20.12.12

 

 

 Timor, anos 20 do séc. XX?

 


Jesus mouris iha manu kokoreek!  Jesus nasceu ao cantar do galo!

A luz do petróleo incendiava a casa de estrelas. E íamos, toda a gente, a família e os que viviam connosco em família, festejar o nascimento de Jesus que o galo anunciara.[…] Recebíamos presentes trazidos do bazar e que tinham entrado em casa às escondidas. Não eram bem brinquedos, mas coisas que nos enfeitavam — tecidos bonitos, alfinetes de ouro, chinelas bordadas...

A Princesa minha mãe morreu, era menina ainda. Mas o Natal ficou nos meus olhos e na minha alma como afirmação de que Jesus passeara por toda a ilha de Timor tal como o fizera desde Belém a Jerusalém.

 

*

 

Na linha de cultos lunissolares, que imprimiu e imprime sinais e marcas indeléveis na alma dos Timorenses, a consubstanciação de Maromak como ente supremo, Deus, não representava qualquer oferta de paz ou de alívio. Pelo contrário o conhecimento, a consciência de Maromak impunha receio e inquietação. […] Carregado de superstições, crente da existência de espíritos vagueando, dominado pela vontade e atitudes de bruxos e feiticeiros, responsabilizado pelos oráculos ou sacerdotes, o Timorense não pôde despir-se de todas as suas vestes ancestrais para com simplicidade tornar-se cristão. Isso explica em grande parte que ainda hoje se prenda tanto à terra e considere os objectos mais variados e lugares, montes, rios, árvores e casas como tabus ou luliks. De facto, entre o Homem e a Terra, e entre o presente e o passado há tão intimas e tão vivas alianças que dir-se-ia ser fácil fazer reviver todas as gerações do passado. De crenças totemísticas, há também animais luliks ou tabus, o que explica a atitude suave de todo o timorense para com os animais. Deve assinalar-se, para melhor acentuar a importância dos luliks na vida dos autóctones de Timor, que tabu significa exactamente uma prática supersticiosa da Oceânia que dá carácter sagrado a determinado ser ou a determinada coisa, proibindo o contacto com ele ou o seu uso. [...] O Cristianismo só o entendem na medida em que lhes garante o caminho para encontrar a Deus, mas querem, na busca, ter presente o melhor e mais subtil do seu passado. Por isso os uma-luliks ou templos permanecem na sua beleza estranha e misteriosa encastoados na paisagem grandiosa da ilha e cultuados pelos que têm os pés mergulhados no húmus mais fundo e mais rico daquele chão. Muitas das cerimónias dos uma-luliks, as de maior relevo, conduzem os crentes a um tal estado de histerismo que findam em incontroláveis orgias. As famílias autóctones cristãs já se despegaram dessas orgias, porque receberam a suavidade da Presença de Jesus e a magnitude da Sua mensagem. [...] Como no tempo em que eu era pequeno e a Princesa minha mãe menina, os autóctones cristãos dessa ilha suave e viril, fruto de uma inexplicável simbiose de beleza e força, cultuarão o Menino Jesus na noite de Natal. E tal como eu, também os meninos de agora ouvirão das bocas de suas mães as palavras de anúncio do Anjo Gabriel:

Ave Maria, graça barak liu iha Ita-Boot; Maromak ho Ita-Boot; Ita-Boot di'ak liu feto hotu-hotu; Ita-boot nia Oan, Jesus, di’ak liu.

Santa Maria, Maromak nia Inan, haro-han ba Na'i Maromak tan ba ami-ata salan, oras ne'e ho oras ne'ebé ami-ata becik atu mate. Amen.

 

 

Fernando Sylvan aqui

Excertos de “Iha Kalan Boot – Jesus Mouris –  Iha Manu Kokoreek” 

Foto (data desconhecida) e texto publicados em Panorama Revista de Arte e Turismo nº 24-III Série-Dezembro de 1961 - Edição do SNI, Lisboa

 


 

 

 



26.9.12

 




Sintra (Portugal) 1938:

Seated are T. S. Eliot and Guilherme Pereira de Carvalho, editor of «Lisbon-Courier». — Middle row (from the left): Robert de Traz, Jacques de Lacretelle, Mme de Lacretelle, Mme. A Ferro [Fernanda de Castro], António Ferro — Upper row (from the left): Máximo Buontempelli, Aldo Bizarri, J. Silva Dias.

 


In 1938 T.S. Eliot came to Portugal at the invitation of the Secretariado de Propa­ganda Nacional and took part in the jury which awarded the Camoes prize to Gonzague de Reynold. In June 1943 — in the middle of World War II — Eliot sent the editor of the Portuguese magazine «Aventura» Ruy Cinatti a letter: 

 

 

I am convinced (I may say in explanation) that the ultimate unity of Europe cannot come through identity of political organization, or a legal-political federation, or a vague brotherly love, or an identity of interest among the masses of the people, but from the unity of the Christian Faith, and the unity in diversity of civili­zation and cultures which Christianity brought about in the past.

And for the latter, I believe that the literary periodicals of the highest standards in each European capital have a responsibility, not only to their readers at home, but to each other.

For a few years it seemed as if my hopes might approximate as nearly to realization as human hopes can; and there were half a dozen literary periodicals, some now extinct, some, alas! the same only in name, which could, in time, have done a great deal in spontaneous co-operation (1).

We know what happened; and we saw political divergences, which in part represented a normal reaction against the nineteenth century illusion that there must be one ideal form of government equally suitable for every nation, encroach upon the field of culture, until political variety became cultural disunion. In a situation in which the chief cultural effort of each country is to protect itself against the culture of others, such interchange as my review The Criterion and the other reviews I have in mind required, became impossible.

Those of us who were engaged in that attempt during the twenty years between the wars, may have resigned our personal hopes, but have not, I am sure, abandoned our aspirations. We trust that Europe will not follow the same course again; and we look for another literary generation to realize our frustrated ambitions.

 

 

in "Lisbon Courier"  nº 33, Dezembro 1948


Notes:


1. The Managing Editor of «Lisbon-Courier» [Dr. M. W. Clauss] had met T. S. Eliot in 1928 in London, in his former capacity as Managing Editor of the «Europaeische Revue». Until 1932 this monthly revue, published in German in Vienna, Leipzig, and Ber­lin by Austrian Prince Charles Antoine de Rohan, established a close cooperation and exchange of articles with the «Nouvelle Revue Française» (Paris), «Nuova Antologia» (Rome), Ortega's «Revista del Occidente» (Madrid) and, last but not least, Eliot's «New Criterion».

 

2.«Lisbon-Courier» published this photo and text in 1948 to mark the award of the Nobel Prize for Literature to T.S. Eliot.

 

3. T.S. Eliot and the other members of the jury of Camoes Prize-1938 here





 

 


Ruy Cinatti aqui



24.6.12

 

 

 

 Oita, Japão

 

 

 

Luís de Almeida foi o primeiro português a chegar a Nagasaki, em 1567. Introduziu no Japão a Medicina e a Cirurgia europeias. Não foi, contudo, o primeiro europeu a fazer de médico no Japão. Fernão Mendes Pinto estivera em Bungo em 1543. Ao verificar que o acesso à medicina chinesa era difícil e caro e que qualquer novidade na área dos cuidados médicos se podia tornar bem-vinda, exerceu medicina e praticou cirurgia, sem ter aprendido nem uma coisa nem outra. Na opinião do próprio, teve um sucesso assinalável.

Almeida não fez mais porque, segundo C.R. Boxer, a medicina europeia daquela época tinha pouco para ensinar. Ainda assim, o jesuíta português introduziu no Japão o moderno conceito de Hospital.

O êxito fulgurante da introdução do cristianismo no Japão, levado a cabo por um punhado de missionários da Companhia de Jesus, surpreende quem lê a História desse tempo. Foi, contudo, sol de pouca dura.

 

 

texto integral aqui

 

 

 esta e outras fotografias aqui

 

 

Barbarian medicine in feudal Japan aqui

 

 

Luís de Almeida, Santo Popular japonês aqui 

 


17.6.12

 

 

 

Whose Sleeves? (Tagasode)

Japan, late 16th century


 

 

Joao Rodrigues was born about 1562 at Sernancelhe in northern Portugal and sailed to the East while still a boy of twelve or thirteen years of age. He entered the Jesuit Order in Japan and obtained such a proficiency in Japanese that he acted as Valignano’s interpreter at the audience granted by Hideyoshi in 1591. From that date onwards he made frequent visits to court, acting as spokesman for the Jesuit missionaries and interpreter for the delegations of Portuguese merchants. After Hideyoshi’s death in 1598, Tokugawa Ieyasu continued to favor him and even appointed him as his commercial agent in Nagasaki. Jealousy and resentment on the part of local officials resulted in his exile to Macao in 1610 after living in Japan for thirty-three years, during which time he met many of the leading political and artistic figures of the day. [...]

