26.11.10

 

 

 

 

Revista ELLE, 5 Outubro 1967

 

 

 

Devo muito aos jornais e às revistas e a "Elle" francesa é de longe a publicação que me acompanha há mais tempo, e com maior regularidade. Leio-a desde o início dos anos 60, desde que fui morar para o Saldanha, onde o correio a entregava pontualmente todas as semanas, oferta de Pierre e Helène Lazareff ao meu avô.

A "Elle" continua igual ao que era há 50 anos, o que parece um milagre mas é verdade. Apenas desapareceram das suas páginas Marcelle Ségal e Francesco Waldner, infelizmente. Em tudo o mais, a edição francesa, que continua a ser semanal, manteve intacta a qualidade da sua redacção, dos seus colaboradores, do seu design gráfico e do seu conjunto de rubricas. É simplesmente perfeita. Espero que nunca mude.

 

Leia a história da "Elle" aqui

 

Sobre Marcelle Ségal e o seu "Courrier du Coeur" leia aqui

 


17.11.10

 

 

 

Os meus avós maternos "na casa da avenida"

Lisboa, 1927

 

 

A Grande Guerra e o pós-guerra provocaram a maior desestabilização da sociedade portuguesa desde a época das guerras civis, na primeira metade do século XIX. [...] Depois de 1918, os preços enlouqueceram: deram-se aumentos gigantescos de um dia para o outro, segundo um ritmo irregular e violento. O valor do dinheiro tornou-se incerto.[...] Mas nem toda a gente passou por estes transes da mesma maneira. Nem a prosperidade nem as dificuldades foram gerais. [...] A inflação destruiu o modo de vida daqueles que dependiam de rendimentos fixos, como juros de títulos ou de montepios. Não só os pôs quase na miséria, como de qualquer modo lhes degradou o estatuto social, sobretudo quando este passou cada vez mais a ser julgado em função de determinados consumos: possuir automóvel, telefone, etc. No funcionalismo do Estado a inflação prejudicou os ordenados médios e altos, que subiram menos do que os ordenados inferiores: amanuenses, sargentos, praças passaram a ganhar melhor, enquanto directores-gerais e oficiais superiores viram o seu poder de compra reduzido a metade. [...] Subitamente, a sociedade não era a mesma. Mais igualitária, cheia de caras novas: os “ricos” não eram os mesmos, os “pobres” também não.

 

 


 

 

© Rui Ramos

in A Segunda Fundação (1890-1926)

Volume VI da História de Portugal, dirigida por José Mattoso, 1994. (2ª edição em 2001)

 

 

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14.11.10

 

 

 

 

Desenho

de Américo da Silva Amarelhe (1892-1946)

(aqui)

 

 

Despedida de Guilherme Pereira de Carvalho do cargo de administrador da revista “De Teatro”, para assumir funções no SPN. Entre os convivas, fixados pelo lápis de Amarelhe, estão Lino Ferreira, António Ferro, Alexandre de Azevedo, José Paulo da Câmara, Silva Tavares, Feliciano Santos, Artur Portela, José Galhardo, Pedro Bordalo Pinheiro, Norberto de Araújo, Pinheiro Correia, Álvaro Lima, Nogueira de Brito, João Bastos, Mário Duarte, Albino Abranches, Lopo Lauer, Álvaro Raio de Carvalho, Leitão de Barros, Álvaro de Andrade, etc. Ao centro alto, Guilherme Pereira de Carvalho e, ao centro baixo, Amarelhe.

 

 

Visite o Centro de Estudos de Teatro aqui

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13.11.10

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Revista de Teatro e Música”, ou simplesmente "de Teatro", foi uma revista portuguesa editada em Lisboa em 1922, por Mario Duarte e Guilherme Pereira de Carvalho Junior.

 

*

 

 

Publicado ininterruptamente entre Setembro de 1922 e Agosto de 1927, sempre sob a direcção de Mário Duarte, este periódico mensal dedicado a todos os que de uma forma ou de outra se interessavam por teatro, destacou-se pela sua longevidade e por um conjunto de características que o individualizaram. Entre elas contam-se as seguintes: publicou peças de autores portugueses (excertos de peças inéditas, ou peças completas), muitas delas já representadas em Portugal, o que leva a direcção da revista a orgulhar-se em 1926 (1926: 40), de ser a segunda publicação mundial a conseguir tal proeza; desencadeou um debate de ideias sobre o estado do teatro da época para o qual contribuíram inúmeros colaboradores de que destaco Henrique Lopes de Mendonça, André Brun, Carlos Selvagem e Santos Tavares; publicou críticas a cerca de quatrocentos espectáculos levados à cena em Portugal por companhias quer nacionais, quer estrangeiras; noticiou regularmente o que de mais relevante se ia passando nos palcos portugueses; registou com regularidade publicações de teatro; incluiu nas suas páginas fotografias e caricaturas – muitas destas saídas da pena de Amarelhe, mas também da autoria de Almada Negreiros e de outros – de conhecidas figuras do teatro de então; foi peça fundamental para a fundação da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, sob o impulso de Mário Duarte, em 1925; criou a Empresa De Teatro Editora a partir de Dezembro de 1924 que, para além da revista, publicou algumas obras importantes para a história do teatro português.

 

 

Ana Campos

A REVISTA DE TEATRO

Uma visão parcial da dramaturgia portuguesa dos anos 20 (aqui)

(in Sinais de cena n.º 7, Junho de 2007, pp. 122-129)

 

Revista De Teatro e Música na Wikipédia aqui

 

 

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8.11.10

 

 

 

Guilherme Pereira de Carvalho (1891-1966)

óleo s/tela de Arpad Szenes (aqui)

 

 

 

 

Em casa dos meus avós no Saldanha havia uma salinha com as paredes forradas de fotografias, de personalidades estrangeiras que visitaram Portugal no tempo em que o meu avô trabalhava no SPN/SNI (Secretariado Nacional de Informação) e de artistas portugueses e estrangeiros de teatro e variedades, o universo que mais o fascinava.

Arpad Szenes ofereceu-lhe este retrato em 1940.

 

Guilherme Pereira de Carvalho foi um dos colaboradores directos de António Ferro desde a criação do Secretariado de Propaganda Nacional, em 1933, e permaneceu no Palácio Foz até se reformar, em finais dos anos 50. Foi também director de uma revista, a "Lisbon Courier", que já evoquei aqui e a que regressarei em breve para mostrar mais algumas curiosidades, agora que um primo me emprestou gentilmente os vários volumes encadernados da sua colecção.

 

 

 

 

 

 

 

 

Walt Disney com António Ferro e Guilherme Pereira de Carvalho

Brasil, 1942?

