23.4.14

 

 

Proles Wall, 1984 (detalhe)

Paula Rego 

 

 

 

 

 

Abriu a caça ao Barroso

 

 

O falecido A.B. Kotter — dos Bilhetes de Colares — distinguia-se dos colunistas portugueses porque se sentia bem em Portugal e eles não. Tal desgosto da Pátria há de ser o pano de fundo das maledicências com que, entra o ano, sai o ano, os “fazedores de opinião” da imprensa lisboeta — e notáveis em geral — se mimoseiam uns aos outros dentro e fora de portas. A 25 de Abril de 1974 o português fora destapado: o fim da Censura Prévia trouxera animação inédita; ultimamente redes sociais, blogosfera e outras invenções oferecem-lhe virtualidades novas. Egos e ids zumbem à solta, tal pragas de gafanhotos. Como se tudo isto não chegasse, hipocrisias calvinista e luterana do Norte da Europa descarregaram-nos em cima a mania da ‘transparência’ e o lado mais escuteiro dos Estados Unidos exportou a correcção política.

 

Há 25 anos, em Estrasburgo, na véspera de uma sessão da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, António Vaz Pereira e eu lembrámos a Diogo Freitas do Amaral que não podia no discurso do dia seguinte dizer mal do Presidente do país de que era ministro dos estrangeiros (como vinha no texto que mandara de Lisboa para traduzir). Eanes e Aliança Democrática não se davam bem mas seria infeliz badalar a desavença no estrangeiro.  Diogo, homem inteligente e bem formado, mudou o discurso.

 

Num quarto de século o ambiente geral deteriorou-se muito o que me leva à abertura da caça ao meu amigo Zé Manel. Tem feito correr rios de tinta mas serei curto e simples. Há duas razões principais que enraivam os portugueses contra ele. Ter trocado o seu lugar de primeiro ministro de Portugal pelo lugar de presidente da Comissão Europeia. Ter aplicado a Portugal programas de austeridade que, segundo muita gente, prejudicarão o país durante gerações. Quanto à primeira: presidentes anteriores da Comissão Europeia honraram os seus países (até Roy Jenkins na eurocéptica Inglaterra) e o ex-primeiro ministro belga, escolhido para primeiro presidente permanente do Conselho Europeu, diz que, entre os seus, é como se tivesse sido beatificado. Em Portugal, inveja e o sentimento de que qualquer bem alheio me faz mal a mim toldam o entendimento. É como se ter um português presidente da Comissão Europeia fosse uma vergonha para Portugal.

 

Quanto à austeridade (a meu ver, haveria melhores remédios) foi primeiro alvitrada no G20 e depois aprovada sem uma voz contra no Conselho Europeu. A Comissão contribuiu a pô-la em prática no que lhe competia, juntamente com o Banco Central Europeu e o FMI. Durante estes anos difíceis, a Comissão Barroso ajudou Grécia, Irlanda e Portugal a desenvencilharem-se o melhor possível. No nosso caso, Sócrates e Passos Coelho o atestarão.

 

Em 1943, ministro de Churchill louvava-lhe os méritos de De Gaulle até Churchill lhe dizer que não valia a pena insistir: “You like the man and I don’t”. Há sempre opiniões contrárias de cada homem político; Durão Barroso tem amigos e inimigos. Mas factos são factos.

  

 


9.4.14

 

 

 

 

Le Déjeuner sur l'herbe

Édouard Manet (1863)

 

 

 

 

 

O sarilho francês

 

 

Revolução Francesa e Revolução Americana, feitas para a felicidade ser possível sobre a Terra, tiveram destinos diferentes. No Novo Mundo, os derrotados de 1776 fugiram para sempre. Na Velha Europa, os vencidos de 1789 fugiram também - mas depois voltaram. Em cada francês coabitam um ci-devant e um sans-culotte e a República gosta de armar em Monarquia. A América é igualitária. Um dia no State Department, a discutir defesa europeia (as coisas de que um homem se lembra de tratar…) disse a Peter Tarnoff, vice-ministro dos estrangeiros: “V. sabe, a Europa é complicada”. “Sei, sei. É por isso que nós estamos aqui”. Parte da simplificação transatlântica resume-se assim: riqueza, a que cada um possa e queira mas todos tu cá, tu lá.

 

Durante a guerra de 1939-45 a França adaptou-se tão bem à ocupação nazi que há um livro chamado “Quarenta Milhões de Pétainistas” mas figurou entre as potências vencedoras com lugar cativo no Conselho de Segurança da ONU e ocupação militar de uma das quatro zonas em que a Alemanha foi dividida. Graças ao general de Gaulle, refugiado em Londres donde, a 18 de Junho de 1940, pela telefonia da BBC apelou os franceses à resistência. E graças ao Partido Comunista (depois de Hitler invadir a URSS em 1941; até aí, respeitador do pacto Germano-Soviético de 1939, nem tugira nem bulira). Em país maioritariamente colaboracionista, gaulistas e comunistas morreram pela França livre e ganharam. Os primeiros quatro versos de um poema célebre de Aragon — “Celui qui croyait au ciel/Celui qui n’y croyait pas/Tout deux adoraient la belle/Prisonnière des soldats” — publicado clandestinamente, encapsulam o que ‘spin doctors’ chamariam hoje a “narrativa” francesa da guerra. De Gaulle só esteve no poder 10 anos, o Partido Comunista partilhou governos menos tempo ainda, mas ambos reforçaram o anti-americanismo francês. Os comunistas por fidelidade a Moscovo; De Gaulle por Washington o ter humilhado durante a guerra.

 

Houve caprichos caricatos (o Minitel, tentativa saloia de internet), outros custosos (a semana de 35 horas). Anti-americanismo e anti-capitalismo eram unha com carne; em 2012, após 17 anos de presidentes de direita, o socialista François — “Não gosto dos ricos” — Hollande chegou ao Eliseu. Tal como Mitterand, quis governar à esquerda e perdeu o eleitorado centrista. A seguir guinou à direita e alienou parte da sua base levando tal banho em eleições locais que mudou o primeiro-ministro. Nomeou Manuel Valls, ‘Tony Blair francês’, mas para ofender menos os seus impôs-lhe no governo figurões da ala mais esquerdista do partido. Desrespeito antigo por padrões fiscais europeus mantém-se (embora agastada, a Alemanha continua a pôr-lhe a mão por baixo; sem o eixo franco-alemão a Europa teria esquecido muito menos Hitler).

 

Até 2017 nada mudará. Depois, pouco. A França não quer a Europa para ser mais europeia. Quere-a para a Europa ser mais francesa, para que uma pitada de inflação seja o sal da economia.

 

 

 

 

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2.4.14

 

 

 

 

Susana e os Velhos (1610)

Artemisia Gentileschi

 

 

 

 

A caça aos velhos

 

 

Quando eu era pequeno os meus pais tinham sempre razão. Quando o meu filho era pequeno o Dr. Spock já mudara as regras e quem tinha sempre razão era o meu filho. Feitas estas constatações receei às vezes que, se chegasse a velho, alguém tivesse entretanto descoberto que o melhor para os velhos era matá-los.

