27.12.12

 

 

 

Contracapa de Revista Panorama, 1960



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20.12.12

 

 

 Timor, anos 20 do séc. XX?

 


Jesus mouris iha manu kokoreek!  Jesus nasceu ao cantar do galo!

A luz do petróleo incendiava a casa de estrelas. E íamos, toda a gente, a família e os que viviam connosco em família, festejar o nascimento de Jesus que o galo anunciara.[…] Recebíamos presentes trazidos do bazar e que tinham entrado em casa às escondidas. Não eram bem brinquedos, mas coisas que nos enfeitavam — tecidos bonitos, alfinetes de ouro, chinelas bordadas...

A Princesa minha mãe morreu, era menina ainda. Mas o Natal ficou nos meus olhos e na minha alma como afirmação de que Jesus passeara por toda a ilha de Timor tal como o fizera desde Belém a Jerusalém.

 

*

 

Na linha de cultos lunissolares, que imprimiu e imprime sinais e marcas indeléveis na alma dos Timorenses, a consubstanciação de Maromak como ente supremo, Deus, não representava qualquer oferta de paz ou de alívio. Pelo contrário o conhecimento, a consciência de Maromak impunha receio e inquietação. […] Carregado de superstições, crente da existência de espíritos vagueando, dominado pela vontade e atitudes de bruxos e feiticeiros, responsabilizado pelos oráculos ou sacerdotes, o Timorense não pôde despir-se de todas as suas vestes ancestrais para com simplicidade tornar-se cristão. Isso explica em grande parte que ainda hoje se prenda tanto à terra e considere os objectos mais variados e lugares, montes, rios, árvores e casas como tabus ou luliks. De facto, entre o Homem e a Terra, e entre o presente e o passado há tão intimas e tão vivas alianças que dir-se-ia ser fácil fazer reviver todas as gerações do passado. De crenças totemísticas, há também animais luliks ou tabus, o que explica a atitude suave de todo o timorense para com os animais. Deve assinalar-se, para melhor acentuar a importância dos luliks na vida dos autóctones de Timor, que tabu significa exactamente uma prática supersticiosa da Oceânia que dá carácter sagrado a determinado ser ou a determinada coisa, proibindo o contacto com ele ou o seu uso. [...] O Cristianismo só o entendem na medida em que lhes garante o caminho para encontrar a Deus, mas querem, na busca, ter presente o melhor e mais subtil do seu passado. Por isso os uma-luliks ou templos permanecem na sua beleza estranha e misteriosa encastoados na paisagem grandiosa da ilha e cultuados pelos que têm os pés mergulhados no húmus mais fundo e mais rico daquele chão. Muitas das cerimónias dos uma-luliks, as de maior relevo, conduzem os crentes a um tal estado de histerismo que findam em incontroláveis orgias. As famílias autóctones cristãs já se despegaram dessas orgias, porque receberam a suavidade da Presença de Jesus e a magnitude da Sua mensagem. [...] Como no tempo em que eu era pequeno e a Princesa minha mãe menina, os autóctones cristãos dessa ilha suave e viril, fruto de uma inexplicável simbiose de beleza e força, cultuarão o Menino Jesus na noite de Natal. E tal como eu, também os meninos de agora ouvirão das bocas de suas mães as palavras de anúncio do Anjo Gabriel:

Ave Maria, graça barak liu iha Ita-Boot; Maromak ho Ita-Boot; Ita-Boot di'ak liu feto hotu-hotu; Ita-boot nia Oan, Jesus, di’ak liu.

Santa Maria, Maromak nia Inan, haro-han ba Na'i Maromak tan ba ami-ata salan, oras ne'e ho oras ne'ebé ami-ata becik atu mate. Amen.

 

 

Fernando Sylvan aqui

Excertos de “Iha Kalan Boot – Jesus Mouris –  Iha Manu Kokoreek” 

Foto (data desconhecida) e texto publicados em Panorama Revista de Arte e Turismo nº 24-III Série-Dezembro de 1961 - Edição do SNI, Lisboa

 


 

 

 



21.9.12

 

 

  

..

João Marques de Oliveira (1853-1927).

Óleo sobre madeira (59,5x41 cm)
Museu José Malhoa, Caldas da Rainha, Portugal



Esta e outras marinhas na pintura portuguesa aqui




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13.8.12

 

 

 

 

 

Mordoma de Vila Franca do Lima com o cesto de promessa para as Festas da Senhora da Agonia


Viana do Castelo, Portugal, c. 1970

 

 

 

Museu do Traje de Viana do Castelo aqui 

Mais trajes aqui

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30.7.12

 

 

 

 

Gabrielle Douglas fotografada por Martin Schoeller para a revista Time

 



Training his lens on several of the American athletes headed to London for the 2012 Olympic Games (as well as Oksana Masters, who will be rowing in the Paralympic games in late August), Schoeller gives the viewer an intimate glimpse at the person behind the fierce competitor...

 



este texto e mais fotografias  aqui

 

a crítica da revista Salon aqui 


Martin Schoeller aqui




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27.7.12

 

 

 

 

 

desenho de Roz Chast

 


 


 

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11.7.12

 

 

 

 

 

Piet Mondrian (1872-1944)

oil on canvas, private collection, Switzerland
©ABC/Mondriaan Estate / Holzman Trust licensed by International Partners B.V. 
 
 
 

10.6.12

 

Nagasaki Kunchi Festival (2011)

 

 

The Kunchi festival of Nagasaki was first celebrated in 1634.The festival was originally part of the bakufu policy to forge a Yamato spirit for Nagasaki, which up to 1614 had been Japan's only Christian town. The Kunchi festival started out as an anti-Christian festival, in which the anti-Christian forces in Nagasaki - the bakufu, Shinto, Buddhism and the brothel wards - all joined hands to provide an alternative to the famous Easter processions, which had been performed throughout the city during the Christian period (1570-1614).