 

 

 

sobre a casa do Saldanha leia aqui

 

Uma foto do Saldanha nos anos 60 aqui

 

 


28.10.10

 

 

 

 

 

 

Revista Cinémonde, anos 60

 

 

 

Muito lá de casa eram todos aqueles de quem, lá em casa, havia retratos em imensas gavetas, que foram a primeira das minhas explorações predilectas, a primeira das minhas paixões predilectas. Esgotados os retratos de família, até ao mais remoto primo, havia centenas (não exagero) de fotografias de personagens que, nem que fosse por um dia, tinham sido muito de casa. Senhores barbudos, velhas com grandes chapéus, virgens pálidas, jovens olheirentos. Fotografîas com dedicatórias retóricas: «Ao Exm.° Senhor F... offereço como prova de estima». Insaciável, eu queria saber os nomes de todos e em toda a casa de que era muito pedia para ver essas gavetas e esses retratos. Se os crescidos não tinham mais que fazer, identificavam-nos para meu deleite e, em dias mais fastos, contavam-me, para cada um ou de cada um, histórias de espantar.

 

Foi numa dessas casas, de que eu era muito, que, um dia, quando já esgotara todas as gavetas e já sabia de cor e salteado os nomes dos habitantes delas, alguém me passou para a mão um exemplar da «Marie Claire». Era um número antigo, provavelmente de 1940, porque me lembro de saber que a revista interrompera a publicação depois de os alemães entrarem em Paris. E fui parar a duas páginas — que passaram para mim a ser as páginas centrais — em que estavam retratos de 15 actrizes e 15 actores, arrumados, ao alto para as senhoras e ao baixo para os senhores, por ordem das respectivas alturas.

[...]

Esqueci a maior parte dos retratados nas gavetas, à medida que fui deixando de as abrir ou que se fecharam as casas que habitavam em efígie. As actrizes e os actores, em truque bem digno da arte deles, elevaram-se desses rectângulos, em que figuravam em corpo inteiro, nas páginas da «Marie Claire», para grandes planos que me ficarão a acompanhar para todo o sempre. Estáticos, nessa primeira visão, animaram-se depois nos muitos, muitos filmes que vi com eles.

[...]

Por uns apaixonei-me eu, por outros não. Muitos forram hoje a casa em que vivo. Todos passaram a ser muito lá de casa. E foi só um princípio. Com eles trouxeram, como os demónios expulsos da parábola evangélica, não mais 30, mas mais 300, uns vindos ainda mais de trás, antepassados dessa galeria dos «thirties», outros herdeiros deles, ramos da mesma árvore, filhos ou netos dos altos e baixos da «Marie Claire».

 

 

João Bénard da Costa

in Muito lá de casa (O Problema da Habitação) aqui

©Assírio e Alvim e João Bénard da Costa, 1993

 

 

 

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25.10.10

 

 

 

 

Praça Duque de Saldanha, Lisboa, anos 60

 

 

 

A mudança para casa dos meus avós fez-nos recuar no tempo e conhecer uma Lisboa ainda rural, apesar de estarmos na Praça Duque de Saldanha, frente aos modernos cinema e café Monumental, em pleno centro de Lisboa. Ainda passavam eléctricos pelo Saldanha, que iam até ao Campo Grande. Ainda vi pastores com rebanhos a atravessar a avenida da República.

Os meus avós viviam no primeiro andar do edifício que se vê no postal, a “casa do anjo”, num apartamento muito grande. Tinham três empregadas internas – uma cozinheira, uma criada de fora, e a Arminda, que estava ao serviço da minha avó desde os catorze anos e agora tinha mais de setenta. Que idade tinham os meus avós nesta altura? Ela sessenta e dois, ele era dez anos mais velho.

Aos sábados o barbeiro do meu avô vinha a casa, a roupa era lavada por lavadeiras, o leite era trazido por uma leiteira. Foi com a nossa chegada que a minha avó comprou um frigorífico. As compras faziam-se na praça. O telefone tinha um pequeno cofre acoplado no qual era preciso carregar numa moeda, creio que de cinco tostões, para estabelecer a ligação. A minha avó governava a casa com a dispensa fechada à chave e distribuía mensalmente às empregadas doses de açúcar, ovos e sabão.

 

Os meus avós maternos pareciam-me antiquados e algo severos mas aos poucos percebi que -  tal como o liceu francês – “tinham mundo”. Conviviam muito com parentes e amigos e foi com eles que descobri a minha família alargada.

 

 

Uma fotografia dos meus avós maternos aqui

Se é a primeira vez que visita este blog leia também o post "terra de exílio" aqui


17.10.10

 

 

 

 

 

Revista Jours de France, 1963

 

 

A revista “Jours de France” transporta-me no tempo para a casa dos meus avós maternos em Lisboa, onde vivi grande parte dos anos sessenta.

A ofuscante beleza insolente de BB nesta capa da JdF ilustra perfeitamente a mudança, ou melhor dizendo o salto, da década de 50 para a de 60, no mundo ocidental, e mesmo em Portugal, apesar de ser "fácil exagerar as semelhanças", como sublinha Maria Filomena Mónica num texto que citei no meu livro.

 

1963 foi o ano do filme “Le Mépris”, de Jean-Luc Godard, porventura aquele que melhor captou toda a magia de Brigitte Bardot, menina fina e bem educada da alta burguesia francesa cujo talento e extraordinária beleza a transformariam na maior 'sex symbol' dos anos 60.

 

 

 

 

 

 

16.9.10

 

 

 

 

com o meu tio Frederico, em Lisboa, 1962.

 

 

 

 

Chegámos a Lisboa no verão de 1961. A princípio, a novidade e a redescoberta de uma família calorosa atenuaram o desgosto da perda, abrupta e definitiva, da nossa vida anterior; mas para mim e para Cristina, Lisboa revelou-se aos poucos uma cidade triste e provinciana, cheia de mendigos e de homens ordinários.

Chegado o Outono, a entrada no Liceu Francês agravou a nossa desorientação, perante um ensino mais exigente em português e francês, línguas que não dominávamos convenientemente.

Em casa, um apartamento na rua Rodrigo da Fonseca onde acabaríamos por estar pouco mais de um ano, a minha mãe começou a não sair do quarto. Lembro-me de ficar parada a olhar para aquela porta fechada.

Em Setembro de 1962, o meu pai partiu para o Paquistão. Cristina, Bernardo e eu fomos com minha mãe e a Zulmira viver para casa dos nossos avós maternos. A adaptação foi penosa para todos. Os meus avós impunham uma cerimónia a que não estávamos habituados. Tinham aceite corajosamente aquela ‘invasão’ mas sentiam-se desamparados perante o desespero da filha, um desespero que desafiava a compreensão.

