Quem tiver crença menos forte quer numa quer noutra, se alcançar por fim poder político fará muito mal a Portugal.

 

 

 

 

 

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3.10.15

 

 

 

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   Garrett - Columbano (detalhe)

 

 

 

 

 

 

Carta de Almeida Garrett ao político e amigo Rodrigo da Fonseca Magalhães

 

"Pensa", escreve Garrett em 1846 ou 1847 ao seu amigo, nesta carta inédita que pertence à Biblioteca Nacional. "E se julgares que podemos com um acordo perfeito, íntimo, mas secreto, fazer algum bem a esta pobre terra, avisa das horas mais convenientes de te ver." Estava-se em plena Guerra da Patuleia, que dividiu o país entre liberalistas e miguelistas, e Garrett oferece-se para ajudar. O "acordo", se existiu, manteve-se mesmo secreto. Não se sabe qual foi — se algum — o envolvimento de Garrett nos bastidores.

 

 

5a feira

 

[...]

Meu Rodrigo, aproveito esta ocasião para te pedir que estejas bem em guarda para te não deixares comprometer com certos sujeitos que nós sabemos. Olha que eles nada te podem dar, e se te pudes­sem dar alguma coisa, não ta davam. Se se chegam para ti é porque sabem que nada têm, e fazem de vampiros para vi­ver do teu sangue. E depois uma de duas, ou te hás-de desfazer deles, e chamam-te traidor, ou os aturas e alienas de ti os verdadeiros valores. No meio destas ruínas em que está Portugal tu podes ter uma bela missão.

 

Isto é como o terramoto de 55: nós não o fizemos, tu não o fizeste. E o que se incarregar de levantar a cidade caída não é responsável pelo que a deitou abaixo. Esta opinião e modo de ver não é meu, é de muita gente, e pode­remos fazê-lo ser do maior número se se for com tento e firmeza.

 

Tu bem sabes que eu não cos­tumo oferecer-me para nada; mas também sabes que sou amigo verdadeiro e eficaz quando a consciência da razão e da alma se juntam às minhas simpatias pessoais. Eu digo a todos que não sou de políticas, e que abdiquei, mas a ti digo-te que escolhi de propósito e de longamão esta posição insuspeita porque vi do princípio que por bastante tempo outra era impossível com proveito público. Creio que me não inganei. Assim vejo todos, e com todos falo em negócios que de outro modo não são tratáveis.

 

Se vires que podemos falar sério e com proveito nestas coisas, e que convém, dize e  falaremos. Os patuleus estão com mais senso do que os eu supunha.

 

Se se tenta alguma coisa, é preciso tentá-lo já, isto é, prepará-lo; e parece-me a mim que posso ajudar-te nal­guma coisa, especialmente porque cuidam que o não pretendo.

 

Ora eu realmente para mim aqui nada quero.

 

Adeus. Pensa, e se julgares que podemos com um acordo perfeito, íntimo, mas secre­to, fazer algum bem a esta pobre terra, avisa das horas mais convenientes de te ver. E tu bem deves saber que eu não sou poeta em prosa, e que todos valem mais que eu, menos em lealdade e certeza que ninguém mais que eu vale. Teu dedicado amigo

 

JBAG

 

 

*

 

 

A 4 de Março de 1852, ao apresentar o texto do primeiro Acto Adicional à Carta Constitucional, por si redigido, Almeida Garrett proferiu o último discurso na Câmara dos Deputados. Este é um verdadeiro testamento político (a que deve juntar-se a alocução, também derradeira, na Câmara dos Pares, em 10 de Fevereiro de 1854), e nele se inclui este enigma de decifração de profundas convicções:

 

Eu também já perdi as minhas ilusões; também já não creio na maior parte das cousas em que acreditava; mas há uma única crença, é a crença na minha Pátria é na liberdade dela [...]. Mas quando a per­desse, sumia-a no fundo de minha alma para que ma não suspeitasse a Nação Portuguesa.

