30.4.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais uma Guerra Mundial?

 

 

As comemorações de 1914 (ano do começo da Guerra que pôs Fim à Paz, como lhe chama Margaret MacMillan num livro magistral sobre as suas causas) em televisões, telefonias, editoras, revistas, e o à vontade pré-modernista de Vladimir Putin, cujo apetite russo de território evoca o Lebensraum nazi, levam-me a sentir que a nossa paz, o caldo de cultura da construção europeia, ficou de repente muito menos garantida.

 

Até ao fim da Guerra Fria, medo salutar da União Soviética fizera os europeus gastarem dinheiro em defesa (sempre menos do que deviam mas os Estados Unidos, embora queixosos, cobriam a diferença). Quando a União Soviética colapsou inventou-se o “dividendo da paz”. Governantes de quase todos os países europeus — menos Reino Unido e França — ignorantes ou esquecidos da história reduziram orçamentos de defesa a proporções ridículas com a justificação de que o colapso soviético eliminara o inimigo e não havia outro à vista. Agora há — mas há também quem não o queira ver.

 

A questão não é de meios — é de falta de vontade. 1945 foi há 69 anos, 1991 há 23 e, a quem não faça regime, a paz engorda. A Guerra Fria acabou sem tratado que ajustasse regras: essa ambiguidade ajuda Putin a pintar a manta, jogando na curteza de vistas cobarde dos europeus. Grandes patrões têm ido a Moscovo garantir-lhe pessoalmente ‘business as usual’. Apesar disso, os governantes da União Europeia (e todos os do G7), perante o desplante reafirmado do patrão do Kremlin e exortados por Washington têm alinhavado sanções contra a Rússia — começando pelos cortesãos do Czar — a pouco e pouco mais consequentes mas muito longe de causarem a dor precisa para parar provocações com que Putin nos põe à prova.

 

Se impusermos mais sanções económicas e se, simultaneamente, tornarmos bem visível por exercícios militares, patrulhas aéreas, etc., conduzidos na Polónia e nos países bálticos, a capacidade bélica da OTAN e a nossa disposição de recorrermos a ela se um dos Aliados for atacado, ganharemos. Sanções económicas trar-nos-iam prejuízos de curto prazo, exigindo explicação a eleitores mas seriam tão gravosas para a Rússia que Putin teria de encolher as garras. A capacidade de sofrimento do povo russo é grande (nenhum outro teve tantos mortos nas duas guerras mundiais) e a propaganda do Kremlin dissemina catadupas de aldrabices mas no nosso tempo tudo se conhece, se compara e o regime iria mudando. Depois, à Ucrânia e seus demónios daríamos o jeito possível, até com ajuda da Rússia.

 

Se não dermos um murro na mesa já, será depois difícil parar Putin sem guerra. E entretanto o nosso poder no mundo vai levando rombos. Quando votámos agora contra a Rússia na ONU, Brasil, India, África do Sul abstiveram-se. Os nossos valores em direito internacional e direitos do homem não serão universais mas que ao menos sejamos capazes de lutar por eles, com menos retórica e mais acção. Como disse um presidente americano: falar baixinho e trazer um grande cacete.

 

 

 

 

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26.3.14

 

 

 

 

 

 

 

Uma invenção recente

 

Há guerras desde que há homens; a paz é uma invenção recente — escreveu jurista inglês do século XIX. Até ao aborrecimento da Crimeia, o pessoal governante dos países da União Europeia e os Democratas de Obama nos Estados Unidos pareciam convencidos de que a invenção chegara para ficar. Mesmo Ângela Merkel, filha de pastor luterano e com juventude passada de Stasi à coca, teria dito a Obama que Putin vivia “noutro mundo” — subentendendo que o “mundo real” era aquele em que o presidente dos Estados Unidos e ela própria viviam.

 

Não perceberam nada — tal como o alto funcionário da Comissão de Bruxelas que me disse há anos, discutindo o lugar da Europa no mundo, que a ideia da União Europeia entrar em guerra era inconcebível para ele. Muitos falavam então no “dividendo da paz” — desde o fim da Guerra Fria não era preciso gastar dinheiro em defesa — esquecendo a exortação romana “se queres paz prepara a guerra” (ou Duff Cooper, ministro de Churchill, quando escreveu que desarmar para evitar a guerra seria como fechar as esquadras de polícia para acabar com o crime). Muita gente caricaturou o académico americano que depois da derrota do comunismo anunciou o fim da história — íamos todos, no mundo inteiro, viver para sempre em democracia+economia de mercado — mas os governos europeus portaram-se como se tivessem levado a caricatura a sério.

 

Arruaceiros de países pequenos e mais ou menos distantes foram metidos na ordem sem grandes custos (com ajuda de Washington). Países maiores que, por exemplo, nos vendam petróleo, podem pintar a manta dentro de casa que a gente não os apoquenta. Regras simples. A hipótese de mau comportamento egrégio, contra os nossos interesses e a nossa bazófia moral, da parte de um dos grandes, terá levado estados-maiores a planos secretos mas não se esperava que tornasse a acontecer mesmo, pelo menos no nosso tempo. Toda a gente acha que governantes como os da Segunda Guerra Mundial — De Gaulle, Churchill, Roosevelt — já não há: até Putin, por incómodo que seja, não chega aos calcanhares de Estaline.