 

 

 

Vera Futscher Pereira

in Retrovisor, um Álbum de Família

© RCP edições, 2009

 

 

O regresso a Portugal inaugurou um tratamento de choque ao longo do qual eu perderia, aos poucos, quase todas as minhas referências habituais. É o único período relatado na primeira pessoa em “Retrovisor, um Álbum de Família”. Foi uma tentativa de reduzir por um momento a distância, dirigindo-me ao leitor num tom mais confessional, na minha própria voz. Não sei se produz efeito, e tenho algumas dúvidas, já que apenas uma pessoa me comentou o facto, e foi para me perguntar porquê.

 



29.5.10

 

 

Lousada, c.1936

 


 

da esquerda para a direita:

Stella, Margarida e Frederico

com os primos António Duarte, João Manuel e Mariazinha (Maria do Carmo) Rebelo de Carvalho,

filhos de Alzira Pereira de Carvalho, irmã mais nova de meu avô materno.

 

 

 

Aos apreciadores de fotografias que não acompanham o blog desde o princípio sugiro a leitura do post "a fotografia vernacular" aqui

 

 

 

 


27.5.10

 


 

 

Margarida de Barros Pereira de Carvalho (1892-1968)

Baía, Brasil, c. 1896

 

 

 

Descubra o álbum que contém esta fotografia no post "O álbum do Brasil" aqui, e outras fotografias do mesmo álbum clicando na tag "brasil".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Casa da Mogada, no Concelho de Guimarães, de onde era natural a minha bisavó Maria do Carmo de Barros de Faria e Castro , pertencia a esta antes do seu casamento com Guilherme Pereira de Carvalho. Coube em herança a Margarida de Barros Pereira de Carvalho, a terceira dos sete filhos do casal.

 

 

 

 

 

 

Maria do Carmo de Barros de Faria e Castro (1868-1926)

e Guilherme Pereira de Carvalho (1864-1927)

(fotografia reproduzida no livro Retrovisor, um Álbum de Família)

 

 

 

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25.5.10

 

 

Caldas das Taipas

 

 

 

Pela “Mogada”, como por “Freitas”, passaram várias gerações da minha família materna. A Casa da Mogada, no Concelho de Guimarães, que foi cenário de muitas fotografias da infância e adolescência de minha mãe, pertencia a sua tia homónima Guida - Margarida Pereira de Carvalho Crato - irmã de meu avô materno. De entre as numerosas fotografias que guardo desta casa opto mais uma vez por esta, a escolhida para o livro Retrovisor, um Álbum de Família, pois permite situar o local onde este grupo foi fotografado:

 

 

 

 

 

Mogada c. 1930

Margarida, ao centro, à frente dos seus tios Guida

e Eduardo de Carvalho Crato, ao fundo, de pé.

 

 

 

 

A minha mãe está sentada no chão entre os seus irmãos, Stella e Frederico. Atrás de Frederico está sentada minha avó materna, Maria do Carmo Belmarço Pereira de Carvalho.

 

 

 

 

 

 

Margarida Pereira de Carvalho Crato (1892-1968)

e Eduardo de Carvalho Crato (1877-1947)

 

 



 

 

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23.5.10

 

 

 

 

 

Vista de Amarante, data desconhecida

 

 

 

 

 

 

da esquerda para a direita:

O poeta Teixeira de Pascoaes

Frederico e Guilherme Pereira de Carvalho,

no jardim da Casa de Freitas (c. 1927).

 

 

 

Descobri estas fotografias no site da "Associação Amarante Automóveis Antigos" aqui. Foi curioso encontrar mais uma fotografia de Teixeira de Pascoaes na Casa de Freitas, tirada na mesma ocasião da que aqui publiquei no ano passado, como confirmam os trajes do poeta e de Frederico.

 

 

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21.5.10

 

 

 

 

 

Margarida ao colo do pai , 1920.

 

 

 

Apesar do encanto que tem para mim, preteri esta fotografia da minha mãe a favor de outras em Retrovisor, um Álbum de Família.

 

 

Foi esta a que elegi para abrir o primeiro capítulo:


 

 

 

 

Retrovisor, um Álbum de Família. p.13



 

Mas naquela, gosto especialmente da postura do bebé e do seu olhar atento, plenamente desperto, como o do extraordinário menino Jesus da “Adoração dos Magos” de Velázquez, que aqui apresentei no dia de Natal.

 

Nota: aos leitores interessados que não acompanham o blog desde o princípio sugiro a leitura dos posts “Um álbum de família”aqui e “Kill all your darlings” aqui.

 


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12.5.10

 

 

Não se pode ir lá de avião. Não há aeródromos nas imediações; é na serra, perto do Marão, que o poeta cantou em Versos imortais, a umas poucas milhas de Amarante. Vai-se por um caminho ladeado de sobreiros já antigos e frondosos que é mais caminho de carro de cavalos do que de automóveis, até a um pequeno terreiro onde há laranjeiras plenas de frutos ainda verdes. Do terreiro, por um largo portão brazonado, entra-se no pátio da casa onde vive o poeta. É uma casa solarenga, do século XVI ou XVII, remodelada depois, que guarda ainda o seu ar vetusto de velha casa senhorial e a nobreza clássica das suas linhas simples, austeras.

Nesse pátio já talvez um autogiro ou um helicóptero pudessem descer. Mas não aconselho o leitor - mesmo que ele tenha sido companheiro de La Cierva - a que tente a arriscada aventura.

Teixeira de Pascoaes ouviu o ruído do carro em que fomos e veio receber-nos à porta. É um homem baixo e magro, um pouco curvado, com uma cabeça já grisalha, revolta, a face angulosa e uns olhos profundos, penetrantes, cheios de riqueza e de vida. A sua austeridade é a de um monge , como é de monge a sua simplicidade e o encanto com que nos recebe na bela casa da sua família, mais velha ainda porventura do que esta, e onde vive como num convento que nos mostra tal como um bom frade desligado dos prazeres e interesses deste mundo.

Tentar apresentar a leitores, sejam eles portugueses ou estrangeiros, este homem, poderá quási parecer uma liberdade de que usa o jornalista, para, através do escritor, se apresentar ele próprio.

É que Teixeira de Pascoaes é bem o Patriarca da literatura portuguesa contemporânea - um patriarca amado dos fiéis e sobre cuja dignidade não há discussões. Os seus livros estão traduzidos para francês, alemão, espanhol, holandês, húngaro, tcheco, italiano.

O "Grande de Espanha" D.Miguel de Unamuno contou-o no número dos seus grandes amigos e o pensador russo, universalmente conhecido, Nicolau Berdiaeff considerou-o um dos mais notáveis autores do nosso tempo.

Isto é bastante, não é verdade, leitor?... Por isso mesmo o entrevistador se esconde sob um pseudónimo.

Nicolau Berdiaeff classificou um dia Pascoaes de "Poeta místico com temática religiosa"... Ora eu venho fazer-lhe uma entrevista sobre aviação... É pois natural que hesite antes de atacar o tema principal da nossa conversa.

