10.9.16

 

 

O rose petals.jpg

 

 

 

omissão
o.mis.são
nome feminino
(do latim omissio, -onis)

 

 

O que se deixa de fazer ou de dizer. Esquecimento, voluntário ou involuntário. Silenciamento com que se modela a realidade e, por tal razão, recurso gramatical e estilístico muito presente na resposta a perguntas do tipo «O que fizeste hoje?» ou «Em que estás a pensar?». Lacuna. Falta. Ocultação. Apagamento. Técnica narrativa que consiste numa aceleração ou salto no tempo; exemplo clássico é, entre muitos outros, o início do terceiro capítulo de Os Maias: «Mas esse ano passou, outros anos passaram. Por uma manhã de Abril, nas vésperas da Páscoa, Vilaça chegava de novo a Santa Olávia.» Na economia da construção da verdade opera por supressão, que é uma forma de selecção. Mentira politicamente mais subtil ou juridicamente menos gravosa. Forma de cobardia.

 

 

 

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3.9.16

 

 

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participação
par.ti.ci.pa.ção
nome feminino
(de participatio, -onis)

 

 

Como acção cívica ou expressão de cidadania designa o dever de intervir, de ajudar, de colaborar, de contribuir, de cooperar. Como exigência contemporânea significa falar, comentar, seguir, configurando uma espécie de obrigação de comunicar, muito para além do âmbito jurídico da participação, como a queixa ou a denúncia, ou do âmbito social, como a participação do nascimento, do casamento ou do óbito. A participação, como a comunicação, de que é causa e consequência, está na ordem do dia, na ordem de serviço da ordem geral. Dizem que faz bem à saúde. De pequeninas, as crianças aprendem os seus fundamentos e as escolas requerem impiedosamente a sua prática; as famílias reclamam-na, as empresas exigem-na e até a premeiam, os artistas praticam-na ou servem-na, os governos administram-na. Ficar calado e quieto a um canto pode ser interpretado como disfunção com direito a acompanhamento de psicólogo e subsequente reeducação. É preciso ter um certo cuidado.

 

 

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30.8.16

 

 

Untitled-1.jpgFernando Guedes (1929-2016)

 

 

 

 

Ignoro se têm sido muito ou pouco estudadas eventuais afinidades do nosso modernismo com o dos Britânicos, para além da comum recusa do sentimentalismo (mas talvez não a procura radical da despersonalização e do distanciamento, que quase só encontramos em Pessoa; a estética imagista só terá verdadeira expressão portuguesa com Alberto de Lacerda, mas esta poderá ser uma opinião controversa), mas não resisto a chamar a vossa atenção para os conselhos que William Carlos Williams, um outro americano que foi figura de proa do Imagismo, dava à poeta inglesa Denise Levertov, em 1954, repercutindo ainda nesse momento, de forma bastante fiel, o ideário imagista de Pound e Eliot em 1914. Dizia ele: «Corte, e corte de novo, tudo o que escrever — ao mesmo tempo que por obra da sua arte não deixa vestígios dos cortes — e o resultado final ficará repleto do que tem para dizer».

 

O crítico britânico Harold Monro, num livro intitulado Some Contemporary Poets, publicado em 1920, conta a história de um jovem poeta americano recém-chegado dos Estados Unidos que procurou Eliot a fim de lhe mostrar os seus trabalhos. Este, ponderou longamente em silêncio um poema e, erguendo finalmente os olhos, terá dito: «Precisou de 97 palavras para o fazer; eu acho que poderia tê-lo feito em 56». Mas nada disto era novo e os próprios imagistas não se cansavam de o afirmar: «Estes princípios não são uma novidade; caíram em desuso. Eles são o essencial de toda a grande poesia».

 

É claro que estamos no plano estilístico da precisão. Mas creio que poderíamos articular isto, independentemente dos particulares relativos à diferença de contextos, com o que António Ferro — fundador e referência desta Casa — escrevia, em 1919, em Leviana (publicado em 1921):

 

«O excesso de pormenores embrulha a concepção, a intenção. Já que não podemos simplificar a vida, simplifiquemos a literatura. A literatura, como a vida, está atravancada. Há que descongestioná-la: um só quadro numa parede, dois ou três móveis em cada sala. Simplifiquemos! Simplifiquemos! A falta de espaço é cada vez maior. Há que fazer peças com poucas personagens, romances com poucas páginas, telas com poucas tintas. Seleccionar! Seleccionar! Escrever muito é fácil. Escrever pouco é heróico, muitas vezes. Poucos escritores têm essa coragem».

 

Como é sabido, The Waste Land, o poema de Eliot que Fernando Guedes considera o mais visionário do século xx, foi drasticamente reduzido na sua dimensão pela mão de Pound, que na dedicatória de Eliot é justamente designado como il miglior fabbro.