 

Das bancadas parlamentares que o aplaudiram (no registo dos taquígrafos, emotiva e efusivamen­te o fizeram), não podem contar-se aqueles que terão penetrado o sentido dissimulador, tão do agrado do escritor, que essas palavras contêm.

 

Ora, descrente das soluções e dos oportunismos que enchem páginas na história do nosso liberalis­mo, Garrett aprendeu a dissimular as mais fundas crenças, cobrindo-as sob um manto (ou jogo) irónico de "ilusões" e "crenças" com que manteve incólume uma postura de independência dos partidos e inte­resses particulares de então. Daí a fórmula, que não deixa de ser perturbadora e que podemos traduzir deste outro modo: se hoje deixei de pensar o que ontem posso ter pensado, não afirmo nem desminto tanto o que ontem posso ter pensado como, hoje, o ter deixado de pensá-lo.

 

Fórmula especiosa... e perturbadora! Afinal de contas, fórmula geral de uma "intimidade cons­trangida", que, com o tempo (sobretudo, por força de um tempo histórico vivido), aprendeu a escamo­tear em público as convicções mais íntimas, sem as apagar de todo. Mas quais terão sido estas?

 

Creio que, de um juvenil ponto de partida repu­blicano (de que o federalismo norte-americano foi "a pedra filosofal" dos sistemas políticos) e jacobino (de que as revoluções servem para "colocar os homens no seu lugar"), permaneceu uma dissimulada posição de defesa do que, no primeiro liberalis­mo português, podemos considerar os difusos interesses populares.

 

E, de forma irruptiva e mais ou menos velada, conforme as circunstâncias — nessa "posição in­suspeita" de quem já vira "que por bastante tempo outra era impossível com proveito público" (ver carta inédita junto) — , Garrett surgiu nos picos de maior radicalidade ao lado do partido popular e contra o oportunismo das facções.

 

No geral, manteve o princípio de conservação das liberdades e de estabilidade política que se não confunde com conservadorismo e não pode esconder as crenças subtilmente veladas pelas "endiabradas políticas" que "tudo absorve[ra]m" no nosso longo século XIX.

 

 

 

 

Luís Augusto Costa Dias

in Jornal Público, Caderno "150 anos da morte de Almeida Garrett ", 9 de Dezembro 2004

 

 


 

 

 

* Imagem: Óleo sobre tela de Columbano Bordalo Pinheiro concluido em 1926 [pormenor] . Passos Perdidos, Assembleia da República, Lisboa

 

 

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27.9.15

 

 

 

 

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 Cristina de Carvalho Futscher Pereira

17 de Abril 1948 - 27 de Setembro 2005

 

 

 

 

 

 

 

 

O Ramo de Oiro

 

 

 

Estando eu à minha porta

Com três horas de serão

Vi passar Nossa Senhora

Com um ramo de oiro na mão.

 

 

Eu pedi-lhe uma folhinha

Ela disse-me que não;

Pedi, tornei-lhe a pedir,

Ela deu-me o seu cordão,

 

 

Que me dava sete voltas

À roda do coração.

Sete voltas não são nada

Ó Virgem da Conceição

 

 

Prendei vós esta alma toda

Prendei-ma com vossa mão

Que a metade inda é do mundo

Metade, que a outra não.

 

 

 

Plantai-me esse ramo de oiro

No meio do coração

Ficarei no vosso altar

Como vaso de eleição.

 

 

 

 

Romance popular incluído nos manuscritos garrettianos descobertos pela Cristina em 2004. O poema foi lido no seu funeral e editado numa pagela oferecida aos amigos.

 

 

 

Veja também os posts:

 

 

Efeméride

 

 

LFCL (desde 1952)

 

 

Carta a Garrett

 

 

Fado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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13.9.15

 

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  Tomaz Kim / Joaquim Monteiro-Grillo

 

 

Nascido há cem anos, em 1915, e desaparecido em 1967, foi poeta*, professor da Faculdade de Letras de Lisboa, ensaísta, tradutor. Deu a conhecer ao público português muitos escritores da literatura inglesa e americana.