Fala-se primeiro de poesia. Depois do que Unamuno chamou "o sentimento trágico da vida". Depois da morte e do existencialismo". Não! - Decididamente é perigoso ouvir este homem encantador falar do que lhe interessa; temo que a ouvi-lo, me esqueça do tema da entrevista, e depois que seja já impossível sair do beco onde estamos. Beco, está claro, porque não vejo a saída para o campo da aviação.

Por isso pergunto de chofre:

— Que pensa da Aviação?

Pascoaes sorri e responde:

— Penso que outrora os homens criavam os anjos e hoje.... os macaqueiam.

Há um silêncio. Não vou, evidentemente, perguntar a este homem se ele voou. Há em toda a sua obra uma altura que nenhum avião do mundo jamais atingirá. Mas insisto:

— Crê que a conquista do ar pela moderna aviação poderá trazer algo de novo a "visão do mundo" dos poetas ?...

A expressão de Pascoaes tornou-se agora vagamente irónica:

— Penso que a visão do mundo depende da altura a que se está."Nos aviões modernos, como se voa muito, muito alto, a "visão do mundo"...deve tornar-se tão vaga, tão imprecisa,que me arrisco a dizer que desaparece...

Uma criada trouxe-nos café e os maravilhosos doces de ovos de Amarante. Pascoaes, sorrindo, explica:

— Nunca percebi como Vergílio foi capaz de escrever a "Eneida", sem ter tomado uma chícara de café e sem fumar um cigarro.

Há neste homem profundamente triste, por mais paradoxal que isto pareça, um bom humor sadio. Um bom humor sem amargura ou ironia – que tem frescura e juventude.

O bom humor com que responde, já a finalizar a entrevista, quando lhe pergunto o que pensa do papel a desempenhar pela aviação no futuro:

— Não penso nada, ou melhor, não digo o que penso. Ainda não consegui limar a vaidade até o ponto de me não importar com o que pensarão de mim os que me lerem daqui a alguns anos - isto, bem entendido, se daqui a alguns anos ainda alguém me ler. Ora eu não quero que me aconteça o mesmo que aconteceu a Thiers quando, num momento de muito fraca inspiração, se lembrou de dizer do "caminho de ferro" que era uma invenção absurda e irritante que apenas servia a meia dúzia de loucos possuídos da mania das velocidades...

 

 

 

A entrevista foi realizada por Vasco Futscher Pereira para a Lisbon Courier, revista de turismo aéreo criada pelo meu avô materno, Guilherme Pereira de Carvalho, em 1946. Não sei dizer ao Leitor que pseudónimo terá usado o meu pai ... Da Lisbon Courier, possuo apenas este exemplar, que fica para outro dia e outro post.

 

 



 

 

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29.4.10

 

Em finais de Abril de 2009 saiu o livro “Retrovisor, um álbum de família” e nesse momento mudei de assunto neste blog, admitindo regressar mais tarde ao arquivo familiar para partilhar mais algumas curiosidades. Aos leitores interessados que não acompanham o blog desde o princípio sugiro a leitura dos posts “Um álbum de família” aqui e “Kill all your darlings” aqui.

 

 

Regresso pois ao livro “Retrovisor” neste aniversário, com a apresentação da resenha de José Cutileiro, que me honra e faz sentir feliz com a(s) história(s) que conta.

 

 

 

 

 

 

 

 

Serra do Marão, 1946

 

 

 

 

 

 

A thing of love is a joy forever

 

 

 

 

RETROVISOR

UM ÁLBUM DE FAMÍLIA

de Vera Futscher Pereira

Editora: Rui Costa Pinto Edições

Lisboa, 2009

 

 

 

 

 

 

O QUE SENTI quando acabei de ler e ver "Retrovisor" chegou-me numa paráfrase do primeiro verso do Endymion de Keats (1), de que me sirvo agora para dar nome a esta resenha do livro. Da capa à contracapa é amor de filha, de irmã, de neta, de tia, de sobrinha, de viajante em vários mundos, que dá coração à aventura em que a autora se meteu, ajudada por legados de Pai e Mãe, escravos desde pequenos do tão certo secretário com quem a pena desafogavam e meticulosos na guarda de escritos assim feitos e de mais papelada.

 

Sobre esse espólio muito variado — de poesia lírica intimista a telegramas diplomáticos, passando por 'O livro do bebé' —, um acervo de fotografias e mais documentos coevos, o livro acompanha por algumas gerações uma família burguesa de Lisboa -, ou melhor, porque o nosso sistema de parentesco é cognático, várias famílias vindas do século XIX que em duas gerações afunilam até ao casal Margarida-Vasco e alargam depois noutras duas chegando às novas famílias dos seus filhos e netos. Margarida e Vasco são por assim dizer o epicentro, os heróis principais do livro, mas este demora-se também em mais gente que com eles teve a ver, da família chegada a amigos de passagem, em Portugal, no Brasil e noutras partidas do mundo. A autora entremeia na narrativa informações sintéticas datadas que nos recordam o que se ia entretanto passando, em paz ou em guerra, na história de Portugal e do mundo.

 

O livro está muito bem escrito, é graficamente bem-sucedido, folheia-se com gosto e como acontece com fotobiografias, a cujo género pertence, presta-se a ser lido de várias maneiras, desde ir olhando para os bonecos como se de um 'coffee table book' se tratasse — assim comecei eu — a escrutínio atento de fio a pavio, que me entreteve um serão em seus enredos romanescos. Embora me pareça que, para quem goste de História e de histórias bem contadas, o livro possa interessar mesmo quem não tenha conhecido qualquer dos seus personagens, enriquece com certeza a leitura ter privado com alguns deles, sobretudo com os principais. Por mim, não conheci Margarida, pessoa quasi inteiramente privada, de quem Ruy Cinatti me falou às vezes com grande ternura e cujos versos só agora li mas conheci um pouco Vasco, de quem fui colega, que em 1982 e 1983 foi meu ministro e que é de longe a figura pública mais importante entre as capas do volume (outra é o pai de Margarida, colaborador chegado de António Ferro quando este dirigia o Secretariado de Propaganda Nacional).

 

Encontramo-nos pela primeira vez num almoço al fresco na Gôndola, organizado para o efeito pelo Vasco Valente e o Fernando Andresen, estava eu em posto em Estrasburgo e Futscher em Nova Iorque. Chegou atrasado, como era seu costume, e contou-nos que na véspera à noite não conseguira falar ao telefone com a Malu, que ficara em Manhattan, devido a impossibilidade da Marconi estabelecer a ligação. Nas conversas que pela noite fora, em sucessivas tentativas, tivera com a operadora — de quem fora fazendo amiga e aliada - julgara identificar problemas de pessoal e de organização que levavam à insuficiência de serviço de que fora vítima. A seguir ao último ensaio vão de atingir Nova Iorque, metera pena ao tinteiro (era assim que gostava de escrever) e passara o resto da madrugada e a manhã a compor uma carta sugerindo soluções ao director da Marconi, que acabara de ir entregar na sede da companhia, já não me lembro em que rua da Baixa pombalina. Era um português transitivo.

