10.6.16

 

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 aqui

 

 

 

O Japão é daqueles sítios que transformam as pessoas. Posso atestá-lo pela minha experiência pessoal, cumpridos três meses por lá e quase meio milénio após os meus compatriotas ali entra­rem, eles que também terão mudado após o acidente de Tanegashima (que adiante conheceremos) e dito «obrigado» por este não os ter matado. Também poderei confirmar que a experiência do Extremo Oriente é marcante quando, nos próximos capítu­los, escrever sobre os sete portugueses que aí conheci, abertos e aventureiros como lusos, mornos e simpáticos mas cada vez mais formais, trabalhadores e concentrados como os nipónicos.

 

Em 1512, durante o reinado de D. Manuel I, chegaram notí­cias de que existiria um arquipélago ao largo da China. Fora o mercador italiano Marco Polo quem o dissera, acrescentando que esse conjunto de terras rodeadas por mar era chamado «Cipanto» ou «Ji-pangu», em chinês «o local onde o sol nasce».

 

Na época os japoneses viviam isolados, pois o seu território não tem ligação por terra com nenhum outro e eles só mantinham contacto com a China e com a Coreia, de onde vieram fortes influências culturais, como a escrita, o cultivo do arroz e o budismo. «Uma ilha grande, de gente branca, de boas maneiras, formosa e de uma riqueza incalculável», escreveu Marco Polo. A descrição deixava o novo local envolto numa névoa de fabu­losas riquezas, o mistério que ainda hoje se lhe associa e que atrai portugueses, emigrantes, viajantes e exploradores de todo o mundo.

 

Já em 1540 as informações sobre o Japão eram mais claras, pois barcos japoneses ancoravam nas pequenas ilhas de Liampo, na costa chinesa, e por aí tinham contacto com mercadores lusi­tanos. Segundo uma das versões da história, um dos barcos mercadores dirigia-se para lá levando três portugueses quando foi apanhado numa violenta tempestade, indo parar à ilha de Tane­gashima, ao sul do Japão, no tal acidente pelo qual podemos dizer muito obrigado ou arigato gosaimasu.

 

 

Luís Brito

in  Arigato, eu. Os portugueses no Japão

© Fundação Francisco Manuel dos Santos e Luís Brito. Abril de 2016

 

 

 

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8.6.16

 

 

 

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Buraco negro, Via Láctea 

 

 

 

 

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E a brancura duns ossos a apontar…

 

 

 

…o caminho que já não passa ali. Cito Miguel Torga de memória, não me lembrando do título do poema, do nome do livro em que o poema foi publicado nem do que os seus versos dizem para lá deste fragmento (e mesmo quanto ao fragmento: escreveu o autor duns ou de uns?). A idade não perdoa: a memória vai passando cada vez mais de esquecimento descriminado a esquecimento a granel. Que a leitora me perdoe e pense que, quando chegar à minha idade, também será apoquentada por vezes assim e esperará que, ao contrário da idade, os mais novos lhe perdoem.

 

Lembro-me, sim, que Torga antecipava o desaparecimento do Homo Sapiens – julgo que não lhe chamasse assim mas vernaculamente homem no sentido de homem ou mulher – causado por desmando grosso feito pelo próprio homem, talvez a bomba atómica, porque na altura da publicação daqueles versos a ciência, todas as ciências estavam muito mais atrasadas do que estão agora, não havia tampouco ecologistas alarmados, do género de pessoas que se consideram permanentemente à beira do abismo, independentemente dos valores que apregoem e da moda que lhes vista as mentes: é pulsão que se acomoda a todas a ideologias (alentejana que conheci menina e moça militante da JIC - Juventude Independente Católica, para quem não o saiba –, na força da vida militante do PC com entusiasmo igual e, um pouco mais madura, agitadora ecologista de ânimo indómito, foi sempre a mesma debaixo destas máscaras: quem se recusasse a aceitar a evidência do que pregava na altura era por ela considerado ou débil mental, ou monstro imoral ou ambos). Fim da espécie próximo era imaginado como resultando de guerra nuclear impiedosa e expedita ao virar da esquina. Estar a brancura dos ossos à vista indicava tempo histórico ou quando muito pré-histórico, maneirinho, à nossa escala - e não à escala de dimensão no tempo e no espaço, medida em biliões de anos-luz, de buracos negros e ondas gravitacionais e isto para ficarmos só por um universo, o nosso, pois ele haverá outros.

 

Contei as batidas – incluindo pois intervalos entre palavras – e, no fim do parágrafo acima, ia em 2.047. Acrescentando “da era de Cristo” pergunto-me como será o mundo nessa altura? 31 anos passam num instante, por isso palpita-me que o Deus de Abraão, Isaac e Jacob existirá ainda e o Profeta Maomé também bem como divindades orientais mais longínquas. Religiões não reveladas continuarão a vingar, erva miúda, um pouco por toda a parte. Protectores dos animais insistirão terem alguns deles direito a direitos humanos. Por sua vez, génios da informática ter-nos-ão dado máquinas conscientes de que existem, capazes de inventar outras máquinas mais conscientes ainda, assim se reproduzindo. Como há 500 anos teólogos espanhóis fizeram quanto aos índios da América, teólogos de Silicon Valley debaterão se tais engenhos têm alma quer se julgue, quer não, que nós a temos também. Barrigas de aluguer? Onde isso já irá, perdido no tempo antigo.

 

 

 

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1.6.16

 

 

 

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Cem anos depois

 

 

 

Ernst Jünger, autor de diários de guerra célebres na Alemanha e também em França – traduzidos na Bibliothèque de La Pléiade (Tomo I: 1914-1918; Tomo II: 1939-1945), sendo o primeiro considerado por muitos o mais belo livro de guerra e o segundo, onde o autor, já homem feito, hostil aos nazis, deixou para trás a excitação do combate e o horror das trincheiras para ser oficial durante a ocupação alemã de Paris, relata com a mesma franqueza a extrema dificuldade de conservar “a sua integridade num mundo onde verdade e moralidade já não têm qualquer expressão visível” – quando lhe haviam perguntado, nos anos de l’entre deux guerres, qual a impressão mais forte que lhe ficara da Grande Guerra, respondera “A pena de a termos perdido”.

 

Lembrei-me dessa resposta com as comemorações do centenário da batalha de Verdun que durou onze meses, matou oitocentos mil soldados sob as bandeiras alemã e francesa vindos de muitas pátrias - no caso da França bem para lá da Europa e da cristandade – e foi ganha sob a égide do Marechal Pétain que ficou herói nacional – quase à altura de Joana d’Arc no altar patriótico que cada francesa ou francês traz dentro da cabeça – até a Alemanha atacar de novo, 20 anos depois de humilhada pela paz de Versailles, tendo Pétain, guindado a Presidente da República, negociado rendição que deixou a Alemanha a ocupar o país e o governo francês, subalterno, sediado em Vichy. De Gaulle, de cujo filho mais velho Pétain fora padrinho, fugiu para Londres, de lá exortou à rebelião pela BBC, organizou a Resistência e foi condenado à morte à revelia. (Os comunistas só passaram a resistir aos nazis depois de Hitler invadir a Rússia em 1941). Com a vitória Aliada em 1945, De Gaulle, entretanto Presidente, amnistiou Pétain que de Leão de Verdun passara a traidor condenado à morte e acabou a vida preso da Ilha de Yeu. François Mitterand, Presidente socialista eleito em 1981, mandava pôr-lhe flores na campa nos aniversários da sua morte.

 

No Domingo, diante do ossuário monumental que guarda milhares de ossadas desconhecidas franco-alemãs, inaugurado em1932 (condenar o horror da Grande Guerra não impediu os chefes de se meterem noutra), François Hollande e Angela Merkel lembraram erros e crimes passados e avisaram de nuvens negras no futuro. De facto, novos fascismos e racismos de sempre atraem muita gente. Na Europa, fronteiras voltam: só a que separa Chéquia e Eslováquia não foi traçada a sangue. A guerra é tao antiga quanto o homem; a paz é uma invenção recente, disse jurista inglês a meio do século XIX.

 

Felizmente há a Bomba (nuclear) para moderar ímpetos mas quanto mais amigos animarem à toa redes sociais e mais jornais com pés e cabeça forem desaparecendo de bancas e écrans, maiores serão as probabilidades de gente que não sabe nada e julga saber tudo ser posta no poder em eleições livres e limpas e o usar muito mal. O puto coreano já é grande susto; meia dúzia de graúdos democráticos serão o fim da picada.

 

 

 

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25.5.16

 

 

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 Mário Soares e Aníbal Cavaco Silva

 

 

 

 

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Canários na mina

 

 

 

 

A Palma de Ouro do Festival de Cannes foi atribuída ao realizador inglês Ken Loach pelo filme “I, Daniel Blake”. Também este ano, o prémio Pritzker (espécie de Nobel da arquitectura, criado por família multi-milionária de Chicago, já recebido duas vezes por portugueses: Siza Vieira e Souto de Moura) foi atribuído ao chileno Alexandro Aravena. As duas atribuições têm uma coisa em comum: ao contrário do que costuma acontecer ambas recompensam mais as preocupações sociais dos contemplados do que as suas contribuições arte pela arte, por assim dizer, aos misteres respectivos. Loach conta história desventurosa de um desempregado; Aravena tem projectado para acolher o melhor possível na cidade migrantes pobres do campo. O filme e as construções não ficarão necessariamente entre as mais altas obras-primas do cinema ou da arquitectura.

 

Mas foram premiados, neste ano da graça de 2016, por júris diferentes de artistas, em diferentes continentes, de competência incontestável, porque, às vezes, artistas percebem o futuro melhor que economistas, antropólogos, historiadores, cientistas políticos (longe vá o agoiro…), matemáticos, banqueiros, sindicalistas, mulheres-a- dias, leitoras de sinas ou leitoras de genomas, tal como os cães começam a uivar por pressentirem terramotos antes dos humanos os sentirem ou os canários postos em minas para assim darem o alarme, morrem asfixiados antes dos humanos cheirarem o gás e, com sorte, poderem escapar a tempo das explosões.

 

Como cães em tremores de terra e canários ao fundo de minas, os prémios dos júris de Cannes e de Chicago lembram-nos uma coisa enorme. Desde que o colapso da União Soviética e a emergência dos bilionários chineses passaram certidão de óbito ao comunismo como remédio para os males sociais deste Mundo, o capitalismo tomou o freio nos dentes. Zelo excessivo e mal orientado está a cavar fosso cada vez mais largo entre grupo muito pequeno e muito rico por um lado, e vastas classes baixas e médias com perspectivas de prosperidade cada vez mais ténues e incertas, por outro lado. Coisa de que já sabíamos mas contra a qual, nas sociedades do Sul da Europa, incluindo a nossa, aparecem agora a lutar estudantes e sindicalistas convencidos da bondade do remédio que falhou. O fosso alarga-se. Entretanto em França, na Áustria, na Hungria, nos Países Baixos, a pouco e pouco na Alemanha, a inacção da gente de bem deixa germinar os fascismos do futuro próximo. E nos Estados Unidos, amigo judeu alemão que morreu há dias e lá tinha arribado com Franklin Roosevelt presidente horrorizava-se de ver bruto ignaro como Trump convencer tanta gente a pô-lo na Casa Branca. Uma broncalina do camandro – ou então uma Bernardette do caboz.

 

 

NB – Em Portugal não há extrema-direita porque a primeira maioria absoluta de Cavaco Silva em 1987 foi mata-borrão que apanhou tudo. E não há extrema-esquerda porque Mário Soares, ao dissolver a Assembleia da República em 1985, lhe tirou o caldo de cultura.