In addition to his business activities in Japan he found time to publish at Nagasaki in 1608 the Arte da Lingoa de Iapam, a truly monumental work, for it was the first systematic grammar of the Japanese language. Not only does he describe the spoken and written language in exhaustive and possibly excessive detail, but he includes for good measure fascinating accounts of Japanese poetry, letter writing, and history.[...] It is in his account of Japanese art that he displays his outstanding talent, and his description of the tea ceremony, flower arrangement, painting, lacquerwork and calligraphy is unrivaled in contemporary European reports. His appreciation of the Japanese artistic temperament is remarkable, and he accurately and sympathetically portrays the elusive feeling of sabi, the transcendental loneliness of the homo viator in this fleeting world of dew, and the sentiment of wabi, the spirit of disciplined and aesthetic frugality in art and life.
 [...] Writing about the spirit of the tea ceremony, Rodrigues observes:

 

Hence they have come to detest any kind of contrivance and elegance, any pretense, hypocrisy and outward embellishment, which they call keihaku in their language…
Instead, their ideal is to promise little but accomplish much; always to use moderation in everything; finally, to desire to err by default rather than by excess…The more precious the utensils are in themselves and the less they show it, the more suitable they are.


It would be difficult to improve on this summary description of the traditional Japanese canon of taste. Written today by a Westerner, the passage would indicate a commendable understanding and appreciation of an essentially alien culture; to have been written three and a half centuries ago reveals Joao Rodrigues as a unique interpreter not only of the language but also of the artistic genius of the Japanese people.

 

Michael Cooper

in The Southern Barbarians
, The First Europeans in Japan

[Japan Described: The reports of the Europeans]

M. Cooper, A. Ebisawa, F.G. Gutierrez, Diego Pacheco 


Edited by Michael Cooper

Kodansha Ltd, Japan and Palo Alto, Calif.U.S.A. in cooperation with Sophia University, Tokyo, 1971.

 

 

aqui

 

 

 

Notas:


Imagem: Whose Sleeves? (Tagasode) aqui

Texto citado aqui

Azuchi–Momoyama Period aqui 

 

 

Prémio Rodrigues, o Intérprete aqui

 

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6.4.12

 

 


 

 

Gerhard Richter

Cloud (1976)

 aqui

 

 


Évangile selon saint Marc

Mc 5, 33-37

 

A la sixième heure, l'obscurité se fit sur toute la terre, jusqu'à la neuvième heure. Et, à la neuvième heure, Jésus poussa un grand cri : « Eloï, Eloï, Lamma sabacthani? » Ce qui veut dire : « Mon Dieu, mon Dieu, pour­quoi m'as-tu abandonné? » Certains de ceux qui étaient là dirent, en l'entendant : «Tiens, il appelle Élie.» Quelqu'un courut imbiber une éponge de vinaigre et, l'ayant mise au bout d'un roseau, lui donna à boire en disant : «Attendez, voyons si Élie va venir pour le descendre à terre ! »

Mais Jésus, ayant jeté un grand cri, expira.

 

 

[...]


G.S. : Après cet appel sans réponse de Dieu qui n'éveille que moquerie ou pitié des hommes, Jésus gémit sa soif comme un homme, comme un être de besoins qu'il était...

 

 

F.D. : Mais c'est à ce moment-là qu'il se montre autre, et venu d'ailleurs: ce moribond pousse alors, dans un dernier effort, au son d'un grand cri, le souffle venu d'ail­leurs. Par ce souffle il a respiré, il a vécu, il a parlé, par ce souffle rendu il quitte ce passage dans la chair.

Ce long cri du Christ abandonné des hommes, aban­donné de Dieu son Père, ce cri qui appelle, sans réponse audible, ce cri n'est-il pas le modèle des mots d'amour, d'amour et de désir, aux limites de l'articulé et du son?

C'est par le cri que le nouveau-né en appelle à sa mère pour s'y blottir, se calmer, apaiser sa soif et sa faim.

C'est par le cri que tout enfant en appelle à son père pour être protégé des méchants.

C'est par le cri que tout humain fait appel pour préserver son droit à l'intégrité quand une part de son corps, trahie par la douleur, se dérobe à la cohésion de l'ensemble et se disloque. Ce cri alors en appelle au secours d'un autre, à son aide.

Cri du besoin, cri du désir, cri de l'amour trahi, cri d'un fils d'homme, cri de tous les hommes. En son cri, ils peuvent tous se reconnaître.

Ce cri, entendu par tous les témoins, ce cri étrange, mystérieux, insolite et inépuisable, n'est-il pas le mes­sage où déchiffrer la résurrection assumée de la chair, audible en ses prémisses, là, au moment de sa mort en croix, par Jésus de Nazareth?

Ce cri de Jésus exposé entre terre et ciel s'est répandu dans l'espace. Il résonne toujours.

 

 

Francoise Dolto e Gérard Sévérin

in L'Évangile au risque de la psychanalyse (Au pied de la Croix , Tome I )

Éditions du Seuil

© Éditions Universitaires, S.A., 1977, J.-P. Delarge, éditeur



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20.12.11

 

 

 

 
© Inês Gonçalves

 

 

 


in Sabor de Goa

© Maria Fernanda Noronha da Costa e Sousa, Inês Gonçalves

© Assírio & Alvim 2004

esgotado mas disponível para consulta aqui

 

 

Mais fotografias de Inês Gonçalves na Galeria Pente 10 aqui


 
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18.12.11

 

 

 

 

 

A Virgem e o Menino

Ângelo da Fonseca (1902-1967)

 

 

 

Também em Goa, pobres e ricos, muito portuguêsmente, fazem presépio. Certas famílias, com alguma antecipação, semeiam nachiniru, cereal que grela rapidamente, em terra espalhada sobre uma pequena tábua. Quando as folhinhas começam a aparecer, formam um tapete verde sobre o qual é armado o presépio de palha.

 

*

 

Os preparativos iniciam-se com grande antecedência, principalmente com a confecção de certos doces típicos, que não faltam em nenhuma mesa, como os mandarês, hóstias grandes feitas de abóbora, secas ao sol e fritas em óleo de coco no momento de servir, assemelhando-se a bolachas muito finas, de excelente paladar. Outro doce peculiar a esse dia é o dodol, preparado com farinha de trigo, sumo de coco, jagra, castanha de caju e manteiga. O dodol ocupa sempre na sua confecção duas ou mais pessoas, que se revezam, pois cansa muito mexê-lo continuamente. De resto, a maioria dos doces goeses é feita por esse processo, como o doce de grão, o doce  bagi, a mangada, a cocada, e outros. [...] E não podemos esquecer os neureus, semelhantes a rissóis mas recheados com coco ralado, cozido em mel de açúcar ou lentilhas, sendo tudo frito em óleo de coco ou assado no forno. E ainda os oddés (lê-se ores), feito- de farinha de trigo amassada em agua e sal, redondos e fritos também em óleo de coco a ferver.

 

*

 

Outro elemento digno de menção especial é a iluminação das casas. Desde as vésperas de Natal até aos Reis, todos os lares católicos irradiam externamente uma luz suave proveniente de lanternas chinesas de diversos formatos e desenhos, com velas de cera acesas. [...] Um elemento, porém, é comum a todas: a estrela! É feita de bambu e forrada de papel de seda, branco ou de cores, e presa a um pau comprido espetado no chão. À noite, quando iluminada, dá-nos a impressão de uma estrela suspensa no céu límpido, evocando a que surgiu aos Reis Magos, assinalando o caminho de Belém.

 

*

 

E a véspera de Natal termina com a Missa do Galo. Todos voltam lentamente para casa, cheretas a servir de lanternas, abrindo buracos na noite. Os doces ficam à espera, pois a consoada é a 25, no próprio dia de Natal, em puro convívio familiar, regalando-se então todos com a boa comezaina, variada e gostosa.

E a meio do dia surgem os farazes.

Os farazes são talvez a classe mais baixa, sem casta, descendente dos primitivos habitantes dravídicos. Vivendo em comunidade mais ou menos tribal e dedicando-se à manufactura de utensílios de bambu, constituem uma das camadas populacionais de Goa mais sinceramente católicas, desprezados como são pelos brâmanes e pelas outras castas arianas. Isso recorda-me palavras que o grande poeta Paulino Dias, na sua narrativa dramática Os párias, põe na boca de um faraz:

 

Os nossos maiores, Pralada, Ravana, Hiraniaxipú, Bali, bateram os Árias e comeram a sua carne. É a vingança, ó Jiubá, dos crimes das eras, os crimes de defender a sua choupana, a sua mulher e os seus filhos. Hoje o estrangeiro os devora com garganta de cobre aquecido. Eu sei que num país depois do mar os Árias são expulsos, feridos, sem poderem passar pelas ruas, entrar nos Dharmasadas e nas pousadas. Pagam pelo que nos fazem, ó Jiubá. Nós temos ainda os deuses deles, Shivá, Rama e Parvati, e eles não nos deixam pisar o degrau do seu templo. Mil vezes melhores os cristãos e muçulmanos que nos aceitam como irmãos.

 

 

Vimala Devi

in "Natal de Goa"

Panorama Revista de Arte e Turismo nº 24-III Série-Dezembro de 1961

Edição do SNI Lisboa

 

 

Notas:

 

Vimala Devi, Paulino Dias e outros autores da literatura indo-portuguesa  aqui

Angelo da Fonseca aqui

 

 

Museum of Christian Art, Goa aqui 

 

 

 

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15.12.11

 

 

 

 

Maquineta Adoração dos pastores*

Século XIX, início

 

 

 

Maquineta de autoria desconhecida, mas que traduz de modo eloquente o gosto pelo presépio no século XVIII português. Nesta tripla Adoração – as Sagrada Família, dos Anjos e dos Pastores – podemos observar que remetem para um certo arcaismo, como a posição das mãos e os cabelos soltos da Virgem, evocação das imagens de Dionísio e António Ferreira, ou a indumentária de dois dos músicos, memória de figurinos seiscentistas.  