 

A esse primeiro encontro seguiram-se outros, ao acaso de circunstâncias. Vindo do Conselho de Segurança, ficou em minha casa em Estrasburgo numa visita ao Conselho da Europa. E, ministro dos estrangeiros quando Francisco Balsemão era Primeiro-Ministro veio com ele numa viagem oficial a Maputo ao fim da qual negociou com Chissano, seu homólogo moçambicano, o comunicado de imprensa. Eu participara antes na negociação de outro comunicado de visita oficial a Moçambique, dessa vez do Presidente da República, sempre com Chissano do lado de lá, mas com outro ministro dos estrangeiros do nosso lado. Ambas as sessões foram correctas e eficazes mas na segunda, mal se sentara à mesa e haviam sido trocadas as cortesias de circunstância, Chissano tinha já, por assim dizer, absorvido dois valiums que o charme de Vasco infiltrara nele e passamos todos a seguir uma hora feliz.

 

Esse charme legendário, ao serviço de considerável intelecto e de uma curiosidade voraz, ajudou muitas vezes Vasco Futscher a levar a água ao seu moinho mas havia quem lhe fosse insensível. Nessas ocasiões o meu amigo ficava, como o desertor do poema de Desnos, a parlamentar com sentinelas que não compreendiam o que ele lhes queria dizer. Mas, do começo ao fim da vida, tal aconteceu-lhe muito raramente. Quando ele morreu dei por mim, que sou ateu tal como ele era, a imaginar a conversa com S. Pedro em que o Santo, seduzido, lhe abria as portas do céu.

 

Comunicações diplomáticas suas em momentos complexos da história portuguesa, páginas do seu diário, testemunhos de colegas e amigos nutrem a narrativa, recordando o diplomata excepcional que ele foi (e pondo muito justamente em relevo ter sido ele quem, em ocasião crítica, mantivera viva a causa de Timor-Leste nas Nações Unidas, tornando assim possível a independência negociada do país anos depois). Toda a gente que com ele - ou contra ele - trabalhou sentiu o cunho da sua personalidade invulgar na aplicação das regras intemporais da arte diplomática. O poder de uma pequena potência pode ser aumentado pelo talento eficaz de quem a represente e o exemplo de Vasco Futscher afinou a minha capacidade de avaliar o desempenho dos diplomatas. Desde então tenho para mim que um embaixador mau não representa o seu país, que um embaixador razoável representa o seu país – e que um embaixador bom disfarça o seu país.

 

O encanto e interesse de "Retrovisor" não se esgotam no que nos diz ou sugere sobre os dois personagens principais. Amor filial não impede a autora de contar feitos e mostrar caras de muitas outras pessoas, situando nos seus lugares e no seu tempo os múltiplos actores e actrizes desta saga, desde os que já morreram há muito tempo aos que agora começam as suas vidas. E aprendem-se coisas. Eu, por exemplo, não sabia que o Bernardo, meu antigo chefe de gabinete na União da Europa Ocidental, tinha sido campeão nacional de florete dos menos de 20 anos - e descobri que o primeiro Futscher chegado a Portugal, no século XIX, fora um austero suíço alemão protestante - e não, como eu imaginara do convívio com Vasco, um judeu céptico e bon vivant do Império Austro-Húngaro.

 

 

 

José Cutileiro*

in Negócios Estrangeiros . Nº 15 - Dezembro de 2009.  pp. 179-181

 

 

1. A thing of beauty is a joy forever.

 

* Embaixador

 

 

 

Na fotografia, da direita para a esquerda:

Vasco Futscher Pereira, Mª Helena Brion Pinto, Mª Madalena Brion de Vasconcelos, Margarida Futscher Pereira, Amândio Pinto, António Teixeira de Vasconcelos, Maria do Carmo Brion Sanches.

 

 

 


16.2.10

 

 

Rosita (ao centro) com os irmãos António e Zeca

Rio de Janeiro c.1895

 

 

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9.1.10

 

Once I opened a door and caught sight of my ninety-year-old grandfather kneeling before the jolly, dumpy brunette widow of a certain notary. The lady winked at me over my enamoured grandfather's head, and smiled gaily, revealing two rows of teeth too perfect to be her own. I left, closing the door gently, before Grandpa was aware of my presence.

What was the secret of Grandpa's charm? I only began to understand years later. He possessed a quality that is hardly ever found among men, a marvellous quality which for many women is the sexiest in a man:

He listened.

He did not just politely pretend to listen, while impatiently waiting for her to finish what she was saying and shut up.

He did not break into his partner's sentence and finish it for her.

He did not cut in to sum up what she was saying so as to move on to another subject.

He did not let his interlocutress talk into thin air while he prepared in his head the reply he would make when she finally finished.

He did not pretend to be interested or entertained, he really was. Nu, what: he had an inexhaustible curiosity.

He was not impatient. He did not attempt to deflect the conversation from her petty concerns to his own important ones.

On the contrary: He loved her concerns. He always enjoyed waiting for her, and if she needed to take her time, he took pleasure in all her contortions.

He was in no hurry, and he never rushed her. He would wait for her to finish, and even when she had finished he did not pounce or grab but enjoyed waiting in case there was something more, in case she was carried along on another wave.

He loved to let her take him by the hand and lead him to her own places, at her own pace. He loved to be her accompanist.

He loved getting to know her. He loved to understand, to get to the bottom of her. And beyond.

He loved to give himself. He enjoyed giving himself up to her more than he enjoyed it when she gave herself up to him.

Nu, shto: they talked and talked to him to their hearts' content, even about the most private, secret, vulnerable things, while he sat and listened, wisely, gently, with empathy and patience.

Or rather with pleasure and feeling.

There are many men around here who love sex but hate women.

My grandfather, I believe, loved both.

And with gentleness. He never calculated, never grabbed. He never rushed. He loved setting sail, he was never in a hurry to cast anchor.

 

Amos Oz

in A Tale of Love and Darkness  pp.110-111

© Amos Oz and Keter Publishing house Ltd 2003

Translation © Nicholas de Lange 2004

 

 

 

 

Uma História de Amor e Trevas

e outras obras de Amos Oz em português

aqui

 

 


13.12.09

 

 

  

Broderies

Marjane Satrapi

 

 

 

The day I die, you will look at all my books together and see a big family saga. The book Embroidery, my grandmother is the main person. Everything revolves around her.