After a devastating fire in 1857, Nagasaki Kunchi became a "new" festival in which the participating neighborhoods were free to innovate and to compete with each other in creating opulent and eye-catching performances. The result is the stunning array of presentations we see today, many of which reflect the international color and unique history of Nagasaki.

 

 

 

 

Suwa shrine (main location) Iwaibune ("celebration ship"). 

 


 

Nagasaki Kunchi Festival 2011

 

 

 

Nagasaki Kunchi Festival 2011

 

 

 

 

 

Nagasaki Kunchi Festival 2011

The dragon, Kokkodesho?

 


Captions: from text by Reinier Hesselink here

 

 

Embaixada de Portugal em Tóquio aqui

 

The Last Nan Ban Jin, Aventuras e desventuras de um português no Japão, em pleno Século XXI aqui 

 

 

Nagasaki

 

 

 

 

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6.4.12

 

 


 

 

Gerhard Richter

Cloud (1976)

 aqui

 

 


Évangile selon saint Marc

Mc 5, 33-37

 

A la sixième heure, l'obscurité se fit sur toute la terre, jusqu'à la neuvième heure. Et, à la neuvième heure, Jésus poussa un grand cri : « Eloï, Eloï, Lamma sabacthani? » Ce qui veut dire : « Mon Dieu, mon Dieu, pour­quoi m'as-tu abandonné? » Certains de ceux qui étaient là dirent, en l'entendant : «Tiens, il appelle Élie.» Quelqu'un courut imbiber une éponge de vinaigre et, l'ayant mise au bout d'un roseau, lui donna à boire en disant : «Attendez, voyons si Élie va venir pour le descendre à terre ! »

Mais Jésus, ayant jeté un grand cri, expira.

 

 

[...]


G.S. : Après cet appel sans réponse de Dieu qui n'éveille que moquerie ou pitié des hommes, Jésus gémit sa soif comme un homme, comme un être de besoins qu'il était...

 

 

F.D. : Mais c'est à ce moment-là qu'il se montre autre, et venu d'ailleurs: ce moribond pousse alors, dans un dernier effort, au son d'un grand cri, le souffle venu d'ail­leurs. Par ce souffle il a respiré, il a vécu, il a parlé, par ce souffle rendu il quitte ce passage dans la chair.

Ce long cri du Christ abandonné des hommes, aban­donné de Dieu son Père, ce cri qui appelle, sans réponse audible, ce cri n'est-il pas le modèle des mots d'amour, d'amour et de désir, aux limites de l'articulé et du son?

C'est par le cri que le nouveau-né en appelle à sa mère pour s'y blottir, se calmer, apaiser sa soif et sa faim.

C'est par le cri que tout enfant en appelle à son père pour être protégé des méchants.

C'est par le cri que tout humain fait appel pour préserver son droit à l'intégrité quand une part de son corps, trahie par la douleur, se dérobe à la cohésion de l'ensemble et se disloque. Ce cri alors en appelle au secours d'un autre, à son aide.

Cri du besoin, cri du désir, cri de l'amour trahi, cri d'un fils d'homme, cri de tous les hommes. En son cri, ils peuvent tous se reconnaître.

Ce cri, entendu par tous les témoins, ce cri étrange, mystérieux, insolite et inépuisable, n'est-il pas le mes­sage où déchiffrer la résurrection assumée de la chair, audible en ses prémisses, là, au moment de sa mort en croix, par Jésus de Nazareth?

Ce cri de Jésus exposé entre terre et ciel s'est répandu dans l'espace. Il résonne toujours.

 

 

Francoise Dolto e Gérard Sévérin

in L'Évangile au risque de la psychanalyse (Au pied de la Croix , Tome I )

Éditions du Seuil

© Éditions Universitaires, S.A., 1977, J.-P. Delarge, éditeur



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21.2.12

 

 

 


Gonçalo Luiz Maravilhas Caldeira Coelho
 Foto/Bilhete-Postal : Furtado & Reis, Lisboa 1928

 

 

 

 

 

Fotografia publicada no livro "Retrovisor, Um Álbum de Família" aqui 

 



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14.2.12

 

 

C'est à Londres, en 1822, que fut écrite, d'un seul jet et à la suite, la plus longue partie de ce qui sera plus tard les Mémoires d'outre-tombe. Le voyage en Amérique, le retour en France, le mariage, le passage à Paris, l'émigration, la guerre dans l'armée des princes, le séjour en Angleterre et les sept années terribles de 1793 à 1800, avec l'intermède lumineux et tragique de Charlotte à Bungay, furent rédigés sous les ors du somptueux hôtel de Portland Place qui faisait un contraste romanesque et enchanteur avec les récits des temps obscurs.


Peut-être est-il temps de dire ici, avec les mots les plus simples, que les Mémoires d'outre-tombe constituent un des cinq ou six monuments majeurs de la littérature française. Si notre langue est ce qu'elle est, les Mémoires d'outre-tombe y sont pour quelque chose.  Ils  se  situent quelque part,  en beaucoup plus amusant, entre l'Iliade et l'Odyssée, la Divine Comédie, Don Quichotte de la Manche, le Paradis perdu, les Souffrances du jeune Werther et Guerre et Paix de Tolstoï. Dans la prodigieuse lignée qui va de la Chanson de Roland, des quatre grands chroniqueurs, de Rabelais et Montaigne jusqu'à Hugo, Balzac et Proust, en passant par Saint-Simon et Jean-Jacques Rousseau, Chateaubriand tient sa place d'abord parce qu'il a écrit les Mémoires d'outre-tombe. Rien de ce qui est raconté dans ces pages sur ses amours infidèles n'aurait le moindre intérêt si tous ces visages de femmes n'étaient, à la fois, dissimulés et révélés par les Mémoires d'outre-tombe.