 

 

 

* Presépio da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva

 

  Imagem e texto encontrados aqui

 


 


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24.6.11

 

 

São João Baptista, Brasil, séc XIX

 

 

Por manhã de São João,

Manhã de fresca alvorada,

A Virgem-Santa passeia

Deredor da fonte clara.

Venturosa da donzela

Que à fonte for buscar água

Por manhã de São João

Manhã de benta alvorada !

 

Baixou a filha do rei                                                

Da alta torre onde estava,                                                

Vestiu vestido de seda,

Calçou sapato de prata,

Pegou em cântaro de oiro

Para a fonte caminhava.

 

Ao chegar ao pé da fonte                                       

Com a Virgem se encontrava :                        

— « Deitai-me a benção, Senhora,

Que me deis um bom marido             

Com quem seja bem casada ! »

— « Casada sereis , donzela,

Bem casada e bem medrada.                                    

Três filhos haveis de ter,

Todos três de capa magna.

Um há de ser papa em Roma        

O outro primaz em Braga ;                        

O mais pequeno de todos                        

Dá-lo-eis à Virgem Sagrada :

Que se há de chamar João.                

João de Deus o seu nome,

Pastor da minha manada.

Aos pobres que não têm pão,

Aos doentes sem pousada

Ele há de dar casa e cama

Em honra desta alvorada.

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

Nota: este romance popular foi originalmente publicado no blog garrettiano O Divino, em Dezembro de 2004 

Imagem: Objetos da Fé, Oratórios Brasileiros (coleção Angela Gutierrez)

Catálogo apresentado no Museu de São Roque em Lisboa durante o evento "Lisboa Capital Europeia da Cultura",Março de 1994

 

 

 

                         

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13.6.11

 

 

 

St Anthony

Chiselled and carved wood;polychromy;19th century; Northeast; 14,5 x 85 cm

 

 

St. Anthony's surname is Padua, the name of the town where he died and was buried in 1231. He was born, however, in Lisbon around 1195, and was known as St. Anthony of Lisbon. Canonized one year after his death, he was worshipped only in Padua until the end of the 15th century when he began to be worshipped throughout Portugal and, finally, all over the world.

 

 

The attributes distinguishing him are, most often, the Boy Jesus sitting or standing on a book, which image is best known to us, since it was spread abroad by the baroque art of the Counter-Reformation, He may aiso carry in his hand lilies - symbol of purity -, a monstrance, grapevine branch and a crucifix. He may carry on his back a bag of breadrolls, when he is called St. Anthony of the Poor, or of Picuá. He always appears dressed in the habit of his Franciscan Order, brown or gray, belted with a cord, young and beardless, with a monk's tonsure. Rosaries generally hang from his belt.


 

St. Anthony is more invoked for romantic problems. That is when the Boy Jesus is taken from his arms until the "miracle" happens. His reputation and notoriety as the marrying saint must have come from colonial origins, when marriage and procreation, and consequent demographic growth, were obligatory for the success of Portuguese domination and occupation in the new lands.

 

 

Cristina Ávila

Silvana Cançado Trindade

Geography of the sacred in colonial Minas Gerais

in Objetos da Fé, Oratórios Brasileiros (coleção Angela Gutierrez)

Catálogo apresentado no Museu de São Roque em Lisboa durante o evento "Lisboa Capital Europeia da Cultura",Março de 1994

 

 

Outra imagem de Santo António e um inédito do Romanceiro Garretiano aqui

 

 

 

 

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12.6.11

 

 

 

 São Cosme e São Damião. Objetos de devoção popular.

 


O caso é que, antigamente, o sagrado andava misturado com o profano através da nossa vida quotidiana e tínhamos notícias constantes de um mundo que, em rigor, era habitado por Deus e os santos, os anjos e os demónios, as almas dos eleitos e dos condenados.

 

A relação com os santos era uma espécie de panteísmo. Na imensa policlínica das almas, só Deus Nosso Senhor era de clínica geral e os santos tinham especialidades e, de tal modo que, se você perdia uma libra, era melhor pedir o seu achamento a Santo António do que ao próprio Deus, Nosso Senhor. Este politeísmo assegurava a presença do sagrado: o ateísmo — fiquem sabendo — começa com a teoria e a prática do Deus único.

 

 

 

António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias aqui

© Editorial Presença

 

 

 

Imagem: Madeira recortada e policromada; sec. XIX; Diamantina (Minas Gerais) - 76 x 35,5 cm.

in Objetos da Fé, Oratórios Brasileiros (coleção Angela Gutierrez)

Catálogo apresentado no Museu de São Roque em Lisboa durante o evento "Lisboa Capital Europeia da Cultura",Março de 1994

 

 

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11.6.11

 

 

 

 

 Rui Chafes, O teu coração está a dormir, não o acordes demasiado cedo*  (2008)

 

 

 

[...] Tenho consciência de que, em idênticos cruzamentos da história, os abismos são muitos e de que algumas gerações que nos precederam, a pretexto de largar para grandes voos, caíram em grandes precipícios. Trata-se duma espécie de «Patologia das Sociedades Civilizadas», título que parece do Dr. Segismundo Freud, se é que não será mesmo dele. Algumas vezes, a rebelião contra as incomodidades sociais exprime-se, inesperadamente, pela sua identificação com as ideologias racionais. Quando, na Alemanha dos fins dos anos 20, princípios dos anos 30, a situação económica se deteriorou, muitos marxistas esfregaram as mãos de contentes porque as profecias de Karl Marx se iriam cumprir. O que aconteceu foi o que se viu: a ânsia duma mudança urgente, as aspirações unicamente dirigidas para o bem-estar material não se ligaram aos desejos de liberdade mas ao fenómeno inverso; ao medo da liberdade; as pessoas identificaram-se com uma forma de dependência duma atitude existencial que trocava a liberdade pelo paternalismo e pela protecção. Elas estavam sensíveis aos apelos feitos ao seu lado emocionalmente irracional, místico e infantil, porque esses apelos vinham reforçar a necessidade de se apegarem a figuras de autoridade que prometiam uma «nova vida».

 

Isto é só para dizer que, ao lado desses abismos, há uma forma sadia de encarar o romantismo, atitude a que, se fosse possível, eu chamaria «ingenuidade controlada», o que equivale a dizer que, muitas coisas em que a gente acreditava estão certas, só que mais ninguém acredita nelas e elas, em certa medida, viviam dessa crença. O Diabo, as almas do outro mundo e todos os fantasmas em geral, habitam um espaço de que eles não são os representantes maiores: esse espaço constituído pelo misterioso e pelo irracional vive da nossa própria crença e não estão dispostos a conviver com quem os recusa. Isto faz parte duma questão maior que é a de uma longa e não sei se eterna contradança entre a natureza e a cultura, nomeadamente quando ela incorporou uma excessiva dose de Razão. Não podemos dispensar a culturização do mundo, mas a verdade é que, desde que a Razão se apoderou dela, a cultura está prestes a destruir-nos, porque não há maior barbárie do que a da loucura da Razão. É então que a natureza reúne as suas forças e dá um grito. Neste mundo, racionalizado e politizado até à exaustão, o romantismo é capaz de ser esse grito que visa um «para além» do político. Hoje, não necessitamos de nenhum discurso político nem que seja o da «desconstrução» do conceito hegeliano do Estado. Necessitamos, isso sim, de um clima de interrogação onde seja possível analisar a metamorfose das condições interiores da alma. Eu sei: a gente diz «alma» e vocês riem-se mas, o que temos mais para enfrentar a barbárie?

 

 


António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias aqui

© Editorial Presença

 

 

 

* peça fotografada por LMD, 2010 (aqui); no âmbito da exposição KHORA, Fundação Carmona e Costa

 

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22.4.11

 

 

«Je vous appelle amis»: cette sublime amitié passe par le creuset de l’angoisse, comme le Christ lui-même s'y est soumis à Gethsémani. « II commença à ressentir tristesse et angoisse. Alors il leur dit: "Mon âme est triste à en mourir, demeurez ici et veillez avec moi." Etant allé un peu plus loin, il tomba face contre terre en faisant cette prière: "Mon Père, s'il est possible, que cette coupe passe loin de moi! Cependant, non pas comme je veux, mais comme tu veux." Il vient vers ses disciples et les trouve en train de dormir » (Mt 26,38-40). « Entré en agonie, il priait de façon plus instante, et sa sueur devint de grosses gouttes de sang qui tombaient à terre » (Lc 22,44).


C'est ce «je» là, follement désapproprié de lui-même et en même temps intensément présent à l’heure, tant redoutée, vers laquelle toute sa vie a tendu, qui parle d'amitié. Un «je» dépouillé à l'extrême pour mieux assumer la mission dont il a accepté la charge. Un «je» qui pense et veut en dehors de lui-même, aux confins de lui-même, au plus profond de soi.


Un «je» absolument incarné, fait de chair et de nerfs et de sang, et dont tout le corps se révulse à l’approche du supplice, s'épouvante et se révolte devant la mort. Un «je» fou d'amour pour les siens, pour son Père, pour la vie, mais qui ne se dérobe pas à la mort.