 

***

 

Há muito que Fernando Guedes se interessa por estes dois autores, Eliot e Pound. Poeta, ligado à Távola Redonda, nessas «folhas de poesia», cuja publicação se iniciou em Janeiro de 1950, apresentou e traduziu ambos (possivelmente pela primeira vez entre nós, como ele próprio notou na sessão de apresentação do livro). Eliot fora distinguido com o Nobel em 1948; Pound, internado num hospital psiquiátrico, recebera o Prémio Bollingen, em 1949. Posteriormente, no final da década, Fernando Guedes haveria de dirigir uma outra revista que logo no título – Tempo Presente – evocava Eliot (O tempo presente e o tempo passado/ São ambos presentes talvez no tempo futuro/E o tempo futuro contido no tempo passado) e que no segundo número apresentava traduções de Pound e saudava a sua libertação, ocorrida no ano anterior.

 

Deste modo, o que Fernando Guedes faz nestas quatro comunicações é arrumar de forma condensada o seu próprio percurso de leitor de Eliot e Pound ao longo de décadas e apresentar a sua visão sobre o lugar de cada um deles na poesia do século xx. Partindo de uma perspectiva, que foi antes de mais geracional, de reavaliação da modernidade face à tradição, de indagação estética (o tal percurso partilhado em fraterna amizade com Fernando Lanhas), mas também ideológica na marcação das suas distâncias, Fernando Guedes engloba no seu interesse por estes poetas a dinâmica concisa e complexa da estética imagista, a relação com as artes plásticas, e, muito particularmente, a sua ressonância mítica e religiosa.

 

 

Jorge Colaço

 

Excerto de um texto lido no Círculo Eça de Queirós no dia 4 de Setembro de 2014 a propósito do livro de Fernando Guedes T. S. Eliot e Ezra Pound – uma tentativa de aproximação às suas vidas e às suas obras, publicado nesse mesmo ano.

 

 

O artigo de Jorge Colaço  Na morte de Fernando Guedes (1929-2016)  aqui.

 

Algumas obras de Fernando Guedes disponíveis na Wook aqui

 

 

 

 

 

 

 

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27.8.16

 

 

 

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borra-botas
bor.ra-bo.tas
nome com dois géneros e 2 números
(de borrar + bota)

 

Mesmo que tenha um dia designado o engraxador desastrado ou incompetente, o termo terá acabado por se aplicar à generalidade dos lustradores de calçado. Porém, a expressão «borra-botas» passou, em momento que não se consegue descortinar, a designar o indivíduo insignificante, miserável, sem valor, sem categoria nem dinheiro. Um desgraçado. Terá esta acepção sido originada a partir da profissão de engraxador em geral ou especificamente do mau engraxador? Não sabemos. Sabemos que, na escala social, o engraxador integrou sempre um escalão muito baixo, para mais tratando-se de um trabalho sujo que se realiza curvado sobre pés do cliente. Mas a ideia de que se tivesse originado uma expressão pejorativa para designar um mau profissional não deixa de ser uma ideia curiosa. Embora também perigosa, pois seríamos obrigados a reconhecer que, em certos momentos, ou em certas áreas, se vive rodeado de borra-botas. Por outro lado, o desaparecimento dos engraxadores, outrora numerosos e indispensáveis, deu maior relevo aos graxistas, também designados manteigueiros, uma outra classe de indivíduos que partilha com os borra-botas a acepção moderna de desprezível.

 

 

 

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20.8.16

 

 

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acrimónia
a.cri.mó.ni.a
nome feminino
(do latim acrimonia, «acidez», «amargor»)

 

 

A acrimónia distingue-se do amargor, que é a experiência pessoal do que é amarescente, do que tem um certo travo adstringente. Do seu prolongamento na alma resulta, por exemplo, o gosto deixado pelo desgosto (o qual sendo uma experiência pessoal é muitas vezes também intransmissível), que aplicado a gente se diz amargura. A acrimónia, ao invés, embora decorrendo também do que é acre, azedo, usa-se para designar a atitude relacional marcada por maus humores, ressentimentos, ou ressabiamentos (ver ressabiamento), e se traduz em azedume, em aspereza, em má vontade, em irritação permanente.

 

 

 

 

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13.8.16

 

 

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epopeia
e.po.pei.a
nome feminino
(Do grego epopoía, de epos «palavra» + poíeo «compor»)


A epopeia clássica é um poema narrativo, composto em hexâmetro dactílico (formado por seis dáctilos, uma unidade métrica de versificação constituída por uma sílaba longa seguida de duas sílabas breves), cujo assunto são os feitos praticados por heróis, superiores em força e coragem, engenho e astúcia, mas que dependem dos deuses, os quais intervêm na orientação das suas acções.
É, porém, no mais doloroso verso lírico camoniano —«Errei todo o discurso dos meus anos»— que encontramos a única epopeia que o homem moderno ainda pode/ poderá/ poderia ser capaz de compreender. 