 

 

 

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11.5.16

 

 

Charles_Maurice_de_Talleyrand-Périgord_by_Franço

Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord,

bispo de Autun, príncipe de Benevente, 1754-1828

(François Gérard, 1808)

 

 

 

 

 

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La douceur de vivre*

 

 

 

 

Amigo recolhido há muitos anos para lá da barbacã do Alzheimer deixou-nos de vez há dias. Era homem de outro tempo – como às vezes chamamos ao passado - e gostaria de ter nascido em tempo mais passado ainda. Quando fora novo e ia e vinha de Bruxelas a Lisboa de automóvel dava sempre volta larga para não passar por Paris. Porque em Paris, com a Revolução Francesa de 1789, começara a tragédia do mundo moderno.

 

Lera com certeza as Reflexões sobre a Revolução em França de Edmund Burke, publicadas logo em 1790, mas mesmo que o não tivesse feito percebia tão dolorosamente quanto o parlamentar irlandês da Câmara dos Comuns o rombo brutal às tradições que começara a ser aberto; a preferência funesta dada a princípios abstractos sobre costumes. E, se fora admirável em Burke a previsão perspicaz, o meu amigo sofrera, nos decénios da sua vida lúcida, o desenrolar sem remissão desse futuro impiedoso. Está agora na moda dizer mal da Revolução Francesa mas ele não era homem de modas: pensava o que pensava desde os seus anos (brilhantes) de universidade. Ceux qui n’ont pas vécu avant la Révolution n’ont pas connu la douceur de vivre.

 

Do que pouca gente se dava conta e muitos se davam conta achando bem. Sobretudo na Europa continental, farta de monarquias absolutas, e nos Estados Unidos da América, bêbados de independência triunfante, com escravos e índios a amortecerem a pancada. O grande poeta inglês William Wordsworth cantou a felicidade de ser vivo e ainda por cima novo nos momentos gloriosos da Revolução do outro lado do canal mas, nas suas ilhas, tal visão foi sempre minoritária. A prudência e o bom senso britânicos prevaleceram, na convicção de que todo o cuidado seria pouco. O Dr. Samuel Johnson – lexicógrafo, considerado homem tão espirituoso que em dicionários de citações inglesas só Shakespeare, Oscar Wilde e Bernard Shaw o batem em número de entradas – quando a Duquesa de Devonshire, acolhendo-o para sarau literário na sua casa de Londres, lhe disse, entusiasmada, ir ter entre os convidados dessa noite dois revolucionários de Paris, respondeu: “Watch the silver, Madam!” (“Atenção à baixela!”).

 

Coube-nos estar a assistir ao fim desse enorme sobressalto mas nem de longe foi a primeira vez que a história alarmou espíritos atentos. Há poucos anos alguém enumerou o que considerava as piores catástrofes do percurso ocidental, começando já se vê no Próximo Oriente. Por ordem cronológica: monoteísmo; cristianismo primitivo; reforma; Marx e, acrescentaria eu se Thérèse Delpech ainda fosse viva para o defender melhor do que eu o teria atacado, Freud. Desde que o Homo sapiens deu por si, a Dor humana busca os amplos horizontes e tem marés de fel como um sinistro mar.

 

“Não há-de ser nada!” diria o Senhor Engenheiro e, embora o destino não tenha sido o seu forte, está sol em Bruxelas e suspendo a descrença. O mais de tudo isto é Jesus Cristo, que não sabia nada de finanças nem consta que tivesse biblioteca.

 

 

 

*Com vénia a Talleyrand, Cesário e Pessoa.

 

       

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27.4.16

 

 

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foto: Cartier Bresson

 

 

 

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A ressurreição do fascismo?

 

 

 

A primeira volta das eleições presidenciais na Áustria deixou o candidato da extrema-direita bem à frente de todos os outros e os candidatos democrata cristão e social-democrata - dos partidos que em alternância ou coligação têm governado o país desde o fim da segunda guerra mundial - nem à segunda volta irão: os eleitores estavam fartos de sindicalista militante desde os 15 anos e de católico espantado quando descobrira que os 8 mil euros da sua pensão não correspondiam às pensões austríacas médias. O protofascista terá como opositor principal um independente que se diz próximo dos ecologistas; ambos são contra o grande acordo comercial com os Estados Unidos que está a ser negociado pela União Europeia.

 

Depois de os mais velhos de entre nós terem assistido à morte do fascismo em 1943 na Itália; em 1945 na Alemanha, na Hungria e na Roménia; em 1974 em Portugal com o 25 de Abril e em 1975 em Espanha com a subida ao trono de D. Juan Carlos (entendidos dizem que os regimes peninsulares de Franco e de Salazar/Caetano não foram bem fascismos - mas foram o mais parecido que por cá houve) teremos ainda, se insistirmos em sobreviver um pouco mais, de assistir à sua ressurreição?

 

Extrema-direita e Áustria rimam. Com a derrota de 1918, Viena tinha perdido o Império e depois de embandeirar em arco no nazismo desde meados dos anos 30, quando veio a derrota de 1945, tinha perdido também os judeus. Assim amputada foi submetida durante anos a neutralidade pelos vencedores, que depressa passaram a confrontar-se na Guerra Fria, dando jeito aos dois blocos impedir que aquele canteiro de germanismo pendesse para o outro lado. Era país “neutro” como se dizia na altura, tendo, quando a União Soviética não conseguia já esconder o seu enfraquecimento, políticos de direita descarados dito aos seus eleitores que a Áustria poderia aliar-se na OTAN e permanecer neutral (nunca se aliou porque a neutralidade lhe convém: gasta uma miséria em defesa sem ser chamada à pedra por isso). A História pesa. Per capita houve mais guardas de campos de concentração e extermínio nazis austríacos do que os houve alemães. Tradição antissemita dá aqui e além ares da sua graça, incomodando às vezes turistas americanos. No seu todo, porém, o país tem grande competência em PR (relações públicas): há muito estrangeiro convencido de que Hitler era alemão e não austríaco e de que Beethoven era austríaco e não alemão.

 

O que se passará depois da segunda volta da eleição, não se sabe. Haverá por algum tempo ingovernabilidade à espanhola ou à irlandesa? Ou – mais provável para alguns - teremos o país a alinhar-se com húngaros e com polacos numa espécie de núcleo duro autoritário da Europa Central, com pouca paciência para muitas obrigações da democracia, preferindo de longe autoridade a liberdade, xenófobo e protecionista? Visceralmente anti-russo, como os polacos, ou com um fraco por Putin, como o húngaro Orban? Venha o que vier, coisa boa não será.

 

 

 

 

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20.4.16

 

 

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 Sam Nujoma

 

 

 

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Windhoek

 

 

 

Nome bem posto: o vento não amaina na capital da Namíbia onde em 1990, depois de muitos anos de luta anti-colonial, tomou posse o primeiro presidente, Sam Nujoma. Outros chefes de movimentos independentistas de colónias britânicas – Julius Nyerere da Tanzânia (traduziu The Merchant of Venice para suaíli – nunca lhe perguntei se, nessa versão, Shylock em vez de ser judeu era indiano – inventou uma utopia socialista africana e arruinou o país sem derramamento de sangue) ou Oliver Tambo da África do Sul que durante a prisão de Mandela dirigiu o A.N.C. mantendo-o amarrado a visão marxista revolucionária, ou Robert Mugabe do Zimbabué, católico da libertação africano que de entrada seguiu o conselho do moçambicano Machel e não tocou nos bens dos brancos e depois fez marcha atrás transformando a agricultura mais rica de África numa miséria escandalosa, ou outros ainda – durante os anos da luta tratavam o camarada Nujoma um pouco por cima da burra por não o acharem tão inteligente e tão culto quanto eles eram.

 

Independências africanas foram vindo, Pretória percebeu que tinha de acabar com o apartheid. Antes livrou-se da Namíbia, antiga colónia alemã cuja ocupação as Nações Unidas haviam condenado. Depois de muitas peripécias, de Nova Iorque veio o finlandês Matti Ahtisaari, por Pretoria estava o Administrador-Geral Louis Pienaar, do mato e do exílio vieram lugares-tenentes de Nujoma. Entre o fim das conversações e a independência visitei os protagonistas. Pienar e Ahtisari contaram-me a mesma história, o primeiro como cangalheiro a ler-me uma certidão de óbito e o segundo como parteira que me narrasse um nascimento. Esperando a coroação, Nujoma, de fato de safari e sandálias, estava à vontade na moradia onde me recebeu, mobilada tão à pressa que vaso de planta grande ao lado dos sofás novos tinha ainda a etiqueta do preço: 8 rands e 99.

 

Num jantar em Joanesburgo meses depois, jornalista contou-me ter amigo dentista de que agricultor rico da Namíbia era cliente. (A vasta maioria dos grandes proprietários rurais da Namíbia são afrikaners). Homem de uns 70 anos estivera no consultório com o filho uma semana antes: tudo ia pelo melhor, sem quaisquer desmandos ou empecilhos à sua actividade que a independência tivesse trazido. A certa altura quisera referir-se ao Presidente, não se lembrara do nome e perguntara ao filho: “Como é que se chama o cafre que trata da política?”

 

Na sua simplicidade Nujoma percebera uma coisa enorme que escapara à finura dos outros (e a muitos sociais democratas europeus): com o fim do comunismo acabara a razão de ser de muitas práticas social-democratas. Que o capitalismo tenha de se modificar e depressa, não há a menor dúvida; que se insista para o fazer numa espécie de comunismo laite não tem pés nem cabeça. Aumenta o mau viver, desacredita a classe política, desanima os empresários, enxota os investidores: pior do que a austeridade, atrasa o futuro. Quando é que a esquerda europeia tomará juízo?

 

 

 

 

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2.4.16

 

 

 

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assepsia
as.se.psi.a

nome feminino

(do grego a «sem» + sepsia «putrefacção» + ia)


Ausência de micróbios ou outros agentes infecciosos. Limpeza. Desinfecção. Por extensão, ausência de impureza, de mácula. Numa acepção figurativa, horror a terra, bichos, sexo, suor e sangue; ao sol e à chuva; horror à vida e à sua palpitação. Em literatura toma o significado de «sem sabor»: uma escrita asséptica. Aplicado a pessoas, pode falar-se de mentes assépticas: gente que não mata moscas, nem come sardinhas assadas ou deixa cair nódoas. Ou, fazendo-o, não deixa que tal se saiba. São amantes do ambiente, se houver ar condicionado e chão alcatifado. Neste sentido apenas se deve usar com uma boa dose de ironia. São geralmente pessoas sensíveis, do género das que falava Sophia (não são capazes/De matar galinhas/Porém são capazes/De comer galinhas), aqui como sinónimo de hipocrisia. Em política, a assepsia tem uma história trágica enquanto desgosto da diferença e da mistura; e consequente vontade de limpeza.

 

 

 

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9.3.16

 

alentejo 4

 

 

 

 

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Alentejo

 

 

 

Robert Lowell dava aula no colégio de All Souls em Oxford. Um estudante quis saber o que é que ele pensava de literatura “engagée”. Que era uniformemente má. O estudante insistiu: “E o livro de Norman Mailer sobre o Vietname?” “O livro de Norman Mailer sobre o Vietname não é sobre o Vietname é sobre Norman Mailer”.

 

Isto à laia de introito ao Alentejo prometido de Henrique Raposo, que é mais sobre Henrique Raposo do que sobre o Alentejo, sem por isso perder qualidade. Li-o com gosto e curiosidade e fico à espera de investigação sistemática e pormenorizada sobre temas nele aflorados – passado de violência e suicídio, por exemplo – para ficarmos a saber melhor o que por lá houve e haja ainda. O que Raposo publicou é estimulante mas é pouco e impressionístico.