 

 

It is in her living room with nine or ten women. What do nine or ten women do in an afternoon, especially when they are old? They talk about sex. And one thing leads to another and they laugh and they cry. To some people my grandmother could seem a little bit cynical. But she was not cynical. She had a great sense of morality. She wasn’t a moral person -- she didn’t say “Do this, it is good, Don’t do this, it is bad,” but she always told me “Marjane, if you go to a party and you don’t talk to anyone, they will say “Who does she think she is,” but if you go to a party and start laughing with everyone they will say “Oh, look at this bitch.” So, no matter what you do, if people want to talk about you they will talk about you, so do what you think is right. If you don’t feel like talking, don’t. If you feel like laughing, laugh.

 

Marjane Satrapi em entrevista  aqui

 

 

 


 

 

Mais sobre este livro no blog "Ler BD", aqui

 

 

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4.9.09

 

 

 

 

Persépolis

de Marjane Satrapi

 

Persépolis, extraordinária autobiografia desenhada, é o relato de uma infância feliz num país impossível e de uma adolescência infeliz no país possível. Marjane Satrapi pertence a uma família de classe média iraniana que se opôs ao Xá, assistiu com esperança à sua queda e viu a revolução islâmica e a guerra Irão-Iraque destruir toda a sua forma de viver. Na tentativa de a proteger, os pais de Marjane tomaram a dilacerante decisão de a mandar sozinha, aos 14 anos, para a Europa. Marjane regressará ao Irão após concluir os estudos no liceu francês de Viena, antes de partir novamente para o exílio aos 24 anos.

 

 

 

Edições L'Association

 

 

The feeling that I am evoking in the second book is more a problem of when you are going to a new culture and you absolutely want to adapt yourself, and you absolutely want to be integrated. You have to forget about your own culture first. You know, because culture takes all of the space inside you. If you want to have another culture come into you, it’s like you have to take out the first one, and then choose what you want from the two and swallow them again. But it’s the moment you look at everything that it’s this lack of identity. You don’t know anymore who you are. You want so badly to be integrated, but at the same time you have a whole thing that is inside you. It’s the problem that when you leave and then come back, you are a foreigner anywhere.

 

 

 

I hate airports. Goodbye is the worst word for me. Goodbye means they could die and I never see them again. Anyone, even you who I meet for an hour, it is a difficult thing to say. I like the word forever. Forever -- we will be friends forever, I will see you forever.

 

 

 

 

Marjane Satrapi

em entrevista que pode ler na íntegra aqui

 

sobre o filme Persépolis, leia um artigo aqui


30.4.09

 

Vasco e Margarida Futscher Pereira

Itália, 1948

 

O livro Retrovisor, um Álbum de Família, que aqui venho anunciando, é lançado na próxima semana. Aproveito o momento para agradecer aos leitores que me têm acompanhado neste espaço. Talvez alguns se perguntem se o blog acaba aqui. Não acaba, mas haverá naturalmente um 'antes' e um 'depois' do livro, porque foi em torno do livro que construí o blog. Pode ser que nos próximos tempos abrande o ritmo de posts, e prometo que tão cedo não volto a falar na minha família. No livro, eu conto a história com princípio, meio e fim. Aqui, tenho procurado apresentar o material de que a história é feita, mas sempre com o cuidado de não estragar a surpresa. Mais tarde chegará o momento de poder servir-me livremente de todo o material.

 



 

sinopse:

Retrato de um diplomata português e da sua família, cujas histórias se cruzaram com a História do século XX em três continentes. Sendo uma história pessoal, com as vicissitudes a que nenhuma vida escapa, é também a ilustração de um percurso, ao serviço de Portugal, antes e depois do 25 de Abril, por lugares e épocas tão diversos como a Europa do após-guerra, a África Colonial e a América dos finais da Guerra Fria.

 

excerto da introdução:

 

Fiz este álbum para mostrar aos meus sobrinhos alguma coisa da vida e do mundo dos seus avós Margarida e Vasco, com quem eles não tiveram oportunidade de conviver. Eu, que tive a sorte de conhecer bem os meus avós, queria falar-lhes dos seus, e também doutras pessoas muito queridas, parentes e amigos sem os quais o retrato da nossa família ficaria muito incompleto.

Vasco teve um percurso ascendente e chegou mesmo a ser uma figura pública na última década da sua vida, enquanto Margarida fez o percurso inverso, mas eu desejava retratar os dois. E apesar de ter consciência de que a história se construiria em torno da figura dele, em virtude da sua carreira e do 'exotismo' da vida diplomática, os arquivos de ambos completavam-se. Ela conservou um espólio fotográfico e documental considerável, escreveu “Livros de Bébé” para os três filhos e publicou dois livros de poesia. Ele conservou toda a sua correspondência pessoal e um arquivo completo da sua vida profissional.

 

Mais no site do editor aqui


23.4.09

 

Casa Ventura Terra

na Avenida da Liberdade, nº 192, Lisboa

 

Regresso à casa de meu bisavô — Guilherme Pereira de Carvalho (1864-1927) — na Avenida da Liberdade, em Lisboa, porque acabei por encontrar, por mero acaso, esta fotografia que permite situá-la com maior exactidão, como pretendia uma Leitora interessada na obra do Arquitecto Ventura Terra.

 

Ampliei a fotografia para tentar ler o número da porta, 192 ou 182, fiquei na dúvida. A imagem contém, no entanto, outros elementos que permitirão lá chegar a quem estiver interessado: a placa de bronze na fachada ostenta o emblema da BP e a bomba de gasolina no passeio, à frente da casa, parece confirmar que ali se encontravam instalados nos anos 50 a sede ou escritórios da companhia petrolífera.

 

Na fotografia vemos a minha prima brasileira Stella Maria Pereira de Carvalho, que também já aqui mencionei, numa das vezes que esteve em Portugal, neste caso em Agosto de 1957.

 

 

verso da fotografia

 

post anterior sobre a mesma casa aqui

Mais sobre Stella Maria aqui

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10.4.09

 

 

 

 

 

Em tempo de Ressurreição veio-me à memória, como vem muitas vezes a propósito de tudo e a propósito de nada, a minha mãe.