 

«Je vous appelle amis»: une telle amitié ne s'accommode ni de puérilité et de sentimentalité, ni de crainte servile et d'habile prudence; elle les rejette, elle vomit toute tiédeur, comme l'a puissamment exprimé Péguy : «Si on n'était pas abruti, mon enfant, si vous n'étiez pas abrutis, ankylosés par des générations entières de catéchisme, d'habitude catéchistique, mon enfant, qui ne serait saisi, qui ne serait épouvanté de ces lignes [du récit du Mont des Oliviers], de ces lignes atroces, de ces paroles effrayantes, de cette effrayante prière. [...] Si nous prenions les textes sacrés comme il faut prendre tous les grands textes, et comme nous ne les prenons pas, si nous prenions les textes sacrés comme il faut prendre (aussi) les textes classiques, dans leur plein, dans leur large, dans toute leur crudité, dans tout ce qu'ils ont saisi, dans tout ce qu'ils rapportent de la réalité même, si nous ne laissions pas, si nous n'admettions pas qu'il y ait entre eux et nous l'interception de l'habitude, nous serions, mon ami, nous serions épouvantés de ce texte.»(1)


L'appellation ici en jeu n'est pas qu'une dénomination, elle est aussi une convocation, un appel, une apostrophe. Le maître se tient à hauteur de ses disciples dont il vient de laver les pieds ; Dieu se tient à hauteur d'homme pour lequel il va se livrer. « C'était un homme qui parlait à des hommes,  martèle Péguy. Ce n'était point un enseignement, ex cathedra. Ce n'était point même un enseignement de Dieu de la chaire du ciel. C'était une communion, une révélation d'homme à homme, d'un pauvre être à un pauvre être. » (2)


Et il appelle l'homme - son ami, son frère, son fils, son héritier - à se hisser à cette hauteur nouvelle, mouvante, si fragile ; à s'y agenouiller, en fait, puisque cette hauteur s'inverse et s'évase en abîme. Etrange hauteur qui s'effondre sous le poids de l'angoisse, jusqu'à tomber « face contre terre », et qui, dans sa détresse, en appelle à la présence, au réconfort de ses amis. Mais ils dorment, épuisés. Ils ne sont pas encore prêts à assumer «dans son plein, dans son large, dans toute sa crudité» la vocation d'amis qui vient de leur être donnée.

 

 

Sylvie Germain

in  Quatre actes de présence   p.96-98

© Desclée de Brouwer, 2011

 

Notas:

1. C. Péguy, Gethsémani, Desclée de Brouwer, 1995, p.34-35 et 57-58, coll. «Les Carnets».

2 :Ibid.,p.47

 

 

 

aqui

 

 

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25.12.10

 

 

 

 

Foto: Presépio de oito figuras

Estremoz, Portugal

 

 

Mais sobre o Presépio de Trono ou de Altar aqui

 



23.12.10

 

 

 

 

Gerard David c. 1490

 

 

 

Évangile selon saint Matthieu

Mt 1,18-25

 

Marie, mère de Jésus, ayant été fiancée à Joseph avant qu'ils eussent habité ensemble, elle se trouva enceinte par la vertu de l'Esprit Saint. Joseph, son mari, étant juste et ne voulant pas la dénoncer publiquement, forma le dessein de la répudier secrètement. Comme il y pensait, voici qu'un ange du Seigneur lui apparut en songe, disant: «Joseph, fils de David, ne crains pas de prendre chez toi Marie, ton épouse, car ce qui est conçu en elle est l'œuvre de l'Esprit Saint. Elle enfantera un fils, et tu lui donneras le nom de Jésus car il sauvera son peuple de ses péchés.»

Or tout ceci advint pour accomplir cet oracle prophétique du Seigneur : «Voici que la Vierge concevra et enfantera un fils, auquel on donnera le nom d'Emmanuel, nom qui se traduit : " Dieu avec nous ". » Une fois réveillé, Joseph fit comme l'Ange du Seigneur lui avait prescrit; il prit chez lui son épouse et, sans qu 'il l'eût connue, elle enfanta un fils auquel il donna le nom de Jésus.

 

 

 

[...] G.S. : Que serait une famille, aujourd'hui, dans laquelle la mère serait vierge, où une vierge serait mère?

 

F.D. : Mais c'est ce que nous rencontrons chaque jour. Tout fils voudrait que sa mère fût vierge. C'est un fantasme qui vient de la nuit des temps, lorsque le fils était dans l'utérus. Là, il n'a aucun rival. Il ne connaît l'existence de l'homme de sa mère que lorsqu'il est doué d'audition, de vision et de discrimination des formes de ceux qui entourent sa mère. Donc, pendant un très long temps de sa vie, le garçon, par ses désirs hétérosexuels imaginaires qui sont anticipateurs de sa vie d'adulte, peut croire qu'il comble le désir de sa mère. Adolescent, il voudrait continuer sa vie sur les données archaïques de son désir.

 

G.S. : Mais la virginité dont parlent les évangiles c'est quand même autre chose que des fantasmes mal liquidés!

 

F.D. : Oh oui... Être vierge c'est être disponible. Pour la femme vierge, pour l'homme vierge, la parole devient plus importante que la chair. Ici, la parole de Dieu est plus importante que la chair.

C'est pour cela, me semble-t-il, que l'Église veut que Marie soit vierge avant et après l'accouchement, comme si elle avait accouché d'une parole, — comme si c'était une parole, la Parole de Dieu, le Verbe, qui était sortie d'elle, et non une masse charnelle qui aurait jailli, dans l'espace, à travers son corps charnel de génitrice.

 

G.S. : En chaque être humain, qu'il soit homme ou qu'il soit femme, il y a un homme et une femme, il y a donc Joseph et Marie, il y a l'aimant qui donne et l'aimant qui reçoit.

 

F.D. : Nous avons tous une disposition à la maternité qui peut être vierge et rester vierge, de même qu'une disposition à la paternité. Qu'est-ce à dire, sinon que nous pouvons porter les fruits d'une parole reçue d'un autre?

Notre pensée peut être fécondée par une idée venue d'ailleurs, sans savoir qui nous l'a donnée. Or, ce qui est psychologiquement vrai ne pourrait-il pas l'être spirituellement?

C'est cela que représente Marie : elle est une image, une métaphore de la parfaite disponibilité. C'est cela que représente Joseph : sa virginité, sa chasteté comme époux et père médiatisent la même vérité : être disponible. Chacun d'eux, elle éveillée, lui endormi, accueille la Parole de Dieu.


[...] G.S. : Terminons. On dirait que, pour vous, toutes les questions concernant la virginité de Marie, le statut marital de Joseph, etc., toutes ces questions sont finalement sans grande valeur.

 

F.D. : En effet, pour moi, ce sont de fausses questions, parce que tout ce qui est de la vie spirituelle est un scandale pour la chair. Tout ce qui est de l'ordre de la logique de la chair n'a pas de sens à partir du moment où nous sommes questionnés par la vie spirituelle, quand nous sommes désirants de vie spirituelle. [...]

La prière est au-delà de tous nos phonèmes, au-delà de tous les sons. Elle est dans un mutisme que ne connaissent pas les êtres humains entre eux. Un mutisme claironnant de désir dont tout homme, toute femme, à un moment de sa vie, sent la force qui l’appelle à vivre une vie spirituelle. Ce désir peut le rendre intrépide.

 

 

Francoise DoltoGérard Sévérin

in L'Évangile au risque de la psychanalyse (La "Sainte Famille" , Tome I)

Éditions du Seuil

© Éditions Universitaires, S.A., 1977, J.-P. Delarge, éditeur



21.12.10

 

 

 


Gerard David c. 1506

 

 

Évangile selon saint Luc

 

Lc 1, 26-38

 

En ce temps-là l'ange Gabriel fut envoyé par Dieu dans une ville de Galilée appelée Nazareth vers une vierge qui était fiancée à un homme nommé Joseph, de la maison de David, et le nom de cette vierge était Marie.

L'ange étant entré dans le lieu où elle se trouvait, lui dit : «Je vous salue. Marie, pleine de grâces; le Seigneur est avec vous; vous êtes bénie entre toutes les femmes. »

En entendant ces mots, elle fut troublée et se demandait quelle pouvait être cette salutation. L'Ange lui dit : « Ne craignez pas. Marie, car vous avez trouvé grâce auprès de Dieu : voici que vous concevrez dans votre sein et que vous mettrez au monde un fils; et il recevra le nom de Jésus. Il sera grand et sera appelé Fils du Très-Haut, et le Seigneur Dieu lui donnera le trône de David, son père; et il régnera éternellement sur la maison de Jacob et son règne n'aura pas de fin. »

Marie dit à l'Ange : « Comment cela se fera-t-il car je ne connais pas d'homme? » L'Ange lui répondit : «L'Esprit Saint surviendra en vous et la venue du Très- Haut vous couvrira de son ombre. C'est pourquoi l'Être saint qui naîtra de vous sera appelé Fils de Dieu. Et voici qu'Elisabeth, votre cousine, a conçu elle-même un fils dans sa vieillesse, et celle qu'on appelait la stérile est à son sixième mois car rien n'est impossible à Dieu. »

Alors Marie dit : « Voici la servante du Seigneur, qu'il me soit fait selon votre parole. »

 


 

 

G.S. : Joseph est un homme sans femme. Marie est une femme sans homme. Jésus est un enfant sans père. Peut-on alors parler de vraie famille?

 

F.D. : Oui, on peut parler de vraie famille, au point de vue de la responsabilité devant la loi.

La famille animale n'existe pas devant la loi. La famille est un terme humain qui entraîne devant la loi la responsabilité réciproque des parents pour l'éducation d'un enfant. [...] Mais votre question vient de ce que, dans cette partie des évangiles, il y a du mythe.