 

 

 

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6.8.16

 

 

P for Pamela Pinterest.jpg

 

 

 

 

palinódia
pa.li.nó.di.a
nome feminino
(do grego palinodía, canto diferente)

 

 

Como género literário da Grécia antiga era uma retractação, que servia ao autor para desdizer ou desmentir o que dissera num canto anterior. Nem sempre é fácil perceber se tais retractações eram sinceras, mas é um facto que a palinódia se tornou uma forma poética que teve a sua fortuna. Estesícoro, no século VII-VI a.C., terá sido o primeiro a usá-la. Leopardi, já no século XIX, retomou o género na «Palinodia al marchese Gino Capponi», que a certa altura diz assim: «Vendo isto/ e meditando profundamente sobre as largas/ folhas, de minhas graves, antigas/ ilusões e de mim próprio senti vergonha.»* (tradução de Albano Martins). Em português, tanto na variante brasileira como na europeia, o termo designou, pelo menos a partir do século XIX, a mudança de opinião, sobretudo política, sem rasto da retractação original. Isto é, sem vergonha.

 

 

*Così vedendo,/ e meditando sovra i largui fogli/ profondamente, del mio grave, antico/ errore, e di me stesso, ebbi vergogna.

 

 

 

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30.7.16

 

 

 

B van Bibliotheek den Haag.jpg

 

 

 

 

bambúrrio
bam.búr.ri.o
nome masculino
(possivelmente do baixo latim bamburrus)

 

 

Sorte inesperada; acaso feliz ou maré de acasos felizes – não procurados, nem planeados – que tilintam (de forma real ou simbólica) como o jackpot de uma máquina onde não se tinha introduzido qualquer ficha. Oportunidade caída do céu. Casualidade; ganho inexplicável. Bafejo do destino. Golpe favorável que intimamente se conhece, mas não se reconhece publicamente, pois isso seria admitir a parca, ou nula, contribuição do bafejado no processo que conduz a tão benigno resultado.

 

 

 

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23.7.16

 

 

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contubérnio
con.tu.bér.ni.o
nome masculino
(do latim contubernium, «camaradagem ou comunidade de tenda»)

 

 

Na Roma antiga designava a união conjugal entre escravos ou mesmo entre escravos e pessoas livres. Por extensão passou também a designar o concubinato ou a mancebia em geral, fazendo a ponte com uma certa ideia de vida dissoluta ou espúria (ver espúrio). Restringido à vida boémia, o contubérnio refere-se sobretudo à camaradagem, não implicando a vida em comum. Porém, na realidade, o tipo de convivência implícita no contubérnio é uma ideia de comunidade familiar. O termo, hoje geralmente caído em desuso, poderia designar, com vantagem, certos casos espúrios de aliança política ou certos alinhamentos do que habitualmente se chama coabitação.

 

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16.7.16

 

 

 

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eclectismo
e.clec.tis.mo
nome masculino
(do francês éclectisme)


Na história das ideias corresponde à formação de um corpo doutrinário composto por elementos colhidos em, ou aproveitados de, diversos, e por vezes contraditórios, sistemas de pensamento. Equivalente a manta de retalhos. Modernamente é muitas vezes assimilado ao sincretismo, de que é uma forma. Nos tempos que passam, é, geralmente, reflexo da atitude relativista reinante, da construção de um sistema em que todas as coisas se equivalem (há quem diga que tudo é bom — sobretudo nas artes, mas não só — desde que — cláusula misteriosa — seja «de qualidade»). Aplicado mais habitualmente ao pensamento e ao gosto, em política pode assumir facetas particularmente sinistras. Com a decadência das verdades únicas e absolutas, e apresentado como virtude, o eclectismo confunde-se, na maior parte dos casos, erradamente, com heterodoxia, de que não é sinónimo, pois esta configura um entendimento do mundo não conforme a uma visão ou regra dominantes, claramente assente na liberdade de espírito (sendo que a liberdade é a mais severa disciplina do espírito).

 

 

 

 

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9.7.16

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contemporizar
con.tem.po.ri.zar
verbo transitivo e intransitivo
(de con + temporizar)

 

Ceder aos tempos e às circunstâncias. Deixar-se torcer, ou torcer-se, para não quebrar. Acomodar-se. Fingir que se gosta do que na realidade não se gosta. Transigir. Consentir. Resignar-se. Desistir. Confunde-se por vezes, na prática, erradamente, com manifestação de tolerância (ver tolerância). Em certos enunciados poderá aparecer com o sentido de «dar tempo» ou «ganhar tempo», o que pode ter carácter benigno nalguns casos e ser fatal em muitos mais. Raras vezes significa estar à altura das circunstâncias; na maior parte dos casos adquire mesmo um sentido oposto.