 

Além disso, desde Jack Kennedy em 1960, passou a estar na moda escolher chefes políticos muito novos. A União Europeia está cheia deles e tal acrescenta à impopularidade da classe política numa altura em que esta é acusada de não ter sido capaz de prever a crise económica, de lhe ter acudido de maneira nociva e (se Putin não tomar juízo) de ter deixado a Europa indefesa.

 

Ora o juízo de Putin não é o nosso. Deu-se por missão fazer com que a Rússia torne a meter medo ao mundo, os russos estão com ele — pelo menos até ao preço do petróleo baixar — e a impopularidade dos políticos ocidentais é notória.

 

Para manter paz e honra será preciso vencê-lo pela economia. Começando por fazer do tratado comercial que europeus e americanos estão a negociar, e aumentaria os PIBs respectivos, um objectivo estratégico. A URSS perdeu a Guerra Fria por não ser capaz de competir economicamente com o Ocidente.

 

 

 

Imagem aqui

 

  

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12.3.14

 

 

 

 

 

 

 

Prepotências, roubalheiras, aldrabices

 

 

Em 2008, corriam os Jogos Olímpicos de Pequim, a Rússia capturou militarmente à Geórgia duas partes do seu território — a Ossétia do Sul e a Abkhásia — de estatuto autónomo e muitos habitantes russófonos. Bush, em Washington, protestou menos do que Obama agora perante Ucrânia e Crimeia. Nós, os da União Europeia, com Sarkozy à frente, inventámos uma “mediação” que nada devolveu à Geórgia, sossegou a Rússia e nos deixou de consciência tranquila. Para o conforto ensimesmado dos europeus (5%, 25% e 50% da população, do produto e da despesa social mundiais, respectivamente) foi como se a crise da Geórgia não passasse de tempestade num copo d’água.

 

Com o Kremlin, continuou-se business as usual. A França vendeu à Rússia navios de guerra que a ajudaram no emprego e na balança de pagamentos; a Alemanha, a Itália e a Holanda pouco fizeram para diminuírem a sua dependência energética da Rússia; Londres e os paraísos fiscais cobertos pelo Reino Unido —  das Ilhas do Canal às Ilhas Cayman — continuaram a gerir e a lavar bem os milhões dos oligarcas (e preços de casas em Londres chegaram à estratosfera). Do outro lado do Atlântico, Barack Obama — que tal como Jimmy Carter com Brejnev, parece convencido de que no fundo, no fundo, Putin reconhece que ele tem razão — meteu-se há anos a tentar pôr no são as relações com a Rússia e com tal inépcia o fez que, em vez de ganhar lealdade de um novo amigo levou o Kremlin a perder o respeito que, antes dele, ainda tinha pela Casa Branca. Entretanto, com a Geórgia no papo, Vladimir Vladimirovich sente-se seguro na sua missão histórica de recuperar a grandeza russo-soviética. Como se diz por lá: comer abre o apetite.

 

E agora, por causa de zaragatas na Ucrânia e na Crimeia, lugares longínquos sobre os quais quase todos os europeus — ainda não refeitos de Lehman Brothers / dívidas soberanas / banca à nora — sabem pouco e mal, porque muito do que nos chega é propaganda russa, espera-se que os nossos governos e o americano se unam e façam recuar o Kremlin. Há de ter que ver. Sem chefia americana e com vendilhões a encherem os nossos templos, receio que as medidas que forem tomadas fiquem aquém do  preciso para fazer a Rússia largar a Crimeia.

 

Na Guerra Fria confrontavam-se capitalismo e comunismo. Hoje de um lado estão estados de direito com sufrágio universal e do outro o feixe de brutalidades, roubos e mentiras que dá pelo nome de capitalismo de Estado. Os europeus que sabem na carne dessa poda — Bálticos; ex-Pacto de Varsóvia — procuram que combatamos por todos os meios ao nosso alcance a opressão asfixiante e corrupta que a Rússia quer impor à Ucrânia, com sanções imediatas que doessem mesmo ao Kremlin e promessa a Kiev de adesão à União Europeia. Alemães, britânicos, franceses, outros, arrastam os pés.

 

Nem Estados Unidos nem União Europeia mandarão os seus morrer pela Ucrânia. Mas com visão, coragem e determinação poder-se-ia travar Putin sem guerra — por enquanto.

 

 

 


12.2.14

 

 

Lo mismo.

Goya - Los Desastres de la Guerra - No. 03 

 

 

 

 

 

O sem-fim

 

 

A Guerra de Espanha fora a derrota da democracia pelas forças negras do fascismo ou fora a última Cruzada? Mobilizado como médico militar nos Açores, o pai visitava colega de curso preso na Ilha Terceira por ter combatido numa Brigada Internacional. Amigo dos irmãos da mãe, filho de notário de Évora, morrera abatido no avião de caça franquista que se voluntariara para pilotar. Paixões extintas?