 

Sobre suicídio, tinha-me telefonado faz já algum tempo porque há quase meio século publiquei monografia sobre outra parte do Alentejo e oficiais do mesmo ofício gostam de comparar notas. Não pude ser-lhe de grande utilidade: sim, também havia suicídios por onde eu tinha andado – as mulheres normalmente atiravam-se a poços com as saias atadas para não flutuarem; os homens davam tiro de caçadeira na boca, o gatilho puxado pelo dedo grande do pé – e disso já ele sabia. Só agora, lendo o livro, percebi porque é que o fenómeno do suicídio lhe fez tanta impressão e não ma tinha feito a mim. Henrique Raposo tem objecção moral ao suicídio e eu não. Além disso, nado e criado nos arredores de Lisboa, foi tentar perceber a terra donde vinham os seus pais a partir de instituições e valores morais muito marcadas pelas do Norte de Portugal. Para muitos alentejanos, o suicídio, por mal que possa fazer a gente próxima do suicida e por distúrbio na comunidade que cause, não constitui ofensa a Deus porque Deus não existe. E as razões da sua prevalência em terras transtaganas - as estatísticas parecem inequívocas, embora se deva lembrar que, em lugares onde o suicídio seja grande pecado e socialmente muito mal visto, certidões do óbito possam não o mencionar – terão, julgo eu, fundamento histórico simples.

 

Enquanto a cristianização do Norte de Portugal coube ao clero secular de dioceses e paróquias, a cristianização do Alentejo foi sobretudo feita por Ordens religiosas. Se a densidade populacional era mais baixa no Sul do país do que no Norte, a densidade de pessoal religioso era muito mais baixa ainda e, com a extinção das ordens religiosas do Liberalismo, a situação piorou. No começo da República, as coisas não se passaram muito mal: mais padres no Alentejo do que no Norte do país aceitaram ser pagos pelo Estado. Mas em 1960, menos de metade das paróquias tinham pároco no Alentejo: “país de missão”, chamava-lhe a Igreja. Não creio que, entretanto, tenha mudado muito.

 

 

NB Alentejo prometido é interessante e bem escrito. Mesmo que o não fosse, a agressão alentejana a autor e livro por pimpões e pimponas ofendidas, no século XXI e na Europa Ocidental, deixa este alentejano de boca aberta.

 

 

 

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2.3.16

 

 

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Lord Ismay, 1º secretário-geral da OTAN, no seu gabinete, palais de chaillot,  1953

© OTAN/NATO

 

 

 

 

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Olhar por nós

 

 

 

 

Com segurança não se brinca. Seis anos de guerra sem quartel acabando em rendições incondicionais da Alemanha e do Japão em 1945 temperaram os Estados Unidos, deixando-os aptos a chefiarem aquilo a que chamávamos o Mundo Livre durante a Guerra Fria.

 

Em geração próxima – Churchill seria um dos vencedores de duas guerras mundiais; Hitler, um dos vencidos –, a seguir à vitória de 1918, o Senado desfizera os sonhos do Presidente Wilson, recusando que os EUA se juntassem à Sociedade das Nações. Entretanto, as condições leoninas impostas à Alemanha vencida ajudaram ao colapso da República de Weimar e ao triunfo eleitoral do nazismo. (Convém nestes dias de Trumps, Le Pens e Putins, lembrar que Hitler não tomou o poder pelas armas; apanhou-o do chão em eleições livres e limpas).

 

Assim, em 1945 a Alemanha, ou pelo menos a parte dela que coube ao Ocidente, foi poupada a exacções ruinosas. Pelo contrário, em 1953, quando até mesmo os franceses tinham percebido que o inimigo passara a ser a Rússia e deixara de ser a Alemanha, quase toda a dívida que restava das duas guerras lhe foi perdoada para a ancorar melhor ainda no Ocidente. Washington queria ter os pés bem assentes no chão: só depois de alguns europeus terem criado organização de defesa própria – a União da Europa Ocidental – os americanos se dispuseram a negociar com eles e alguns outros, quase todos democracias (Portugal era a excepção e a base das Lajes a razão dela - com segurança não se brinca) o Tratado de Washington, assinado em 1949. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN/NATO) estabeleceu-se em 1952. A maior e mais reputada aliança militar do mundo contemporâneo desimaginou durante quarenta anos a URSS de aventuras insensatas e ganhou a Guerra Fria sem ter de dar um tiro (salvo em exercícios de fogos reais).

 

Desde essa altura houve quem achasse que devia acabar: amantes imprevidentes da paz, que não são poucos e nunca aprendem; anti-americanos primários, convencidos de que a Rússia deixara de ser problema e, sobretudo, a Rússia de Putin que diz ser o alargamento da OTAN a Leste uma provocação agressiva (dado que Geórgia e Ucrânia, vizinhos da Rússia que estão fora da OTAN, são atacados pelos russos, e outros vizinhos, dentro dela, não o são, é preciso ter lata).

 

Único instrumento colectivo de defesa de que dispomos, para além de continuar a meter respeito profilático desempenha outro papel crucial: refreia nacionalismos militaristas dos Aliados, pondo os europeus na bicha e não virados uns contra os outros. Defender-nos-á de eventuais invasores - terroristas, cibernéticos, nucleares, convencionais. (E, se o Kremlin ganhar um dia boa-fé, será interlocutora ideal na discussão de interesses europeus e americanos).

 

Só não serve para a vergonha actual: 500 milhões, prósperos e anafados, enxotando como pestíferos escassas centenas de milhares de homens, mulheres e crianças fugidos de guerra nas suas terras, no engodo enganado dos valores europeus.

 

 

 

 

 

 


25.2.16

 

 

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Recolher, preservar e divulgar as memórias de gente comum, reconhecendo que esses testemunhos de vida contribuem para o conhecimento da história e da identidade nacionais, é a missão do Arquivo dos Diários, associação cultural criada há dois anos, que lançou o concurso “Conta-nos e Conta Connosco”, destinado a enriquecer o seu acervo.

 

Agora que dispõe de uma equipa e de um espaço na Biblioteca de São Lázaro, graças a uma parceria com a Junta de Freguesia de Arroios, a associação está em condições de começar a reunir cartas e diários através dos quais os portugueses poderão contar a sua história. Diários, cartas, fotografias e filmes caseiros ou simples evocações feitas pelas pessoas são uma parte importante na construção da memória de cada um. Mas esses documentos servem também para ajudar a construir a narrativa de uma comunidade. A ideia é catalogar por temas tudo o que for recebido e, no futuro, disponibilizar o acervo num meio digital. 

 

Existem já em vários países europeus arquivos dedicados a recolher a memória popular, designadamente o Archivio Diarístico Nazionale, em Itália, que serviu de referência a Clara Barbacini e Roberto Falanga, fundadores deste projecto.

 

 

 

 

 

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© Soraia Martins 

 

 

 

O principal obstáculo, admitem, é chegar às pessoas e mostrar-lhes que as suas memórias e objectos pessoais podem ajudar a desenvolver outros projectos interessantes, do cinema ao teatro, da ficção à investigação, ou simplesmente servir para consulta de quem tem curiosidade por histórias de outros tempos.

 

“Espero que os portugueses desmintam o pudor como traço da sua cultura”, diz Roberto. “Sei que vai ser complicado, mas desafiante. E acho que só o facto de alguém se questionar se deve ou não entregar [os diários e cartas da sua família] já é bom. Estimula o pensamento. Nesse tempo de reflexão o tema esteve ali, a ser considerado.”

 

Também sabem que poderá haver resistências à entrega de materiais e à publicação. “Sabemos que estamos a tocar assuntos muito delicados”, asseguram. Recordam o caso de uma mulher, vítima de violência doméstica, que ganhou em Itália um concurso semelhante ao agora lançado em Portugal e só anos mais tarde recebeu o prémio, depois de o marido morrer. Há também questões legais que podem colocar-se, por exemplo, no caso de pessoas que encontram ou compram materiais que não se importam de doar mas que dizem respeito a terceiros.

 

Tal como em Itália, está prevista a publicação anual de pelo menos um diário: quem entrega os seus materiais pode escolher participar num concurso aberto até 1 de Março próximo. Depois, um painel de dois júris – um popular e um técnico – escolherá um vencedor. Será publicado pela Penguin – Companhia das Letras.

 

As entregas podem ser feitas na Biblioteca de São Lázaro todos os sábados das 11h às 13h ou enviadas por correio e a associação tem um site com toda a informação em www.arquivodosdiarios.pt. Tem também uma página de Facebook aqui.

 

Arquivo dos Diários

Biblioteca de São Lázaro

Rua do Saco, 1  Lisboa 1169-107 (Freguesia de Arroios)  

 

 

Agradecimentos:

 

artigo de Vanessa Rato no jornal Público, artigo de Samuel Alemão em “O Corvo” e textos reunidos no site Arquivo dos Diários.

 

Fotos gentilmente cedidas por Arquivo dos Diários e Soraia Martins

 

 

 


17.2.16

 

 

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 O busto devolvido de Winston Churchill

©afp/getty

 

 

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Dia Santo na loja?

 

 

 

 

O poeta mexicano Octávio Paz escreveu, famosamente: “Pobre México. Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos!”.

 

Vivi em Maputo entre 1981 e 1983, anos de grande penúria e muita gente a passar fome. Logo a seguir à independência, quase todos os portugueses tinham tido de se ir embora ficando a economia em muito mau estado e a autoridade dos chefes tradicionais era desrespeitada pelo triunfalismo dos quadros da Frelimo. A retórica do poder, anti-ocidental, anti-americana e disparatada proclamava que, guiado pelo marxismo, o país sairia do sub-desenvolvimento em quinze anos. Nas lojas faltava quase tudo. Num grande supermercado da Baixa da cidade com todas as prateleiras vazias salvo uma no meio da sala, cheia de pensos higiénicos para senhoras, lembrei-me de Octávio Paz. “Pobre Moçambique” ocorreu-me. “Tão longe de Deus e tão longe dos Estados Unidos”.

 

Passando para a Europa agora. Acabado o perigo que a União Soviética representava para os Estados Unidos, estes distraíram-se – haverá ainda quem se lembre do “fim da História”? – e, cereja em cima do bolo, em Janeiro de 2009 tomou posse em Washington presidente filho de pai queniano preto e mãe americana branca, nascido no Havai, jurista eloquente cujo hobby era a organização comunitária, avesso a guerras (o seu predecessor metera a América em duas, estúpidas e caras), que devolveu logo ao governo de Sua Majestade Britânica busto de Churchill oferecido a Bush filho (que o pusera na Sala Oval) e, para a celebração dos vinte anos da queda do muro, em vez de ir pessoalmente a Berlim mandou vídeo com discurso seu.

 

O afastamento da Europa não foi só obra sua: houve sempre em Washington políticos isolacionistas e desconfiados dos europeus mas a mistura desses sentimentos antigos com alheamento à Europa inédito em inquilino da Casa Branca não ajuda europeus (e americanos) convictos de que primazia norte americana no mundo, em entendimento forte com a Europa, seria a melhor garantia de paz, liberdade e decência pública imaginável no nosso tempo.

 

Ainda por cima, numa espécie de acerto de contas depois da derrota na Guerra Fria, Putin parece chegar e sobrar para Obama: está a ganhar perigosamente no tabuleiro da Síria devido à inépcia do outro. (Disse-se de Franklin Roosevelt que tinha uma inteligência de segunda mas um temperamento de primeira. Com Obama é o contrário).