 

 

 

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2.7.16

 

 

G red.jpg

 

 

 

galhardia
ga.lhar.di.a
nome feminino
[de galhardo (do provençal antigo galhart, francês gaillard) + ia]

 

A galhardia pode referir-se à beleza ou à distinção, à generosidade, à vivacidade, à robustez ou à bravura. O coloquialismo espanhol trapío (de etimologia incerta; segundo José María de Cossío a palavra terá origem no jargão náutico, no qual designaria o velame), ausente dos dicionários portugueses, embora usado na língua com frequência, sobretudo em contexto tauromáquico, aglutina algumas destas acepções. O Dicionário da Real Academia Espanhola oferece como segunda acepção de trapío a «boa presença e galhardia de um touro de lide». Mas não é esse o primeiro significado listado; nesse primeiro lugar aparece o «ar garboso que costumam ter algumas mulheres».
Não é necessária uma grande investigação para concluir que, relativamente ao touro, na sua «presença e galhardia» se articulam envergadura, beleza, brio e bravura. Relativamente à mulher, a ideia é sobretudo designar a elegância e o porte. A vivacidade e aprumo inerentes à prática de dançar galhardas, popularizadas em Portugal nos salões dos séculos XVI e XVII, deixou algum vestígio no significado de galhardia que toca também o significado de garbo (palavra de origem italiana). A elegância grácil do garbo é, no entanto, designada com acerto por uma outra palavra fora de moda, belíssima por sinal, que aliás nos chegou por via castelhana: donaire.
Seja como for, em Portugal, o termo trapío, usado — sem dúvida por gente com uma organização mental especiosa — para designar o porte garboso da mulher desliza facilmente para a outra acepção: uma mulher com trapío é uma mulher com a envergadura necessária. Que por certo se desenvencilhará com galhardia, seja o que for que isso, no momento, queira dizer.

 

 

 

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25.6.16

 

 

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melindre
me.lin.dre
nome masculino
(etimologia incerta)

 

 

Termo com duas acepções que são como as duas faces de uma moeda: tanto pode designar o especial cuidado para não ferir, magoar ou ofender, como a extrema facilidade de ficar ferido, magoado ou ofendido. Ambos os sentidos são centrais na relação social. A sua manifestação por defeito é bruteza; por excesso, é moléstia. Ambos se aplicam a pessoas, situações e coisas. O conhecimento dos aspectos comuns do melindre é uma disciplina central da Diplomacia, que se ocupa da susceptibilidade, nas suas diversas modalidades e graus. Nela confluem as cautelas e os caldos de galinha, insuficientes por si só, mas também o estudo da sensibilidade, da mais epidérmica à mais profunda, e do macramé, que é arte de fazer e desfazer nós. A consciência do melindre obriga, frequentemente, ao uso de vestuário adequado, luvas esterilizadas e outros acessórios, como pinças cautelares e calçado apropriado a andar de mansinho. Não raro envolve um sentido estratégico do risco, que ora exige recato, ora temeridade. Perigo fatal é o melindre do melindre: a hesitação por receio de errar o dito e o feito.

 

 

 

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18.6.16

 

 

 

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ademane
a.de.ma.ne
nome masculino
(do latim ou do árabe, através do castelhano ademán)

 

 

Gesto ou encadeamento de gestos afectados ou amaneirados; sintaxe gesticular e posicional, mais ou menos personalizada, caracteristicamente expressiva, com maior ou menor espalhafato, associada a uma determinada forma de estar, ou de falar, particularmente quando se trata de um processo discursivo marcado pela presunção ou a artificialidade. Movimento das mãos ou de outras partes do corpo postas em destaque: meneio, atitude, tique, trejeito. Entre uma gama vasta e variada de ademanes, salientam-se os chamados «trejeitos de mulher mundana», universal e facilmente observáveis em indivíduos de todos os sexos oriundos da fauna da pequena fama.

 

 

 

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11.6.16

 

 

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frioleira
fri.o.lei.ra
nome feminino
(do latim frivolus «sem importância» + eira)

 

 

Faixa estreita de renda ou galão ornamental geralmente recortado (em bicos) de um dos lados, como a espiguilha, para guarnição de peças diversas de vestuário e roupa de casa. Talvez por extensão passou a designar a frivolidade, a coisa desprovida de importância, a insignificância, a ninharia, a bagatela, isto é, a coisa sem valor, mas também a sensaboria. Talvez por contiguidade, e com valor eufemístico, passou a equivaler também a tolice, patetice, parvoíce, inépcia ou despropósito. Termo firme do léxico queirosiano, foi entrando em desuso, sendo hoje pouco ou nada utilizado, acompanhando a progressiva decadência da própria guarnição de renda e tudo o que noutro tempo, mal ou bem, se chamavam lavores femininos, mas seguramente não por declínio da frivolidade ou da tolice. O comentário político e desportivo oferece um vastíssimo leque de frioleiras.