On aurait tort de s'imaginer que la vie des grands hommes offre quelque modèle que ce soit à ceux qui les admirent. Il ne suffit pas de boire comme Verlaine, de faire la révolution comme Malraux, d'être homosexuel comme Proust,  ou couvert de femmes, monarchiste et chrétien comme René de Chateaubriand pour avoir du génie. Il faut d'abord avoir du génie; ensuite, on se débrouille comme on peut avec une vie quotidienne dont rien ne demeure négligeable à partir du moment où tout y est soutenu par le talent et la passion. Alors, le moindre détail se révèle incomparable; le moindre secret, irrésistible. C'est quand il y a quelque chose au-dessus de la vie que la vie devient belle.

 

 

Jean D'Ormesson

in Mon Dernier Rêve Sera pour Vous.

Une biographie sentimentale de Chateaubriand

© 1982, Éditions Jean Claude-Lattès

 

 

 

 

 

 

 

 

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31.12.11

 

 

 

e votos de um Bom 2012.

 

 

 

Imagem: Mercado de Belém do Pará, 2009

 

 

 

 

 


28.12.11

 

 

 

 

 

Anúncio da Mobil
contracapa de Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo

nº 4 - IV Série - Dezembro de 1962

 

 

 

Outro anúncio da Mobil aqui e mais sobre a campanha da Mobil nas tags design e publicidade

 

Sobre a Mobil Oil Portuguesa veja aqui

 

 

 

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12.12.11

  

 

 

 

Capa de Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo 

nº 4 - IV Série - Dezembro de 1962

 

 

 

 

 

Imagem: Presépio - Trecho — Josefa de ÓbidosMuseu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

 


Sobre a revista Panorama leia aqui

Outras imagens do Natal na pintura portuguesa aqui

 

 

 

 

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11.12.11

 

 

 


página de Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo

nº 4 - IV Série - Dezembro de 1962

Foto: A. Santos d'Almeida Jr.   

 

Notas:


Os esquiadores estão junto à imagem de Nossa Senhora da Estrela, a dois quilómetros da Torre, identificada aqui

Veja quem esculpiu a imagem aqui 



 

 

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9.12.11

 

 

 

 

 

Capa de Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo

nº 24 - IV Série - Dezembro de 1967

 

 

Imagem: Presépio de madeira policromada que preenche o relicário de Santa Catarina de Sena.

Século XVII. Museu de Grão Vasco, Viseu.

 

Sobre a revista Panorama leia aqui

 

 

 

 

Museu de Grão Vasco aqui

Visita virtual aqui

 

 

 


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15.11.11

 

 

 

Anonymous (17th Century)

 

 

 

  

Dear Readers,

 

Today we celebrate the blog's third anniversary. Having reached an average of 30 daily hits, I keep an eye on the stats to get a sense of what my visitors are looking for. Most visitors from Portugal seem to be looking for people, places and curiosities from the past, some of which are half forgotten but still deserving of an extra fifteen minutes. After all, there’s not such a great deal of Portuguese material on the web.

 

Many visitors, and perhaps the majority of those who come from abroad, reach Retrovisor via a google search. Some reach it via a few other blogs, which I take this opportunity to thank. I’m also proud to announce that Retrovisor was recently nominated for a “Versatile Blogger Award" (details here). My sponsor describes it as “a blog which has morphed from an antique photo blog into a collection of literary quotes from different sources”. As for me, I see it as a “cabinet de curiosités”. I strive to keep it versatile within the remit of its main themes, which are visible in the tag cloud on your right.

 

Thank you for your visit!

 

 

 

Image:  Cabinet de curiosités  here

 

 


5.9.11

 

 

Mais tout vivant basculant dans l’inconnu de la mort ne devient-il pas un enfant ? Non pas qu'il le devienne, la mort n'est pas un retour à un état antérieur, mais, comme le nouveau-né passe d'un monde clos à un espace immensément ouvert, le nouveau-mort passe d'un monde limité, aussi vaste et intense soit-il, à un infini ; il y a expulsion hors d'une intimité vers un inconnu radical. Et l'un et l'autre sont hors langage, infans, privés de parole.

Le nouveau-né, encore si démuni, on peut le prendre dans ses bras, on le lave, le nourrit, on le berce, on lui parle doucement, on le caresse; on l’accueille en notre monde qui d'emblée se fait sien, on reçoit un nouveau vivant parmi nous, les vivants de tous âges. Il est notre contemporain, minuscule et porteur de mille possibles. Il est une promesse, une histoire inédite qui surgit, dont on ignore encore tout et qui d'entrée de jeu éveille notre intérêt, et engage aussi notre responsabilité.

Le nouveau-mort, lui, se trouve d'un coup et absolument démuni. Sitôt inhumé ou incinéré, son corps nous échappe à jamais. Et le lien de contemporanéité se brise irrévocablement. Son histoire est parachevée, plus une virgule, plus un iota ne pourront y être ajoutés ou retranchés. Un vivant s'en va, et on ne sait pas où.

Nulle part, quelque part ? Va-t-il se dissoudre dans le néant ou s'aventure-t-il en un ailleurs insoupçonné ? Est-il voué à revenir sur cette terre au terme d'un jugement karmique ? Certains ont un avis tranché sur ces questions, les athées et les croyants déclarés, et parmi ces derniers, la représentation de l’Ailleurs où vont les défunts varie selon la religion où leur foi s'enracine. Beaucoup ont un avis flottant et une imagination fantasque - qui n'en est pas moins bien piètre souvent, et finalement fort peu imaginative.

 

Plus de présence physique, plus de paroles, plus de partage, et une mise à l’arrêt du savoir. Comment le souci pour les nouveau-morts peut-il dans ces conditions se traduire en actes, se manifester en soins à leur intention ?