 

Os Estados Unidos não se darem ao respeito é muito mau para a Europa. A União Europeia e, antes, a OTAN construíram-se porque Estaline nos aterrorizava e porque os Estados Unidos queriam barbacãs. Putin incomoda os europeus mas não os aterroriza e hoje os americanos não precisam de muralhas dessas – até dos Açores se livram. Ora, sem os americanos, os europeus não se saberão defender de quem os atacar - e mesmo sem ataques não sabem pôr-se na bicha quando é preciso fazê-lo (como se está desgraçadamente a ver quanto aos refugiados). O patrão está fora mas na loja o dia não é Santo – é maldito.

 

 

 

 

 

 

 

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10.2.16

 

 

 

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25 de Abril de 1974: Francisco Sousa Tavares no Largo do Carmo

 

 

 

 

 

 

 

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Outro 25 de Abril?

 

 

 

Na manhã do dia 25 de Abril do Ano da Graça de 1974 durante o qual nasceram meninas que caminham agora para balzaquianas – o livro de Balzac que inspirou o adjectivo chama-se A Mulher de Trinta Anos (1842) mas progressos da ciência, desde a pílula ao botox, e aligeiramento dos costumes coevo, do corpete às maminhas ao léu, da ‘menoridade’ perante pais e maridos à liberdade de género e de preferência sexual, foram juntando decénios ao protótipo que estará hoje entre os sessenta e os setenta anos – eu tinha ido cedo da minha casa de Belsize Park para o meu gabinete na London School of Economics onde às oito e meia recebi telefonema da Teresa. O João Monjardino, nosso vizinho em Hampstead, telefonara porque o irmão Carlos, banqueiro em Paris, lhe telefonara dizendo que tinha havido um golpe militar em Portugal. (Tudo telefones fixos; não tínhamos outros na altura). “Da direita ou da esquerda?”, perguntei. A essa hora nenhum dos citados acima parecera saber ao certo mas depressa se percebeu - antes das chegadas do estrangeiro de Álvaro Cunhal e de Mário Soares – e há fotografias do Tareco, marido da Sophia e pai do Miguel, arengando a multidão de cima de uma guarita, diante do quartel do Carmo em Lisboa.

 

A Pátria viveu depois ano e meio de Montanha Russa (às vezes com toque de Montanha Americana diria gente de humor barato, ao qual procuro resistir mas o sentimento estava lá: amigo do peito que já morreu achava que se deveria ter erguido na Outra Banda estátua de Frank Carlucci que pudesse emparelhar com a do Cristo Rei). A 25 de Novembro de 1975 a Montanha Russa parou de repente e nos anos menos sacudidos que se seguiram havia de vez em quando quem se exaltasse: “Se isto continua assim, qualquer dia apanhamos com outro 25 de Abril!”. Aí, o António Alçada Baptista, outro amigo que já lá vai, perdia a paciência. “Outro 25 de Abril? Para isso era preciso outro Estado Novo, outro Império Colonial, outras décadas de reviralho, outra tropa farta de comissões de serviço… Nunca mais.” E recordava muitas tentativas falhadas da oposição portuguesa perante população desconfiada de mudança que parecia aceitar tudo do regime e achar, como lavrador alentejano que conheci no tempo antigo: “Isto, Senhor Doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há.”

 

Alguém se lembrou de nos oferecer outra volta na Montanha Russa. Talvez dure mais do que os seus inimigos vaticinam. As quatro décadas sem ela acabaram porque em Outubro passado os portugueses não deram votos que chegassem a liberais mascarados de sociais-democratas. Talvez já estejam arrependidos mas, entretanto, também mascarados de sociais-democratas, vieram comunistas que preferem autoridade e mando do Estado a liberdade e iniciativa de cada um. Será que afinal calam fundo em gente que prefira o conforto preguiçoso de estar bem com a lei que há ao trabalho arriscado de tentar ir mudando a lei? Haverão os portugueses de ser sempre os mesmos por não haver outros?

 

 

 

 

 

 

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20.1.16

 

 

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 O Nascimento de Vénus - Sandro Botticelli (c. 1485)

 

 

 

 

 

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Depois da Cissiparidade

 

 

 

 

Quando os humanos apareceram sobre a face da Terra a sexualidade já vigorava há muito. O primeiro homo sapiens não surgiu porque homo, menos sapiens e mais amacacado que nós, se tivesse dividido em duas (ou dois). Nasceu como se nasce agora, menino ou menina (em lugares decentes onde se cuida dos outros – algumas florescências da civilização ocidental – estabeleceram-se ultimamente arranjos que burocracias formalizam para não desamparar gays, lésbicas, bis e transsexuais no seu trânsito mortal mas a norma estatística de menina e menino é geral à nascença, desde abismos misóginos da Arábia Saudita a expoentes exaltados de correção política sueca).

 

O jeito que famílias, tribos, polis, derem ao que venha a seguir varia segundo as culturas. Ser culto é ser de um sítio; sítios não faltam e muitos sítios estão a mudar a ritmo cada vez mais acelerado, às vezes confusamente. Mas uma coisa é certa: desde tempo imemorial, em todas as tradições conhecidas, os homens estão na mó de cima e as mulheres na mó de baixo. Há quem pense que houve dantes, aqui e além, sociedades matriarcais mas trata-se da fantasia de inventores de lendas antigas - ou de ingenuidade feminista de hoje. O que houve e há ainda são sociedades matrilineares nas quais estatuto e riqueza passam de uma geração para a geração seguinte só por linha feminina: tal não significa que sejam as mulheres a mandarem e que as mães passem o poder às filhas. Quem manda é sempre o homem, que recebeu a herança do irmão da mãe e a passará por sua vez ao filho da irmã.

 

Outro indicador do longo caminho a percorrer pela emancipação feminina é a mitologia. Desde as últimas décadas do século XIX, europeus e norte-americanos meteram-se a estudar os costumes de tribos chamadas primitivas, gentes sem Deus revelado nem escrita própria, que algumas nem sabiam do resto do mundo, portadoras de religiões e sistemas simbólicos muitas vezes de grande sofisticação. Destes, os muitos que se estudaram arrumam o mundo natural e o sobrenatural de maneiras diferentes mas separando sempre o Bem do Mal. Ora - salvo numa obscura tribo do Uganda - o Homem, como o dia e a mão direita, está sempre do lado do Bem e a Mulher, como a noite e a mão esquerda, sempre do lado do Mal.

 

Ciência, técnica, a força ganha pelo mental sobre o físico, as Grandes Guerras, a pílula anticoncepcional substituíram em sociedades modernas o que se considerava dantes a ordem natural das coisas. Mulheres governam países, chefiam empresas, deitam-se com quem lhes dá na real gana. Nos meus anos de ensino nunca dei porque houvesse maneira masculina ou feminina de pensar. Há, nos dois sexos, quem pense mal e há quem pense bem. Ponto final.

 

Alentejano destribalizado julga que algo terá ficado do tempo que passou. Quadra-se de maneira diferente ao conhecer um homem ou uma mulher e só encontra razões para isso no fundo da pré-história: o homem, poderia um dia ter de o matar; a mulher, poderia ter de lhe fazer um filho.

 

 

 

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13.1.16

 

 

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 Foto: Catherine Boutaud

 

 

 

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Mouros

 

 

Há anos, amigo tripeiro assistia a jogo de futebol entre Boavista e Salgueiros quando o árbitro alfacinha apitou para mandar marcar um livre. A claque castigada não gostou e um entusiasta gritou, furioso contra o árbitro: “Ah mouro, se num fossemos nós ainda andavas de lençol à cabeça!”

 

O brasão de Évora ostenta cavaleiro medieval a galope, na mão direita um montante levantado, na esquerda, agarradas pelos cabelos, duas cabeças - de homem velho e mulher nova - degoladas de fresco. Celebra o feito de Geraldo Geraldes, por alcunha O Sem Pavor, fidalgo expulso da corte de D. Afonso Henriques que para voltar às boas graças do Rei decidira ajudá-lo a tomar Évora aos mouros. De torre no campo que se via da muralha, vigia fazia sinais de fogo diferentes conforme hostes que se aproximassem à noite fossem amigas ou inimigas. Geraldo meteu-se a namorar a filha do vigia, ganhou a confiança do pai, uma noite combinou com compinchas henriquinos que viessem preparados para conquista e saque, quando eles se aproximaram matou o pai e a filha, deu sinal de fogo de chegada de amigos, a porta da cidade foi escancarada e os cristãos tomaram Évora enquanto o Diabo esfrega um olho. (É o que a lenda diz. Reparei outro dia que hoje, no brasão, as cabeças aparecem em baixo, separadas uma da outra, nada indicando ter sido o cavaleiro a cortá-las. Esboço de correcção política?).

 

Durante alguns dos anos da República (1910 – 1926), o jornal O Eco de Reguengos publicava as actas das sessões da Câmara Municipal da (então) vila. Numa delas a discussão sobre já não sei que questão animara de tal maneira que a certa altura o Presidente deu um murro na mesa, exclamando: “Irra, meus Senhores. Isto não é Marrocos!”

 

O que me traz memória menos antiga. Em 1987, era eu director político no MNE, a minha secretária veio dizer-me que o embaixador de Marrocos me queria ver urgentemente. Pedi-lhe para transmitir que se fosse muito urgente eu o poderia receber às quatro e meia; se não fosse, agradecia-lhe que viesse no dia seguinte. Era mesmo muito urgente e às quatro e meia lá estava. Homem inteligente, bem-educado, bom conversador, foi falando até que às cinco horas eu lhe perguntei qual era o assunto urgente. Não havia nenhum: tinha-lhe apetecido conversar comigo porque em Lisboa não sentia a falta de Marrocos, ao contrário do que sempre lhe acontecera noutros postos (incluindo Marselha, onde fora cônsul). Estava entre nós como na terra dele; trocar impressões comigo acentuava esse sentir-se em casa.

 

Evocações trazidas pelo réveillon de Colónia. Não se poderia ter passado aqui nem portugueses constam dos suspeitos de lá. Lembro-me de Paula Rego, aos 20 anos, vinda de Londres, contar em casa da minha mãe dos olhares malcriadamente ostensivos que os homens em Lisboa deitavam sempre na rua a partes do seu corpo. Tempo foi. Uma das maiores mudanças a que assisti na minha vida foi as mulheres terem passado a ser tratadas quase como seres humanos em Portugal. Quase.

 

 

 

 

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6.1.16

 

 

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Vontade nacional

 

 

 

“… parecer-me-ia muito interessante que escrevesse sobre um dos mais difíceis factores mensuráveis (?) do poder de um Estado - a vontade nacional. Onde está a nossa vontade nacional? Existe? Para onde caminha? O que se espera da nação? Ainda somos um estado-nação?”

 

Bom conselho de politóloga, se nos quisermos pôr a pau perante o que são Mundo, Europa, euro, democracia, desemprego, temperaturas, Maomé, Cristo, Buda, terroristas, velhos, refugiados, mulheres veladas e sem véu, passado, futuro. Embora eu olhe para o assunto de outro jeito por achar que a ciência política não ajuda muito a entendê-lo (nem a entendermo-nos a nós por via dele). Já a História ajuda, se for bem contada como foi, por exemplo, a da guerra do Peloponeso; histórias ajudam também, tal a de Anna Karenina ou as de outras infelicidades; versos; frescos; estátuas; música – e fica um ror sem fim por entender. Não é só coisa de hoje e de aqui. “Mundo mundo vasto mundo,/ se eu me chamasse Raimundo/seria uma rima, não seria uma solução” escreveu o brasileiro Carlos Drummond de Andrade no dia de Natal de 1928.