 

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4.6.16

 

 

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incontornável
in.con.tor.ná.vel
adjectivo (2 géneros)
(de in­- + contornável)


Termo com que se designa uma pessoa ou coisa que não conseguimos evitar. Figura publicamente omnipresente: muito mais notória do que notável. Modismo, de uso insistente e detestável, cujo significado se confunde, muitas vezes erradamente, com o de indispensável. O que não conseguimos evitar, por força de circunstâncias que não determinamos, nem sempre é indispensável. Quando aplicado a pessoas pode ser, por vezes, um enorme aborrecimento ou uma clara injustiça. Aplicado a coisas e a situações, os poderes — central e local — têm-se encarregado de demonstrar a vacuidade da sua utilização e o esvaziamento do seu significado: não há incontornáveis.

 

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28.5.16

 

 

 

letter-e espelho.jpg

 

 

 

espelho
es.pe.lho
nome masculino
(do latim speculum)

 

 

Superfície regular capaz de reflectir a radiação luminosa que nela incide e que, se for plana, fornece uma imagem virtual, direita, simétrica, de igual dimensão à do objecto reflectido e sem distorção cromática. Os espelhos vulgares que temos em casa são fabricados com um vidro muito polido coberto de um dos lados com nitrato de prata a que se sobrepõe uma camada protectora de tinta preta. A parte da Óptica que estuda a reflexão da luz, e por extensão os fenómenos relacionados com os espelhos, tem o nome de Catóptrica.
O espelho, ou o efeito de espelho, é um elemento omnipresente na nossa cultura, e tal presença define a maior parte dos sentidos em que usamos a palavra. Narciso extasia-se e deseja a sua imagem reflectida na água até compreender a natureza vã desse amor sem solução (Ovídio, Metamorfoses, Livro III, 402-510). É que os espelhos não podem ser usados para mentir, pois a imagem produzida pelo objecto não se pode produzir na ausência deste, como salienta Umberto Eco no ensaio Sobre os Espelhos. E – embora se possa mentir acerca das imagens especulares –, os espelhos conservam simbolicamente a característica de assumirem uma espécie de ética de integridade (o reconhecimento da inteireza do corpo através da imagem especular de um «outro», de que falava Lacan) e uma exigência de representação da verdade. Veja-se, por exemplo, o espelho da Madrasta de Branca de Neve em relação à supremacia absoluta da sua beleza ou o diálogo de Hamlet com a mãe: «Come, come, and sit you down; you shall not budge;/ You go not till I set you up a glass/ Where you may see the inmost part of you.» [Venha, venha, e sente-se aí; não se mova; Não se vá antes de eu lhe trazer um espelho Onde poderá ver a parte mais funda de si] (Shakespeare, Hamlet, Acto III, Cena 4). Diz-se então que o espelho é implacável e insusceptível de ser enganado. A dissimulação será devolvida como dissimulação. Porém, o mesmo acontece com as ilusões de quem só vê o que quer ver, que é também, entre outras coisas, o princípio da vaidade: a imagem de um outro que nos olha com os olhos com que nos vemos, num espelho que assim se encerra e se torna impossível atravessar.

 

 

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21.5.16

 

 

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filáucia
fi.láu.ci.a
nome feminino
(do grego philautía, philos, amante + autos, próprio)

 

 

 

Forma acentuada de amor-próprio. Difere ligeiramente da jactância que é a sua representação estridente, quase uma necessidade vocal, urgência ostentativa e ostensiva, enquanto a filáucia se pode concretizar no convencimento, na tenacidade do gesto ou na tonalidade extremosa de quem se tem em elevada conta. Produto da vaidade, e também da vanidade, em qualquer caso não raramente conduz para lá da altivez – que é uma sobranceria proveniente do orgulho, razão pela qual em determinados contextos pode adquirir traços de nobreza –, à arrogância, que é filha da presunção e da soberba, e à empáfia (ver empáfia).