 

Humanistas horrorizados e tecnocratas como se não fosse nada com eles dizem-me agora que estamos à beira desse dia. O ambiente é propício: por exemplo, um estudo recente da Universidade Católica de Louvain mostra que empregados com mais de cinquenta anos de idade dão prejuízo financeiro às empresas onde trabalham. E é por aí que o gato vai às filhoses.

 

Comparação com África é instrutiva. Até meados do século XIX, em muitas sociedades tradicionais ao sul do Sará, os homens velhos tinham muito mais prestígio e poder do que os novos. Mandavam na aldeia, escolhiam as melhores mulheres, comandavam as hostes na guerra. Os novos obedeciam e esperavam a sua vez. Com os colonizadores veio o trabalho pago a dinheiro nos campos e nas minas. Numa economia monetarizada os novos tornaram-se os senhores: podiam, mais do que os velhos, comprar vacas para pagarem noivas e bens de consumo em geral, abundantes e indicadores de estatuto como nunca acontecera. Toda a gente ficou contente com a mudança — tirando, já se vê, os velhos.

 

Na Europa post-industrial a história foi diferente mas o resultado parecido — e pior. Os progressos da ciência e do bem-estar social estenderam a longevidade de maneira inédita, diminuíram a idade da reforma e restringiram o tamanho das famílias. Cada vez menos gente nova trabalha para sustentar gente cada vez mais velha. E os velhos, que já há muito tinham mau nome —

 

Em suma, somos os velhos

Cheios de cuspo e conselhos.

Velhos que ninguém atura

A não ser a literatura

 

E outros velhos. (Os novos

Afirmam-se por maus modos

Com os velhos). Senectude

É tempo, não é virtude.

 

escarnecia Alexandre O’Neill há mais de meio século — são hoje, em partes da sociedade portuguesa, mais mal vistos do que banqueiros, políticos ou jornalistas. O fim da picada.

 

E há mais. O predomínio descontrolado da economia financeira, desligando proventos da produção de bens, e a captura por gente do sector, jovem e altamente especializada, das alavancas do Estado, cavou um fosso entre o bom senso da maioria dos portugueses e a insensatez militante de quem os governa. Tal insensatez — ou “falta de inteligência emocional” — é frequente  em cientistas mas rara em políticos. Salvo talvez em Quislings, isto é, governantes que não prestam contas ao seu próprio povo mas a poder suserano de quem sejam vassalos.  

 

Quanto aos velhos? Impor eutanásia obrigatória — que poderia ser extinta, como o serviço militar, quando sábios da casa e da troika achassem que os números batiam certos. E a malta? A malta, na mesma: “Isto, Senhor Doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há”. Descendentes dos heróis do mar? Ou dos que por cá ficaram?

 

 


7.2.14

 

 

 

Noronha da Costa, 1976

Tinta celulósica sobre tela fotosensível, 1200 x 800 mm

colecção P.O.P.

© Noronha da Costa

 

Imagem: "Abecedário", edição comemorativa/catálogo da recente exposição 40 anos do Ar.Co (1973-2013) no MNAC- Museu do Chiado.

 

Visite a exposição de Luís Noronha da Costa (obras de 1967 a 1974) patente no CAMB – Centro de Arte Manuel de Brito  até 2 de Março de 2014. 

 

 

Guiné-Bissau hoje aqui e aqui (English | Français| Português )

 

 

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3.2.14

 

 

 

Luc Tuymans

Reconstruction (Reconstitution), 2000.

© 2000, Friedrich Christian Flick Collection, photo courtesy David Zwirner, New York

 

 

Les dix tableaux qui constituent la série «Mwana Kitoko: Beautiful White Man» (Mwana Kitoko: Bel Homme blanc») ont trait à l'histoire du régime colonial belge au Congo et à l'assas­sinat de Patrice Lumumba en 1961. Premier homme politique nommé Premier ministre de l'ac­tuelle République démocratique du Congo à la suite d'élections démocratiques, Lumumba fut assassiné moins de sept mois après que son pays eut arraché son indépendance à la Belgique. Leader charismatique qui s'éleva avec vigueur contre les brutalités historiques du joug belge et appela à l'unité nationale, il représentait une menace pour les ambitions néocoloniales de la Belgique et des Etats-Unis, qui visaient à maintenir un contrôle politique et économique sur ce pays riche en ressources. On a pu rattacher la fomentation de son assassinat au gou­vernement belge, à la cia et aux hommes politiques sécessionnistes congolais; le mystère qui entoure les circonstances de sa mort reflète l'obscurité des réseaux de pouvoir en lice.

 

Dans «Mwana Kitoko», Tuymans interroge l'aptitude de la peinture à répondre aux événements traumatiques du passé récent et à les refléter de façon critique. Les œuvres sont tirées de sources iconographiques disparates, qui vont d'anciens films de propagande à des photos, prises par l'artiste, de scènes imaginaires et reconstituées, qui soulignent l'influence que les événements historiques continuent d'exercer sur le présent. La série comporte tout un éventail de styles et de genres, depuis le portrait formel jusqu'à l'instantané pris en passant. Exposées ensemble, ces images hétéroclites montrent que les récits historiques sont toujours formés de fragments contingents, incertains et discutables.

 

in Luc Tuymans (Catalogue de l' Exposition Luc Tuymans - Retrospective

Sous la Direction de Madeleine Grynsztejn et Helen Molesworth

Palais des Beaux-Arts de Bruxelles, 2011

@2011 Ludion & BOZAR

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

Léopoldville c. 1950

Foto: Gaby Foto, Leo

Fotografia do meu espólio familiar (ver mais na tag "Congo")

 

 

 

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22.1.14

 

 

Pax Americana, 1988, Winston Smith 

 

 

 

 

 

 

 

Adeus Pax Americana

 

 

A “capacidade inimaginável de mentir sem pejo” dos nossos políticos alarma amiga minha (e devia alarmar toda a gente: se os valores em que assenta a decência de viver forem esquecidos teremos vendido a alma ao Diabo). Mas será o fim da raça — anunciado prematuramente em 1934 por  Pessoa, em 1875 por Eça e, alguns séculos atrás, pelo Velho do Restelo? A minha amiga receia que sim. Eu tenho dúvidas. A Espanha, a partir-se aos bocados, não tem queixada para nos abocanhar e à Europa de Bruxelas falta vocação de Pátria. Para o mal e para o bem, não há de ser nada.   

 

Seja o que for que por aqui medre, porém, terá, mais o resto da Europa e os outros 4 Continentes, de aprender a viver sem os Estados Unidos como Senhores do Mundo. Haviam passado a sê-lo desde o colapso da União Soviética. A 11 de Setembro de 2001 levaram grande bordoada – pior do que o bombardeamento japonês de Pearl Harbour em 1941 porque o Havai é um arquipélago no Pacífico e Nova Iorque e Washington são o coração do país – outras bordoadas, pequenas e não tão pequenas, externas e internas, se foram seguindo. O mundo está-lhes a escapar das mãos e eles já não sentem tantas ganas de o agarrar. Ora, se de vez em quando a Pax Americana importunou muitos de nós, o incómodo de viver com ela não era nada comparado com o incómodo de sem ela viver.

 

Patrão fora, dia santo na loja –  ou, mais a propósito, guerras sem fim. Sem Washington a meter-se decisivamente nas questões, desavenças agravam-se, feridas em vez de sararem infectam. Sofrimento indescritível — e evitável — aflige cada vez mais gente. A tragédia humanitária da Síria que indecisões americanas deixaram avolumar à nossa beira para lá de remédio programável e plausível é a que dá mais nas vistas. Mas não faltam outras pelo mundo fora.