 

 

Sylvie Germain

in Le monde sans vous  p.125-126

© Éditions Albin Michel, 2011

 

 

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24.6.11

 

 

São João Baptista, Brasil, séc XIX

 

 

Por manhã de São João,

Manhã de fresca alvorada,

A Virgem-Santa passeia

Deredor da fonte clara.

Venturosa da donzela

Que à fonte for buscar água

Por manhã de São João

Manhã de benta alvorada !

 

Baixou a filha do rei                                                

Da alta torre onde estava,                                                

Vestiu vestido de seda,

Calçou sapato de prata,

Pegou em cântaro de oiro

Para a fonte caminhava.

 

Ao chegar ao pé da fonte                                       

Com a Virgem se encontrava :                        

— « Deitai-me a benção, Senhora,

Que me deis um bom marido             

Com quem seja bem casada ! »

— « Casada sereis , donzela,

Bem casada e bem medrada.                                    

Três filhos haveis de ter,

Todos três de capa magna.

Um há de ser papa em Roma        

O outro primaz em Braga ;                        

O mais pequeno de todos                        

Dá-lo-eis à Virgem Sagrada :

Que se há de chamar João.                

João de Deus o seu nome,

Pastor da minha manada.

Aos pobres que não têm pão,

Aos doentes sem pousada

Ele há de dar casa e cama

Em honra desta alvorada.

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

Nota: este romance popular foi originalmente publicado no blog garrettiano O Divino, em Dezembro de 2004 

Imagem: Objetos da Fé, Oratórios Brasileiros (coleção Angela Gutierrez)

Catálogo apresentado no Museu de São Roque em Lisboa durante o evento "Lisboa Capital Europeia da Cultura",Março de 1994

 

 

 

                         

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13.6.11

 

 

 

St Anthony

Chiselled and carved wood;polychromy;19th century; Northeast; 14,5 x 85 cm

 

 

St. Anthony's surname is Padua, the name of the town where he died and was buried in 1231. He was born, however, in Lisbon around 1195, and was known as St. Anthony of Lisbon. Canonized one year after his death, he was worshipped only in Padua until the end of the 15th century when he began to be worshipped throughout Portugal and, finally, all over the world.

 

 

The attributes distinguishing him are, most often, the Boy Jesus sitting or standing on a book, which image is best known to us, since it was spread abroad by the baroque art of the Counter-Reformation, He may aiso carry in his hand lilies - symbol of purity -, a monstrance, grapevine branch and a crucifix. He may carry on his back a bag of breadrolls, when he is called St. Anthony of the Poor, or of Picuá. He always appears dressed in the habit of his Franciscan Order, brown or gray, belted with a cord, young and beardless, with a monk's tonsure. Rosaries generally hang from his belt.


 

St. Anthony is more invoked for romantic problems. That is when the Boy Jesus is taken from his arms until the "miracle" happens. His reputation and notoriety as the marrying saint must have come from colonial origins, when marriage and procreation, and consequent demographic growth, were obligatory for the success of Portuguese domination and occupation in the new lands.

 

 

Cristina Ávila

Silvana Cançado Trindade

Geography of the sacred in colonial Minas Gerais

in Objetos da Fé, Oratórios Brasileiros (coleção Angela Gutierrez)

Catálogo apresentado no Museu de São Roque em Lisboa durante o evento "Lisboa Capital Europeia da Cultura",Março de 1994

 

 

Outra imagem de Santo António e um inédito do Romanceiro Garretiano aqui

 

 

 

 

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12.6.11

 

 

 

 São Cosme e São Damião. Objetos de devoção popular.

 


O caso é que, antigamente, o sagrado andava misturado com o profano através da nossa vida quotidiana e tínhamos notícias constantes de um mundo que, em rigor, era habitado por Deus e os santos, os anjos e os demónios, as almas dos eleitos e dos condenados.

 

A relação com os santos era uma espécie de panteísmo. Na imensa policlínica das almas, só Deus Nosso Senhor era de clínica geral e os santos tinham especialidades e, de tal modo que, se você perdia uma libra, era melhor pedir o seu achamento a Santo António do que ao próprio Deus, Nosso Senhor. Este politeísmo assegurava a presença do sagrado: o ateísmo — fiquem sabendo — começa com a teoria e a prática do Deus único.

 

 

 

António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias aqui

© Editorial Presença

 

 

 

Imagem: Madeira recortada e policromada; sec. XIX; Diamantina (Minas Gerais) - 76 x 35,5 cm.

in Objetos da Fé, Oratórios Brasileiros (coleção Angela Gutierrez)

Catálogo apresentado no Museu de São Roque em Lisboa durante o evento "Lisboa Capital Europeia da Cultura",Março de 1994

 

 

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11.6.11

 

 

 

 

 Rui Chafes, O teu coração está a dormir, não o acordes demasiado cedo*  (2008)

 

 

 

[...] Tenho consciência de que, em idênticos cruzamentos da história, os abismos são muitos e de que algumas gerações que nos precederam, a pretexto de largar para grandes voos, caíram em grandes precipícios. Trata-se duma espécie de «Patologia das Sociedades Civilizadas», título que parece do Dr. Segismundo Freud, se é que não será mesmo dele. Algumas vezes, a rebelião contra as incomodidades sociais exprime-se, inesperadamente, pela sua identificação com as ideologias racionais. Quando, na Alemanha dos fins dos anos 20, princípios dos anos 30, a situação económica se deteriorou, muitos marxistas esfregaram as mãos de contentes porque as profecias de Karl Marx se iriam cumprir. O que aconteceu foi o que se viu: a ânsia duma mudança urgente, as aspirações unicamente dirigidas para o bem-estar material não se ligaram aos desejos de liberdade mas ao fenómeno inverso; ao medo da liberdade; as pessoas identificaram-se com uma forma de dependência duma atitude existencial que trocava a liberdade pelo paternalismo e pela protecção. Elas estavam sensíveis aos apelos feitos ao seu lado emocionalmente irracional, místico e infantil, porque esses apelos vinham reforçar a necessidade de se apegarem a figuras de autoridade que prometiam uma «nova vida».