 

 

 

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14.5.16

 

 

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omnívoro
om.ní-vo.ro/a
adjectivo
(do latim omnivorus)

 

 

 

Que come de tudo e não que come tudo, como os vampiros da balada. No primeiro caso estamos perante um sinal de liberalidade, no segundo, de mera glutonaria. O animal omnívoro distingue-se, assim, das grandes famílias dos carnívoros e dos herbívoros, cuja dieta alimentar é mais exclusiva. O organismo do animal omnívoro está adaptado a essa circunstância, o que não significa que seja um devorador exaustivo. Ou até à exaustão, que é coisa um pouco diferente. Mas é quase sempre um predador. Por analogia, podemos falar, por exemplo, de leitores omnívoros – sobretudo na idade em que tudo o que vem à rede é peixe –, mas o termo é usado demasiadas vezes como elogio. Ora, o leitor omnívoro é um leitor que lê de tudo. E, fora do âmbito democrático e da idade própria, o leitor que lê de tudo (ou ouve de tudo, ou vê de tudo) ainda não se decidiu em matéria de gosto, o que não é em si grande louvor. Já os leitores que são exaustivos e lêem tudo de certo autor ou sobre um determinado assunto podem ser altamente estimáveis. Se a analogia for feita no plano sexual, a criatura omnívora será aquela que come de tudo, satisfazendo plenamente o requisito semântico do termo, e não tanto a figura rapace que come tudo – por exemplo – que tenha saias, ou pegue touros, para referir dietas clássicas, assaz restritas nos tempos que correm.

 

 

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7.5.16

 

 

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espúrio
es.pú.ri.o
adjectivo de 2 géneros
(do latim spurius)

 


Ilegítimo, bastardo ou abastardado. Não se aplica, hoje, aos filhos nascidos fora do casamento, cuja paternidade não é assumida, mas pode usar-se ainda em relação, por exemplo, a obras apócrifas. Diz-se do que não é autêntico: falso ou falsificado. Neste sentido, aplica-se por exemplo a determinadas acções, proclamações, gestos e comportamentos, a relações e relacionamentos, a bom número de manifestações no campo das artes e da literatura. Tem também grande expressão e relevo no campo editorial. Diz-se também espúria a palavra ou expressão adulterada a que falte genuinidade vernacular, que seja desconforme às normas de correcção, careça de legitimidade ou enferme de impertinência. O termo tende a cair em desuso por envolver um juízo de distinção que contraria a ideia corrente de que todas as coisas se equivalem.

 

 

 

 

 

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30.4.16

 

g-cloud-in-the-sky.jpg

 

 

 

geringonça
ge.rin.gon.ça
nome feminino
(do provençal antigo, gergon, «linguagem corrompida ou incompreensível»)

 

A origem deste termo parece ser a mesma da palavra francesa a que fomos buscar o nosso «jargão», que designa a linguagem de um grupo, mais concretamente o léxico específico de um grupo profissional ou social (o mesmo que gíria, portanto), nisso diferindo de calão, que é um fenómeno similar, mas em registo mais circunscrito e grosseiro.
Certo é que a palavra adquiriu uma nova vida, isto é, um outro sentido, que é praticamente o único que encontramos no português contemporâneo, e que também existe no equivalente espanhol jeringonza. E, assim, a geringonça é um artefacto rudimentar que, podendo ser relativamente astucioso (característica que partilha com engenhoca), é especialmente imperfeito ou mal feito, mal engendrado, tosco, grosseiro, mal-amanhado, mal-enjorcado, atamancado, albardado, de tal modo precário na sua construção – a qual podemos ver como estando presa por fios ou por arames – que a qualquer momento ameaça partir-se, desfazer-se, desconjuntar-se, descompor-se, desmanchar-se.

 

 

 

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23.4.16

 

 

 

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bofetada

bo.fe.ta.da

Nome feminino

(de bofete + ada)

 

A definição geral é a de um golpe facial assente, ou plantado, com a palma da mão. Também as há dadas com a parte de trás da mão, tomando nesse caso, popularmente, o nome de mosquete ou mesmo de safanão. Porém, quando se dão ou se prometem bofetadas, que não sejam «sem mão» ou «de luva branca», formas mais sofisticadas e exemplares, há que ter em conta a imensa variedade de matizes e subtilezas que este gesto envolve, conforme quem o desfere, a sua origem social, o nível cultural, a idade, a região do país, o contexto desencadeador e o estilo pessoal; e, claro, o grau de violência com que é desferido ou, até, a zona atingida, como no caso da orelhada, de boa tradição alentejana, o sopapo ou o trompázio.
Deste ponto de vista, bofetada é até o termo mais suave, mais cândido, mais «totó» ou «nini» se quisermos, juntamente com a palmada ligeira que é o bofete ou a tapa, termos mais açucarados e outro-atlânticos. Muito abaixo portanto do clássico tabefe (de origem árabe), breve e enérgico, com a mesma secura eloquente do estalo e da estalada. Talvez por isso todos estes se apliquem indiferentemente a crianças e adultos, homens e mulheres, cidadãos e cidadãs, homo ou hétero, bi ou poli, e até mesmo a transgéneros.
A bofetada popular tem uma variedade de expressões. Umas de carácter impiedoso, que revelam a intenção e a força usada (ou a usar) como chapada, lambada, lampana ou latada; outras são eufemismos estilosos, maneirismos, e revelam mais sobre quem as pronuncia do que outra coisa: pastilha, galheta, bilhete, bolacha ou bolachada, estampilha e sorvete. De resto, a variação de intensidade ganha particular nitidez no mundo, ou melhor, no mar de diferenças que existe entre a sardinha e a solha, passando pela sarda.
Lugar à parte, pela sua riqueza expressiva, mas também pelo seu desuso corrente, tem a palavra sinapismo como sinónimo de bofetada: impregnada dos ardores da mostarda, ela é, entre todas, a única que remete para remédio ou tratamento.