 

Seremos ainda um estado-nação? Duas vezes na vida julguei entender do que é que essa questão trata. Primeira. Quando fui embaixador em Moçambique, cinco anos depois da independência, tinha na residência três criados moçambicanos. Lourenço, Jacinto e Salomão garantiam-me o serviço da casa; eu mantinha-os livres da sua liberdade. Um estado fizera reverência à boca de cena e retirara-se para deixar outro estado tomar conta do palco. Uma nação esboroara-se. Mas, quanto a nós os quatro, o ritual que nos regia continuava a ordenar o nosso mundo. (But to the four of us the center/ Holds escrevi eu então, a rematar versos de circunstância).

 

Segunda. O massacre islamita de 13 de Novembro passado, em Paris, foi planeado ao pormenor por residentes, alguns deles franco-árabes, do bairro bruxelense de Molenbeeck, lugar com tradição jiadista antiga – de lá saíram os assassinos do comandante Massoud do Afeganistão em 2001 – e ruas onde a polícia há décadas não põe pé. As polícias secretas europeias passam constantemente informações umas às outras e a investigação do massacre de Novembro mostrou que as autoridades belgas não tinham usado, ou tinham usado pateticamente mal, informação recebida; bem aproveitada poderia provavelmente ter impedido o massacre. Porque não há na Bélgica vontade nacional: flamengos e valões detestam-se; de alto abaixo, múltiplos níveis de decisão comunicam pouco e mal entre si; a disfunção do estado é permanente.

 

Em Maputo percebi que, em transições, anseio de ordem protegida encontrará maneira de se satisfazer, mesmo à custa de incongruências, porque de dentro para fora - do lugar onde dói – estas contam pouco.

 

Em Bruxelas percebi que boa-vai-ela tolerante de antijacobinos como eu não sabe defender-se de quem queira dar cabo dela. Caricatura premonitória de Europa sem estados-nação?

 

Entretanto, e como dantes, nós por cá todos bem.

 

 

 

 

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23.12.15

 

 

 

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 Presépio de Estremoz. Alentejo, Portugal.   

Foto: Estúdio Novais, 1936 

 

 

 

 

 

 

 

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Natal

 

 

 

Há meio século, quando eu vivia em Oxford e ia muitas vezes a Londres (ou uns anos mais tarde quando eu vivia em Londres e ia poucas vezes a Oxford) o Luís de Sousa (que nessa altura vivia em Londres e agora vive em Oxford) contou-me que um professor de história de arte de cujo nome me esqueci e dava aulas já não sei em qual dos colégios da Universidade de Londres, quando chegava às escolas ou maneiras da pintura europeia das últimas décadas do século XIX e das primeiras décadas do século XX ensinava aos alunos: “No Impressionismo, pinta-se o que se vê; no Expressionismo, pinta-se o que se sente; no Neorrealismo, pinta-se o que se ouve” (as aulas eram em inglês e o professor dizia social realism em vez de neorrealismo mas é o mesmo).

 

A sentença ficou-me gravada no canto da memória onde estão arrumados os julgamentos estalinistas dos anos trinta na Rússia, quando centenas e centenas de funcionários do partido comunista da União Soviética, dos mais altos aos mais baixos na nomenklatura, em tribunal confessaram falsamente (com boa consciência) terem traído a pátria e o partido, às vezes ao serviço de potências estrangeiras, sendo condenados à morte e executados, para exemplo do povo em geral e opróbrio de suas famílias, bem como arrumada nesse canto está a lembrança de um dia no Outono de 1991 em Argel, em visita oficial, com a cidade, entre europeia e africana, pobre, mal cuidada mas ainda bonita ao sol, fazendo-me pensar que Lisboa seria assim se Vasco Gonçalves se tivesse aguentado uma dúzia de anos no poder – e como vai ser também guardado o momento contado por amiga que há dias num elevador apinhado de Luanda, ouviu jovem triste do MPLA responder ao “Então?” matinal de um colega, dizendo: “Sofremos felizes”. 

                                  

Sou um dos muitos portugueses que consideram que o país, logo a seguir ao 25 de Abril, ficou a dever a liberdade da democracia à visão e à coragem de Mário Soares. Durante quatro décadas não tive disso a menor dúvida e não a tenho agora. Pelo contrário: nas últimas semanas, maus augúrios levam-me a recear mais pobreza e mais demagogia inspiradas de cima – e a apreciar melhor ainda a barragem de bom senso e decência oposta por Soares a disparates de esquerda e de direita.

 

Mas é semana de Natal, não neva na província, esqueço estas coisas todas e lembro um poema (neorrealista?) de que gosto muito.

 

 

Natal

 

 

Foi numa cama de folhelho,

entre lençóis de estopa suja

num pardieiro velho.

Trinta horas depois a mãe pegou na enxada

e foi roçar nas bordas dos caminhos

manadas de ervas

para a ovelha triste.

E a criança ficou no pardieiro

só com o fumo negro das paredes

e o crepitar do fogo,

enroscada num cesto vindimeiro,

que não havia berço

naquela casa.

E ninguém conta a história do menino

que não teve

nem magos a adorá-lo,

nem vacas a aquecê-lo,

mas que há-de ter

muitos reis da Judeia a persegui-lo;

que não terá coroas de espinhos

mas coroas de baionetas

postas até ao fundo do seu corpo.

Ninguém há-de contar a história do menino.

Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo.

 

 

 

Álvaro Feijó

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                                                                                                                        

    


9.12.15

 

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 França, 2015

 

 

 

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De mal a pior

 

 

Os alemães hão de ser sempre alemães, os franceses franceses e os portugueses portugueses, porque não há outros. Dito isto (quanto aos portugueses, já fora dito pelo primeiro Duque de Palmela, homem avisado que nas suas memórias contou ter tido dois grandes fitos na vida: fazer de Portugal uma monarquia liberal e casar o filho primogénito com a herdeira mais rica do país), a Alemanha de Merkel é muito menos parecida com a Alemanha de Hitler do que a França de Hollande com a França de Pétain, mesmo que fotografias de Paris e Berlim em 1944 e 1945 possam sugerir o contrário (Paris libertada por De Gaulle e os aliados ocidentais, sem uma vidraça partida, com pequenas na rua a saltarem ao pescoço dos magalas; Berlim arruinada pelo exército vermelho, com as mulheres em casa cheias de medo de sair à rua, não fosse a soldadesca soviética violá-las).

 

Ou talvez por isso mesmo. Depois de expansão fulgurante no começo da guerra, triunfos nazis que alargaram o domínio do Reich e incharam o orgulho dos alemães, vieram derrotas no Norte de África e em Estalinegrado que mudaram o curso da guerra até ao suicídio de Hitler e à rendição incondicional, seguida da ocupação - zonas russa, americana, britânica e francesa -, da proibição de ter forças armadas, dos julgamentos de Nuremberga, da divisão em dois estados até ao colapso da União Soviética, da vigilância e culpabilização permanente pelos vencedores. A Alemanha foi martelada para ficar tenra, como se fazia dantes aos bifes. De tal maneira que, mesmo hoje, mais rica e poderosa que qualquer dos seus parceiros europeus (salvo - por não o querer - militarmente) é, de longe, a grande potência que melhor respeita os direitos humanos e que trata os pequenos com mais decência.

 

Na França, a história foi outra. Graças à coragem e ao génio político de De Gaulle, em 1945 figurou entre as vencedoras da guerra e não entre as vencidas, como o comportamento do regime de Pétain e da grande maioria dos franceses por ele governados teria amplamente justificado. Instalada nesse casulo (poetas e prosadores haviam dourado a Resistência) viveu décadas de fantasia, considerando-se equidistante dos Estados Unidos, a quem invejava o poder (e que De Gaulle detestava) e da Rússia Soviética por quem a esquerda francesa - a operária e a caviar – esteve longamente fascinada (Yves Montand e Simonne Signoret saíam malcriadamente de jantares se algum conviva sugerisse que o Gulag existia).

 

Desde a reunificação alemã, o conchego do casulo começou a estragar-se; a crise de 2008 deu-lhe bolada grande; refugiados e terroristas bateram mais e às 8 da noite de Domingo passado os resultados da primeira volta das eleições regionais mostraram, urbi et orbi, o descalabro a que a França chegou. O Front National, racista, xenófobo e protecionista poderá vir a ganhar 6 de 13 regiões e passou a ser o partido mais votado do país.

 

Por este andar, talvez Marine Le Pen ponha a cereja no bolo, conquistando o Eliseu em 2017.

 

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2.12.15

 

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Giovanni Francesco Rustici (ca. 1495)

 

 

 

 

 

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Civilização

 

 

 

André Malraux, escroque francês de génio que se distinguiu nas letras (L’Espoir, La Métamorphose des Dieux), na guerra contra o fascismo (Brigada Internacional em Espanha), na guerra contra o nazismo (Resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial) e na política (ministro da cultura de De Gaulle que, quando o amigo François Mauriac, prémio Nobel da literatura, lhe perguntou como conseguia aturá-lo, respondeu: “Malraux c’est mon vice”), escreveu: “Nós somos a primeira civilização consciente de ignorar o significado do homem.”

 

Era bom, era. O “nós” de Malraux referia-se a um grupo de pessoas muitíssimo mais pequeno do que aquelas que a nossa “civilização” abrange. Apesar de nas escolas actualizadas dos países mais desenvolvidos se aprender que o Big Bang, origem de nós e de tudo o resto, se deu há 13,8 biliões de anos, nada se sabendo do nada que houvesse antes, a vasta maioria da gente – sem chegar aos excessos de literalismo bíblico dos evangélicos americanos (ou, noutra variante de monoteísmo, igualmente candidata a civilização, ao literalismo corânico dos salafistas sauditas) – conforta-se com mitos de criação e redenção que – tal como água de Fátima desde que seja fervida – não fazem mal a ninguém, a não ser se, como acontece agora entre os salafistas, exijam a matança dos infiéis. (Há uns séculos também éramos assim: “E com muitas Ave Marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num credo” conta Fernão Mendes Pinto, com o desembaraço de um tempo em que não havia ONG dedicadas aos direitos do homem nem governos empenhados na salvaguarda do estado de direito).

 

No século XX os europeus (e os chineses) foram apanhados em cheio por novo mito, na aparência tão radicalmente diferente das restantes fés – também vinha curar os nossos males mas tudo se passaria neste mundo - que podia ser tomado por outra coisa. Raymond Aron chamou-lhe o ópio dos intelectuais. O estardalhaço foi enorme mas o paraíso não se instalou na Terra. Gato por lebre, dirão alguns, mas o problema é que a lebre, ou melhor, as lebres também não dão conta do recado. Ao mesmo tempo que ser marxista passou a opção privada (assim como ser vegetariano ou filatelista), fés mais antigas - duradouras por nunca terem caído na esparrela de se considerarem ciência - reapareceram no esplendor da sua intolerância. E no mundo globalizado de hoje podem chegar a toda a parte. Na Birmânia, maioria budista maltrata sem dó nem piedade minoria muçulmana. 1.300 anos de cizania sangrenta entre sunitas e xiitas levaram o mês passado à matança de Paris, inspirada, planificada e executada por salafistas.

 

A Europa, adubada pelo Iluminismo, separou a igreja do estado: não matamos nem morremos por mitos religiosos. Considerá-la fortaleza cristã é disparate nocivo. A sua força vem da tolerância. É para defesa desta contra intolerâncias (budista, sunita, xiita, calvinista, católica romana, marxista, o que for) que precisamos de nos armar até aos dentes.