 

Não existe potência capaz de desempenhar papel comparável ao que fora até há pouco o da América. A China, de que às vezes alguns se lembram, vem carregada de dificuldades de sua própria invenção. Capitalismo desenfreado em regime de partido único criou classe média — e milhares de milionários — exigindo voz na coisa pública e prenunciando grandes sobressaltos. Desenvolvimento selvagem criou desastres ecológicos duradouros. A política “um filho só” criou distorções demográficas que levarão gerações a corrigir. E a capacidade militar chinesa não dará para Pequim distrair mal-estar em casa com aventuras fora.

 

A Rússia continua a ser “O Alto-Volta com bombas atómicas” (Helmut Schmidt dixit). A Índia é uma democracia mas desigualdades abissais – até entre homens e mulheres – atrasam-lhe ambição de bem-estar geral, quanto mais de hegemonia. O Brasil do rolezinho está longe de poder ajudar a pôr o mundo em ordem. E a Europa, com a História, zangada, a voltar a galope sobre a desunião cavada pela austeridade, perdeu a vez.

 

Em mundo sem rei nem roque teremos de olhar melhor por nós. Começando — talvez dissesse a minha amiga — por dar crédito e autoridade à virtude.

 

 

Imagem: aqui

 

 

    

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20.1.14

 

A special theme also has its place here, that of slavery. It is special in that it does not feature in traditional images of reverse-glass painting. In the 1980s, on the initiative of Y. Dupre, administrator of the Regards Croises association, Gora Mbengue produced a series of works relating to slavery. Then in 1989-90 Mor Gueye took over and created a series inspired by the same theme. Here, for the first time, we are presented with a dramatic subject handled gravely. This is unusual, for reverse-glass paintings tend to tackle all themes positively, if not always with humour. Whether the subject is Islam, where we en­counter religious propaganda or a cult of the saints, history, in which the praise of national heroes is sung, or tales and proverbs, where the oral tradition is itself celebrated, there is not one reverse-glass painting that is not optimistic. Even in scenes of daily life, humour, sometimes mixed with cynicism, is brought to bear on theft, adultery, domestic conflict and other problems, large and small. After all, the end justifies the means: the moral message asserts itself almost by accident, with ease and never sententiously. We receive constant lessons in good spirits; then, sud­denly, in a commissioned work on slavery we encounter drama. Reverse-glass paintings bluntly confront us with the brutal reality: torture, chains, babies thrown to crocodiles in front of their mothers, distress, the house of the slaves at Goree, whose 'door of no return' requires no comment. It is, of course, impossible to handle the issue of slavery with detachment. Attemps to generate laughter in order to avoid crying would be inexcusable. The fact, therefore, that traditional reverse-glass painting never alludes to this episode in Senegal's history is in no way surprising, for it would be a departure from the fundamentally optimistic inclination of this art. Interesting as further attempts to portray the history of slavery might be, this particular commission was intended to teach a lesson in tolerance in schools and cultural centres, and slavery remains a marginal trend. Further, one must not forget that reverse-glass paintings were originally intended exclusively for Senegalese people - to define their religious af­filiation, for example, or to educate, or to supply decorative scenes that would give an aesthetic touch to a home. What Senegalese would want to awaken such painful memories when, thanks to reverse-glass paint­ing, he can instead proclaim his deepest beliefs, both religious and intel­lectual?

 

Senegal and Gambia were the first regions in western Africa from whence slaves were exported. This commerce, at its height in the 18th century, was encouraged by the kings of Kayor and Baol, who traded human merchandise for various products, especially guns.Wolof aristocrats and leading citizens did not need the impetus of this commerce to create their own reserves of slaves, who were already to hand under the caste system. They did not have any scruples about systematically seizing individuals or groups that they could use for bar­tering. As for the French, their insatiable demand for African labour sanctioned this state of affairs. The lure of profit did the rest, establishing a foul triangular system of commerce that was to prove to be difficult to abolish.

 

 

Anne-Marie Bouttiaux-Ndiaye 

in Senegal Behind Glass, Images of Religious and Daily Life

(Profane genres and subjects)

© 1994 Prestel-Verlag, Munich and New York and the Royal Museum for Central Africa

 

 

 

 

Mor Gueye  The House of Slaves at Goree, 1992

 

33x48 cm 

Private collection

 

A black and white composition, both in theme and tone. The white officer in his uni­form, conceited and haughty, dominates the scene by his height as well as by his position in the organization of the image. The black slaves are crushed, small, crumpled and separated, with the women on one side and the men on the other, just as the house of slaves was actually arranged. At the 'door of no return', a gaping black hole, is a slave squatting in front of the inescapable fate that awaits him. There are a few contemp­orary 'scholarly' artists who work in black and white, but Mor Gueye is the only tradi­tional one who does so.

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18.1.14

 

Moral tales and proverbs have generated a whole spectrum of paintings, often dealt with humorously, and with certain characters treated with derision. There is no doubt that these pictures follow the same pedagogic purpose as the tales, sayings, riddles and other stories that are told at home by the fireside in the evening. When the women were out buying reverse-glass paintings to decorate their homes, they not only sought out examples that articulated their religious beliefs, but also ones that would show examples of good and bad behaviour to their children.

 

 

 

 

Alexis Ngom The Torment of the Bad Master, 1995

55x48 cm

Private collection

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

This painting illustrates a widely held belief according to which a master who mistreated his animals will be punished after his death by the ones he mistreated.

 

 

 

 

Babacar Lo (Lô Ba)  The Baobab-Women, 1994

48 x 33 cm

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

A tale from Casamance: two young women are turned into baobab trees for mocking an elderly hunchback. The moral of the story is a reminder of the strong respect in which the elderly are held in African societies.

 

 

 

Anne-Marie Bouttiaux-Ndiaye 

in Senegal Behind Glass, Images of Religious and Daily Life

(Profane genres and subjects) 

© 1994 Prestel-Verlag, Munich and New York and the Royal Museum for Central Africa

 

 

 

 

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12.1.14

 

 

 

Anonymous

A Young Woman, no date

photograph, with a painted decorative background, 45 x 47 cm

 

 

 

Anonymous

Seated Man, no date

photograph, with a painted decorative background, 50 x 60 cm

 

Following German and Dutch precedent, where paintings made on the back of glass are called Hinterglasmalerei and achterglasschilderij re­spectively, we have coined the term 'reverse-glass painting'. To speak of 'behind-glass' painting generates ambiguity, and it hardly conveys an idea of the basic technique, which involves work performed on the back of a sheet of glass. (Although 'back-of-glass' removes all ambiguities, it is dreadfully cumbersome.) The term eglomise, widely used by histor­ians of the decorative arts, refers specifically to a technique that involves decorating glass by means of gilding, while the expression 'fixed under glass' refers, of course, to pictures pasted behind or framed under glass.The word 'fixed' is, none the less, frequently encountered in the liter­ature on Senegalese art, and, if its application is often incorrect, it is sometimes partially appropriate in a few early examples where both techniques — painting and pasting — are combined: these examples are chromolithographs or photographs that have been placed behind painted glass. Finally, in Senegal, glass paintings are called suwer, a Wolof word directly borrowed from the French sous-verre (behind or under glass). By extension, suwer is the term that is also used to emphasize the qualities of culinary dishes made with a great variety of ingredients: a ceebu jen (rice with fish) is called ceeb suwer when it is richly decorated and colourful.