 

A Segunda Guerra Mundial veio a seguir, 21 anos depois de acabar a Primeira (tão má que os franceses lhe chamaram, esperançados, “la der des der”, a última das últimas). Poucos anos depois de nazismo e fascismo perderem em 1945, começou a Guerra Fria entre democratas e comunistas que acabou com o colapso da União Soviética em 1991. (Não passou a Quente por Washington e Moscovo disporem de arsenais nucleares capazes de destruírem várias vezes a humanidade, dando juízo a cabeças políticas e militares. O Dr. Strangelove ficou-se pelo cinema. Mas quando Zawahiri, chefe de Al Queda, excomunga grupos seus que matam na Síria, por serem indisciplinados e agirem por conta própria, a violência serve a anarquia. Bombas atómicas nas mãos de anarquistas fanáticos seriam realmente um grande perigo).

 

Depois do fim da Guerra Fria um académico americano julgou que a História tinha acabado: íamos todos ser capitalistas e democráticos. Por seu lado Vladimir Putin declarou que o desaparecimento da União Soviética fora a maior catástrofe geopolítica do século XX. O americano estava enganado — a História voltou em força — mas o engano não teve a menor importância. A convicção de Putin, essa, é assustadora quer quanto ao que se imagine ser a evolução interna da Rússia regida pela sua batuta quer quanto à atitude da Rússia em relação ao “estrangeiro próximo”. Ainda a História. No começo do Código da Imperatriz Catarina, redigido no século XVIII, diz-se que a Rússia é grande demais para ser governada por mais do que uma só pessoa. E, quer antes quer depois de S. Vladimiro os converter ao cristianismo em Kiev, os russos só aceitaram as fronteiras que têm quando alguém do outro lado lhes bateu o pé e disse: daqui não passam!

 

A Ocidente nada de novo. Em França e Espanha governos incapazes de convencerem os seus do que era economicamente possível — como Schroeder fez — armaram-se em modernos noutras questões — homossexualidade, aborto — e despertaram Pétainismos e Franquismos latentes que agora pintam a manta. Alemães —  que fizeram de súcia com a Rússia pipeline no Mar Báltico para evitar a Polónia — não querem incomodar muito Moscovo. Ensimesmados, os ingleses afastam-se da Europa e deixam de ser ponte para os americanos. Em suma, os europeus preferem fugir a chatices a pensar no futuro. Washington, virada também para dentro por Congresso demente e Presidente frouxo, já não mete o respeito que metia ao mundo.

 

Em Kiev o frio não arrefece os espíritos. A janela de oportunidade fecha no fim dos jogos de Sochi. Alguém ajuda os ucranianos a baterem o pé?

 

 


1.1.14

 

 Gerhard Richter, Neger (Nuba), 1964, 145 x 200 cm, Oil on Canvas, Courtesy of Gagosian Gallery © Gerhard Richter, 2012

 

 

 

 

 

 

 

Nuers e Dinkas

 

 

Do Sudão do Sul, 193° membro da ONU, chegam más notícias. O novo país, paupérrimo sobre ricas reservas de petróleo, de população dantes dada a religiões não-reveladas, mas mais ou menos cristianizada por missionários europeus e americanos durante o Condomínio Anglo-Egípcio, ficando integrado no Sudão desde a descolonização de 1956, entrara em guerras sangrentas com o governo muçulmano de Cartum durando mais de 20 anos para conseguir independência que o libertasse das tribos islamizadas e esclavagistas do norte. Guerras por fim ganhas pelo sul, tendo causado 2 milhões de mortos, esperava-se que houvessem cimentado sentimento nacional entre as duas grandes tribos pastoralista e guerreiras do país, os Nuers e os Dinkas (que há menos de um século andavam nus, viviam do gado, se administravam sem governo e combatiam à lança).

 

Esperança vã. Eleições deram maioria à tribo maior, os Dinkas; o Presidente eleito convidou um Nuer, para vice-presidente - mas correu com ele em Julho e a curta paz acabou. Em 9 dos 10 estados federados do país grassam guerrilhas, reprimidas com tortura e massacre de civis. Dinkas e Nuers resvalam para guerra com 50.000 civis a pedirem protecção à ONU (que dobrou para 12.500 a força que lá colocara). A conselheira de segurança do Presidente dos Estados Unidos fez às partes as exortações piedosas do costume – renúncia à violência; diálogo – mas Washington, sobretudo desde o show de Obama na Síria, não mete o respeito que metia.

 

O Sudão do Sul é ao lado da Republica Centro-Africana, à beira de guerra civil entre maioria cristã e minoria muçulmana que começaram a matar-se uns aos outros. Como a expedição ao Mali foi a coisa que menos mal lhe correu desde que é presidente de França, Hollande mandou logo tropa para Bangui, onde estão também forças da União Africana. Soldados do Chade, muçulmanos, já foram assassinados por cristãos locais. Perante o descalabro, Samantha Power, embaixadora americana na ONU, fez uma visita relâmpago a Bangui onde exortou toda a gente a portar-se bem prevenindo que os Estados Unidos “estavam atentos”. Autora premiada de livro sobre genocídio (que enferma da pecha americana de ver o mal e o bem a preto e branco), conselheira de Obama, sumida enquanto Hillary Clinton foi Secretário de Estado (dissera, julgando que um microfone estava desligado, que Hillary era “um monstro”) voltou à cena sem ter aprendido nada.