 

 

 

 

 

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18.11.15

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Uma invenção recente

 

 

“A guerra é tão antiga quanto a humanidade” disse jurisconsulto inglês em meados do século passado: “A paz é uma invenção recente”. Ilustrando a razão dessa sentença deflagraram, já no século XX, as duas maiores guerras de sempre – até agora. Nós, na União Europeia, nascida como Fénix de brasidos deixados pelo fim da segunda depois da rendição incondicional da Alemanha nazi, parecíamos convencidos de que desta vez a paz era a valer e, sobretudo desde o colapso da União Soviética, achámos que não valia a pena gastar dinheiro em defesa, preferindo sacrificar esta a aumentos na saúde e noutros mimos, possíveis em tempo de paz. (Como escreveu outro inglês, Duff Cooper, ministro no governo de guerra de Churchill, autor de óptima biografia de Talleyrand e embaixador britânico em Paris em 1945 que saiu um dia abruptamente de restaurante explicando que a vida era curta demais para um mau almoço: “A ideia de que cortar nas despesas militares diminuirá os riscos de guerra é tão absurda como pensar que para reduzir o número de roubos se devam fechar as esquadras de polícia”). 

 

A inércia do bem-estar é muito forte. Em matéria de defesa - e de política externa, sem a qual não se saberia ao certo quem defenderia o quê de quem – nada parecia alarmar os nossos povos ou os nossos governos: nem Putin na Ucrânia, nem o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, nem o caos na Líbia depois de lá termos borrado a pintura. (Há alguns meses, antigos países de Leste e antigas Repúblicas bálticas da U.R.S.S., com memórias ainda vivas do bafo do urso no pescoço, conseguiram que a OTAN mostrasse os dentes lembrando que existia - sensatez milagrosa manteve a OTAN pronta a servir, agora com Secretário-Geral à altura - mas, no geral da União, não se pensava nestas coisas ou pensava-se nelas com pouco zelo). 

 

No fim da semana passada, da noite para o dia, as coisas mudaram com os ataques terroristas em Paris, comandados de Racca no Estado Islâmico do Iraque e da Síria e planeados no bairro bruxelense de Molenbeek, à esquerda de quem vá do Jardim Botânico para a Basílica, depois do canal, bairro que já pertencerá ao imaginário do Islão radical - também foram lá planeados o assassinato do comandante afegão antitaliban Massud, 2001, e os quase 200 assassinatos da gare de Atocha em Madrid, 2004 - em partes do qual a policia belga não se atreve a entrar.

 

François Hollande declarou que a França estava em guerra; Angela Merkel acrescentou que o acolhimento aos refugiados deveria continuar como antes. Por uma vez, desde há muito tempo, o eixo franco-alemão falou de cima, com razão e com coragem. Para continuar a existir a Europa precisa de absorver centenas de milhares de jovens que não tem na sua força de trabalho e precisa de saber defender-se de quem a atacar.

 

Vozes já se levantaram – também em Portugal - clamando que uso de força contra o Estado Islâmico não se deve permitir. Há gente que nunca aprende e gente que esquece o que tinha aprendido.

 

 

 


14.11.15

 

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 Une victime des terroristes à l'extérieur du Bataclan à Paris, le 13 novembre 2015.

(AP Photo/Jerome Delay)

 

 

 

 

Entre le tortionnaire et le corps qu'il déchire, la dissy­métrie est extrême. Le premier s'affirme délié de tout inter­dit. Le second doit se retrouver lié de partout. « Celui qui a, même une seule fois, exercé un pouvoir illimité sur le corps, le sang et l'âme de son semblable... celui-là devient incapable de maîtriser ses sensations. La tyrannie est une habitude douée d'extension... Le meilleur des hommes peut, grâce à l'habi­tude, s'endurcir jusqu'à devenir une bête féroce», écrit Dos­toïevski. La torture recèle in nuce, à l'état réduit et concentré, encore fruste et élémentaire, un style de rapport humain que seule la littérature russe ose scruter avec patience, avec sang-froid sous l'étiquette «nihiliste». Comme tous les articles en vogue sur le marché des biens et des idées, le mot eut tôt fait de se dévaluer. Ainsi crut-on démonétiser l'idée et exorciser cet inquiétant horizon de la modernité. Peine perdue. Dou­blement. D'une part, la réalité est têtue. Et Dostoïevski au retour de la maison des morts, Tchékhov visitant le bagne de Sakhaline, Soljénitsyne et Chalamov rescapés du goulag s'en­tendent à rappeler l'inhumanité de notre humanité. Par ailleurs, la littérature russe est obstinée et n'a de cesse qu'elle n'examine, tourne, retourne l'unique objet de sa méditation, une barbarie qu'elle a toujours refusé, depuis Pouchkine, d’ensevelir dans les lointains antérieurs des sociétés dites primitives ou des caractères taxés incultes. Et Dostoïevski d’insister: «D’où sont sortis les nihilistes ? mais de nulle part, ils ont toujours été avec nous, en nous, à nos côtés».

 

 

André Glucksmann

in Dostoïevski à Manhattan [4. Le cogito du nihiliste]  p. 125-126

© Éditions Robert Laffont,S.A., Paris 2002

 

 

 

 

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11.11.15

 

 

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 Lisboa, 2015

 

 

 

 

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O futuro?

 

 

 

A família donde se venha (pai, mãe, avôs, avós, irmãs, irmãos) prepara-nos para a vida, inclusive porque, sem a gente sequer dar por isso, tantas vezes nos leva a amar pessoas de quem nunca gostaríamos. Com países é diferente: cada um tem os vizinhos que tem e ou se gosta deles ou não se gosta: daí não se sai. Pelo sim pelo não, dantes qualquer país que se prezasse tinha o seu Ministério da Guerra. De há décadas a esta parte passou a dizer-se Ministério da Defesa. Valha-nos S. Jorge Orwell.

 

Vizinhos, vizinhos, nós portugueses só tínhamos um; daí a prudência. “De Espanha nem bom vento nem bom casamento” é prevenção tão ancestral que o tratado internacional de entreajuda mais antigo do mundo ainda em vigor foi assinado por Portugal e a Inglaterra em 1386. E também para garantir mais independência à dinastia que inaugurava, o Mestre de Avis foi buscar mulher à casa inglesa de Lancaster. Histórias de poder: veio a seguir o Tratado de Tordesilhas dividir o mundo descoberto e a descobrir entre Portugal e Espanha. Depois, já com Os Lusíadas escritos – há países para quem a epopeia é ao mesmo tempo o epitáfio, disse há quase século e meio Oliveira Martins - regras dinásticas trouxeram-nos o primeiro rei Filipe (segundo de Espanha) para, sessenta anos depois, revolta popular e fidalga nos livrar do terceiro (quarto de Espanha). São águas passadas. Neste nosso tempo em que a fatia europeia do bolo mundial continua a mirrar o único vislumbre que pessoalmente tive do que seria o “espírito de Tordesilhas” aconteceu quando, havendo eu sido escolhido para Secretário-Geral da União da Europa Ocidental em 1994, Javier Solana foi escolhido para Secretário-Geral da OTAN em 1995. Mas não éramos patrões – éramos só gerentes.

 

Entretanto, bem entendido, Espanha e Portugal tinham aderido às Comunidades Europeias. Entre ambos a corrida, por assim dizer, passara a ser com touros embolados ou, abandonando folclores, a nossa vizinhança passara a ser outra, fora da União. Essa preocupa e poderá dar maus exemplos, sobretudo agora que um toque de Terceiro Mundo parece convir às predilecções de parte do novo poder político. Já existe espalhado em Portugal, mesmo para lá da extrema esquerda, um apoio bem intencionado mas faccioso e ignorante à “luta do povo palestiniano”, condimentado por laivos frequentes de antissemitismo (o velho antissemitismo europeu, com longas raízes históricas, mudou-se no nosso tempo da direita para esquerda). Sobre esse caldo de cultura alguns poderão agora ser tentados a imitar jeitos dos que se impacientam com as delongas da democracia formal e preferem ganhar batalhas políticas e sindicais na rua. A ir deitando pela borda fora costumes de civilidade democrática estabelecidos desde o fim do Estado Novo. A parecerem dar razão, em suma, àqueles e àquelas que, de vez em quando, olhando para trás e olhando à sua roda, sombriamente se convencem de que Portugal é incapaz de criar no seu seio elites sustentáveis. É pena.

 

 

 

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10.11.15

 

 

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Que répliquer à l'hégélianisme spontané qui gouverne la une des journaux ? Comment ne pas concéder que l'histoire du monde juge tout le monde et emporte tout un chacun (Weltgeschichte ist Weltgericht)? Ma réponse est brutale, je te l'expédie sous forme d'une injonction pragmatique et sai­gnante : redevenons classiques. Pas naïvement classiques, bien sûr. Casse-cou jusqu'au bout, je n'aurai de cesse avant que tu m'entendes: revenons à Racine. Oui, résiste à l'incoer­cible désir de normalité qui pousse à s'immerger dans ce qui semble le cours des choses. Oui, prête au journal télévisé l'attention détachée, mais imprescriptible, que suscite une représentation d'Athalie ou d'Andromaque. Sur la scène, à l'écran, l'éclair du définitif risque à tout moment d'accrocher ton regard. Accrocher à quoi? La question est bonne. Garde la tête hors de l'eau, redeviens « classique », et tu ne seras jamais l'homme d'une seule époque.

 

Le classique habite deux patries, la sienne et une autre. La Florence des Médicis et la Grèce, la Rome du quintocento et celle d'Auguste. Le Siècle d'or espagnol, l'Angleterre d' Élisabeth, la France du Roi-Soleil, au choix, mais jamais sans son ombre glorieuse et antique. Les classiques cultivent le sentiment paradoxal mais banal d'une plongée dans l'histoire qui les élève et les enlève hors histoire. Ils s'autorisent de l'expérience immobilisée du temps qui passe. Ces esprits à double nationalité recherchent le temps perdu plus frénétiquement que l'existence de Dieu, quitte à reconnaître, avec Proust que, perdu pour perdu, le temps est cette recherche même, dont on ne sort que mort. Il n'y a pas de train pour Cythère, mon ami. Afin de vaincre l'angoisse des quais de gare, grignote une madeleine.

 

 

 

André Glucksmann

in Le Bien et le Mal, Lettres immorales d'Allemagne et de France

© Éditions Robert Laffont, S. A., Paris, 1997

 

 

 

 

 

 

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4.11.15

 

 

  

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 Mário Soares na manifestação da Fonte Luminosa, Lisboa 1975.

 

 

 

 

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Salvar a Pátria outra vez?

 

 

 

Talvez o Dr. Mário Soares pudesse salvar a Pátria, tal como fez durante o PREC há 40 anos. Não estamos juntos há algum tempo. Mas se nestas coisas sentir como quando me lembro dele no Verão quente de 1975 e saísse do silêncio das últimas semanas, proclamando alto e bom som que sem defesa constante da liberdade, da democracia parlamentar e da Europa não há caminho para Portugal, talvez número suficiente de dirigentes socialistas retomassem o rumo sensato e moderado do Partido - cortassem com o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda, deixassem passar no Parlamento o governo de Passos Coelho e cumprissem o seu dever patriótico de oposição parlamentar.

 

Dizem-me que tudo isto é muito improvável. Mário Soares não intervirá; mesmo que interviesse, poucos dirigentes socialistas lhe dariam ouvidos; mesmo que alguns lhos dessem, partidos políticos no poder são hoje máquinas eficazes de distribuição de serviços e influências e muitos socialistas, há 4 anos afastados da cornucópia do governo central e ávidos dela, dando por si de repente tão perto, preferem fazer vista grossa sobre o estratagema tosco que lá os fez chegar e, encorajados por desajeitamento natural e impopularidade à esquerda de Passos Coelho e Cavaco Silva, pretendem que tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos democráticos possível. É erro moral de consequências pesadas previsíveis, algumas das quais se começam já a sentir. Nestes últimos dias, duas pessoas cujas sensibilidade e visão aprecio sentiram no ar um cheiro de guerra civil; outra escreveu, lapidarmente: “A linguagem da ‘esquerda unida contra a direita’ e dos ‘pobres contra os ricos’ é um dos distintivos do ‘terceiro mundo’ e uma das causas da pobreza”.