Tenho dela uma vaga ideia, quando ela morreu tinha três anos e meio, mas tenho do seu enterro uma impressiva visão centrada no fecho do caixão onde ela estava depositada tendo um manto azul a cobrir-lhe a cabeça. Muita gente a chorar, muitos afagos na minha cabeça e o Laribau a um canto a olhar ensimesmado todo o tropel das pessoas e, a dizer-me palavras amigas. Nada mais. Morria-se muito naquele tempo, a assistência sanitária deficiente, a carestia alimentícia, as epidemias consubstanciadas na disenteria, na difteria e na tuberculose davam imenso que fazer à megera da gadanha – a MORTE. As comunidades viviam o drama da perda respeitando um código arreigado em regras e deveres ao qual só escapavam os tontos, os pedintes e as crianças mais pequenas. Mesmo estes tinham de respeitar os rituais fúnebres, sob pena de sofrerem adequada sanção. Porque assim era, cedo percebi o significado dos lutos, das suas diferentes gradações. A morte de um filho impunha determinado tempo de luto pesado à mãe, a morte do marido representava frequentemente luto perpétuo, a morte de um primo era encarada de forma mais ligeira. No entanto, nunca por nunca deixei de ir a enterros, porque: “era uma obrigação”, assim o determinava a minha avó. A ida aos enterros envolvia uma adequada representação formal, não podia rir, muito menos gargalhar, só acabando a obrigação após sairmos do cemitério. Os enterros de gente importante, de Vinhais, ou a quem a família devia obrigações mais apertavam o torniquete de modo a minha irrequietude estar devidamente controlada. Uma vez, num sufocante dia de se pedir a intercessão de Santa Bárbara, comecei a ficar possuído por bichos-carpinteiros, enquanto muitos padres cantavam uma missa, que hoje sei ter sido de Requiem. O incenso, o calor, a duração do acto levavam-me a retorcer-me a todo o momento, tendo os meus sucessivos movimentos sido sustidos após ter levado um valente beliscão num dos braços, acompanhado de um carregado olhar debaixo de sobrancelhas franzidas. Nos enterros os homens raramente choravam, as mulheres choravam muito, algumas gritavam enquanto arrepelavam os cabelos e soltavam palavras doridas devido à morte do familiar. A morte de um rapaz ou rapariga na “flor da idade” gerava uma grande emoção em toda a aldeia. Guardo violentas imagens dos momentos dessas despedidas finais. Nessa altura já percebia a importância da morte da minha mãe, muito mais tarde percebi em toda a sua amplitude o significado da sua perda em termos de segurança, protecção, cuidados e afectos. Ela tinha uma função única, ímpar. A adaptação à morte da Mãe, no meu caso, centrou-se na minha avó materna. Na altura nada sabia sobre vinculação e separação, mas este artigo prova a ligação simbólica que nutro e me apazigua, quando evoco as minhas duas mães. Naquele tempo não existia a vergonha pela morte dos parentes, os lutos estavam rigorosamente pré-determinados, sendo alvo de censura quem se atrevia a levantar o luto antes de tempo. O luto assumia uma função de sagrado, que nestes tempos de globalidade e desafectação de sentimentos é desrespeitado de uma forma generalizada. A morte era admitida no seio da comunidade como elemento natural, daí que o corpo fosse lavado por um parente próximo, sendo depois colocado em casa a fim de ser velado durante a noite inteira. O cadáver ali estava a ouvir histórias e murmurações sobre a sua vida, ninguém tinha medo de ser contaminado, ninguém entendia o morto como coisa anormal na casa, daí não se recorrer a agente funerário para se encarregar das tarefas de o colocar em condições de ser enterrado. O luto podia ser antecipado, caso de pessoa muito idosa e a “morrer aos poucos”. A família aguardava o desenlace com naturalidade e, quando o sino começava a soltar notas preguiçosas logo as mulheres se encaminhavam para casa do falecido, a fim de ajudarem nos preparativos da sua encomendação. A família exibia sinais de conformidade e resignação, mesmo tratando-se de viúva ou viúvo. Os anjinhos, crianças pequenas, iam direitinhos para o céu nos esquifes debruados a cetim. Não me custava nada imaginar tais viagens. Custava-me mais ver dias, meses, anos a fio homens a exibirem sobre as camisas peitilhos pretos, as mulheres mesmo no pino do verão de preto todas vestidas mais o lenço negro na cabeça. Agora, os lutos não são evidentes, raramente se vê um fumo preto na manga de um casaco, mas o problema dos lutos mal resolvidos subsiste, os lutos não reconhecidos estão em queda, os lutos patológicos ou para sempre, manifestam-se nos consultórios dos psiquiatras, especialmente quando a perda é inesperada. Não é propósito deste artigo tratar aqui desses lutos é, isso sim, uma homenagem às minhas Mães, apesar de: “Mãe há só uma, a nossa e mais nenhuma”. Mas a minha avó foi uma mãe formidável. Podem acreditar. Neste período de Páscoa, sabe-me bem escrever sobre elas, porque me deram a imprescindível segurança naqueles primeiros anos.

 

Armando Fernandes

 

PS. 1. A bibliografia sobre as atitudes perante a morte é imensa. Sobre o efeito da morte de parentes queridos nas crianças, sugiro: A Child’s Parent Dies: Studies in Childhood Bereavement. Yale University Press.

2. A viuvez e, especialmente as viúvas, merecem conveniente artigo. Vou ver se não me esqueço.

 

 

© Armando Fernandes

NORDESTE, Semanário Regional de Informação

Edição de 05-04-2005

 

Imagem: fotograma do filme A Palavra de Carl Theodor Dreyer

 


28.3.09

 

 

 

 

Casa de Freitas  c. 1930

 Concelho de Amarante  

 

Aproveito o facto de ter evocado o meu bisavô Guilherme Pereira de Carvalho, no post anterior, para satisfazer a curiosidade de um amigo que, um dia destes, me perguntou com intuição certeira “que casa mágica é esta que serve de pano de fundo ao blog". Situada na região de Entre Douro e Minho, a 'Casa de Freitas' acolheu sucessivas gerações da minha família materna. Nos anos cinquenta foi inteiramente reconstruída, após um grande incêndio que só deixou de pé a fachada, mas o seu aspecto actual é praticamente idêntico.

 

Foram muitas as fotografias de família e amigos tiradas nesta casa ao longo do século XX e eu estava à espera de um momento oportuno para apresentá-la ao Leitor, desde que, logo no primeiro dia, abri com esta vista uma excepção à regra de não mostrar no blog imagens do livro Retrovisor, um Álbum de Família (a sair em breve). 

 

 

A Casa de Freitas terá sido mandada construir por António Pereira de Carvalho, nome a que correspondem supostamente as iniciais “APC” que encimam o portão do jardim. Sei que a propriedade foi comprada pelo meu bisavô a Joaquim Leite de Carvalho. Guilherme Pereira de Carvalho (1854-1927) — a não confundir com o meu avô, do mesmo nome — e Joaquim Leite de Carvalho eram naturais do Lugar de Freitas, na Freguesia de Telões, e ambos comerciantes estabelecidos no estado brasileiro da Baía. Uniam-nos laços de parentesco. Descobri recentemente esta fotografia de Joaquim Leite de Carvalho num álbum de família muito antigo que pertenceu a meu tio-avô António Guilherme Pereira de Carvalho:

 

 

Joaquim Leite de Carvalho

c.1900

 

Por morte de meu bisavô, a propriedade coube em herança a sua filha mais velha, Maria do Carmo (Mariêta), que por sua vez a deixou aos sobrinhos.