 

 

Anne-Marie Bouttiaux-Ndiaye

in Senegal Behind Glass, Images of Religious and Daily Life 

© 1994 Prestel-Verlag, Munich and New York and the Royal Museum for Central Africa, Tervuren

 

 

 

 

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4.1.14

 

Maître SYMS

"Article 15"*, 1992

Courtesy: Gallery Lucien Bilinelli, Brussels

© Plazier, Brussels 

 

 

Écoutez mes bêtes,

la conjoncture de la 2ème République

ne permet pas de vous héberger!

Allez vous débrouiller

 

Snif... Maitre nous sommes ici pour vous!

Pourquoi tu nous abandonnes comme ça?

Où pouvons nous aller

 

 

 

Visitei recentemente o Musée Royal de l'Afrique Centrale, em Bruxelas, agora fechado durante 4 anos para obras de remodelação. Queria ver pela última vez as colecções na versão século XIX. A crónica de José Cutileiro no primeiro dia do ano — Nuers e Dinkas — serve-me agora de pretexto para regressar a África com mais umas curiosidades (ver tag Congo).

 

O artigo e o breve documentário recomendados abaixo são antigos mas permanecem actuais.

 

 

*Article 15:

 

After a series of deflationary measures announced by the Zairean government in September 1983, prices for basic commodities rose by 30 to 40 percent while salaries remained unchanged. This further reduced the standard of living of the average Zairean. A schoolteacher in Kinshasa, for example, makes $13 per month. A civil servant with a university diploma, earns $25 per month.

 

''With such salaries,'' a Western diplomat explains, ''you can't make both ends meet. To survive most Zaireans make ample use of what is known here as Article 15.'' In clearer terms this means many Zaireans give way to corruption: teachers sell diplomas. No official form is available from a civil servant without a tip.

 

O artigo Zaire, An African Nation rich in natural resources but plagued by political instability and economic stagnation na íntegra aqui 

 

Defined as 'Manage by Yourself', the mythical article 15 founded an 'informal' economy in Zaire. Squatting in the grey mud of the market Place, black 'Mamas' barter for survival, singing as they prepare their wares. They manage to supplement their husbands' earnings by running a 'black market'.

 

O documentário The Definition of Poverty - DRC  April 1996 aqui

 

 

 

 

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1.1.14

 

 Gerhard Richter, Neger (Nuba), 1964, 145 x 200 cm, Oil on Canvas, Courtesy of Gagosian Gallery © Gerhard Richter, 2012

 

 

 

 

 

 

 

Nuers e Dinkas

 

 

Do Sudão do Sul, 193° membro da ONU, chegam más notícias. O novo país, paupérrimo sobre ricas reservas de petróleo, de população dantes dada a religiões não-reveladas, mas mais ou menos cristianizada por missionários europeus e americanos durante o Condomínio Anglo-Egípcio, ficando integrado no Sudão desde a descolonização de 1956, entrara em guerras sangrentas com o governo muçulmano de Cartum durando mais de 20 anos para conseguir independência que o libertasse das tribos islamizadas e esclavagistas do norte. Guerras por fim ganhas pelo sul, tendo causado 2 milhões de mortos, esperava-se que houvessem cimentado sentimento nacional entre as duas grandes tribos pastoralista e guerreiras do país, os Nuers e os Dinkas (que há menos de um século andavam nus, viviam do gado, se administravam sem governo e combatiam à lança).

 

Esperança vã. Eleições deram maioria à tribo maior, os Dinkas; o Presidente eleito convidou um Nuer, para vice-presidente - mas correu com ele em Julho e a curta paz acabou. Em 9 dos 10 estados federados do país grassam guerrilhas, reprimidas com tortura e massacre de civis. Dinkas e Nuers resvalam para guerra com 50.000 civis a pedirem protecção à ONU (que dobrou para 12.500 a força que lá colocara). A conselheira de segurança do Presidente dos Estados Unidos fez às partes as exortações piedosas do costume – renúncia à violência; diálogo – mas Washington, sobretudo desde o show de Obama na Síria, não mete o respeito que metia.

 

O Sudão do Sul é ao lado da Republica Centro-Africana, à beira de guerra civil entre maioria cristã e minoria muçulmana que começaram a matar-se uns aos outros. Como a expedição ao Mali foi a coisa que menos mal lhe correu desde que é presidente de França, Hollande mandou logo tropa para Bangui, onde estão também forças da União Africana. Soldados do Chade, muçulmanos, já foram assassinados por cristãos locais. Perante o descalabro, Samantha Power, embaixadora americana na ONU, fez uma visita relâmpago a Bangui onde exortou toda a gente a portar-se bem prevenindo que os Estados Unidos “estavam atentos”. Autora premiada de livro sobre genocídio (que enferma da pecha americana de ver o mal e o bem a preto e branco), conselheira de Obama, sumida enquanto Hillary Clinton foi Secretário de Estado (dissera, julgando que um microfone estava desligado, que Hillary era “um monstro”) voltou à cena sem ter aprendido nada.

 

Se os Estados Unidos perderam de vez o jeito de agarrar o mundo pela pele do pescoço, como se agarra um gato – jeito que lhes ganhou duas guerras mundiais e a guerra fria - a megalomania de Putin, a convicção de superioridade dos chineses, agitar-se-ão para ocupar o lugar vazio. Nenhuma delas o conseguirá mas para os europeus vão ser tempos duros. Sem América forte e decidida não haverá ordem no mundo. E sem ajuda americana os europeus nem terão o preciso – reabastecimento aéreo, munições de precisão, espionagem – para mandar fazer pazes em brigas africanas.

 

 

Ano Novo feliz!

 

 

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6.12.13

 

 

 

Anonyme; Cabinet de curiosités; (fin XVIIe siècle)

Huile sur toile; Florence; Opificio delle Pietre Dure. aqui

 

 

Tenho celebrado um ou outro aniversário do blog com um breve balanço e queria tê-lo feito neste quinto aniversário, mas atrasei-me. Quero antes de mais agradecer os comentários deixados no post de 15 de Novembro. As palavras de incentivo de tão ilustres colegas da blogosfera animam-me particularmente. Assinalei a data com um cartoon que divide a blogosfera entre “histórias sobre ninharias que alguém cozinhou, tricotou ou coseu”, “auto-promoção” e “teorias da conspiração”. Está bem visto, em versão mais soft seria o facebook, os blogs pessoais e os blogs políticos.

 

Em poucas palavras, para quem me visita pela primeira vez, este blog divide-se entre histórias do meu álbum de família (fotos, recordações e curiosidades do espólio familiar), histórias dos álbuns dos outros (fotografias e curiosidades dos espólios de outras famílias) e, last but not least, textos bastante variados de Autores, sobretudo excertos de obras de história, jornalismo, ensaio e alguma literatura. 