 

‘Terceiro mundo’ para cujo estilo de vida poderemos resvalar. Enquanto, em 1974 e 1975, a União Soviética existia e, por isso, trabalhistas e conservadores britânicos, sociais-democratas e cristãos democratas alemães, decididamente contra ela, nos puseram a mão por baixo como Deus faz aos borrachos, agora, a Europa, haja ou não de nos mandar troika e nos pôr de castigo, tem muito mais e pior com que se preocupar. Além disso, quem possa trazer dinheiro fresco de fora, sem o qual não sairemos do buraco, olhará para a estabilidade do regime e, se esta não o satisfizer, irá bater a outra porta aberta. Em regabofe pré-governativo, socialistas, comunistas e bloquistas não parecem ter-se dado conta disso. Nem, os dois últimos, de implicação perversa: vão mandar às urtigas convicções temperadas pelos anos para apoiar governo que agirá contra elas?

 

Continuo a pensar que a austeridade não é maneira boa de tratar da crise financeira. Mas os governos da zona euro e as instituições europeias, incluindo o Banco Central, entendem que sim. Passos Coelho fez bem o que pôde, ao fim de 4 anos ganhou os votos e estávamos a começar a viver com menos aperto. A manobra para o deitar abaixo, imprópria de pessoas de bem, vai demorar a saída da crise.

 

 

 

 

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21.10.15

 

 

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Sala de Actos do Colégio do Espírito Santo, Évora

 

 

 

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Aldeia da roupa branca

 

 

 

Amiga do coração, voltando de sessão solene universitária, passada algures em sala bonita na província deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio – assim escreveria o meu chorado A.B. Kotter, da Várzea de Colares - saíra dela tão bem impressionada que me disse “[H]oje senti-me muito feliz e orgulhosa de Portugal”.

 

Conto isto aqui à leitora metendo A.B. Kotter pelo meio porque há muitas maneiras de se ser do país de onde se é e há também diferenças marcadas de país para país. Num dos Diários do Marcello Mathias, não me lembro qual deles e é de memória que arrisco, Marcello está de visita a uma catedral inglesa (Salisbury?) quando o espaço da igreja e inscrições várias nas suas paredes, algumas sobre mortos pela Pátria em guerras contra estrangeiros, o levam de repente a perceber que ser inglês is a full time job.

 

Ser português nem sempre parece tal. Nós somos menos intensos; dá-nos a coisa nalguns dias, noutros não tanto. Por exemplo, na derrocada de honra e de bom senso que, desde a noite do passado dia 4, no rescaldo das eleições legislativas, alguns insistem em nos apresentar como construção do futuro – de um futuro cheio de amanhãs que cantam – é só em oásis de tempo ou de espaço que muita gente portuguesa se poderá agora sentir bem com Portugal.

 

O avesso – como na roupa – da apregoada brandura dos nossos costumes, refractária a guerras civis, revoluções e motins por tudo e por nada, que, sem alarde ou vanglória, cometeu o maior feito histórico do país desde 25 de Abril de 1974 – a absorção pacífica de centenas de milhares de retornados de África, muitos dos quais nunca cá tinham posto pé - revela-se no bom modo com que o país sustentou quatro anos de austeridade sem tugir nem mugir. É o reverso da medalha.

 

Ora longos períodos de apatia cívica definham a fibra do respeito por si próprio, da mesma maneira que, mutatis mutandis, longos períodos de imobilidade física vão definhando as fibras do tecido muscular e chegam, por vezes, a fazer desaparecer os músculos. Assim enfraquecida, incapaz de perceber bem quem é, atordoada pelo rumor da vida a dar socos na porta cada vez mais ensurdecedor de há século e meio para cá, desde que telégrafo, e depois telefone, telefonia, televisão, internet, redes sociais e o mais que virá, se verá, ouvirá e sentirá, mudaram de alto abaixo a nossa residência na Terra – nos foram dilacerando da tribo sem nos armar em cidadãos do mundo – a gente tenta agarrar-se à aldeia, enterrar a cabeça como as avestruzes. Na aldeia de cada um às vezes tudo parece possível: o novo primeiro ministro do Canadá vai deixar de bombardear o Estado Islâmico; os trabalhistas britânicos escolheram Corbyn para chefe; em Portugal uma suposta ‘esquerda unida’, apesar de diferenças de crença que tornam tal união impossível, entende que o povo a quer para governo, apesar dos resultados do voto de 4 de Outubro não indicarem isso de todo. Terá a nossa aldeia perdido a vergonha?

 

 

 

 

 


14.10.15

 

 

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 O Rei Jorge V de Inglaterra e um mendigo no Derby

 

 

 

 

 

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Broncalina do camandro?

 

 

 

“De resto, cá vamos andando – agora observando este impasse da política portuguesa, com um misto de incredulidade e apreensão. Vamos lá ver como é que o António Costa faz o seu jogo – francamente não gostava de estar no lugar dele. A Social-Democracia está numa situação impossível um pouco por todo lado, não é? Como diria o seu amigo designer de quem fez o obituário há uns meses, é uma broncalina do camandro…” desabafou correspondente lisboeta, em e-mail sobre outro assunto.

 

Está, sim senhor – desde o fim da União Soviética, embora nem toda a gente tenha dado por isso. Os regimes comunistas foram logo ao ar (tirando a Coreia do Norte e Cuba) mas quase só Tony Blair percebeu que a social-democracia também estava condenada. Ela existira como mal menor – os dirigentes sindicais vendiam metade da alma ao Diabo para serem aceites pelo patronato mas a outra metade chegava para lhes dar credibilidade junto dos seus e toda gente vivia em paz e sossego na prosperidade ocidental – mas, com o mal maior extinto, o mal menor deixou de ter razão de ser. Blair, Brown (e Mendelson, a cabeça pensante do partido) adoptaram a “terceira via” (a arte de cortar pensões a velhinhas com boa consciência, chamava-lhe um cínico); não tivesse havido a desastrosa guerra do Iraque talvez ainda hoje governassem o Reino Unido. De resto sociais-democratas só se aguentam na Alemanha como parceiros menores, em coligação com Merkel e, na Suécia, depois de quase meio século de poder, desapareceram há anos do governo.

 

A partir da “terceira via”, terá de se inventar melhor senão está o caldo entornado, porque as desigualdades económicas hoje são excessivas. Os ricos estão cada vez mais ricos: nos Estados Unidos, por exemplo, enquanto os rendimentos de operários estagnaram ou diminuíram, entre 1978 e 2012 o pagamento dos CEO das grandes companhias aumentou 876%! Como Marx lembrou, alterações quantitativas acabam por levar a alterações qualitativas e se a tendência continuar não é preciso perspicácia de Papa ou de trotskista para prever balbúrdia.

 

O desabafo do meu amigo lisboeta também se preocupa com o jogo que fará o Secretário-Geral do Partido Socialista português. Para isso, 1974 devia ser exemplo. A URSS era forte, os amanhãs que cantam pareciam evidentes a muitos, havia no PS muita gente à esquerda de Mário Soares e o marxista-leninista Manuel Serra disputou-lhe o lugar. Acordados com Soares, alguns militantes (entre eles Victor Cunha Rego, Vasco Pulido Valente) apresentaram moção social-democrata, colocando ao centro Soares que derrotou Serra e manteve rumo sensato, decente e patriótico, ganhando eleições em 1975 e 1976 e, de caminho, salvando o país. Bem para lá do talento táctico o que deu força a Soares foi a sua crença inabalável na democracia parlamentar e na Europa (a cuja porta bateu logo que primeiro-ministro). Quem tiver crença menos forte quer numa quer noutra, se alcançar por fim poder político fará muito mal a Portugal.

 

 

 

 

 

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7.10.15

 

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Não há de ser nada…

 

 

 

Melhor: talvez até possa ser tudo. A crise da imigração, encarada ao gosto de cada um, de Helsínquia a Bucareste, de Londres a Paris, pelos políticos mais demagógicos das nossas praças – a Hungria que arrancara arame farpado cortante da sua fronteira para pessoas poderem fugir dela para o Ocidente em 1989, repô-lo agora para impedir outras pessoas de entrarem nela a caminho da Alemanha, que as quer acolher – estimula políticos que agitam espantalhos julgados de efeito seguro junto de eleitores assustados. A Europa é cristã, dizem eles, a mourama está à porta e, se a deixarmos entrar, o Estado Islâmico vai, pelo menos, encher isto tudo de terroristas, ou talvez até tomar conta do governo de um ou outro dos nossos países (como o escritor francês Michel Houllebecq imaginou para a França num romance de ficção histórica de sucesso). No Médio Oriente há quem sonhe com tais triunfos: em 1992 o Chico Quevedo, nosso embaixador em Ancara, viu numa manifestação de apoio aos muçulmanos dos Balcãs cartaz que rezava: “Não deixaremos que a Bósnia se transforme numa segunda Andaluzia”.

 

Mas o sonho não passa disso, do sonho de escassos entusiastas, e a ideia de que se poderão ressuscitar guerras religiosas na Europa - espantalho plantado por muitos desses demagogos - é profundamente disparatada. O que caracteriza a Europa – a União Europeia e os seus Estados Membros – não é ser cristã, embora o tenha sido durante séculos, a sua cultura esteja impregnada de cristianismo e parte considerável dos seus habitantes pertençam a igrejas cristãs: católicas, ortodoxas, protestantes. O que caracteriza a Europa é ninguém nela poder ser preso ou perseguido em justiça devido às suas crenças ou práticas religiosas. A separação entre estado e igreja é radical – mesmo quando haja uma igreja oficial e o chefe do estado seja também o chefe dessa igreja como acontece em Inglaterra (conhecida, além disso, por ser considerada o berço da democracia e nos ter dado a Magna Carta). Quem poderá ter problemas aqui não serão os europeus mas alguns dos recém vindos do Islão que abracem variedades deste intolerantes de outras crenças: esses, se não se adaptarem, terão de se ir embora. Guerras religiosas já as corremos do nosso seio há muito tempo.

 

Quanto à questão de fundo: os imigrantes precisam da Europa e a Europa precisa dos imigrantes. Para manter o equilíbrio de hoje entre população activa e o resto, a Alemanha necessita 500.000 migrantes por ano até 2050. Há demografias menos atrapalhadas mas, com diferenças de grau, o problema é de todos. Cabe aos políticos encaminharem as coisas de maneiras que nos convenham e, guiando-me pelo passado, julgo que tal acontecerá. Por duas razões: 1 Na Europa, quando as coisas vão bater no fundo aparecem chefes à altura (Churchill; De Gaulle; Soares em 1975). 2 Desde o começo, a construção europeia progrediu de zaragata em zaragata - e a crise da imigração vai obrigá-la a dimensão política que lhe tem faltado.

 

 

 

 

 

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3.10.15

 

 

 

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   Garrett - Columbano (detalhe)

 

 

 

 

 

 

Carta de Almeida Garrett ao político e amigo Rodrigo da Fonseca Magalhães

 

"Pensa", escreve Garrett em 1846 ou 1847 ao seu amigo, nesta carta inédita que pertence à Biblioteca Nacional. "E se julgares que podemos com um acordo perfeito, íntimo, mas secreto, fazer algum bem a esta pobre terra, avisa das horas mais convenientes de te ver." Estava-se em plena Guerra da Patuleia, que dividiu o país entre liberalistas e miguelistas, e Garrett oferece-se para ajudar. O "acordo", se existiu, manteve-se mesmo secreto. Não se sabe qual foi — se algum — o envolvimento de Garrett nos bastidores.

 

 

5a feira

 

[...]