 

Hoje a Casa de Freitas pertence a um bisneto de Guilherme Pereira de Carvalho.

 

 

O álbum de António Pereira de Carvalho está aqui 

 

 


26.3.09

 

 

 

Arquitecto Miguel Ventura Terra

1866-1919

 

Por ocasião da reabertura da Sala das Sessões, a Assembleia da República promove a exposição “Arquitecto Miguel Ventura Terra (1866-1919) ”, em homenagem ao autor do projecto original do Hemiciclo inaugurado em 1903. A obra de Ventura Terra integra alguns dos edifícios mais emblemáticos de Lisboa: os liceus de Camões e de Pedro Nunes, o Teatro Politeama, a Maternidade de Alfredo da Costa, o átrio do Teatro Nacional de S. Carlos, o Banco Totta & Açores (na Baixa), a sinagoga de Lisboa e quatro casas que arrecadaram o Prémio Valmor (entre 1903 e 1911).
A exposição ontem inaugurada traça um breve retrato biográfico do arquitecto, que nunca descurou actividades filantrópicas. Quem passar pela Rua de Alexandre Herculano, em Lisboa, poderá ler na placa da Casa Ventura Terra a seguinte inscrição: "Esta casa foi legada às escolas de Belas-Artes de Lisboa e Porto pelo arquitecto Miguel Ventura Terra, que nela faleceu em 30 de Abril de 1919, destinando o seu rendimento líquido para pensões a estudantes pobres das duas escolas que mostrem decidida vocação para as Belas-Artes."

 

 


 

"A Construcção Moderna" Anno III - 20 de Novembro de 1902

 

 

A nossa revista honra-se mais uma vez com a collaboração do distincto archictecto, sr. Ventura Terra, apresentando o projecto da casa que vae ser construída na Avenida da Liberdade. Como se vê das plantas o prédio é só para um morador, o proprietário, exmo sr. Guilherme Pereira de Carvalho. Pouco teremos a dizer d’elle, que o não mostre os desenhos. A fachada será toda revestida de marmore branco e as colunas serão de marmore de côr. Interiormente, terá a casa todas as condições da vida moderna, com luz e ar em todas as suas divisões.

 

 

Guilherme Pereira de Carvalho

1854–1927

 

Mais sobre a exposição aqui e o Arquitecto Ventura Terra aqui

Se é a primeira vez que visita este blog leia mais sobre os Pereira de Carvalho aqui


24.2.09

 

Guilherme e Cristina, 1952

 

 

 

 

Na minha família, quem gostava mais do carnaval eram os meus avós, talvez por terem passado a infância no Brasil e se recordarem de grandes festas de carnaval dos seus tempos de juventude. Esta fotografia, tal como as anteriores, foi tirada no Saldanha, em Lisboa, onde viviam os meus avós maternos. O traje de Cristina, de “Leiteira Rica”, o do Minho que tenho vestido na foto de 1955, e o da Nazaré, da minha prima Verusca, na foto de 1964, eram de casa deles e deviam ter pertencido à minha mãe e à minha tia Stella.

 

Na minha adolescência não gostava do carnaval, porque na rua, além das bisnagas - que ainda vá que não vá - os miúdos atiravam-nos aos pés estalinhos de pólvora, de que eu tinha imenso medo, e arremessavam saquinhos de areia que aleijavam. A pobre Sylvie Vartan foi atingida no palco por vários, quando actuou em Lisboa, no Cinema Monumental.

 

 

Leia mais sobre o carnaval aqui

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18.2.09

 

 

álbum de família de finais do séc. XIX

 

 

Em 2008 chegou-me do Brasil, pelo correio, este álbum. Um amigo, Carlos Pereira Marques, a quem eu falara no meu projecto, anunciou-me que uma sua prima, residente em S.Paulo, tinha em seu poder um álbum de fotografias da minha família, e que teria gosto em mo enviar caso eu estivesse interessada. O álbum pertencera a meu tio-avô materno António Guilherme Pereira de Carvalho (n.1893), o único de sete irmãos (dois rapazes e cinco raparigas) que se radicou no Brasil, onde o seu pai tinha uma casa comercial.

 

Escrevi a Maria Amália Fragelli, e, por fim, foi com expectativa e emoção que recebi o pesado embrulho, muito cuidadosamente embalado para resistir bem ao transporte. Não sei dizer ao certo o que esperava, mas a minha surpresa foi grande. Nunca tinha visto, muito menos folheado, um álbum deste género. Admito que existam em museus da fotografia (ver imagem no post anterior).

 

 

 

 

  

 

António Guilherme de Barros Pereira de Carvalho 

1893-1939 

 

O meu tio-avô casou com Julia Ruiz de Gamboa, de quem teve uma filha, Stella Maria, que foi Madre nas Irmãs Ursulinas e Directora da Faculdade de Letras da Universidade Católica do Rio de Janeiro. Lembro-me da emoção dos meus avós maternos aquando de uma visita de Stella Maria a Portugal, na época em que vivíamos na casa deles, nos anos 60.

 

Após a entrada de Stella Maria para o convento, a minha tia Julinha foi viver com a sua irmã. A filha desta, Maria Amália, conservou amorosamente o álbum até hoje.

 

Mais sobre os Pereira de Carvalho aqui  

 

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15.2.09

 

 

 

 

 

 

páginas de um álbum de fotografias,

Brasil, finais do século XIX.

 

 Through photographs, each family constructs a portrait-chronicle of itself – a portable kit of images that bears witness to its connectedness. (...) Photography becomes a rite of family life just when, in the industrializing countries of Europe and America, the very institution of the family starts undergoing radical surgery. As that claustrophobic unit, the nuclear family, was being carved out of a much larger family aggregate, photography came along to memorialize, to restate symbolically, the imperiled continuity and vanishing extendedness of family life. Those ghostly traces, photographs, supply the token presence of the dispersed relatives. A family’s photograph album is generally about the extended family — and, often, is all that remains of it.

 

  

Susan Sontag 

in On Photography, 1973

 

 

Leia outra citação da mesma obra aqui e mais sobre o meu álbum de família aqui

 

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7.2.09

 

 

 

 



Os meus tios-avós Vidal e Hugo Belmarço, num colégio interno em Inglaterra: Hugo Celso - ao centro a segurar na bola - e Vidal Alberto - de pé, na última fila, o primeiro a contar da direita.

Vidal (1891-1961) e Hugo (1894-1963) eram irmãos de minha avó materna, Maria do Carmo (Carmita) Navarro de Andrade Belmarço aqui.

A reprodução desta fotografia e diversos documentos sobre a família Belmarço foram-me oferecidos por Vasco Belmarço da Costa Santos, conservador dedicado das recordações da família.




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6.2.09

 

 

Carmita e Guilherme, c. 1919

 

Mais sobre o Álbum de Família aqui

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