 

Isto é só para dizer que, ao lado desses abismos, há uma forma sadia de encarar o romantismo, atitude a que, se fosse possível, eu chamaria «ingenuidade controlada», o que equivale a dizer que, muitas coisas em que a gente acreditava estão certas, só que mais ninguém acredita nelas e elas, em certa medida, viviam dessa crença. O Diabo, as almas do outro mundo e todos os fantasmas em geral, habitam um espaço de que eles não são os representantes maiores: esse espaço constituído pelo misterioso e pelo irracional vive da nossa própria crença e não estão dispostos a conviver com quem os recusa. Isto faz parte duma questão maior que é a de uma longa e não sei se eterna contradança entre a natureza e a cultura, nomeadamente quando ela incorporou uma excessiva dose de Razão. Não podemos dispensar a culturização do mundo, mas a verdade é que, desde que a Razão se apoderou dela, a cultura está prestes a destruir-nos, porque não há maior barbárie do que a da loucura da Razão. É então que a natureza reúne as suas forças e dá um grito. Neste mundo, racionalizado e politizado até à exaustão, o romantismo é capaz de ser esse grito que visa um «para além» do político. Hoje, não necessitamos de nenhum discurso político nem que seja o da «desconstrução» do conceito hegeliano do Estado. Necessitamos, isso sim, de um clima de interrogação onde seja possível analisar a metamorfose das condições interiores da alma. Eu sei: a gente diz «alma» e vocês riem-se mas, o que temos mais para enfrentar a barbárie?

 

 


António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias aqui

© Editorial Presença

 

 

 

* peça fotografada por LMD, 2010 (aqui); no âmbito da exposição KHORA, Fundação Carmona e Costa

 

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10.6.11

 

 

 

 

 

 

José Pedro Croft, sem título (1988)

ferro, 11x 57 x 57*

 

 

 


[...] A Pátria, sobretudo para aqueles que vivem dentro dela, é uma realidade que nem sempre é fácil consciencializar. Sou daqueles que recuperam com facilidade as fatalidades da fortuna e, talvez por isso, fico muito grato a todos os acasos que fizeram de mim o que sou. A verdade é que não desgosto de mim assim e arranjei comigo próprio uma tal cumplicidade que nunca me zango comigo. Sem vaidade, acho que o acaso nos dá o primeiro verso e que nos cabe a nós fazer o poema.

 

Por isso, gosto de ter nascido na Covilhã, acontecimento que se deu sem me terem pedido opinião. Gosto de Portugal e da língua portuguesa e de tudo aquilo que nos diziam quando éramos pequeninos e nunca ninguém me ouvirá um queixume por ter nascido português.

 

No entanto, nem sempre fui assim: no tempo do antigo regime vivi com alguma ansiedade a condição de ser português. Não tínhamos liberdade e aguentámos uma guerra colonial que era para mim uma vergonha. O Governo tinha tomado conta de todos os valores patrióticos e religiosos e por isso era com muita dificuldade que eu conseguia ter orgulho do meu país. A tentação queirosiana é muito grande e demoramos um pouco a descobrir o que tem de provinciano isto, de gostar de Paris. Como noutro lugar direi, devo ao Brasil as pazes que fiz com a minha Pátria.

 

Hoje, não tenho dúvida que a nossa relação com uma terra e com um povo molda decisivamente aquilo que somos e constitui até uma das poucas barreiras que nos restam para opor à massificação inevitável. Esta relação não é um folclore, nem um anacronismo piegas, nem o tique do tal optimista que vai creditando a seu favor tudo o que lhe vai acontecendo. O que sucede é que a nossa ligação à terra é capaz de ser uma descoberta tardia, nomeadamente para aqueles que, como eu, acreditaram sofregamente nas «luzes» e, por isso, durante algum tempo, tiveram a veleidade de apresentar a sua candidatura a «cidadãos do mundo».

 

Aquilo a que as selectas da instrução primária chamavam «a nossa terra», que os mestres-escola impunham como tema de redacção, é afinal uma realidade que se impõe com veemência e denodo. Não quero esconder que muitos intelectuais que prezo e admiro — o exemplo que me ocorre é o de Krishnamurti — consideravam a Pátria como factor de impedimento à solidariedade humana que deve caracterizar o processo do futuro. O que acontece, é que a sua ideia de Pátria, que, aliás, estava conforme ao entendimento geral da sua época, não tem nada que ver com a Pátria que hoje nos interessa. Naquele tempo, a Pátria tinha dentro de si um fundo belicista que, a partir da defesa da fronteira, pretendia a expansão e o domínio de outros povos. Ora, hoje, a Pátria não pode ser nada disso, mas ao contrário é a consciencialização e o desenvolvimento de uma cultura específica — quase diria de uma «maneira de ser» — que é necessário pôr em diálogo com os outros povos e culturas para a realização do universal. Assim, não é fácil definir a Pátria. Diria que é um tecido de sentimentos, emoções e ideias que cada vez está mais ligado à nossa sobrevivência «cultural» se, com esse nome, quisermos designar a própria sobrevivência do «ser» expresso através daquilo que nos distingue dos outros. Como é que isto se vai resolver num futuro bastante próximo, não sei, porque a identidade de um homem como a identidade de um povo são fenómenos que julgo incompatíveis com a massificação. 