 

É justamente recordado este mês no Jornal de Letras num extenso artigo ilustrado com uma fotografia que aqui publiquei em 2009. Foi aliás a fotografia que me conduziu à descoberta do excelente texto de Fernando J. B. Martinho, de que reproduzo este pequeno excerto, a acompanhar uma tradução de Tomaz Kim que encontrei junto de recordações dele que os meus pais guardaram, neste caso uma simples folha de bom papel, bem impressa em frente e verso.

 

*  

 

Os dois volumes do que consideramos ser a segunda fase da sua obra situam-se num período em que a carreira académica do poeta iniciada em 1947 alcança justíssimo reconhecimento institucional, que a morte precoce, em 24 de Janeiro de 1967, pouco antes de atingir os 52 anos, veio, lamentavelmente, interromper. É este um período em que o poeta, fiel continuador do que há já de uma sólida tradição modernista em termos nacionais e internacionais, faz acompanhar a sua prática poética da tradução de poetas ingleses e americanos (com maior incidência na 2ª metade dos anos 40, no Diário Popular), e de textos de doutrina crítica, de Shelley e T.S. Eliot, e de ampla produção crítica e ensaística própria, que assina com o seu nome civil, Joaquim Monteiro-Grillo ou J. Monteiro-Grillo.

[Fernando J. B. Martinho in "Tomaz Kim Um poeta de tempos dramáticos" - Jornal de Letras, Artes e Ideias, Número 1172 – 2-15 Setembro de 2015] 

 

 

 

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Minster Lovell, de David Wright, tradução de Tomaz Kim

 

 

 

 

 

MINSTER LOVELL 

 

 

Now I a ghost ascend a broken stair

where no more the cold fingers of the rain

comb, or the winds caress my long brown hair;

I move among the populous passages

peopled with brown leaves and the sluggish weed,

and the wind's mutterings and memories

of sere wolds and the dark Atlantic seas.

 

 

Remembering now the dancing. O my lover

break down the cold embraces of the grave:

murder the time, recover

the lost words, the lost glances.

 

 

Remembering now the dancing. I remember

voice of the harp, the tender

not of the flute, the tremble

of the low-toned clavichord;

the whisper of the dresses

as the dancers turned and parted

as the music paused and started.

The dancers are departed.

 

 

 

Now I a virgin ghost, under the cold

and lunatic moon, forsaken. Whom these walls

already have forgotten. Whom they hold

in the dark rain of spring, in the cascade

of the clear pool that will not wet my feet.

 

 

 

O find me whom I fled

before the leaden pressure of the lid

weighs down the thin white arms and bended head.

Who only hears the voices on the stair

who cannot hear the dry grate of the lock.

 

 

 

I am bound in with darkness. In the iron

strong womb of time. The lover

clasped by a stronger, more enduring arm;

in a more proud embrace.

 

 

 

O find me. Find, recover.

Break down the cold embraces of the grave:

shatter these hasps, and scatter

eternal walls, and batter

with a white leap of light the night. Discover

the bright horizons.

 

 

 

I heard a footstep on an outer stair:

I heard a voice call once, and call my name.

I blinded in the tangle of my hair,

pressed in with darkness. Who will not recapture

the sunlight or the crocus, who will wander

in the moon's error and the winds, forgotten.

Virgin of the spring rains, among these walls.

 

 

 

Now I the ghost of a delighted bride

brought to a dark unrobing, and a bed

celibate, to surrender

a living virginity for a dead;

O this my pride to tender

to the malicious worm my slender head.

Brown hair and white limbs, who will not remember?

 

 

 

I not await him. I await no lover;

who overtakes the still feet of the years?

And I have mouldered in the dust too long,

too long my being in the. darkness fed.

Under the sallow moon I must await,

tenant of hollow winds and bitter rain,

the new birth of the crocus. Non deliver.