 

G.S. : Mais alors, qu'est-ce qu'un mythe pour vous?

 

F.D. : C'est une projection des imaginaires préverbaux, du ressenti du vivre dans son corps. Quand je dis mythique, je dis au-delà de l'imaginaire particulier de chacun; c'est une rencontre de tous les imaginaires sur une même représentation. [...]

Pour la « Sainte Famille », comme disent les catholiques, il ne fait aucun doute que les évangiles qui racontent l'enfance de Jésus s'expriment par des images mythiques, mais ils véhiculent aussi un mystère, une vérité.

Il y a du mythe dans ces passages d'évangiles. C'est certain. Mais, pour moi, croyante et psychanalyste, il n'y a pas que cela.

Que savons-nous avec nos connaissances biologiques, scientifiques, de l'amour et de son mystère? Que savons-nous de la joie? De même, que savons-nous de la parole? N'est-elle pas fécondatrice? N'est-elle pas parfois porteuse de mort? [...] Et si la parole reçue par Marie était l'instrument de la greffe de Dieu sur ce rameau de David? [...]

 

G.S. : L'Ange annonce à Marie : « La puissance du Très-Haut te couvrira d'ombre. » Où est Joseph?

 

F.D. : Mais l'ombre de Dieu, tout homme ne l'est-il pas pour une femme qui aime son homme?

La puissance et l'ombre de Dieu qui couvrent Marie peuvent être la charnalité d'un homme qu'elle reconnaît comme époux.

 

G.S. : Pourtant, il semble que Joseph ne se reconnaît pas l'époux de Marie ou du moins comme le géniteur de Jésus. En effet, il veut répudier Marie quand il apprend qu'elle est enceinte. Et Marie dit par ailleurs : « Je ne connais pas d'homme. »

 

F.D. : II faut chercher à découvrir ce que veulent dire ces textes.

Cette révélation de la conception de Jésus est faite à Marie dans sa veille et à Joseph dans son sommeil, dans un rêve. C'est dire que les puissances phalliques, créatrices féminines du désir de Marie sont éveillées, disposes, tandis que les puissances passives du désir de Joseph sont au maximum.

Autrement dit, Marie désire. Elle sait, par l'intervention de l'Ange (là c'est une manière de parler mythique), qu'elle deviendra enceinte. Mais, comment? Elle n'en sait rien. Mais, comme chaque femme, elle espère, elle désire être enceinte d'un être exceptionnel.

Quant à Joseph, il sait par l'initiation reçue dans son sommeil, que pour mettre au monde un fils de Dieu, il fallait que l'homme se croit y être pour très peu.

Nous sommes loin, voyez-vous, de toutes les histoires de parturition et de coït. Ici est décrit un mode de relation au phallus symbolique, c'est-à-dire au manque fondamental de chaque être. Ces évangiles décrivent que l'autre, dans un couple, ne comble jamais son conjoint, que toujours il y a une déchirure, un manque, une impossible rencontre, et non pas une relation de possession, de phallocratie, de dépendance.

En Joseph, rien n'est possessif de sa femme. De même que rien, en Marie, n'est a priori possessif de son enfant. Fiancés, ils font confiance à la vie, et voilà que le destin de leur couple en surgit. Ils l'acceptent.


 

Francoise DoltoGérard Sévérin

in L'Évangile au risque de la psychanalyse (Tome I)

Éditions du Seuil

© Éditions Universitaires, S.A., 1977, J.-P. Delarge, éditeur



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2.4.10

 

 

 

 

 

  

Lenda S.15

 

 

ROMANCE DOS PADRES NO LIMBO

 

 

Vozes davam prisioneiros,

Longo tempo estão chorando,

Em triste cárcere escuro

Padecendo e suspirando,

Com palavras dolorosas

Suas prisões quebrantando:

 

-"Que é de ti ó Virgem mãe?

A ti estamos clamando,

Desperta o senhor do mundo,

Não estamos mais penando ?"

 

Ouvindo estas vozes tristes

A Virgem estava orando,

Quando veio a embaixada

Pelo Anjo, saudando

Avé rosa gracia-plena

Sua prenhez anunciando.

 

"Solta os encarcerados

Que por ti estão suspirando,

Pela morte de teu Filho

Ao Padre estão rogando:

 

Cresça o menino glorioso

Que a cruz está esperando:

Sua morte será cutelo

A tua alma trespassando

Sofre a sua morte, senhora

Nossa vida desejando!"

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

Imagem: Giotto -   Descida de Cristo ao limbo aqui

 

um artigo sobre a "geografia do além" no Ocidente medieval aqui

 

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5.2.10

 


 

Dans Amour et Vieillesse, le « caprice » que l'anonyme jeune fille serait prête à consentir au vieux poète, quitte à se raviser aussitôt et à se laver de cette souillure avec un jeune amant de son âge, est refusé d'avance, au prix d'un déchirement d'entrailles, prévenant par ce sacrifice l'abjection et l'humiliation mortelles qui ne manqueraient pas de suivre un éventuel accouplement froid et contre-nature:

 

Je me dirais: à présent, à cette heure où elle meurt de volupté dans les bras d'un autre, elle lui redit ces mots tendres qu'elle m'a dits, avec bien plus de vérité et avec cette ardeur de la passion qu'elle n'a pu jamais sentir avec moi ! Alors tous les tourments de l’enfer entreraient dans mon âme, et je ne pourrais les apaiser que par des crimes.

 

Les biographes détectives n'ont pas manqué de faire sortir de l'ombre plusieurs autres jeunes femmes qui, après Cordélia, et à des dates différentes, ont de nouveau plongé Chateaubriand vieillissant dans les états violents de désir et de frustration, le faisant «délirer», comme avait déliré le Jeune René «accablé par une surabondance de vie », le «cœur parcouru des ruisseaux d'une lave ardente » et, Phèdre ou Sapho chrétiens au masculin, ne pouvant fixer cette impatiente soif de fusion amoureuse que sur un objet d'avance inaccessible et interdit. […] Entre autres idylles tardives avortées, on a retrouvé la correspondance que Chateaubriand échangea avec la jeune Léontine de Villeneuve, évoquée, sans être nommée autrement que «l'Occitanienne» -, au livre XXXI des Mémoires d'outre-tombe. […] Contemporaine de l'aventure fugitive avec l'Occitanienne, la liaison de Chateaubriand avec une jeune et libre amie de George Sand, Hortense Allart, fut bel et bien consommée, mais sans lendemain. Commencée à Rome en 1828, elle s'acheva à Paris l'année suivante par une séparation provisoire souhaitée par Chateaubriand : il eut du mal à admettre qu'elle était définitive. Les stigmates laissés par les dernières étreintes charnelles dont le vieil Anacréon chrétien ait joui en 1829, dans les bras d'Hortense, restèrent béants et saignants bien après que les deux ex-amants eurent passé un contrat de bonne amitié. En novembre 1834, songeant encore, soit à Hortense Allart passée à des amants plus jeunes et vigoureux, soit à quelque autre jeune «fleur» croisée, mais non cueillie, entretemps, il écrivait à Mme Récamier, devenue peu à peu, après leur brève flambée de passion réciproque des années 1817- 1819, l'amie, la confidente, l'ange du crépuscule :

 

J'étais si en train et si triste que j'aurais pu faire une seconde partie à René, un vieux René. Il m'a fallu me battre avec la Muse pour écarter cette mauvaise pensée ; encore ne m'en suis-je tiré qu'avec cinq ou six pages de folie, comme on se fait saigner quand le sang porte au cœur ou à la tête.

 

Prodigieuse fécondité littéraire de l'ironie noire de l’ éros chrétien selon René

 

Nouvel apport à Amour et Vieillesse. Deux ans plus tôt, à la date du 16 août 1832, après avoir attendu en vain Hortense Allart, à qui il avait donné rendez-vous en Suisse, vagabondant en solitaire dans les Alpes, il avait écrit dans un Journal reproduit au livre XXV des Mémoires :

 

Depuis longtemps, je ne m'étais trouvé seul et libre ; rien dans la chambre où je suis enfermé ; deux couches pour un voyageur qui veille et qui n'a ni amours à bercer, ni songes à faire. Ces montagnes, cet orage, cette nuit, sont des trésors perdus pour moi. Que de vie pourtant je sens au fond de mon âme ! Jamais, quand le sang le plus ardent coulait de mon cœur dans mes veines, je n'ai parlé le langage des passions avec autant d'énergie que je pourrais le faire en ce moment! Il me semble que je vois sortir du Saint-Gothard ma sylphide des bois de Combourg. Me viens-tu retrouver, charmant fantôme de ma jeunesse? As-tu pitié de moi? Tu le vois, je ne suis changé que de visage; toujours chimérique, dévoré d'un feu sans cause et sans aliment. Je sors du monde, et j'y entrais quand je te créai dans un moment d'extase et de délire. Voici l'heure où je t'invoquai dans ma tour. Je puis encore ouvrir ma fenêtre pour te laisser entrer. Si tu n'es pas contente des grâces que je t'avais prodiguées, je te ferai cent fois plus séduisante: ma palette n'est pas épuisée; j'ai vu plus de beautés et je sais mieux peindre. Viens t'asseoir sur mes genoux; n'aie pas peur de mes cheveux, caresse-les de tes doigts de fée ou d'ombre ; qu'ils rebrunissent sous tes baisers. Cette tête, ces cheveux qui tombent n'assagissent point, est tout aussi folle qu'elle était lorsque je te donnai l'être, fille aînée de mes illusions, doux fruit de mes mystérieuses amours avec ma première solitude! Viens, nous monterons encore ensemble sur nos nuages; nous irons avec la foudre sillonner, illuminer, embraser les précipices où je passerai demain ; viens, emporte-moi comme autrefois, mais ne me rapporte plus!