 

António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias   p.154-155

© Editorial Presença aqui

 

 

 

* Fotografia de Laura Castro Caldas

Catálogo Arte na Colecção Contemporânea da Fundação Luso-Americana, CAM-FCG, Lisboa 1992

 



22.4.11

 

 

«Je vous appelle amis»: cette sublime amitié passe par le creuset de l’angoisse, comme le Christ lui-même s'y est soumis à Gethsémani. « II commença à ressentir tristesse et angoisse. Alors il leur dit: "Mon âme est triste à en mourir, demeurez ici et veillez avec moi." Etant allé un peu plus loin, il tomba face contre terre en faisant cette prière: "Mon Père, s'il est possible, que cette coupe passe loin de moi! Cependant, non pas comme je veux, mais comme tu veux." Il vient vers ses disciples et les trouve en train de dormir » (Mt 26,38-40). « Entré en agonie, il priait de façon plus instante, et sa sueur devint de grosses gouttes de sang qui tombaient à terre » (Lc 22,44).


C'est ce «je» là, follement désapproprié de lui-même et en même temps intensément présent à l’heure, tant redoutée, vers laquelle toute sa vie a tendu, qui parle d'amitié. Un «je» dépouillé à l'extrême pour mieux assumer la mission dont il a accepté la charge. Un «je» qui pense et veut en dehors de lui-même, aux confins de lui-même, au plus profond de soi.


Un «je» absolument incarné, fait de chair et de nerfs et de sang, et dont tout le corps se révulse à l’approche du supplice, s'épouvante et se révolte devant la mort. Un «je» fou d'amour pour les siens, pour son Père, pour la vie, mais qui ne se dérobe pas à la mort.

 

«Je vous appelle amis»: une telle amitié ne s'accommode ni de puérilité et de sentimentalité, ni de crainte servile et d'habile prudence; elle les rejette, elle vomit toute tiédeur, comme l'a puissamment exprimé Péguy : «Si on n'était pas abruti, mon enfant, si vous n'étiez pas abrutis, ankylosés par des générations entières de catéchisme, d'habitude catéchistique, mon enfant, qui ne serait saisi, qui ne serait épouvanté de ces lignes [du récit du Mont des Oliviers], de ces lignes atroces, de ces paroles effrayantes, de cette effrayante prière. [...] Si nous prenions les textes sacrés comme il faut prendre tous les grands textes, et comme nous ne les prenons pas, si nous prenions les textes sacrés comme il faut prendre (aussi) les textes classiques, dans leur plein, dans leur large, dans toute leur crudité, dans tout ce qu'ils ont saisi, dans tout ce qu'ils rapportent de la réalité même, si nous ne laissions pas, si nous n'admettions pas qu'il y ait entre eux et nous l'interception de l'habitude, nous serions, mon ami, nous serions épouvantés de ce texte.»(1)


L'appellation ici en jeu n'est pas qu'une dénomination, elle est aussi une convocation, un appel, une apostrophe. Le maître se tient à hauteur de ses disciples dont il vient de laver les pieds ; Dieu se tient à hauteur d'homme pour lequel il va se livrer. « C'était un homme qui parlait à des hommes,  martèle Péguy. Ce n'était point un enseignement, ex cathedra. Ce n'était point même un enseignement de Dieu de la chaire du ciel. C'était une communion, une révélation d'homme à homme, d'un pauvre être à un pauvre être. » (2)


Et il appelle l'homme - son ami, son frère, son fils, son héritier - à se hisser à cette hauteur nouvelle, mouvante, si fragile ; à s'y agenouiller, en fait, puisque cette hauteur s'inverse et s'évase en abîme. Etrange hauteur qui s'effondre sous le poids de l'angoisse, jusqu'à tomber « face contre terre », et qui, dans sa détresse, en appelle à la présence, au réconfort de ses amis. Mais ils dorment, épuisés. Ils ne sont pas encore prêts à assumer «dans son plein, dans son large, dans toute sa crudité» la vocation d'amis qui vient de leur être donnée.

 

 

Sylvie Germain

in  Quatre actes de présence   p.96-98

© Desclée de Brouwer, 2011

 

Notas:

1. C. Péguy, Gethsémani, Desclée de Brouwer, 1995, p.34-35 et 57-58, coll. «Les Carnets».

2 :Ibid.,p.47

 

 

 

aqui

 

 

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8.3.11

 

 

 

 

foto "Francisco Jorge", Rua de S. Caetano 10, Lisboa (data desconhecida)

 

 


 

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14.2.11

 

 

 

 

 

 

 

 

neste terceiro ano de actividade bloguística talvez valha a pena fazer um balanço. Começo por explicar aos visitantes recém-chegados que me lancei nisto para anunciar um livro que tinha acabado de escrever e ia publicar daí a uns meses, em edição de autor (saiu em Maio de 2009). Não podendo contar com grande visibilidade nem distribuição, a oportunidade de usar uma montra gratuita e interactiva era bastante tentadora. Também desejava mobilar o "vazio", quase inevitavel após a finalização de um projecto que me ocupava há muito tempo.

 

 

Um blog, além de servir para mostrar imagens e curiosidades que tinham ficado na gaveta, permitia seguir com os mesmos temas - recordações, álbuns de família, fotografias, curiosidades - e explorá-los mais livremente, sem as mesmas preocupações de coerência, cronologia, fio narrativo, ou o que fosse. Com a ajuda de autores favoritos, fui assim construindo este 'arquivo', procurando casar o álbum de família com as minhas leituras e os assuntos que me interessam.

 

Valeu a pena: julgo que este Retrovisor contribuiu para criar interesse no outro, cuja edição impressa (500 exemplares) se encontra quase esgotada. Volta e meia sinto a satisfação de 'acrescentar um conteúdo'  que ficará guardado na net. Tive a alegria inesperada de reencontrar amigos que perdera de vista e fiz novos contactos na blogosfera.

 

 

Ultimamente este blog recebia 20 a 30 visitas por dia, o que, não sabendo se é muito se é pouco, me contentava. Há dias o Retrovisor mereceu um destaque dos "blogs do sapo", que fez disparar o número de visitas, uma agradável surpresa, veremos se muda alguma coisa. A média de comentários é que é baixa, menos de um por post. Gostava de receber mais feedback, em particular dos visitantes regulares, que sei que há alguns, pelo menos em Portugal, França, Bélgica, Brasil e Estados Unidos. Aos leitores que se têm manifestado, por comentário ou e-mail, nunca agradeço o suficiente.