 

 

 

And none return. The constellations wheel

westward; and westward the reluctant moon.

None shall burst down the indurate barriers;

none open wide the doors: and none return.

Westward the moon. Inhabitant of the springs,

the short grass and the broken palaces,

I meditate the winds and the cold rain.

 

DAVID WRIGHT *

 

 

 

 

 

MINSTER LOVELL (tradução de TOMAZ KIM)

 

 

Ora, eu, um espírito, ascendo a escada carcomida

Onde não mais os álgidos dedos da chuva penteiam,

Ou o vento acaricia, a minha longa cabeleira fulva.

Caminho por entre populosas veredas

Povoadas de folhas secas e erva daninha inerme

E murmúrios do vento

E lembrança

De tantos plainos e sombrios mares atlânticos.

 

 

 

Lembro, agora, a dança... Ó, meu amado!

Desenlaça o gélido abraço da tumba:

Assassina o tempo,

Retoma as palavras perdidas, o perdido olhar...

 

 

 

Lembro, agora, a dança.,.

Lembro a voz da harpa,

O terno trinar da flauta,

O trémulo grave do clavicórdio,

O sussurro das vestes,

enquanto os bailarinos rodopiam e se separam,

Quando a música se detém e recomeça.

 

 

 

Foram-se os bailarinos.

 

 

 

Ora, eu , espírito de uma virgem,

Abandonada sob a lua fria e tonta,

A quem estes muros já esqueceram,

A quem eles retêm na chuva escura da Primavera,

Na cascata da límpida lagoa que não molhará meus pés...

 

 

 

Oh, encontra-me, a mim, de quem eu fugi,

Antes que o plúmbeo peso da tampa

Comprima os alvos braços esguios e a cabeça tombada,

Aquela que ouve apenas as vozes na escada

Aquela que não pode ouvir do ferrolho o áspero arranhar.

 

 

 

Envolta estou em treva

No fero útero férreo do tempo.

O amado,

Enlaçado por um braço mais firme e duradouro

Num mais soberbo abraço.

 

 

 

Oh, encontra-me,a mim. Busca, retoma.

Desenlaça o gélido abraço da tumba,

Despedaça estas ferragens

E dispersa os muros eternos

E desfaz a noite com um alvo arranco de luz.

Descobre os rútilos horizontes ...

 

 

 

Ouvi passos numa escada, lá fora,

Ouvi uma voz a chamar uma vez, a chamar pelo meu nome.

Eu fiquei cega no emaranhado do meu cabelo,

Confundida com a escuridão,

Eu, aquela

Que não virá acolher a luz do sol ou a flor do açafrão,

Aquela que vagueará, esquecida,

Nos enganos da lua e do vento,

Virgem das chuvas da primavera,

Entre estes muros...

 

 

 

Ora, eu, espírito de uma noiva deslumbrada,

Levada a um tenebroso desvelar

E a um leito solitário

Para render

Uma virgindade viva a uma virgindade morta...

Oh, este, o meu orgulho:

Ofertar ao verme malévolo a minha cabeça donairosa!

Cabeleira fulva e alvos membros, Quem os não lembrará?

 

 

 

Não espero por ele. Não espero nenhum amante;

Quem ultrapassará as quietas passadas dos anos?

E eu me desfiz em pó, no pó, há muito, já...

Há muito, já, meu ser das trevas se alimentou.

 

 

 

Hóspede do vento cavo e amarga chuva,

Sob a lívida lua, eu tenho de aguardar

O novo natal da flor de açafrão.

 

 

 

Ninguém o fará.

 

 

 

E ninguém regressará.

As constelações rodam para ocidente

E para ocidente, a lua relutante.

Ninguém derrubará as barreiras firmes,

Ninguém escancarará as portas

E ninguém regressará.

Para ocidente, a lua.

 

 

 

Habitante das fontes,

Da erva núbil e dos palácios em ruínas,

Eu pondero os ventos e a chuva fria!