On frappe ma porte ; ce n'est pas toi! c'est le guide ! Les chevaux sont arrivés, il faut partir. De ce songe, il ne reste que la pluie, le vent et moi, songe sans fin, éternel orage.

 

Superbe poème en prose, asymptotique lui aussi d' Amour et Vieillesse. Mais ici, le salut par la poésie rachète, même brièvement, les souffrances du damné se sachant voué sans recours à refuser ou à se voir refuser « les joies de la vie ». Sur les ruines des voluptés sensibles se lève la délectation triomphante de se découvrir capable de prêter encore une fois sa voix à l'ensorcelante et voluptueuse partenaire imaginaire que son adolescence s'était inventée. «Mon mal vient de plus loin », aurait-il pu dire, comme la Phèdre de Racine, et les Mémoires d'outre-tombe nous font assister à la genèse du drame récurrent de sa vie amoureuse, et de la fécondité littéraire de son incurable souffrance. L'enfant de Combourg, surdoué par Éros et frustré d'amante réelle, avait appris à tromper sa solitude avec une geisha de rêve, la Sylphide. Compensant ces embrassements décevants, la Muse avait alors révélé au jeune Pygmalion un autre talent, non moins décevant au fond, pour lequel il était fait, le bonheur d'expression élégiaque, le chant de désir et de deuil, d'absence présente et de présence absente pour un objet insaisissable, ou aussitôt refusé que saisi.

 

 

Marc Fumaroli

in La saison en enfer de Chateaubriand 

(postface de Amour et Vieillesse de François René de Chateaubriand) pp. 35-43

© 2007, Éditions Payot & Rivages

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 


25.12.09

 

 

 

Adoração dos Magos

Diego Velázquez, 1619

 

 

 

Lend. Sec.17

 

Nota: É uma verdadeira chácara (1) porque em perguntas e respostas com certo sainete de graça e chacota. D. Fr chamou-lhe romance (o editor das obras) em Leão de Fr 1665 onde vem em castelhano pg 19 segundos três versos.

 

 

 

 

Zagal tu vens de Belém

No me dirás que há de novo ?

— Que chamou elrei a cortes

O povo, nobreza e clero         (2)

 
Que intenta sua majestade

 

Que, sem falta, é bom intento ?

— Jurar príncipe a seu filho

Que há de ser rei destes reinos.

 

Eu pensei que o mundo todo

Se rogava ao juramento

— Não que é já tão cristão

Que não jurará sem rogos

 
Pelos egrejos quem veio

Prestar o sagrado preito ?

— Os anjos eram que são

As dignidades do céu.
 
E do braço da nobreza

Quem veio ao juramento ?

— Não chegaram, porem já

Três reis hão-de chegar presto.

 
Quem recebeu a homenagem
No popular achamento?

— Os pastores que madrugaram

A obedecer seu  império
 
E  quem por parte d’elrei
As cortes  fez o    *
— Foi a voz de um paraninfo (3)

Todo o mundo era em silêncio

 

Que partes tocou elegante

E persuasivo em efeito ?

— A paz publicou aos homens

E glória intimou aos céus.

 

Não se tratou mais nas cortes

Outro importante manejo ?

— Sim: a defesa do mundo

Que em grande perigo o vemos

 

Pois há quem a elrei não sirva

Ao menos por seu proveito ?

— A um mesmo fim miram todos

Mas nem todos a um só meio

 

E que tal estava o quadro

De adornos e paramentos ?

— Um quadro - e de mão divina

Só lá vi, era um presépio

 

Mui rico seria o trono

De gran’ máquina por certo?

— Não resplandecem seus lustres

Como admiram seus mistérios.

 

E o que deram para a guerra

Dentre paraíso e inferno?

— O próprio do rei pedido
Dois milhões são desejados

 

Do príncipe que se diz

Muitos anos o logremos?

— Que já morre pelo povo

E disso há de morrer cedo

 

Pois dizem que com o pai

Se parece por extremo

— Tanto que quem vir o filho

É como ver o pai mesmo.

 

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

NOTAS :

1.chácara é termo que designa um certo tipo de romance popular

2.variante: egrejos nobres e povo

3.paraninfo : padrinho apresentante

 

 

 

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1.11.09

 

 

 

 

São Luís rei de França e um pajem

El Greco, 1585

 

 

 

Leia aqui um artigo sobre a exposição Il Potere e la Grazia. I Santi Patroni d'Europa que estará patente até 31 de Janeiro em Roma.


26.7.09

 

 


 

 

 

Quant à l'avenir de son livre, il  feint de l'interroger...

 

 

«L'ouvrage inspiré par mes cendres et destiné à mes cendres subsistera-t-il après moi? Il est possible que mon travail soit mauvais; il est possible qu'en voyant le jour ces Mémoires s'effacent: du moins les choses que je me serai racontées auront servi à tromper l’ennui de ces dernières heures dont personne ne veut et dont on ne sait que faire. Au bout de la vie est un âge amer; rien ne plait parce qu'on n'est digne de rien; bon à personne, fardeau à tous, prés de son dernier gîte, on n'a qu'un pas à faire pour y atteindre: à quoi servirait de rêver sur une plage déserte ? Quelles aimables ombres apercevrait-on dans l'avenir ? Fi des nuages qui volent maintenant sur ma tête!»

 

Pure coquetterie que ce «Fi» ! On ne donne pas une telle cadence à des nuages dont on se moque...


Chateaubriand n'a pas écrit ses Mémoires à défaut de jouer au Scrabble avec Mme Récamier, et ce paragraphe de grand vieillard amer sur sa plage déserte est fin prêt pour appareiller avec les autres vers la postérité. Il le sait très bien. Et là aussi, là surtout peut-être, le christianisme joue un rôle: s'il ne constitue pas une ligne morale très lisible dans sa vie, il constitue sans conteste la ligne éditoriale des Mémoires d'outre-tombe, sa ligne de flottaison, ou mieux: son certificat de navigabilité. Chateaubriand n'a aucun doute là-dessus. De façon prémonitoire, il avait conclu le chapitre consacré à l'histoire dans le Génie du christianisme en montrant que les Français n'étaient pas de très bons historiens, mais qu'ils se révélaient d'incomparables mémorialistes... Les meilleurs, étant, bien entendu, les mémorialistes chrétiens, ne serait-ce que d'un point de vue esthétique:

 

«Il y a dans le nom de Dieu quelque chose de superbe, qui sert à donner au style une certaine emphase merveilleuse, en sorte que l'écrivain le plus religieux est toujours le plus éloquent. Sans religion on peut avoir de l'esprit; mais on ne peut avoir du génie.»

 

Chateaubriand sait qu'il est un génie, ou qu'il en a un, c'est selon, on le lui a dit; il l'a écrit; il l'a même décrit. Ce génie, source d'angoisses terribles, l'a beaucoup tourmenté. Mais il sait aussi que son génie tient à la présence de Dieu dans son oeuvre. En tant que Créateur et souverain maître du temps et de l'histoire, certes, mais aussi garant de sa propre création littéraire. Il écrit à M. de Fontanes, en 1800:

 

«Tout écrivain qui refuse de croire en un Dieu, auteur de l'univers et juge des hommes, dont il a fait l'âme immortelle, bannit l'infini de ses ouvrages. Il enferme sa pensée dans un cercle de boue, dont il ne saurait plus sortir. Il ne voit plus rien de noble dans la nature. Tout est désenchanté.»

 

Ne l'appelle-t-on pas l'Enchanteur? Dieu est le grand metteur en scène de l'Enchanteur, son double fond sacré magique, il assure la hauteur de ses montagnes, l'abysse de ses océans, et l'authenticité de son tremblement d'humaine créature ballottée dans les naufrages... Sans Dieu, le monde se réduit à de la matière informe, un décor de théâtre où il faut agiter soi-même une feuille de métal en coulisses pour faire le bruit du tonnerre.


Les romantiques vont garder Dieu; imagine-t-on Victor Hugo sans les trois syllabes de Jéhovah qui font fuir Caïn « échevelé, livide au milieu des tempêtes » ? Sans cathédrale ? Les symboliques aussi, de façon plus lancinante, plus intérieure, mais il commence à s'estomper, à clignoter... Quand il ne sera plus là, il faudra trouver d'autres moyens pour rattraper le temps perdu, envolé comme un papier sur un quai de gare.

 

 

 

Alix de Saint-André

in  Il n’y a pas de grandes personnes

© Gallimard 2007

 

 

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1.7.09

 

 

 

André Malraux (1901-1976)

 

 

 

 

1965

au large de la Crète

 

Je me suis évadé, en 1940, avec le futur aumônier du Vercors. Nous nous retrouvâmes peu de temps après l'évasion, dans le village de la Drôme dont il était curé, et où il donnait aux Israélites, à tour de bras, des certificats de baptême de toutes dates, à condition pourtant de les baptiser : " Il en restera toujours quelque chose... " Il n'était jamais venu à Paris : il avait achevé ses études au séminaire de Lyon. Nous poursuivions la conversation sans fin de ceux qui se retrouvent, dans l'odeur du village nocturne.