 

Se os Estados Unidos perderam de vez o jeito de agarrar o mundo pela pele do pescoço, como se agarra um gato – jeito que lhes ganhou duas guerras mundiais e a guerra fria - a megalomania de Putin, a convicção de superioridade dos chineses, agitar-se-ão para ocupar o lugar vazio. Nenhuma delas o conseguirá mas para os europeus vão ser tempos duros. Sem América forte e decidida não haverá ordem no mundo. E sem ajuda americana os europeus nem terão o preciso – reabastecimento aéreo, munições de precisão, espionagem – para mandar fazer pazes em brigas africanas.

 

 

Ano Novo feliz!

 

 

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25.12.13

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Velhice, soberba, bases e cúpulas

 

 

Amigos da mãe de Emílio achavam que no tempo deles: “O céu era mais azul e as cabeças dos bois eram maiores”.

 

Estava-se na Alemanha de 1929, 4 anos depois Hitler era esmagadoramente eleito Chanceler. A seguir os livros de Erich Kästner foram banidos (salvo Emílio e os Detectives, célebre em todo o mundo e, mesmo aos olhos zelosos de censores alemães, inocente). Li-o e reli-o em pequeno e achava risíveis os amigos de Frau Tichbein. Hoje, tendo passado há muito a idade deles, a memória serve-me de aviso.

 

Quando penso na decadência de Portugal, evidente aos meus olhos, lembro-me de ensaio magistral de Thérèse Delpech, Deus lhe tenha a alma em descanso – eu não sou crente mas ela era – analisando, desde a antiguidade clássica, a propensão europeia para achar que tudo vai de mal a pior, intercalada por explosões de energia viradas para o futuro; lembro-me de Fernando Pessoa a carpir-se — “Nem rei nem lei / Nem paz nem guerra / Define com perfil e ser / Este fulgor baço da terra / Que é Portugal a entristecer / Brilho sem luz e sem arder / Como o que o fogo-fátuo encerra” — mas a carpir-se na Mensagem; lembro-me da passagem de Eça em A Ilustre Casa de Ramires — “Já porém com a Pátria degenera a nobre raça” —  contradita pela qualidade da crónica de família que Eça faz Gonçalo escrever e pela prosa superior da própria Ilustre Casa. Além disso, calharam-nos entretanto tantos triunfos felizes que seguramente os pessimistas nem sempre tiveram razão. Mas se a tivermos agora? Se o ramalhete de políticos no governo e na oposição for a pior colheita desde a Convenção de Évora-Monte (1834), incluindo Integralistas Lusitanos e Capitães de Abril? E se não for? Seria prudente socorrermo-nos de correcção política e acrescentarmos a cada catilinária “Salvo Alzheimer incipiente do autor”? Ou – vez sem exemplo – terão os velhos razão?

 

A soberba fia mais fino pois o pecador raramente dá por ela —  e em política as bases são sempre piores do que as cúpulas. Na batalha retórica travada entre o Norte e o Sul da Europa, invectivas exageradas abundam: o patriotismo, como se sabe, é o último refúgio do bandalho. Dar sentido a essa pendência é tarefa filosófica e eu filósofo não sou. Mas, do tempo de antropólogo, ficou-me o jeito de apanhar o que as pessoas dizem e, quando se trate de soberba, ocorre-me almoço com o Luís Sttau Monteiro, há 50 anos, numa tasca de Algés. Bacalhau à Braz e favas com chouriço mouro. O bacalhau estava óptimo; a seguir vieram as favas, manhosas logo à vista. O Luís provou uma garfada e disse: “Ná, não é isto”. Olhou para mim e acrescentou: “Mas a verdade é que nós também não somos”.

 

Na Alemanha, milhões que também não são e nunca hão de dar por isso, encontram porta voz em Angela Merkel. Se, em 1940, Churchill e De Gaulle houvessem seguido assim o sentimento fundo da maioria de ingleses e franceses, Hitler teria ganho a guerra. A história não se repete mas, como dizia Mark Twain, às vezes rima.

 

Bom Natal.

 

 

 

 

 

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12.4.13

 

contracapa 

 

Esta antologia poética e um álbum de fotografias* recentemente lançados são interessantes testemunhos da cultura pop/rock em Portugal.

 

A geração que cresceu nos anos 60 em Portugal, na qual me incluo, deve a sua educação neste género musical à excelência da nossa rádio. Dessa época recordo em particular o programa "Em Órbita", que servia diáriamente um menu de luxo e no fim de cada ano apresentava aos ouvintes o seu top 10, excluindo Bob Dylan, colocado pelos responsáveis acima destas classificações.

 

Vinte anos mais tarde, no início dos anos 80, foi o fim do programa radiofónico "A Idade do Rock" que inspirou João Menezes Ferreira a lançar-se neste projecto de antologia bilingue, agora concretizado e a que nenhum apreciador do género pode ficar indiferente. No meu caso pessoal, revisitar o universo pop/rock anglo-saxónico é recordar parte importante da minha adolescência e juventude e imensos bons momentos da minha vida adulta***. Estou curiosa de redescobrir os textos, nas duas línguas.