 

Os textos que eu própria escrevo (em minoria) tratam normalmente de espólios familiares, álbuns e recordações, enquanto as citações de Autor e os textos doutras pessoas surgem geralmente a propósito da actualidade e/ou do calendário. Quanto às imagens tenho procurado apresentar um máximo de material inédito, inicialmente com base no meu arquivo familiar e, progressivamente, a partir de colecções particulares que parentes e amigos têm posto generosamente à minha disposição.

 

O blog recebe actualmente em média 50 visitas por dia e poucos comentários (cerca de 300 até hoje em 480 posts). O propósito continua a ser o mesmo: partilhar a minha exploração da fotografia vernacular e reflexões de Autores favoritos, além de contribuir, mesmo que modestamente, para o universo dos conteúdos em português, com imagens, perfis e textos algo esquecidos*.

 

Queridos Leitores e visitantes em geral, continuarei a esforçar-me por merecer a vossa visita. 

 

 

 

 

* Notas:

 

Cabinet de curiosités 1 in English 

 

Neste contexto veja o blog Restos de Colecção aqui e o projecto Conteúdos em Português aqui  

 

Neste blog, um texto sobre a Fotografia Vernacular aqui , um perfil  aqui e um texto de Autor ilustrado com uma foto aqui

 

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25.8.13


Eu vi um corvo coxo numa taberna de Santos e uma caravela em relevo no mármore de um chafariz e disseram-me que era Lisboa. Acreditei. As ruas escusas cheiram a gato e a manjerico; as artérias, a coiro da Rússia e a sangue azul, um poucochinho corado. Oh! que horizontes, do Castelo! e que betesgas, da Graça! Já lá vai Palmela com seus adarves no azul do Sul, e a Arrábida redonda e perdida no céu. Voici Sr. Neves retroseiro (on parle français a refugiados) e o inefável Poço do Borratém ainda com um olho encarnado ao luzir da noite alfacinha. Lisboa está florida de bandeiras, frutificada de nêsperas, semeada de cláxones de táxi. Ó ver a lista!, eh!, tás tu...e lá lhe foram sete paus àquele, a quinze 'stões a bandeirada!...Se me vejo em Alcântara enterneço-me.


Os marinheiros comem tremoço saloio; as meninas da Promotora assomam de permanente às sacadas. Uma abada de glicínias — e é um palacete à Junqueira; um martelo-pilão — e é a massa compacta e gris do Porto de Lisboa. Chamo Cesário Verde, mas só vejo um retrato de adolescente numa sala fechada; ainda oiço a tesoura de podar guiando a videira diagalves. Mas já não há Liverpool na caligrafia dos escritórios do Cais do Sodré, nem encontro no Martinho da Arcada a luneta cristalizada de Álvaro de Campos, engenheiro. Da Ribeira Nova foram-se as naus e os galeões. Agora só Leontina lá bate sua tairoca de varina e manda-me dizer pela amiguinha feia se lhe eu compro um oleado para o fundo da sua canastra. Os pintores do meu país pintam o peixe e a flor no paninho adorado de Leontina, e a ferradura e a cabeça de cavalo no peitoral da égua do Aterro.


Se abro o batente ao bar da Rua Nova do Carvalho é tal qual a Cannebière: merci Marseille, quai des Belges... Além disso bebemos ginger-beer como qualquer inglês; capilé-copo-com-água. E ginjinha... No coração de Lisboa há um frémito dourado e um centilitro de sangue moiro, de má fama. Estes olhos pretos da Mouraria quem são? Que ardor é este que trago no peito e que levo pela Calçada dos Cavaleiros acima como um amolador leva a carreta e os panos do guarda-sol? De bombazina é que era! e uma mecha de cabelo furando pelo buraco da boina! Oh manhãs douradas de azeitona a tanto o selamin, com centelhas de prata tiradas pelo sol das clarabóias!

 

Só me falta morar às Escolas Gerais e passar os serões do meu último inverno numa farmácia ao pé. Quem quer avenidas e bairros bonitos — pois também tem ! Há desde o azul ao diplomático, e do pátio às casas económicas é tudo roupinha lavada e cheirinho a café, graças a Deus! Mas eu quisera ardor mavioso e solidó! Uma violeta é pouco se o jornal da tarde trás a bola... Ao Domingo iríamos ambos ao Campo Grande andar de bicicleta e, pelo Arco de Cego, com flechas de Cupido, juraríamos eterna comunhão. Tenho um tio que mora na Parada dos Prazeres, um amigo na Praça da Alegria. Que mais queres? Com o fado da Triste-Feia era uma tarde bem passada... Mas já não querem dar valor e apreço às coisas sérias! Um homem não pode estar sempre a fingir que é só aquilo que come e o chapéu que tira às pessoas, pois também há o desejo, o dia de domingo, a estufa fria, o viaduto da auto-estrada — e a alma que quer e nada encontra... Lisboa é boa. Tem torres, garages, ardinas; tem tudo o que é preciso para se chegar no paquete e se partir de avião. Nossa Senhora do Monte vê a neblina no Tejo e o fumo no Cata-que-Farás. Às 8 da manhã o destroyer entrou a barra. Cheira a goivos! Cheira a goivos no Alto de S. João!

 


Vitorino Nemésio

Panorama, Revista Portugesa de Arte e Turismo

Número 32 e 33, Ano V, 1947

Edição do Secretariado nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo


 

 

 

Vitorino Nemésio

Retrato de António Dacosta




20.8.13

 

 

Panorama, revista portuguesa de arte e turismo
número 29, Ano IV, 1946

ilustração de Eduardo Anahory (1917-1985)




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16.8.13

 

 

 

Amadeo de Souza-Cardoso

1887-1918


até 19 de Janeiro de 2014 



Comemorando os 30 anos da abertura do CAM ao público, a 25 de Julho de 1983, uma exposição ocupa todos os espaços do centro, apresentando pela primeira vez ao público a totalidade do acervo de Amadeo de Souza-Cardoso.

 

 

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14.8.13

 

 

 

Natura morta, 1936.

Mamiano di Traversetolo (Parma), Fondazione Magnani Rocca

Retrospectiva Giorgio Morandi, em Bruxelas
tags:
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9.8.13

 

 

 Floris Arntzenius (1864-1925)

 

aqui

 

Uma praia em Portugal (c.1900) aqui


 

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5.8.13

 

 

 

Girl riding a donkey c. 1898

Isaac Israels (1865-1934)



Uma burricada em Portugal (1910) aqui 



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6.6.13

 

 

 

Stella Freitas da Costa

 Antonio Guijarro 1958

 

verso



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10.3.13

 

 

 

R.B. Kitaj  The Rise of Fascism, 1975–1979 Pastel, coal and oil on paper

© Collection of R.B. Kitaj Estate

 

 



... la méditation sur le totalitarisme, c'est-à-dire sur la négation totale de l'homme et de ses droits, conduit Hannah Arendt à ratifier la critique réactionnaire des droits de l'homme. Cet itinéraire est singulier.