Meu Rodrigo, aproveito esta ocasião para te pedir que estejas bem em guarda para te não deixares comprometer com certos sujeitos que nós sabemos. Olha que eles nada te podem dar, e se te pudes­sem dar alguma coisa, não ta davam. Se se chegam para ti é porque sabem que nada têm, e fazem de vampiros para vi­ver do teu sangue. E depois uma de duas, ou te hás-de desfazer deles, e chamam-te traidor, ou os aturas e alienas de ti os verdadeiros valores. No meio destas ruínas em que está Portugal tu podes ter uma bela missão.

 

Isto é como o terramoto de 55: nós não o fizemos, tu não o fizeste. E o que se incarregar de levantar a cidade caída não é responsável pelo que a deitou abaixo. Esta opinião e modo de ver não é meu, é de muita gente, e pode­remos fazê-lo ser do maior número se se for com tento e firmeza.

 

Tu bem sabes que eu não cos­tumo oferecer-me para nada; mas também sabes que sou amigo verdadeiro e eficaz quando a consciência da razão e da alma se juntam às minhas simpatias pessoais. Eu digo a todos que não sou de políticas, e que abdiquei, mas a ti digo-te que escolhi de propósito e de longamão esta posição insuspeita porque vi do princípio que por bastante tempo outra era impossível com proveito público. Creio que me não inganei. Assim vejo todos, e com todos falo em negócios que de outro modo não são tratáveis.

 

Se vires que podemos falar sério e com proveito nestas coisas, e que convém, dize e  falaremos. Os patuleus estão com mais senso do que os eu supunha.

 

Se se tenta alguma coisa, é preciso tentá-lo já, isto é, prepará-lo; e parece-me a mim que posso ajudar-te nal­guma coisa, especialmente porque cuidam que o não pretendo.

 

Ora eu realmente para mim aqui nada quero.

 

Adeus. Pensa, e se julgares que podemos com um acordo perfeito, íntimo, mas secre­to, fazer algum bem a esta pobre terra, avisa das horas mais convenientes de te ver. E tu bem deves saber que eu não sou poeta em prosa, e que todos valem mais que eu, menos em lealdade e certeza que ninguém mais que eu vale. Teu dedicado amigo

 

JBAG

 

 

*

 

 

A 4 de Março de 1852, ao apresentar o texto do primeiro Acto Adicional à Carta Constitucional, por si redigido, Almeida Garrett proferiu o último discurso na Câmara dos Deputados. Este é um verdadeiro testamento político (a que deve juntar-se a alocução, também derradeira, na Câmara dos Pares, em 10 de Fevereiro de 1854), e nele se inclui este enigma de decifração de profundas convicções:

 

Eu também já perdi as minhas ilusões; também já não creio na maior parte das cousas em que acreditava; mas há uma única crença, é a crença na minha Pátria é na liberdade dela [...]. Mas quando a per­desse, sumia-a no fundo de minha alma para que ma não suspeitasse a Nação Portuguesa.

 

Das bancadas parlamentares que o aplaudiram (no registo dos taquígrafos, emotiva e efusivamen­te o fizeram), não podem contar-se aqueles que terão penetrado o sentido dissimulador, tão do agrado do escritor, que essas palavras contêm.

 

Ora, descrente das soluções e dos oportunismos que enchem páginas na história do nosso liberalis­mo, Garrett aprendeu a dissimular as mais fundas crenças, cobrindo-as sob um manto (ou jogo) irónico de "ilusões" e "crenças" com que manteve incólume uma postura de independência dos partidos e inte­resses particulares de então. Daí a fórmula, que não deixa de ser perturbadora e que podemos traduzir deste outro modo: se hoje deixei de pensar o que ontem posso ter pensado, não afirmo nem desminto tanto o que ontem posso ter pensado como, hoje, o ter deixado de pensá-lo.

 

Fórmula especiosa... e perturbadora! Afinal de contas, fórmula geral de uma "intimidade cons­trangida", que, com o tempo (sobretudo, por força de um tempo histórico vivido), aprendeu a escamo­tear em público as convicções mais íntimas, sem as apagar de todo. Mas quais terão sido estas?

 

Creio que, de um juvenil ponto de partida repu­blicano (de que o federalismo norte-americano foi "a pedra filosofal" dos sistemas políticos) e jacobino (de que as revoluções servem para "colocar os homens no seu lugar"), permaneceu uma dissimulada posição de defesa do que, no primeiro liberalis­mo português, podemos considerar os difusos interesses populares.

 

E, de forma irruptiva e mais ou menos velada, conforme as circunstâncias — nessa "posição in­suspeita" de quem já vira "que por bastante tempo outra era impossível com proveito público" (ver carta inédita junto) — , Garrett surgiu nos picos de maior radicalidade ao lado do partido popular e contra o oportunismo das facções.

 

No geral, manteve o princípio de conservação das liberdades e de estabilidade política que se não confunde com conservadorismo e não pode esconder as crenças subtilmente veladas pelas "endiabradas políticas" que "tudo absorve[ra]m" no nosso longo século XIX.

 

 

 

 

Luís Augusto Costa Dias

in Jornal Público, Caderno "150 anos da morte de Almeida Garrett ", 9 de Dezembro 2004

 

 


 

 

 

* Imagem: Óleo sobre tela de Columbano Bordalo Pinheiro concluido em 1926 [pormenor] . Passos Perdidos, Assembleia da República, Lisboa

 

 

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30.9.15

 

 

 

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Retornados

foto de Rui Ochôa

 

 

 

 

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O fim ou o começo?

 

 

 

Valha-nos o Papa Francisco com manto de bondade universal que não tinha ombros a sustentá-lo desde a morte de Nelson Mandela. Muito de vez em quando, há homens e mulheres assim, Estrelas do Norte que levam tempo a iluminar – Principal dos jesuítas na Argentina dos Generais; comunista a britar pedra na Africa do Sul do Apartheid – mas que, depois de firmada a luz, nada e ninguém apaga.

 

Bem precisamos deles agora. Não só por causa do detestável Victor Orban e demagogos quejandos, vindos do lado de lá da Cortina de Ferro, deitada a baixo há 26 anos mas cujo mal levará muito mais tempo a desfazer do que se imaginou: gerações em que filhos desconfiaram de pais, pais desconfiaram de filhos, vizinhos de vizinhos, polícia dos outros cidadãos e os outros cidadãos da polícia, fizeram sumir a confiança e, como dizia a cantiga: sem confiança, não pode haver felicidade. Mas também por causa de demagogos do lado de cá, sobretudo em França que se arrisca a eleger Marine Le Pen presidente da república daqui a dois anos. Muitos franceses e amigos da França, criados nos mitos de “la Republique” e da resistência antinazi, acham impossível mas receio que se enganem. Não se deram conta de que a França de François Hollande é muito mais parecida com a França do Marechal Pétain do que a Alemanha de Angela Merkel é parecida com a Alemanha de Adolf Hitler, Volkswagen e tudo. Na União Europeia, a Alemanha é hoje o bastião mais sólido contra tentações ditatoriais e tentativas de abuso dos direitos civis e políticos das pessoas. (A virtuosos profissionais como os suecos e, em certa medida, os ingleses, falta o travão brutal e salutar que a memória histórica faz disparar nos alemães sempre que poem o pé em ramo verde).

 

A Europa Comunitária, inventada a seguir à guerra de 39-45 por Jean Monet & Cia., na esteira de muitos visionários, não herdou tradições de Império. Pelo contrário: entalada entre o Comintern e o excepcionalismo americano tentou desfazer-se das que alguns estados membros albergavam. Defendida do papão Estaline pelo arsenal militar americano e adubada por dólares do Plano Marshall, cresceu até ser União Europeia, espécie de gigantesca ONG que, entre nostalgia, culpa, cobardia e inveja, não encontrou ainda o seu lugar no mundo.

 

A catadupa de refugiados de hoje poderia acordá-la dessa espécie de sonambulismo mas, em quase todos os nossos países, políticos e comentadores ponderam as boas razões de Orban - disfarçadas de neofascismo, explicam, por ele querer, democraticamente, agradar aos eleitores - e escandalizam-se com excessos do Bem, esquecidos de que o Bem é sempre escandaloso. Assim não iremos lá.

 

Os factos são simples: a Europa precisa de imigrantes como de pão para a boca, e eles querem vir. Para os aproveitar os europeus têm de se organizar e coordenar. Parece evidente mas não o é e o tempo foge. Se nos enlearmos no medo dos mouros dos demagogos, o futuro ir-nos-á apanhando cada vez mais enfraquecidos e divididos.

 

 

 

 

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23.9.15

 

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 Doctor Faustus

 

 

 

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De mal a pior

 

 

“Não compre um Junker, que já são feitos cá! Compre um Vaillant”, disse o homem dos electrodomésticos na Lapa há 30 anos porque a fé lisboeta no Made in Germany era inabalável, apesar de duas guerras mundiais perdidas por Berlim, na primeira com Portugal inimigo, na segunda com Portugal neutro – embora, estando a sorte da guerra a virar depois das derrotas alemãs no areal de El-Alamein e na estepe de Estalinegrado, o Dr. Salazar tivesse acedido a deixar instalar a base aérea das Lajes na Ilha Terceira dos Açores por ingleses e americanos. Mesmo assim, sua administração viria a receber com compunção a rendição internacional dos nazis aos aliados. No Palácio das Necessidades, o Secretário-Geral, quando o embaixador alemão se veio despedir, em lugar de, como fizera sempre que por ele fora visitado, vir com ele à porta do gabinete, acompanhou-o pelo corredor até ao cimo da escadaria.

 

Como toda a gente sabe – de médico, de louco e de comentador político todos temos um pouco (vem à ideia André Gide, nos anos vinte, assarapantado com o que via à sua volta, a dizer que em Paris as coisa tinham chegado ao ponto de haver mais artistas do que obras de arte) - durante o século XX, a Alemanha foi o Sempre-em-Pé da Europa. A narrativa –como dizem agora - corre assim. Os alemães quiseram mandar em nós pela força duas vezes, a primeira em 1914 e a segunda em 1939; das duas acabaram por levar no coco depois de tropelias criminosas, inéditas na Europa. As mais conhecidas aconteceram durante a segunda guerra mundial, tendo destaque incomparável com tudo o resto a tentativa de exterminação dos judeus – Holocausto, Shoa, os nomes são vários mas a atrocidade é a mesma – radicada em teorias criminosas e dementes, abraçadas por Hitler e seus sequazes, (mas calando fundo também em almas não-germânicas, sobretudo na Europa de Leste: por exemplo, algumas das matanças mais cruentas foram levadas a cabo na Letónia e na Roménia). Mas a primeira, aquela a que se chamava a Grande Guerra, teve também a sua quota de barbaridades logo desde o princípio: a destruição e incêndio da preciosa biblioteca da Universidade de Louvain, na Bélgica, pelos invasores alemães que nos primeiros dias da guerra se assustaram sem ninguém os ter provocado, deu o tom a muito do que se seguiu. A narrativa costuma além disso lembrar que a Paz de Versailles exagerou no castigo e tornou os alemães mais belicosos. E conta também que, depois de 1945, a Alemanha aprendera a lição e a pouco-e-pouco, sempre a bem, se fora transformando na maior potência europeia. Estava quase desculpada do passado mas a crise grega começara a empurrá-la para a mó (moral) debaixo quando, de surpresa, Angela Merkel abriu as portas aos refugiados. O Bem, afinal, sempre era alemão.

 

E agora o escândalo Volkswagen, o Carro do Povo, Das Auto que, com crime gigantesco e metódico, põe vidas em risco, ludibria administrações e retira autoridade às pregações morais de Berlim. Sempre-em-Pé ou Sísifo?

 

 

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