 

*

  

 

São 563 letras do universo pop/rock entre 1955 e 1980 recolhidas e traduzidas para português ao longo de três décadas. [...] Para o autor, muita desta história vive-se na profunda intimi­dade com a beat generation e com uma linhagem em que os melhores poetas não só se ligam aos beatniks como prolongam ainda uma linha de heróis - "são sempre os mesmos: William Blake, Mallarmé, Rimbaud, Baudelaire, Walt Whitman, Garcia Lorca, Yeats" - vinda desde o século XVIII. É precisamente neste enfiamento que reside um dos mais ro­bustos argumentos de Estro in Wat­ts: o de que esta poesia não deve ser menorizada perante aqueloutra publicada em livro apenas porque "tem repetições, acompanha o rit­mo de elocução verbal e tem uma métrica que é a da respiração". "Es­tes grandes poetas seriam sempre grandes poetas de livros, mas esco­lheram a música porque acharam que era esse o veículo." [...] "Esta cultura foi, para mim, uma escola. Há uma geração pós-25 de Abril que se reclama mar­xista. O meu marxismo foi a música, foi o rock. Aprendi a ser adolescen­te não tanto lendo livros teóricos mas a viver isto." Agora, com este conjunto de 563 poesias de 170 au­tores, talvez muitos dos que priva­ram com estas canções no devido tempo possam prestar uma outra atenção aos textos.

 

Excertos do texto de  Gonçalo Frota in jornal Público aqui 

 

 

 

 

 

Notas:

 

* O livro de fotografias Roll Over adeus anos 70 de José Paulo Ferro, que apresentarei em post separado.

Edições Documenta com o apoio da Fundação EDP.

 

** A minha telefonia nos anos 60 aqui

 

*** Leia a este propósito o post "Michael Jackson" aqui

 

a pop francesa e o programa "Em Órbita" aqui 

 

um bom comentário sobre Estro in Watts aqui

 
link do postPor VF, às 17:07  comentar

6.3.13

 

 

 

Desk Murder 

Oil on canvas, 76.2 x 122 cm, c.1970–1984

 

 

R.B. Kitaj  (1932-2007)

 

em Londres até 16 de Junho de 2013  aqui

 

Leia aqui

 

 

 

link do postPor VF, às 13:06  comentar

5.6.12

 

 

 

 

 

Chegada de Isabel II à Doca das Fontaínhas, Setúbal, 16 de Fevereiro de 1957

 

 

 

 

Sobre a Raínha Isabel II e a sua primeira e mais importante visita de Estado a Portugal, um artigo da Revista "Máxima" aqui

 

 

The Queen By Cecil Beaton aqui

 

 

 

Nota:

Fotografia de imprensa de autoria desconhecida, encontrada no espólio familiar. Por coincidência é uma das que ilustra o artigo da Máxima sobre esta visita de Isabel II. Não encontrei outras reproduções desta fotografia na internet.

 

 


31.10.11

 

 

You don't even know what sophisticatedmeans!

My mother turned on me sharply. I should repeat that she was twenty-one when I was born. I have never been much younger than her and she has never been much older than me. Another school run: Swansea, in the late Fifties.

— Ooh I do know what sophisticated means!

No you don't. Not what it really means.

— Yes I do.

— Go on then. What does it mean?

I now see my mother's profiled face, lightly frowning in concentration as she listed some of the more attractive attributes that went hand in hand with being sophisticated - all of them worth the aspiration of a bashful country-girl from Berkshire. I said,

— That's not what it really means.

— All right then. What does it really mean?

Corrupt.

My mother was innocent. Then experience came, and she experienced it. And then she got her innocence back again. I have always wondered how she did that.

 

Martin Amis

in Experience  p.106

Vintage Books, London

© Martin Amis  2000

 

 

 

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27.10.11

 

I remember one day long ago driving down Park Avenue on the way to Penn Station with a sheaf of notes for a Harvard lecture in the right-hand pocket of my raincoat, and in the left, a celluloid packet containing twelve photographs, with accompanying text, of one girl model spanking another on her bare bottom with a hairbrush. Given a choice, I would far rather have jettisoned the contents of the right-hand pocket: with this dichotomy I have spent my life. (Note the fearless candour of this amazing revelation.) (And note, too, the self-deprecating irony — 'fearless candour', 'amazing revelation' — with which I have phrased it, thereby showing what a self-critical person I am.) (And if you think that sounds self-congratulatory, let me answer you that I am well aware of my faults, which are numerous.) (And if that implies too much self- knowledge, may I add that, in fact etc. etc. etc.) Such is the art of autobiography.

 

Kenneth Tynan

in The diaries of Kenneth Tynan edited by John Lahr 

Bloomsbury Publishing, Plc, London

©2001 by Tracy Tynan

 

 

 

 

 

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19.6.11

 

 

 

 

 

netsuke

aqui

 

 

 

 

It could write itself, I think, this kind of story. A few stitched-together wistful anecdotes, more about the Orient-Express, of course, a bit of wandering round Prague or somewhere equally photogenic, some clippings from Google on ballrooms in the Belle Epoque. It would come out as nostalgic. And thin.