 

Singulier peut-être, mais imposé par la force des choses. Du déracinement des apatrides à l'internement concentrationnaire, la négation de l'humain a pris la forme de la désolation, c'est-à-dire de la privation de sol, de l'expérience radi­cale et désespérée d'une absolue non-apparte­nance au monde. Il faut un monde à la liberté. Ce n'est pas n'importe où, n'importe comment, mais au sein d'un peuple, dans un certain milieu vital, à l'intérieur d'une communauté politique, que l'homme peut vivre en tant qu'homme parmi les hommes, c'est-à-dire «exprimer des opinions signifiantes et mener des actions effi­caces1». Voilà ce que nous apprend, a contra­rio, un siècle dévasté par la volonté totalitaire de dissoudre le monde humain dans le progrès de l'Histoire. Lutte des races, ou lutte des classes, il n'y  a  de  lois  dans  l'univers  totalitaire que comme lois du mouvement : il n'y a de réel que le processus historique, il n'y a de vivant que l'humanité en marche et, au bout du compte, il y a la formule glaçante de l'Angkar (l'organisa­tion des Khmers rouges): « Te perdre n'est pas une perte, te conserver n'est d'aucune utilité 2. » Sous le règne de l'Homme, les hommes finissent par être tous superflus. En d'autres termes, la négation ontologique de l'individu accom­pagne l'anéantissement du monde dans le fleuve du devenir. C'est l'événement donc, et non le caprice, qui a conduit Hannah Arendt à refuser de choisir entre l'ordre et le mouvement. Elle a vu le mouvement engloutir simultanément toute stabilité et toute initiative.


Oui, Hannah Arendt est conservatrice, car elle a peur. Elle n'a pas peur pour ses biens. Ayant éprouvé la fragilité de la permanence, elle a peur pour le monde. Proche ici de Simone Weil, elle a peur pour cette chose belle, gra­cieuse, fragile et périssable qu'est la patrie non mortelle des mortels que nous sommes. Elle a peur pour la loi positive qui entoure tout nou­veau venu de barrières et, en même temps, assure la liberté de mouvement, la possibilité qu'il advienne quelque chose de nouveau et d'imprévisible. Elle a peur pour la trame symbo­lique, la communauté de sens qui nous relie non seulement à nos contemporains mais aussi à ceux qui sont morts et à ceux qui viendront après nous. Elle a peur pour le passé, pour le temps humain, pour la continuité qu'instituent les objets et les œuvres, pour le cadre durable au sein duquel peuvent se déployer l'action et la création.


Non, Hannah Arendt n'est pas conservatrice, car elle n'aspire pas davantage au rétablissement de l'ordre qu'à l'instauration d'une société organique où les tâches s'accompliraient naturelle­ment, sans discussion, sans invention, sans projet, indépendamment des volontés indivi­duelles. Il ne s'agit, en aucune façon, pour elle, de restreindre la faculté d'agir à ce que la tradi­tion prescrit ou de fondre la multiplicité des per­sonnes dans l'unité substantielle de je ne sais quel Volksgeist. Le monde dont elle a le souci est bien un héritage, mais cet héritage ne se pré­sente ni comme un modèle de comportement, ni comme une identité collective. Arendt est simplement payée pour savoir que l'autonomie n'est pas donnée comme une nature, qu'elle n'est pas une propriété inaliénable de chacun de nous. Le siècle lui a appris à faire la différence entre les conditions d'une vie humaine et les conditionnements ou les aliénations de la liberté. Burke : l'homme est d'abord un héritier. Paine : l'homme est d'abord un individu. Arendt : le déshérité ne peut pas accéder à une existence individuelle.



 

Alain Finkielkraut 

in L'ingratitude (IV. L'impudence des vivants) 

Conversation sur notre  temps avec Antoine Robitaille


pp. 156-158

© Éditions Gallimard, 1999 et 2000


Notes:


1. Hannah Arendt, Les origines du totalitarisme, l'impérialisme, Seuil,1984, p.286


2. Cité dans Le livre noir du communisme, Robert Laffont, 1997, p.654




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6.3.13

 

 

 

Desk Murder 

Oil on canvas, 76.2 x 122 cm, c.1970–1984

 

 

R.B. Kitaj  (1932-2007)

 

em Londres até 16 de Junho de 2013  aqui

 

Leia aqui

 

 

 

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11.1.13

 

 

 

 Milan Kundera

 

 

Après 1948, pendant les années de la révolution communiste dans mon pays natal, j'ai compris le rôle éminent que joue l'aveuglement lyrique au temps de la Terreur qui, pour moi, était l'époque où «le poète régnait avec le bourreau» (La vie est ailleurs). J'ai pensé alors à Maïakovski; pour la révo­lution russe, son génie avait été aussi indispensable que la police de Dzerjinski. Lyrisme, lyrisation, dis­cours lyrique, enthousiasme lyrique font partie inté­grante de ce qu'on appelle le monde totalitaire; ce monde, ce n'est pas le goulag, c'est le goulag dont les murs extérieurs sont tapissés de vers et devant lesquels on danse.


Plus que la Terreur, la lyrisation de la Terreur fut pour moi un traumatisme. À jamais, j'ai été vac­ciné contre toutes les tentations lyriques. La seule chose que je désirais alors profondément, avide­ment, c'était un regard lucide et désabusé. Je l'ai trouvé enfin dans l'art du roman. C'est pourquoi être romancier fut pour moi plus que pratiquer un «genre littéraire» parmi d'autres; ce fut une attitude, une sagesse, une position; une position excluant toute identification à une politique, à une religion, à une idéologie, à une morale, à une collec­tivité; une non-identification consciente, opiniâtre, enragée, conçue non pas comme évasion ou pas­sivité, mais comme résistance, défi, révolte. J'ai fini par avoir ces dialogues étranges: «Vous êtes communiste, monsieur Kundera ? — Non, je suis romancier.» «Vous êtes dissident? — Non, je suis romancier. » «Vous êtes de gauche ou de droite? — Ni l'un ni l'autre. Je suis romancier. »


Dès ma première jeunesse, j'ai été amoureux de l'art moderne, de sa peinture, de sa musique, de sa poésie. Mais l'art moderne était marqué par son «esprit lyrique», par ses illusions de progrès, par son idéologie de la double révolution, esthétique et poli­tique, et tout cela, peu à peu, je le pris en grippe. Mon scepticisme à l'égard de l'esprit d'avant-garde ne pouvait pourtant rien changer à mon amour pour les œuvres d'art moderne. Je les aimais et je les aimais d'autant plus qu'elles étaient les premières victimes de la persécution stalinienne; Cenek, de La Plaisanterie, fut envoyé dans un régiment dis­ciplinaire parce qu'il aimait la peinture cubiste; c'était ainsi, alors: la Révolution avait décidé que l'art moderne était son ennemi idéologique numéro un même si les pauvres modernistes ne désiraient que la chanter et la célébrer ; je n'oublierai jamais Konstantin Biebl : un poète exquis (ah, combien j'ai connu de ses vers par cœur!) qui, communiste enthousiaste, s'est mis, après 1948, à écrire de la poésie de propagande d'une médiocrité aussi consternante que déchirante; un peu plus tard, il se jeta d'une fenêtre sur le pavé de Prague et se tua; dans sa personne subtile, j'ai vu l'art moderne trompé, cocufié, martyrisé, assassiné, suicidé.