 

 

 

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16.4.16

E

 

 

estátua
es.tá.tu.a
nome feminino
(do latim statua)

Escultura tridimensional representando uma figura humana, uma divindade ou um animal. As que são dedicadas a figuras humanas constituem uma parcela da população das cidades, frequentemente negligenciada e vandalizada, sem representação nem registo nos cadernos eleitorais. Apesar disso, para sempre recordadas do incidente ocorrido com Galateia – e mais tarde com Pinóquio e outras imitações mais modernas e noutros suportes materiais –, resistem bravamente, no temor da mítica humanização, e conspiram silenciosamente entre si, decididas a permanecer de pedra. É que, exibindo a arrogância hirta de o tempo se ir anulando nelas, cumprem a vingança de nós nos anularmos nele.

 

 

 

 


9.4.16

 

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sisudez
si.su.dez
nome feminino
(de sisudo + ez)

 

O mesmo que sisudeza. À característica de rir pouco, a sisudez acrescenta um atributo de valor apreciável em tempo de histriões e de microfones: o de falar pouco. É, digamos, uma forma agravada de circunspecção e, espera-se, igualmente reveladora de prudência e sensatez. A seriedade, que no significado lhe é parente próximo, facilmente escorrega do estar para o ser e entra no terreno moral, deixando de ser mensurável pela maior ou menor sisudez dos indivíduos, como toda a gente sabe, ou acaba por saber da pior maneira. A seriedade não está longe da gravitas romana, como naturalmente também não está a gravidade. Porém, a uma falta-lhe calibre, à outra a nota de contenção verbal (além de poder revestir outros significados muito diferentes: as leis da gravidade, a importância relativa de um facto, uma característica do som). A sisudez ­– qualidade dos que têm siso – talvez recupere melhor a noção de uma faculdade de discernimento que é em si uma forma de sabedoria: diz-se muito riso, pouco siso.

 

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2.4.16

 

 

 

A cromado.jpg

 

 

 

 

assepsia
as.se.psi.a

nome feminino

(do grego a «sem» + sepsia «putrefacção» + ia)


Ausência de micróbios ou outros agentes infecciosos. Limpeza. Desinfecção. Por extensão, ausência de impureza, de mácula. Numa acepção figurativa, horror a terra, bichos, sexo, suor e sangue; ao sol e à chuva; horror à vida e à sua palpitação. Em literatura toma o significado de «sem sabor»: uma escrita asséptica. Aplicado a pessoas, pode falar-se de mentes assépticas: gente que não mata moscas, nem come sardinhas assadas ou deixa cair nódoas. Ou, fazendo-o, não deixa que tal se saiba. São amantes do ambiente, se houver ar condicionado e chão alcatifado. Neste sentido apenas se deve usar com uma boa dose de ironia. São geralmente pessoas sensíveis, do género das que falava Sophia (não são capazes/De matar galinhas/Porém são capazes/De comer galinhas), aqui como sinónimo de hipocrisia. Em política, a assepsia tem uma história trágica enquanto desgosto da diferença e da mistura; e consequente vontade de limpeza.

 

 

 

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26.3.16

 

 

C

 

 

 

 

contentinho
con.ten.ti.nho
Forma nominalizada com 2 géneros
(de contente + inho)


Diminutivo de contente com direito a substantivação e autonomia semântica. Com ele se designa a criatura que exibe ou deixa transparecer exuberante autocontentamento (≠ contente, satisfeito). O contentinho – não esquecer a possibilidade de flexão de género – tem plena consciência da sua sagacidade, facto que o aproxima do espertinho. No momento de se mostrar sagaz, manifesta uma ansiedade de menino bem comportado que levanta o dedo para responder à pergunta ainda ela não acabou de ser formulada: é a antecipação do triunfo. A certeza excita-o, em todos os sentidos. Vive na luminosa crença de que sabe muito. Gosta de ter público, e ele próprio tem lugar cativo na primeira fila. É moderno, evidentemente. E inimputável. Detesta pormenores, mas adora fazer planos e, sobretudo, dirigir coisas. É assertivo e demonstrativo, a roçar a histeria. De vez em quando põe-se repentinamente sério, quase com a gravidade bovina que Camilo atribuía aos filósofos, e expõe pensamentos e ideias. O contentinho a-d-o-r-a ter pensamentos e ideias. O contentinho acha-se o máximo quando tem pensamentos e ideias. Acha-se brutal.