 

 

 

 

*

 

 

Notas: 

 

Obra Poética de Tomaz Kim aqui

 

Cadernos de Poesia aqui

 

Fundada por Tomaz Kim, José Blanc de Portugal e Ruy Cinatti, a revista “Cadernos de Poesia” teve publicação intermitente, em três séries e quinze números, nos anos 1940-42, 1951 e 1952-53, revelando alguns dos poetas portugueses mais marcantes da segunda metade do século XX: além dos fundadores, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen e Eugénio de Andrade.

 

 

David Wright aqui 

 

 

 

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Tempo de Amor

 

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12.8.15

 

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Passado; futuro

 

 

 

“Os ricos são como os ciganos. São todos primos uns dos outros” pontificava há cinquenta anos Senhora do Alentejo nem cigana nem rica. O Minho era diferente – ciganos quase não havia; disparidades entre ricos e pobres eram de menor monta - e diferente continuou a ser. Há 41 anos, em conversa fora de Portugal, Senhor minhoto - que também já lá vai - explicava “Nós, na Ribeira Lima, temos duas coisas em comum: sumos todos fidalgos e sumos todos parentes”.

 

Salpicos do que inspirou Orlando Ribeiro a descobrir Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico? Com certeza - mas há bem mais do que isso. Por muito mal que os melhores de entre nós às vezes deem por ela, que a suponham nas vascas da agonia (“Pátria para sempre passada; memória quase perdida”, acabou Eça de Queiroz O Crime do Padre Amaro, em 1875), a besta teima em não morrer. Mesmo debaixo de vergonhas que a façam sofrer, de varas no cachaço a ver se lhe baixam a cabeça para dar melhor lide a quem a queira desfeitear (novo Acordo Ortográfico; admissão da Guiné Equatorial na CPLP) não lhe receio fim à vista. Mas está a chegar a terra ignota ou, se preferirmos o arrimo do mastro da epopeia, a entrar outra vez por mares nunca dantes navegados.

 

À balbúrdia sanguinolenta seguira-se a noite negra do fascismo - para usar chavões predilectos dos inimigos jurados de uma e de outra porque ao longo das décadas gente menos intensa, isto é, a maioria, estava perto do poeta Alberto de Monsaraz que dizia viver em país ocupado mas ter boas relações com o ocupante. Íamos seguindo canones estabelecidos nas metrópoles europeias: a certa altura, devido à preeminência da França, a República esteve na moda - e vá República! Depois com Hitler (Olimpíadas de Berlim e tudo), Mussolini a marchar sobre Roma, veio a moda do fascismo (mais no sul da Europa, mas também na Finlândia e, sem poder mas com estardalhaço, mesmo em Inglaterra), os militares do 28 de Maio entusiasmaram-se – e vá Fascismo! (Na versão portuguesa, Estado Novo, que nunca esteve à altura, até porque o país era agrícola e não industrial e Salazar gostaria que ele assim ficasse: “Entre o comércio, a indústria e a agricultura prefiro a agricultura”). Quando chegou a vez dos capitães de Abril, a moda na Europa era a da Democracia (como Mário Soares percebeu e Álvaro Cunhal e Henry Kissinger não) – e vá Democracia!

 

Hoje não há apetites de mudança de regime mas é outro mundo. A República jacobina desacreditara a esquerda; o Estado Novo fascizante desacreditara a direita. A Democracia vingou sobre o segundo descrédito – o partido mais à direita chamou-se, Orwelianamente, Centro Democrático Social – entretanto URSS e comunismo foram ao ar, Tony Blair arrumou o socialismo, a virtude bem-pensante perdeu poleiro. Quem será levado a sério? Quem irá dar à besta ganas de ganhar às outras feras? O comunismo não era doença: era remédio que falhou. O capitalismo, menos mau, precisa conserto grande. Onde dorme e se exila o futuro vigor?

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:27  comentar


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