And I'm not entitled to nostalgia about all that lost wealth and glamour from a century ago. And I am not interested in thin. I want to know what the relationship has been between this wooden object that I am rolling between my fingers — hard and tricky and Japanese - and where it has been. I want to be able to reach to the handle of the door and turn it and feel it open. I want to walk into each room where this object has lived, to feel the volume of the space, to know what pictures were on the walls, how the light fell from the windows. And I want to know whose hands it has been in, and what they felt about it and thought about it - if they thought about it. I want to know what it has witnessed.

Melancholy, I think, is a sort of default vagueness, a get-out clause, a smothering lack of focus. And this netsuke is a small, tough explosion of exactitude. It deserves this kind of exactitude in return.

 

 

Edmund De Waal

in  The Hare with Amber Eyes - A Hidden Inheritance  (prefácio)

© Edmund de Waal 2010

 

 

 

 

 

 

aqui

 

 

 

 

 

 

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3.3.11

 

 

 

D. Day

Foto de Robert Capa

 

 

 

Merci aux Américains, aux Anglais, aux Canadiens, aux Australiens, aux Polonais qui m'ont sauvé un reste de famille, merci à ceux qui permirent aux Français d'aujourd'hui de n'être pas contraints à penser nazi ou stalinien, merci à ceux qui brisèrent le mur de l’Atlantique et nous aidèrent jusqu'à la chute du mur de Berlin. Sans D. Day, pas de nouvelle Europe à 6, à 15, à 25 et plus. Je suis encore, privilège de l’âge, habité par la joie cosmique, extatique, qui éclatait au-dessus de ma tête d'enfant, lorsque les grandes personnes prononçaient le mot «libération».

 

II fallut attendre le milieu des années 70 pour qu'un président de la République fédérale reconnaisse clairement et distinctement que l’Allemagne, à l'issue de la Deuxième Guerre mondiale, ne fut pas «envahie», mais «libérée». C'est pour que la différence entre les deux mots affiche son évidence décisive que mes proches et mes lointains, à Lyon, à Omaha beach, à Stalingrad sont morts. On parle à tort et à travers, par les temps qui courent, de «légitimité internationale». La seule, la vraie fût inaugurée sur les plages normandes. Si l’ONU, malgré son côté capharnaüm, ne ressemble pas tout à fait à la triste SDN, c'est que ses fondateurs à San Francisco avaient juré que le Japon et l’Allemagne ne seraient ni conquis ni colonisés, mais purement et simplement libérés du fascisme. D'où deux principes qui, étayant silencieusement la Charte des Nations Unies, surdéterminent ses inévitables ambiguïtés et contradictions : 1/le droit des peuples à être libérés, 2/ l'autolimitation du droit du vainqueur, interdit de conquête mais introducteur de démocratie.

 

Le droit des peuples à être libéré d'un despotisme extrême - droit au D. Day - prime sur le respect ordinaire des frontières et le principe séculaire de souveraineté. Eu égard à la Déclaration universelle des droits de l'homme, expérience des totalitarismes aidant, le très essentiel droit des peuples à disposer d'eux-mêmes ne doit ni garantir ni impliquer le droit des gouvernants à disposer de leurs peuples. Le débarquement en Normandie fonde les interventions récentes au Kosovo, en Afghanistan et en Irak, même sans couverture du Conseil de Sécurité. Pour une raison décisive : la légitimité inaugurale qui présida à la constitution de l'ONU l'emporte en autorité sur la jurisprudence ordinaire des institutions issues de cette légitimité fondatrice. […]

 

Les Etats-Unis peuvent-ils encore se réclamer du droit d'ingérence baptisé dans le sang versé pour libérer l'Europe? Oui. Malgré les ignominies récentes commises dans les prisons irakiennes? Oui. Car dans le pire comme pour le meilleur, les Etats-Unis demeurent une démocratie. Et même la plus exemplaire des démocraties, la seule à ma connaissance qui n'ait pas censuré, en pleine guerre, la publication des crimes commis par ses soldats. La seule où la presse et la télévision dévoilent en quelques semaines l'ampleur des exactions et scrutent librement les tenants et les aboutissants du crime accompli. La seule où les commissions d'enquête parlementaire citent à comparaître un président, des ministres, des généraux, les chefs des services secrets en les interrogeant sans ménagement ni restriction.

 

 

André Glucksmann

in Le Discours de la Haine pp. 128-129

© Editions Plon, 2004

 


4.11.10

 

 

 

 

 

Grifo (1987)

 

 

 

A estrutura solta, a abertura e sensualidade da cor numa matriz de espaço e luz, por meio das quais Willing atrai o observador, são estratégias dos pintores barrocos do séc. XVII que, desse modo, criaram imagens coerentes de temas religiosos, históricos ou mitológicos. Nas pinturas da última fase, Willing adoptou estratégias semelhantes para servir a realização pictórica de imagens simbólicas e fragmentárias, enraizadas no inconsciente. Dado que elas são executadas num estilo directo, desprovido de ambiguidade, o observador não é distraído pela especulação sobre o seu significado, mas fica livre para se concentrar no que lá está. "Acho que são cenários [scenarios]", disse Willing em 1985, "em que algo aconteceu ou vai acontecer, mas não está a acontecer nessa altura".