 

 

 

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19.3.16

 

 

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lucidez
lu.ci.dez
nome feminino
(de lúcido + suf. –ez)

 

 

A lucidez é a capacidade de ver através dos objectos opacos. É diferente da vidência, que é a capacidade de ignorar esses objectos. Já a cegueira torna os objectos, todos os objectos, igualmente opacos e irremediavelmente presentes. Aquilo a que chamamos idiotia é, pelo contrário, um estado de opacidade face aos objectos.

 

 

imagem: aqui

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12.3.16

 

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ressabiamento

res.sa.bi.a.men.to
nome masculino

(de ressabiar + mento)

 

Forma de ressentimento, rancor ou azedume que se manifesta por regurgitação. O ressabiado, forma que aqui já contempla a existência de ressabiadas, tem uma digestão difícil e vive atormentado por essa dificuldade da mesma forma que o adolescente típico é atormentado pela borbulhagem. Tal como o escorpião da historieta, está amarrado à sua condição, pelo que não lhe é possível qualquer tipo de distanciamento, estando-lhe por isso vedada qualquer espécie de grandeza. Um dos traços do ressabiado, mas não exclusivo dele, é atribuir aos outros as suas próprias debilidades. A persistência no erro é, no ressabiado, uma manifestação de despeito, ainda que apresentada com as cores do orgulho. Sendo um inseguro, é normal reagir através de sucedâneos da birra, como o capricho, a insolência ou a arrogância. O ressabiado tem rabo-de-palha, a que, regra geral, acaba ele próprio por pegar fogo.

 

 

 

 

 

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9.3.16

 

 

 

Alentejo Prometido capa.jpg

 

edição FFMS 2016

 

 

Quando as notícias deram conta, a propósito do livro de Henrique Raposo, das manifestações daquela «vocação do energúmeno» de que Nemésio fala no seu belíssimo prefácio a um livro sobre Polémicas Portuguesas[1], desta vez sob a forma de auto-de-fé, senti que talvez tivesse de contrariar a minha aversão a meter o nariz onde não sou chamado. Ou admitir que havia chamamento, afinal.

 

É que de imediato reconheci o espírito – ou, melhor, a falta dele – que estava por detrás das ditas manifestações, e quase por instinto decidi que queria estar na apresentação pública do livro (e na altura nem sabia que Rentes de Carvalho usaria da palavra!). A minha vivência alentejana difere, no tempo, no espaço e na duração, da experiência de Henrique Raposo: é mais antiga, mais interior (em sentido duplo), mais longa e abrangente. Mas talvez igualmente distanciada e crítica.

 

Estimo a ousadia de Henrique Raposo, que não conheço pessoalmente, e creio que ele dá corpo a algumas intuições certeiras. Estimo igualmente a genica com que procura um paradigma diferente na abordagem do Alentejo e das suas mitologias. Mas também penso que é por vezes demasiado ligeiro, até abusivo, nas generalizações, e, malgré lui, dominado por um certo romantismo.

 

A minha ideia de ir à apresentação era, em primeiro lugar, marcar presença (coisa que só para mim contaria), aliás logo justificada ao notar a presença façanhuda e pesporrente de algumas personagens entre a assistência. Conheço bem o género. Depois, chegar à fala com o autor e dizer-lhe: parabéns pelo seu livro, que li com interesse, também eu sou alentejano, não há como ver-me livre disso e lido bem com a coisa, e gostaria um dia de trocar impressões sobre um certo número de ideias, factos e memórias.

 

Fiquei-me pela presença. O resto fica aqui dito.

 

Jorge Colaço

 

[1] Direcção de Artur Anselmo, 2 vols., Verbo, 1964 e 1967.

 

 

 

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5.3.16

 

 

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tolerância
to.le.rân.ci.a

nome feminino

(do latim tolerantia)


A tolerância é uma atitude benévola e benigna, por vezes um tanto paternalista, que se manifesta tanto no plano individual como no plano social. No tempo da outra senhora era permitida e praticada em casas próprias para o efeito. Hoje requer-se que faça figura de valor universal. Seja como for, a tolerância confina e é limitada pelo território do intolerável. A tolerância que confina com mais tolerância torna-se uma tolerância sem limites, isto é, de onde o intolerável está ausente, e onde, portanto, tudo é aceitação, condescendência, complacência: essa tolerância corresponde a um estado gelatinoso e repugnante. E intolerável.

 

 

 

 

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