 

 

Muito obrigada a todos pela visita!

 

 

Imagem: cartão de Dia dos Namorados, E.U.A., anos 50

 

mais sobre este blog e o livro na tag "retrovisor"

 


31.12.10

 

 

 

 

Ria de Aveiro, “Painel” da proa de um barco moliceiro

 

 

Página de Vida e Arte do Povo Português, planeado por Francisco Lage, Luís Chaves e Paulo Ferreira, executado sob a direcção artística de Paulo Ferreira, com desenhos seus, e fotografias de Mário Novais, na Litografia Nacional, Porto.

Secretariado da Propaganda Nacional, Edição da Secção de Propaganda e Recepção da Comissão Nacional dos Centenários, Lisboa 1940.

 

 

Um Bom 2011.

 


 

 


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25.12.10

 

 

 

 

Foto: Presépio de oito figuras

Estremoz, Portugal

 

 

Mais sobre o Presépio de Trono ou de Altar aqui

 



23.12.10

 

 

 

 

Gerard David c. 1490

 

 

 

Évangile selon saint Matthieu

Mt 1,18-25

 

Marie, mère de Jésus, ayant été fiancée à Joseph avant qu'ils eussent habité ensemble, elle se trouva enceinte par la vertu de l'Esprit Saint. Joseph, son mari, étant juste et ne voulant pas la dénoncer publiquement, forma le dessein de la répudier secrètement. Comme il y pensait, voici qu'un ange du Seigneur lui apparut en songe, disant: «Joseph, fils de David, ne crains pas de prendre chez toi Marie, ton épouse, car ce qui est conçu en elle est l'œuvre de l'Esprit Saint. Elle enfantera un fils, et tu lui donneras le nom de Jésus car il sauvera son peuple de ses péchés.»

Or tout ceci advint pour accomplir cet oracle prophétique du Seigneur : «Voici que la Vierge concevra et enfantera un fils, auquel on donnera le nom d'Emmanuel, nom qui se traduit : " Dieu avec nous ". » Une fois réveillé, Joseph fit comme l'Ange du Seigneur lui avait prescrit; il prit chez lui son épouse et, sans qu 'il l'eût connue, elle enfanta un fils auquel il donna le nom de Jésus.

 

 

 

[...] G.S. : Que serait une famille, aujourd'hui, dans laquelle la mère serait vierge, où une vierge serait mère?

 

F.D. : Mais c'est ce que nous rencontrons chaque jour. Tout fils voudrait que sa mère fût vierge. C'est un fantasme qui vient de la nuit des temps, lorsque le fils était dans l'utérus. Là, il n'a aucun rival. Il ne connaît l'existence de l'homme de sa mère que lorsqu'il est doué d'audition, de vision et de discrimination des formes de ceux qui entourent sa mère. Donc, pendant un très long temps de sa vie, le garçon, par ses désirs hétérosexuels imaginaires qui sont anticipateurs de sa vie d'adulte, peut croire qu'il comble le désir de sa mère. Adolescent, il voudrait continuer sa vie sur les données archaïques de son désir.

 

G.S. : Mais la virginité dont parlent les évangiles c'est quand même autre chose que des fantasmes mal liquidés!

 

F.D. : Oh oui... Être vierge c'est être disponible. Pour la femme vierge, pour l'homme vierge, la parole devient plus importante que la chair. Ici, la parole de Dieu est plus importante que la chair.

C'est pour cela, me semble-t-il, que l'Église veut que Marie soit vierge avant et après l'accouchement, comme si elle avait accouché d'une parole, — comme si c'était une parole, la Parole de Dieu, le Verbe, qui était sortie d'elle, et non une masse charnelle qui aurait jailli, dans l'espace, à travers son corps charnel de génitrice.

 

G.S. : En chaque être humain, qu'il soit homme ou qu'il soit femme, il y a un homme et une femme, il y a donc Joseph et Marie, il y a l'aimant qui donne et l'aimant qui reçoit.

 

F.D. : Nous avons tous une disposition à la maternité qui peut être vierge et rester vierge, de même qu'une disposition à la paternité. Qu'est-ce à dire, sinon que nous pouvons porter les fruits d'une parole reçue d'un autre?

Notre pensée peut être fécondée par une idée venue d'ailleurs, sans savoir qui nous l'a donnée. Or, ce qui est psychologiquement vrai ne pourrait-il pas l'être spirituellement?

C'est cela que représente Marie : elle est une image, une métaphore de la parfaite disponibilité. C'est cela que représente Joseph : sa virginité, sa chasteté comme époux et père médiatisent la même vérité : être disponible. Chacun d'eux, elle éveillée, lui endormi, accueille la Parole de Dieu.


[...] G.S. : Terminons. On dirait que, pour vous, toutes les questions concernant la virginité de Marie, le statut marital de Joseph, etc., toutes ces questions sont finalement sans grande valeur.

 

F.D. : En effet, pour moi, ce sont de fausses questions, parce que tout ce qui est de la vie spirituelle est un scandale pour la chair. Tout ce qui est de l'ordre de la logique de la chair n'a pas de sens à partir du moment où nous sommes questionnés par la vie spirituelle, quand nous sommes désirants de vie spirituelle. [...]

La prière est au-delà de tous nos phonèmes, au-delà de tous les sons. Elle est dans un mutisme que ne connaissent pas les êtres humains entre eux. Un mutisme claironnant de désir dont tout homme, toute femme, à un moment de sa vie, sent la force qui l’appelle à vivre une vie spirituelle. Ce désir peut le rendre intrépide.