 

 

Hellmut Wohl

in Victor Willing - uma retrospectiva, aqui

© Fundação Paula Rego

 

 

Leia também aqui

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28.6.10

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Théoriquement, mais théoriquement seulement, le colonialisme règne en Afrique depuis la Conférence de Berlin (1883-1885) au cours de laquelle quelques États européens, essentiellement l'Angleterre et la France, mais aussi la Belgique, l'Allemagne et le Portugal, se sont partagé le continent tout entier, jusqu'à la libération de l'Afrique dans la seconde moitié du XXe siècle. En fait, la pénétration coloniale a commencé bien plus tôt, dès le XVe siècle, et elle n’a cessé de progresser au cours des cinq siècles suivants. La phase la plus honteuse et la plus brutale de cette conquête fut le commerce des esclaves africains, qui dura plus de trois cents ans. Trois cents ans de traques, de rafles, de poursuites et d'embuscades organisées par des Blancs, souvent avec la complicité d'Africains et d'Arabes. Entassés dans des cales de navires, des millions de jeunes Africains ont été déportés dans des conditions cauchemardesques au-delà de l'océan Atlantique afin d'y édifier, à la sueur de leur front, la richesse et le pouvoir du Nouveau Monde.

 

 

Ryszard Kapuscinski

in Ébène Aventures africaines pp. 31-32

traduit du polonais par Véronique Patte

©Ryszard Kapuscinski,1998/Librairie Plon 2000

 

Imagem encontrada aqui

 

 


12.6.10

 

 

 

 

O rio Congo

foto E. Lebied / Congopresse

(fotografia reproduzida em Retrovisor, um Álbum de Família)

© Royal Museum for Central Africa, Bruxelas

 

 

 

Going up that river was like travelling back to the earliest beginnings of the world, when vegetation rioted on the earth and the big trees were kings. An empty stream, a great silence, an impenetrable forest. The air was warm, thick, heavy, sluggish. There was no joy in the brilliance of sunshine. The long stretches of the waterway ran on, deserted, into the gloom of overshadowed distances. On silvery sandbanks hippos and alligators sunned themselves side by side. The broadening waters flowed through a mob of wooded islands; you lost your way on that river as you would in a desert, and butted all day long against shoals, trying to find the channel, till you thought yourself bewitched and cut off for ever from everything you had known once—somewhere—far away—in another existence perhaps. There were moments when one's past came back to one, as it will sometimes when you have not a moment to spare to yourself; but it came in the shape of an unrestful and noisy dream, remembered with wonder amongst the overwhelming realities of this strange world of plants, and water, and silence. And this stillness of life did not in the least resemble a peace. It was the stillness of an implacable force brooding over an inscrutable intention. It looked at you with a vengeful aspect.

 

 

Joseph Conrad (1857-1924)

 

in Heart of Darkness pp. 42-43

1999 Modern Library Paperback Edition

 

 

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5.4.10

 

It is tempting to quote authors when they express our very own thoughts but with a clarity and psychological accuracy we cannot match. They know us better than we know ourselves. What is shy and confused in us is succinctly and elegantly phrased in them, our pencil lines and annotations in the margins of their books and our borrowings from them indicating where we find a piece of ourselves, a sentence or two built of the very substance of which our own minds are made - a congruence all the more striking if the work was written in an age of togas and animal sacrifices. We invite these words into our books as a homage for reminding us of who we are. But rather than illuminating our experiences and goading us on to our own discoveries, great books may come to cast a problematic shadow. They may lead us to dismiss aspects of our lives of which there is no printed testimony. Far from expanding our horizons, they may unjustly come to mark their limits.Montaigne knew one man who seemed to have bought his bibliophilia too dearly:

 

 

 

Whenever I ask [this] acquaintance of mine to tell me what he knows about something, he wants to show me a book: he would not venture to tell me that he has scabs on his arse without studying his lexicon to find out the meanings of scab and arse.

 

 

Such reluctance to trust our own, extra-literary, experiences might not be grievous if books could be relied upon to express all our potentialities, if they knew all our scabs. But as Montaigne recognized, the great books are silent on too many themes, so that if we allow them to define the boundaries of our curiosity, they will hold back the development of our minds.

[…] However modest our stories, we can derive greater insights from ourselves than from all the books of old:

 

 

Were I a good scholar, I would find enough in my own experience to make me wise. Whoever recalls to mind his last bout of anger... sees the ugliness of this passion better than in Aristotle. Anyone who recalls the ills he has undergone, those which have threatened him and the trivial incidents which have moved him from one condition to another, makes himself thereby ready for future mutations and the exploring of his condition. Even the life of Caesar is less exemplary for us than our own; a life whether imperial or plebeian is always a life affected by everything that can happen to a man.

 

[…] There is no need to be discouraged if, from the outside, we look nothing like those who have ruminated in the past. In Montaigne's redrawn portrait of the adequate, semi-rational human being, it is possible to speak no Greek, fart, change one's mind after a meal, get bored with books, know none of the ancient philosophers and mistake Scipios.

 

A virtuous, ordinary life, striving for wisdom but never far from folly, is achievement enough.