— Vous confessez depuis combien de temps?

— Une quinzaine d'années...

— Qu'est-ce que la confession vous a enseigné des hommes?

— Vous savez, la confession n'apprend rien, parce que dès que l'on confesse, on est un autre, il y a la Grâce. Et pourtant... D'abord, les gens sont beaucoup plus malheureux qu'on ne croit... et puis...

Il leva ses bras de bûcheron dans la nuit pleine d'étoiles :

« Et puis, le fond de tout, c’est qu'il n'y a pas de grandes personnes... »


Il est mort aux Glières.


Réfléchir sur la vie — sur la vie en face de la mort — sans doute n'est-ce guère qu'approfondir son interrogation. Je ne parle pas du fait d'être tué, qui ne pose guère de question à quiconque a la chance banale d'être courageux, mais de la mort qui affleure dans tout ce qui est plus fort que l'homme, dans le vieillissement et même la métamorphose de la terre ( la terre suggère la mort par sa torpeur millénaire comme  par sa métamorphose, même si sa métamorphose est l'oeuvre de l'homme) et surtout l'irrémédiable, le : tu ne sauras jamais ce que tout cela voulait dire. En face de cette question, que m'importe ce qui n'importe qu'à moi? Presque tous les écrivains que je connais aiment leur enfance, je déteste la mienne. J'ai peu et mal appris à me créer moi-même, si se créer, c'est s'accommoder de cette auberge sans routes qui s'appelle la vie. J'ai su quelquefois agir, mais l'intérêt de l'action, sauf lorsqu'elle s'élève à l'histoire, est dans ce qu'on fait et non dans ce qu'on dit. Je ne m'intéresse guère. L'amitié, qui a joué un grand rôle dans ma vie, ne s'est pas accommodée de la curiosité. Et je suis d'accord avec l'aumônier des Glières — mais s'il préférait qu'il n'y eut pas de grandes personnes, lui, c'est que les enfants sont sauvés...


Pourquoi me souvenir?


Parce que ayant vécu dans le domaine incertain de l'esprit et de la fiction qui est celui des artistes, puis dans celui du combat et dans celui de l'histoire, ayant connu à vingt ans une Asie dont l'agonie mettait encore en lumière ce que signifiait l'Occident, j'ai rencontré maintes fois, tantôt humbles et tantôt éclatants, des moments ou l'énigme fondamentale de la vie apparaît à chacun de nous comme elle apparaît à presque toutes les femmes devant un visage d'enfant, à presque tous les hommes devant un visage de mort. Dans toutes les formes de ce qui nous entraîne, dans tout ce que j'ai vu lutter contre l'humiliation, et même en toi, douceur dont on se demande ce que tu fais sur la terre, la vie semblable aux dieux des religions disparues m’apparaît parfois comme le livret d’une musique inconnue.

 

André Malraux

in Antimémoires

© André Malraux, 1967

 

Imagem: via Flickr

 

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19.6.09

 

Reality has always been interpreted through the reports given by images; and philosophers since Plato have tried to loosen our dependence on images by evoking the standard of an image-free way of apprehending the real. But when, in the mid-nineteenth century, the standard finally seemed attainable, the retreat of old religious and political illusions before the advance of humanistic and scientific thinking did not — as anticipated — create mass defections to the real. On the contrary, the new age of unbelief strengthened the allegiance to images. The credence that could no longer be given to realities understood in the form of images was now being given to realities understood to be images, illusions. In the preface to the second edition (1843) of The Essence of Christianity, Feuerbach observes about "our era" that it "prefers the image to the thing, the copy to the original, the representation to the reality, appearance to being"—while being aware of doing just that. And his premonitory complaint has been transformed in the twentieth century into a widely agreed-on diagnosis: that a society becomes "modern" when one of its chief activities is producing and consuming images, when images that have extraordinary powers to determine our demands upon reality and are themselves coveted substitutes for firsthand experience become indispensable to the health of the economy, the stability of the polity, and the pursuit of private happiness.


Feuerbach's words — he is writing a few years after the invention of the camera — seem, more specifically, a presentiment of the impact of photography. For the images that have virtually unlimited authority in a modern society are mainly photographic images; and the scope of that authority stems from the properties peculiar to images taken by cameras.


Such images are indeed able to usurp reality because first of all a photograph is not only an image (as a painting is an image), an interpretation of the real; it is also a trace, something directly stenciled off the real, like a footprint or a death mask. While a painting, even one that meets photographic standards of resemblance, is never more than the stating of an interpretation, a photograph is never less than the registering of an emanation (light waves reflected by objects) — a material vestige of its subject in a way that no painting can be. Between two fantasy alternatives, that Holbein the Younger had lived long enough to have painted Shakespeare or that a prototype of the camera had been invented early enough to have photographed him, most Bardolators would choose the photograph. This is not just because it would presumably show what Shakespeare really looked like, for even if the hypothetical photograph were faded, barely legible, a brownish shadow, we would probably still prefer it to another glorious Holbein. Having a photograph of Shakespeare would be like having a nail from the True Cross.

 

Susan Sontag

in On Photography

© Susan Sontag

 

 

Imagem: Jackie, c.1964 (Inauguration) de Andy Warhol, encontrada aqui

 

mais citações neste blog da mesma obra de Susan Sontag aqui e também aqui

 

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13.6.09

 

 

 

 

 

 

Para a sé vai Stº António

Vestidinho de encarnado

Leva o menino nos braços

No seu livro vai sentado

 

Os anjos que o viram ir

Ficam de rosto inclinado

Vendo ir o Deus menino

De outro menino levado

 

Chega ao altar da Stª Virgem

Com muito amor muito agrado

Entrega-lhe o bento filho

Seu amor e seu cuidado

 

Adeus Jesus da minha alma

Adeus menino sagrado

Que são horas de matinas

E o sino não está dobrado

 

Deita a correr à torre

À torre em passo dobrado

Que das horas de matinas                              Para tocar a matinas

O tempo é quase passado

 

Os cónegos que o não ouvem

E que tinham bem ceado

Na cama se espreguiçam

E se viram do outro lado

 

À porta da igreja o demo

N’um cantinho acanhado

Espreita o santo menino

Para o colher em pecado

 

Toda a vida o bom do santo

C’o demo andou apostado

A qual há de ser mais fino

Qual há de ficar logrado

 

Vendo-o a correr à torre

E o tempo quase passado

Disse o demo agora António

Que te tenho apanhado!

 

Deixa dormir os meus cónegos

O seu sono regalado

Que à ceia estive eu com eles

E ficou tudo arrasado

 

Não és tu que hoje os despertas

Com o teu sino dobrado

Que da seca das matinas

Eu os tenho dispensado

 

Trás almoçar no aljube

Meu santinho desregrado

Que já não tangerás a matinas

No tempo determinado

 

Passou-lhe adiante dum salto / dum pulo

E se foi pôr emboscado

Na volta que a torre dá

Para o deixar assombrado

 

Salta o santo a dois e dois

Os degraus sem mais cuidado

Senão quando que deparou                       Senão quando de repente

Com o anjo condenado                              lhe apareceu o condenado

 

Com tão feia catadura

De tanto fogo cerrado

Que todo o valor de António

Ali ficou soçobrado                                     desmaiado

 

Queria bradar Jesus

E em gesto de assustado

Quis dizer-lhe vade retro

Da garganta está tomado

 

Mas erguendo a mão direita

Mesmo assim desatinado

Na dura pedra da torre

Deixou o sinal sagrado

 

Toda a sé velha tremeu

E Satanás despeitado

Nas profundas dos infernos

Foi cair precipitado.

 

Tocou o sino a matinas

No tempo determinado

Os cónegos despertou

O demo ficou logrado

 

 

O bento sinal da cruz

Na pedra ficou gravado

E ainda hoje de memória                     Ainda hoje o sinal santo

Na torre está conservado                     Na muralha está gravado

 

 

 

 

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

Imagem: Santo António de Pádua (detalhe de Bom Pastor), marfim, séc. XVII,  encontrado aqui

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12.4.09

 

 

 

 

"Barca Nova"

manuscrito autógrafo de Almeida Garrett

 

 

 

 

BARCA NOVA

 

 

Quem quer ver a barca nova

Que se vai deitar ao mar ?

San João é marinheiro

Os anjinhos a remar

 

Por bandeira as Cinco Chagas

São o estandarte real;

Dentro vai Nossa Senhora,

Agulha de marear.

 

As três Marias à proa

Sentadas vão a cantar,

Seus manteos pela cabeça

A gemer e a chorar:

 

- “Oh vós todos que passais

Pela terra e pelo mar,

Vinde ver a minha dor

Se há dor que a possa igualar !”

 

Ali vai Nosso Senhor

Ali vai a enterrar,

Nos braços da Virgem Santa

Que o está a amortalhar

 

Vai José e Nicodemus

Para o  ungir e imbalsemar;

Chegou ao Santo Sepulchro

Lá o vão depositar.