Ma fidélité à l'art moderne était donc aussi pas­sionnelle que mon attachement à l'antilyrisme du roman. Les valeurs poétiques chères à Breton, chères à tout l'art moderne (intensité, densité, ima­gination délivrée, mépris pour «les moments nuls de la vie»), je les ai cherchées exclusivement sur le ter­ritoire romanesque désenchanté. Mais elles m'im­portaient d'autant plus. Ce qui explique, peut-être, pourquoi j'ai été particulièrement allergique à cette sorte d'ennui qui irritait Debussy lorsqu'il écou­tait des symphonies de Brahms ou de Tchaïkovski; allergique au bruissement des laborieuses araignées. Ce qui explique, peut-être, pourquoi je suis resté longtemps sourd à l'art de Balzac et pourquoi le romancier que j'ai particulièrement adoré fut Rabelais.



Milan Kundera

in Les testaments trahis

[sixième partie Oeuvres et Araignées [# 7,  pp. 185-187]

© Milan Kundera / Editions Gallimard 1993



 

 


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21.9.12

 

 

  

..

João Marques de Oliveira (1853-1927).

Óleo sobre madeira (59,5x41 cm)
Museu José Malhoa, Caldas da Rainha, Portugal



Esta e outras marinhas na pintura portuguesa aqui




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11.7.12

 

 

 

 

 

Piet Mondrian (1872-1944)

oil on canvas, private collection, Switzerland
©ABC/Mondriaan Estate / Holzman Trust licensed by International Partners B.V. 
 
 
 

6.7.12

Voiture baignoire, 1876 (29 Juillet après-midi) 

 

James Ensor (1860-1949)

imagem:© SABAM Belgium 2011

 

 

James Sidney Ensor (Ostend, 13 April 1860-19 November 1949) was the son of an English father and a Belgian mother. The family operated a souvenir and curiosity shop in Ostend and boarded rooms out to summer guests. [...] His seascapes, still lifes, naturalistic figure pieces and tableaux from the life of the young, modern bourgeois woman, such as the celebrated The Oyster-eater from 1882, unquestionably belong to the major works of the European Realism and plein air movements.

 

Ensor aqui 

 

 

Mais sobre estas barracas de praia  - "bathing machines"  aqui 

 

 

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27.5.12

 

 

 
Pablo Picasso
1er Carnet #VIII (8.7.1959)

 

[...] El contacto con el toro bravo es lo que nos hace toreros. Quizá sea el contacto con su soledad en el campo, lo que hace que el hombre se vaya consolidando en su carácter. Y en este caso, al referirme al hombre, he de hacer alusión directa de mí, ya que, al pedirme estas cuartillas, quisieron hacerme protagonista del relato. Supe también en el campo y en este contacto con lo que el público llama la fiera, lo que debía rehuir para no convertirme en lo que Antonio Machado llamaba: « España de charanga y pandereta, cercado y sacristía, devota de Frascuelo y de María, de espíritu burlón y de alma quieta». Supe desde el primer momento que buscaría algo más, que encontraría otras inquietudes en mi vida. No admito la carnavalada más que en las máscaras de Goya o de Solana. Estoy más cerca de la pintura negra Goyesca, que de la fiesta en la Pradera de San Isidro. En él campo castellano fui puesto en contacto con esa España más profunda, que es la España del campo en donde no cabe el oropel, porque las vestiduras son de cuero, en donde no sirven las panderetas, porque su tamborileo sería borrado por la profundidad de su horizonte. Conocí a la par a los hombres que a nadie engañan, porque nacieron ayunos de aspiraciones por una tradición de inexplicable resignación, porque nadie les ha querido despertar sus conciencias. Y conocí a la par al toro, alejado del albero de la plaza, en donde assume el papel de antagonista en este festejo, en el que el papel de protagonista, de héroe legendario, se le ha atribuido al torero. Y estoy conforme — ¿por qué no? — en el reparto que en la Gran Comedia Humana, me ha tocado en suerte o en desgracia representar.

En un herradero, en una tienta, en cualquiera de esas faenas que hay que realizar antes de que el toro se encuentre en condiciones de ser lidiado, puede estar el secreto de la trascen­dencia con que tratamos de revestir a este espectáculo de multitudes, espectáculo capaz de despertar pasiones insospechadas. Si no le diésemos, si no revistiésemos a la corrida de la precisa trascendencia, no resultaría serio — ya lo he dicho en otras ocasiones — que un hombre con unas medias rosas, luche con un toro en medio de una plaza, y todo esto en plena Era atómica; a primera vista no parece serio.

Pero algo más que la simple pandereta, hay en las entrañas de esta fiesta. Algo más existe, efectivamente, si sus protagonistas tienen algo más que lo superficial. Sin embargo, no puede evitarse que como frivolidad sea tomado a veces, un espectáculo que es la lucha a muerte entre toro y torero. Pues sí, es un juego, casi una frivolidad, para el pueblo más familiarizado con la muerte que haya existido jamás: España. 

 

 

Luis Miguel Dominguín

in Picasso, Toros y Toreros

© 1980 Alpine Fine Art Collection, Ltd, 

New York, New York

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9.4.12

 

 

 

 

 

Gerhard Richter 

Tulpen (1995)

 

até 13 de Maio de 2012 aqui...

veja também aqui

 

 

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6.4.12

 

 


 

 

Gerhard Richter

Cloud (1976)

 aqui

 

 


Évangile selon saint Marc

Mc 5, 33-37

 

A la sixième heure, l'obscurité se fit sur toute la terre, jusqu'à la neuvième heure. Et, à la neuvième heure, Jésus poussa un grand cri : « Eloï, Eloï, Lamma sabacthani? » Ce qui veut dire : « Mon Dieu, mon Dieu, pour­quoi m'as-tu abandonné? » Certains de ceux qui étaient là dirent, en l'entendant : «Tiens, il appelle Élie.» Quelqu'un courut imbiber une éponge de vinaigre et, l'ayant mise au bout d'un roseau, lui donna à boire en disant : «Attendez, voyons si Élie va venir pour le descendre à terre ! »

Mais Jésus, ayant jeté un grand cri, expira.

 

 

[...]


G.S. : Après cet appel sans réponse de Dieu qui n'éveille que moquerie ou pitié des hommes, Jésus gémit sa soif comme un homme, comme un être de besoins qu'il était...

 

 

F.D. : Mais c'est à ce moment-là qu'il se montre autre, et venu d'ailleurs: ce moribond pousse alors, dans un dernier effort, au son d'un grand cri, le souffle venu d'ail­leurs. Par ce souffle il a respiré, il a vécu, il a parlé, par ce souffle rendu il quitte ce passage dans la chair.

Ce long cri du Christ abandonné des hommes, aban­donné de Dieu son Père, ce cri qui appelle, sans réponse audible, ce cri n'est-il pas le modèle des mots d'amour, d'amour et de désir, aux limites de l'articulé et du son?

C'est par le cri que le nouveau-né en appelle à sa mère pour s'y blottir, se calmer, apaiser sa soif et sa faim.

C'est par le cri que tout enfant en appelle à son père pour être protégé des méchants.

C'est par le cri que tout humain fait appel pour préserver son droit à l'intégrité quand une part de son corps, trahie par la douleur, se dérobe à la cohésion de l'ensemble et se disloque. Ce cri alors en appelle au secours d'un autre, à son aide.

Cri du besoin, cri du désir, cri de l'amour trahi, cri d'un fils d'homme, cri de tous les hommes. En son cri, ils peuvent tous se reconnaître.

Ce cri, entendu par tous les témoins, ce cri étrange, mystérieux, insolite et inépuisable, n'est-il pas le mes­sage où déchiffrer la résurrection assumée de la chair, audible en ses prémisses, là, au moment de sa mort en croix, par Jésus de Nazareth?