 

 

 

 

 

Alain De Botton

in The Consolations of Philosophy (Consolation for Inadequacy) pp.161-168

© Alain De Botton, 2000

 

 

 

em português aqui

 

 

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28.2.10

 

 

Since we agreed to let the road between us

Fall to disuse,

And bricked our gates up, planted trees to screen us,

And turned all time's eroding agents loose,

Silence, and space, and strangers - our neglect

Has not had much effect.

 

Leaves drift unswept, perhaps; grass creeps unmown;

No other change.

So clear it stands, so little overgrown,

Walking that way tonight would not seem strange,

And still would be allowed. A little longer,

And time will be the stronger,

 

Drafting a world where no such road will run

From you to me;

To watch that world come up like a cold sun,

Rewarding others, is my liberty.

Not to prevent it is my will's fulfilment.

Willing it, my ailment.

 

 

Philip Larkin

in Collected Poems (The Less Deceived - November 1955)

 

The Marvell Press and Faber & Faber

© the Estate of Philip Larkin, 1988, 2003

 

 

 


20.8.09

 

 

 

vasco cristina paris 1972

 

Vasco e Cristina, 1972

 

 

 

 

What would the dead want from us

Watching from their cave?

Would they have us forever howling?

Would they have us rave

And disfigure ourselves, or be strangled

Like some ancient emperor's slave?

 

None of my dead friends were emperors

With such exorbitant tastes

And none of them were so vengeful

As to have their friends waste

Waste quite away in sorrow

Disfigured and defaced.

 

I think the dead would want us

To weep for what THEY have lost.

I think that our luck in continuing

Is what would affect them most.

But time would find them generous

And less self-engrossed.

 

And time would find them generous

As they used to be

And what else would they want from us

But an honoured place in our memory,

A favourite room, a hallowed chair,

Privilege and celebrity?

 

And so the dead might cease to grieve

And we might make amends

And there might be a pact between

Dead friends and living friends,

What our dead friends would want from us

Would be such living friends.

 

 

James Fenton

 

 

 

Vasco Luís Futscher Pereira (3 de Fevereiro de 1922 — 20 de  Agosto de 1984)

 

O poema foi lido por Aline Tayar numa cerimónia organizada em memória de Cristina  pelos seus colegas intérpretes do Parlamento Europeu, no dia 25 de Outubro de 2005, em Estrasburgo. 

 


19.5.09

 

 

 

 

 

À Lady Astor, première femme députée aux Communes qui lui avait dit, outrée par son arrogance: «Si j’étais votre femme, je mettrais du poison dans votre café!», il répondit:

 

« Et moi si j’étais votre mari, je le boirais!»

À une dame du monde, trahie par la nature, qui lui avait reproché son ivresse lors d'un dîner, il répondit: « Oui, mais moi, demain je serai sobre alors que vous serez encore

laide!»

À propos de Clement Attlee, leader travailliste qui l'avait battu aux élections en 1945, il répéta longtemps cette notation impitoyable: « Un taxi vide s'arrête devant le 10 Downing Street. M. Attlee en descend...»

Les mots cruels compliquent et retardent les carrières, et Winston Churchill en prononça tellement, en se faisant autant d'inimitiés, terrorisées et courroucées, qu'il connut plus d'un passage à vide, et notamment durant les années 30 où tout le monde le croyait un homme fini. Mais son intelligence, son énergie, sa valeur morale d'exception ainsi que sa manière de considérer sa vie, la Grande-Bretagne et son histoire comme les éléments d'un roman dont il serait le héros et l’écrivain, furent finalement récompensées par des circonstances à sa mesure: la défense intrépide et solitaire de la liberté face à une Europe submergée par la barbarie nazie. Homme d'un autre siècle et source d'enseignement pour le futur, aristocrate incapable de comprendre ce que voulaient les citoyens ordinaires et anarchiste visionnaire habile à les nourrir de rêve, despote domestique et démocrate sincère, esprit ouvert aux idées et caractère irrationnel, il fut historien, poète, peintre, ami des animaux, gaffeur, insupportable, attendrissant; en somme, comme le disait un de ses rivaux : cinquante pour cent génie et cinquante pour cent infantile. Aujourd'hui, comme pour de Gaulle, son faux jumeau, son vrai adversaire et son meilleur partenaire, on a tendance à forcer sur le pourcentage du génie et à s'émouvoir sur ce qu’il reste de l'infantile.

Car Churchill manque infiniment dans l'aujourd'hui des technocrates et de la politique frileuse et télévisée, comme tous ceux qui surent être à la fois des héros et des hommes en un temps qui fut bien près de s'abandonner aux criminels et aux tyrans.

 

 

 

 

George VI: "Eh bien, Monsieur Churchill,

c’est un grand jour pour vous, la fin de la guerre en Europe.

Permettez-moi de vous féliciter."

Winston: "Et moi de même, Votre Majesté. Ce fut une longue route."

 

 

 

 

 

Frédéric Mitterrand

introdução de  Winston Churchill, in Destins d'étoiles - volume IV

© P.O.L.,Fixot,1991

 

imagem: Winston Churchill e sua mulher, Clementine, numa fotografia que descobri aqui

 

 



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