 

 

Francoise DoltoGérard Sévérin

in L'Évangile au risque de la psychanalyse (La "Sainte Famille" , Tome I)

Éditions du Seuil

© Éditions Universitaires, S.A., 1977, J.-P. Delarge, éditeur



21.12.10

 

 

 


Gerard David c. 1506

 

 

Évangile selon saint Luc

 

Lc 1, 26-38

 

En ce temps-là l'ange Gabriel fut envoyé par Dieu dans une ville de Galilée appelée Nazareth vers une vierge qui était fiancée à un homme nommé Joseph, de la maison de David, et le nom de cette vierge était Marie.

L'ange étant entré dans le lieu où elle se trouvait, lui dit : «Je vous salue. Marie, pleine de grâces; le Seigneur est avec vous; vous êtes bénie entre toutes les femmes. »

En entendant ces mots, elle fut troublée et se demandait quelle pouvait être cette salutation. L'Ange lui dit : « Ne craignez pas. Marie, car vous avez trouvé grâce auprès de Dieu : voici que vous concevrez dans votre sein et que vous mettrez au monde un fils; et il recevra le nom de Jésus. Il sera grand et sera appelé Fils du Très-Haut, et le Seigneur Dieu lui donnera le trône de David, son père; et il régnera éternellement sur la maison de Jacob et son règne n'aura pas de fin. »

Marie dit à l'Ange : « Comment cela se fera-t-il car je ne connais pas d'homme? » L'Ange lui répondit : «L'Esprit Saint surviendra en vous et la venue du Très- Haut vous couvrira de son ombre. C'est pourquoi l'Être saint qui naîtra de vous sera appelé Fils de Dieu. Et voici qu'Elisabeth, votre cousine, a conçu elle-même un fils dans sa vieillesse, et celle qu'on appelait la stérile est à son sixième mois car rien n'est impossible à Dieu. »

Alors Marie dit : « Voici la servante du Seigneur, qu'il me soit fait selon votre parole. »

 


 

 

G.S. : Joseph est un homme sans femme. Marie est une femme sans homme. Jésus est un enfant sans père. Peut-on alors parler de vraie famille?

 

F.D. : Oui, on peut parler de vraie famille, au point de vue de la responsabilité devant la loi.

La famille animale n'existe pas devant la loi. La famille est un terme humain qui entraîne devant la loi la responsabilité réciproque des parents pour l'éducation d'un enfant. [...] Mais votre question vient de ce que, dans cette partie des évangiles, il y a du mythe.

 

G.S. : Mais alors, qu'est-ce qu'un mythe pour vous?

 

F.D. : C'est une projection des imaginaires préverbaux, du ressenti du vivre dans son corps. Quand je dis mythique, je dis au-delà de l'imaginaire particulier de chacun; c'est une rencontre de tous les imaginaires sur une même représentation. [...]

Pour la « Sainte Famille », comme disent les catholiques, il ne fait aucun doute que les évangiles qui racontent l'enfance de Jésus s'expriment par des images mythiques, mais ils véhiculent aussi un mystère, une vérité.

Il y a du mythe dans ces passages d'évangiles. C'est certain. Mais, pour moi, croyante et psychanalyste, il n'y a pas que cela.

Que savons-nous avec nos connaissances biologiques, scientifiques, de l'amour et de son mystère? Que savons-nous de la joie? De même, que savons-nous de la parole? N'est-elle pas fécondatrice? N'est-elle pas parfois porteuse de mort? [...] Et si la parole reçue par Marie était l'instrument de la greffe de Dieu sur ce rameau de David? [...]

 

G.S. : L'Ange annonce à Marie : « La puissance du Très-Haut te couvrira d'ombre. » Où est Joseph?

 

F.D. : Mais l'ombre de Dieu, tout homme ne l'est-il pas pour une femme qui aime son homme?

La puissance et l'ombre de Dieu qui couvrent Marie peuvent être la charnalité d'un homme qu'elle reconnaît comme époux.

 

G.S. : Pourtant, il semble que Joseph ne se reconnaît pas l'époux de Marie ou du moins comme le géniteur de Jésus. En effet, il veut répudier Marie quand il apprend qu'elle est enceinte. Et Marie dit par ailleurs : « Je ne connais pas d'homme. »

 

F.D. : II faut chercher à découvrir ce que veulent dire ces textes.

Cette révélation de la conception de Jésus est faite à Marie dans sa veille et à Joseph dans son sommeil, dans un rêve. C'est dire que les puissances phalliques, créatrices féminines du désir de Marie sont éveillées, disposes, tandis que les puissances passives du désir de Joseph sont au maximum.

Autrement dit, Marie désire. Elle sait, par l'intervention de l'Ange (là c'est une manière de parler mythique), qu'elle deviendra enceinte. Mais, comment? Elle n'en sait rien. Mais, comme chaque femme, elle espère, elle désire être enceinte d'un être exceptionnel.

Quant à Joseph, il sait par l'initiation reçue dans son sommeil, que pour mettre au monde un fils de Dieu, il fallait que l'homme se croit y être pour très peu.

Nous sommes loin, voyez-vous, de toutes les histoires de parturition et de coït. Ici est décrit un mode de relation au phallus symbolique, c'est-à-dire au manque fondamental de chaque être. Ces évangiles décrivent que l'autre, dans un couple, ne comble jamais son conjoint, que toujours il y a une déchirure, un manque, une impossible rencontre, et non pas une relation de possession, de phallocratie, de dépendance.

En Joseph, rien n'est possessif de sa femme. De même que rien, en Marie, n'est a priori possessif de son enfant. Fiancés, ils font confiance à la vie, et voilà que le destin de leur couple en surgit. Ils l'acceptent.


 

Francoise DoltoGérard Sévérin

in L'Évangile au risque de la psychanalyse (Tome I)

Éditions du Seuil

© Éditions Universitaires, S.A., 1977, J.-P. Delarge, éditeur



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