Ce cri de Jésus exposé entre terre et ciel s'est répandu dans l'espace. Il résonne toujours.

 

 

Francoise Dolto e Gérard Sévérin

in L'Évangile au risque de la psychanalyse (Au pied de la Croix , Tome I )

Éditions du Seuil

© Éditions Universitaires, S.A., 1977, J.-P. Delarge, éditeur



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7.3.12

 

 

 

 

Alfredo Keil (1850-1907)

Paisagem. Entardecer nos Vales, 1898

 

© IMC/DDF aqui

 

 

 

These interesting travels of mine shall be a masterpiece, erudite, sparkling with new ideas, something worthy of our century. I need to inform the reader of this, so that he may be forewarned and not think that they are just another batch of these fashionable scribblings entitled Travel Notes or something similar, which weary the printing presses of Europe without the slightest benefit for science or for the advancement of the species.

 

First of all my book is a symbol ... a myth, a Greek word, and a Germanic fashion, that is put into everything nowadays and used to explain everything that... can't be explained.

 

It is a myth because... because... Without further ado I shall lift the veil and state openly to my benevolent reader the profound idea that is concealed beneath this frivolous appearance of a brief trip seemingly taken in play, while all the time it is a serious, sober, thoughtful business like a new tome from the Leipzig fair, not one of your penny dreadfuls from the boulevards of Paris.

 

Some years ago there was a deep, abstruse philosopher from over the Rhine who wrote a work on the march of civilization, of the intellect - what we might call, to be better understood, Progress. He discovered that there are two principles in the world: spiritualism, which marches on heedless of the material, earthy side of this life, eyes fixed on its great, abstract theories, a stiff, spare, hard, inflexible belief which can be suitably embodied, symbolized by the famous myth of the Knight of La Mancha, Don Quixote; and materialism, which, taking not the slightest heed of these theories, in which it does not believe and whose impossible applications it declares to be Utopias each and every one, can be properly represented by the rotund and well-fed person of our old friend Sancho Panza.

 

But, as in witty Cervantes's story, these two completely opposed and contradictory principles nevertheless are always together, the one some way behind, the other going on ahead, often getting in each other's way, rarely helping one another, but always progressing.

 

And this is what is possible for human progress.

 

And here is the chronicle of the past, the history of the present, the programme for the future.

 

Our present-day world is a vast Barataria governed by King Sancho.

 

Don Quixote's turn will be next.

 

Common sense shall come with the millennium: the kingdom of the children of God! It is guaranteed in the divine promises... like the constitution promised by the King of Prussia; and he has not failed yet, because - because the contract has no fixed date: he promised, but he did not say for when.

 

Now this journey of mine up the Tagus symbolizes the march of our social progress: I hope the reader has understood this by now. I shall be careful to remind him from time to time, for I very much fear he will forget.

 

 

Almeida Garrett

in Travels in My Homeland (II) p.27-28

Translated from the Portuguese by John M. Parker

© Peter Owen Publishers/UNESCO collection of Representative Works

 

 

 

 

Santarém hoje  aqui e no facebook aqui

 


18.12.11

 

 

 

 

 

A Virgem e o Menino

Ângelo da Fonseca (1902-1967)

 

 

 

Também em Goa, pobres e ricos, muito portuguêsmente, fazem presépio. Certas famílias, com alguma antecipação, semeiam nachiniru, cereal que grela rapidamente, em terra espalhada sobre uma pequena tábua. Quando as folhinhas começam a aparecer, formam um tapete verde sobre o qual é armado o presépio de palha.

 

*

 

Os preparativos iniciam-se com grande antecedência, principalmente com a confecção de certos doces típicos, que não faltam em nenhuma mesa, como os mandarês, hóstias grandes feitas de abóbora, secas ao sol e fritas em óleo de coco no momento de servir, assemelhando-se a bolachas muito finas, de excelente paladar. Outro doce peculiar a esse dia é o dodol, preparado com farinha de trigo, sumo de coco, jagra, castanha de caju e manteiga. O dodol ocupa sempre na sua confecção duas ou mais pessoas, que se revezam, pois cansa muito mexê-lo continuamente. De resto, a maioria dos doces goeses é feita por esse processo, como o doce de grão, o doce  bagi, a mangada, a cocada, e outros. [...] E não podemos esquecer os neureus, semelhantes a rissóis mas recheados com coco ralado, cozido em mel de açúcar ou lentilhas, sendo tudo frito em óleo de coco ou assado no forno. E ainda os oddés (lê-se ores), feito- de farinha de trigo amassada em agua e sal, redondos e fritos também em óleo de coco a ferver.

 

*

 

Outro elemento digno de menção especial é a iluminação das casas. Desde as vésperas de Natal até aos Reis, todos os lares católicos irradiam externamente uma luz suave proveniente de lanternas chinesas de diversos formatos e desenhos, com velas de cera acesas. [...] Um elemento, porém, é comum a todas: a estrela! É feita de bambu e forrada de papel de seda, branco ou de cores, e presa a um pau comprido espetado no chão. À noite, quando iluminada, dá-nos a impressão de uma estrela suspensa no céu límpido, evocando a que surgiu aos Reis Magos, assinalando o caminho de Belém.

 

*

 

E a véspera de Natal termina com a Missa do Galo. Todos voltam lentamente para casa, cheretas a servir de lanternas, abrindo buracos na noite. Os doces ficam à espera, pois a consoada é a 25, no próprio dia de Natal, em puro convívio familiar, regalando-se então todos com a boa comezaina, variada e gostosa.

E a meio do dia surgem os farazes.

Os farazes são talvez a classe mais baixa, sem casta, descendente dos primitivos habitantes dravídicos. Vivendo em comunidade mais ou menos tribal e dedicando-se à manufactura de utensílios de bambu, constituem uma das camadas populacionais de Goa mais sinceramente católicas, desprezados como são pelos brâmanes e pelas outras castas arianas. Isso recorda-me palavras que o grande poeta Paulino Dias, na sua narrativa dramática Os párias, põe na boca de um faraz:

 

Os nossos maiores, Pralada, Ravana, Hiraniaxipú, Bali, bateram os Árias e comeram a sua carne. É a vingança, ó Jiubá, dos crimes das eras, os crimes de defender a sua choupana, a sua mulher e os seus filhos. Hoje o estrangeiro os devora com garganta de cobre aquecido. Eu sei que num país depois do mar os Árias são expulsos, feridos, sem poderem passar pelas ruas, entrar nos Dharmasadas e nas pousadas. Pagam pelo que nos fazem, ó Jiubá. Nós temos ainda os deuses deles, Shivá, Rama e Parvati, e eles não nos deixam pisar o degrau do seu templo. Mil vezes melhores os cristãos e muçulmanos que nos aceitam como irmãos.

 

 

Vimala Devi

in "Natal de Goa"

Panorama Revista de Arte e Turismo nº 24-III Série-Dezembro de 1961

Edição do SNI Lisboa

 

 

Notas:

 

Vimala Devi, Paulino Dias e outros autores da literatura indo-portuguesa  aqui

Angelo da Fonseca aqui

 

 

Museum of Christian Art, Goa aqui 

 

 

 

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