 

Venham guardas e soldados

Este sepulchro a guardar !
Mas no cabo de  três dias

Vê-lo hão ressuscitar

 

À mão direita do Padre

Na glória se há de ir sentar;

E no cabo desta vida

Ele vos virá julgar

 

Pecadores, pecadores

Não vos deixais afogar:

Acolher à barca nova

Os que se querem salvar

 

 

 

 

manuscrito autógrafo de Almeida Garrett

Introdução a "Barca Nova"

 

 

 

Nestas trovas — que não sei se lhes chame romance, lenda, loa ou o quê — há um ar de semelhança tão visível com a “Barca dos Anjos” de Gil Vicente, há um sabor tão forte àquela alusão poética e apaixonada da meia-idade, que me não fica a mínima dúvida de que nasceu por esses tempos. Daí se viria traduzindo, pela tradição oral que a conservou, até ao presente estado em que se acha.

 

Hoje, Quinta-feira santa de Abril de 1843, a copiei do que estava ensinando a minha filha Maria Adelaide, a nossa cozinheira Joaquina, mulher de cinquenta anos à volta, natural de Torres Vedras.

 

Já notei noutra parte que este nome de Barca significava dantes o que quer que fosse de representações musicais misturando o canto na declamação.

 

Seria isto composto para alguma procissão do enterro do Senhor que noutro tempo, especialmente nas províncias do Norte, era uma espécie de auto ou representação daquele último passo da paixão do cristo ?

 

É também para notar — e nem é imprópria a ocasião — quanto os portugueses nação marítima e marinheira, gostavam de dar à última viagem que se faz no féretro todo o aparelho de uma viagem de mar. “Esquife” que em muitas línguas, e também na nossa, significa uma pequena embarcação – em português igualmente quer dizer a tumba em que se leva os mortos a enterrar.

 

Lembro-me de ver, em pequeno, na Igreja que fora dos jesuítas, em Angra, um esquife com a forma e jeito de barco, que servia para levarem na procissão do enterro em Sexta-feira Santa a imagem do Senhor morto.

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

conheça a história dos manuscritos aqui (blog "O Divino", post de 7-12- 2004)


10.4.09

 

 

 

 

 

Em tempo de Ressurreição veio-me à memória, como vem muitas vezes a propósito de tudo e a propósito de nada, a minha mãe.

Tenho dela uma vaga ideia, quando ela morreu tinha três anos e meio, mas tenho do seu enterro uma impressiva visão centrada no fecho do caixão onde ela estava depositada tendo um manto azul a cobrir-lhe a cabeça. Muita gente a chorar, muitos afagos na minha cabeça e o Laribau a um canto a olhar ensimesmado todo o tropel das pessoas e, a dizer-me palavras amigas. Nada mais. Morria-se muito naquele tempo, a assistência sanitária deficiente, a carestia alimentícia, as epidemias consubstanciadas na disenteria, na difteria e na tuberculose davam imenso que fazer à megera da gadanha – a MORTE. As comunidades viviam o drama da perda respeitando um código arreigado em regras e deveres ao qual só escapavam os tontos, os pedintes e as crianças mais pequenas. Mesmo estes tinham de respeitar os rituais fúnebres, sob pena de sofrerem adequada sanção. Porque assim era, cedo percebi o significado dos lutos, das suas diferentes gradações. A morte de um filho impunha determinado tempo de luto pesado à mãe, a morte do marido representava frequentemente luto perpétuo, a morte de um primo era encarada de forma mais ligeira. No entanto, nunca por nunca deixei de ir a enterros, porque: “era uma obrigação”, assim o determinava a minha avó. A ida aos enterros envolvia uma adequada representação formal, não podia rir, muito menos gargalhar, só acabando a obrigação após sairmos do cemitério. Os enterros de gente importante, de Vinhais, ou a quem a família devia obrigações mais apertavam o torniquete de modo a minha irrequietude estar devidamente controlada. Uma vez, num sufocante dia de se pedir a intercessão de Santa Bárbara, comecei a ficar possuído por bichos-carpinteiros, enquanto muitos padres cantavam uma missa, que hoje sei ter sido de Requiem. O incenso, o calor, a duração do acto levavam-me a retorcer-me a todo o momento, tendo os meus sucessivos movimentos sido sustidos após ter levado um valente beliscão num dos braços, acompanhado de um carregado olhar debaixo de sobrancelhas franzidas. Nos enterros os homens raramente choravam, as mulheres choravam muito, algumas gritavam enquanto arrepelavam os cabelos e soltavam palavras doridas devido à morte do familiar. A morte de um rapaz ou rapariga na “flor da idade” gerava uma grande emoção em toda a aldeia. Guardo violentas imagens dos momentos dessas despedidas finais. Nessa altura já percebia a importância da morte da minha mãe, muito mais tarde percebi em toda a sua amplitude o significado da sua perda em termos de segurança, protecção, cuidados e afectos. Ela tinha uma função única, ímpar. A adaptação à morte da Mãe, no meu caso, centrou-se na minha avó materna. Na altura nada sabia sobre vinculação e separação, mas este artigo prova a ligação simbólica que nutro e me apazigua, quando evoco as minhas duas mães. Naquele tempo não existia a vergonha pela morte dos parentes, os lutos estavam rigorosamente pré-determinados, sendo alvo de censura quem se atrevia a levantar o luto antes de tempo. O luto assumia uma função de sagrado, que nestes tempos de globalidade e desafectação de sentimentos é desrespeitado de uma forma generalizada. A morte era admitida no seio da comunidade como elemento natural, daí que o corpo fosse lavado por um parente próximo, sendo depois colocado em casa a fim de ser velado durante a noite inteira. O cadáver ali estava a ouvir histórias e murmurações sobre a sua vida, ninguém tinha medo de ser contaminado, ninguém entendia o morto como coisa anormal na casa, daí não se recorrer a agente funerário para se encarregar das tarefas de o colocar em condições de ser enterrado. O luto podia ser antecipado, caso de pessoa muito idosa e a “morrer aos poucos”. A família aguardava o desenlace com naturalidade e, quando o sino começava a soltar notas preguiçosas logo as mulheres se encaminhavam para casa do falecido, a fim de ajudarem nos preparativos da sua encomendação. A família exibia sinais de conformidade e resignação, mesmo tratando-se de viúva ou viúvo. Os anjinhos, crianças pequenas, iam direitinhos para o céu nos esquifes debruados a cetim. Não me custava nada imaginar tais viagens. Custava-me mais ver dias, meses, anos a fio homens a exibirem sobre as camisas peitilhos pretos, as mulheres mesmo no pino do verão de preto todas vestidas mais o lenço negro na cabeça. Agora, os lutos não são evidentes, raramente se vê um fumo preto na manga de um casaco, mas o problema dos lutos mal resolvidos subsiste, os lutos não reconhecidos estão em queda, os lutos patológicos ou para sempre, manifestam-se nos consultórios dos psiquiatras, especialmente quando a perda é inesperada. Não é propósito deste artigo tratar aqui desses lutos é, isso sim, uma homenagem às minhas Mães, apesar de: “Mãe há só uma, a nossa e mais nenhuma”. Mas a minha avó foi uma mãe formidável. Podem acreditar. Neste período de Páscoa, sabe-me bem escrever sobre elas, porque me deram a imprescindível segurança naqueles primeiros anos.

 

Armando Fernandes

 

PS. 1. A bibliografia sobre as atitudes perante a morte é imensa. Sobre o efeito da morte de parentes queridos nas crianças, sugiro: A Child’s Parent Dies: Studies in Childhood Bereavement. Yale University Press.

2. A viuvez e, especialmente as viúvas, merecem conveniente artigo. Vou ver se não me esqueço.

 

 

© Armando Fernandes

NORDESTE, Semanário Regional de Informação

Edição de 05-04-2005

 

Imagem: fotograma do filme A Palavra de Carl Theodor Dreyer

 


8.12.08

 

Ao receber esta manhã a notícia da morte de António Alçada Baptista, fui reler Peregrinação Interior à procura de um excerto para aqui publicar. Recordava acima de tudo a simplicidade e o sentido de humor com que o autor descreve episódios da sua infância na Covilhã. Ficou para mim como um livro de memórias, um dos meus favoritos de sempre de um escritor português.

 

António Alçada Baptista é um dos escritores que cito em “Retrovisor, um Álbum de Família”. Reencontrei hoje aquelas qualidades intactas, assim como os sorrisos e risos que muitas passagens inevitavelmente convocam. Esquecera por completo as interrogações mais profundas destas “Reflexões sobre Deus” e mesmo o subtítulo deste memorial interior, como lhe chama o autor.

 

 

 

Às vezes penso numa coisa que havia ali na feira popular, em Palhavã, e que era o Poço da Morte. Pagavam-se quinze tostões e os voluntários eram submetidos à força de um vórtice que os fazia subir colados às paredes. Eu nunca tive coragem para me meter naquilo, mas ficava espectador interessado daquela minoria audaz que se entregava livremente à força que a fazia subir. Depois a máquina parava e as pessoas continuavam normalmente coladas ao chão, passeando a sua banalidade somente interrompida.

 

Sinto que um imenso surto vital irrompe na grande comunidade de espaço e de tempo em que estamos imersos. Que ele é feito do esforço dos criadores, santos, poetas e sábios, nomeados ou não, que ao longo dos tempos fizeram dum pequeno sopro interior a epopeia da conquista da verdade e da liberdade que paira ao longo da história como sua e nossa justificação. Sei que para a maioria das pessoas coisas destas nada significam, mas que há outras que fizeram da sua integração nesta epopeia a sua razão de viver. Julgo que Deus estará em mim e eu nele enquanto for capaz de manter esta vontade vital de permanecer na força do seu vórtice criador.

 

 

 

António Alçada Baptista

in Peregrinação Interior I

© Editorial Presença

 

 



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