10.8.16

 

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 Inauguração do Estádio Nacional, 1944

Fotos: João D'Korth

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Vergonha na cara

 

 

 

 

Nuno Bragança tinha tido uma nanny de maneira que quando foi a Londres pela primeira vez, já com mais de trinta anos, os nativos com quem falava não percebiam que ele era estrangeiro. Passou lá um mês; a jantarmos na véspera de se ir embora perguntei-lhe o que achara. “Levaria muito tempo a habituar-me a viver aqui mas a Portugal sei que nunca hei de me habituar.”

 

Com efeito assim foi e o problema não era só do Nuno; o sentimento também assalta muitos que não acabam matando-se. Para Alexandre O’Neill era uma moinha permanente: “Portugal, questão que tenho comigo mesmo”. No meu caso, o incómodo deve vir do Pai que tive. Nos meus primeiros anos de liceu, era director do Centro de Saúde de Lisboa; todas as manhãs um automóvel o vinha buscar, que o trazia à noite (e muitos dias também para almoço que nessa altura comia-se mais em casa do que hoje). A Escola Valsassina, onde o João e eu andávamos, era a caminho do Centro mas nunca pusemos o rabo naquele carro porque um carro de serviço não servia para levar meninos ao liceu. O civismo ia mais longe. A CUF convidou o Pai para dirigir a parte de saúde pública dos seus serviços médicos. Era um lugar novo e aliciante mas havia uma condição: que ele prescindisse de intervenções políticas (não tinham passado da assinatura de alguns abaixo assinados contra o regime; nem sequer era comunista). Quando ele recusou, o médico que lhe transmitira o convite tentou demovê-lo, perguntando-lhe se ele não se lembrava de que tinha filhos. “É exactamente por me lembrar de que tenho filhos” respondeu o Pai.

 

Só comecei a dar-me conta daquilo a que alguns gostam de chamar o “país real” e outros o “Portugal profundo” já na universidade, alguns anos depois do Pai ter morrido. Mandara fazer um sobretudo e o alfaiate teve de mudar a data de uma prova para ir ao Minho testemunhar num julgamento. Contou-me depois: “O Senhor Doutor está a ver, o Juiz queria que eu dissesse a verdade mas eu…”.

 

Outros anos passaram. Virei antropólogo, veio o 25 de Abril, o PREC, a descolonização mas um ano depois disso tudo já se tinha percebido que o país mais parecido com Portugal antes do 25 de Abril era Portugal depois do 25 de Abril. Um dia disse ao Vitor Cunha Rego que meu pai me ensinara serem os portugueses um povo maravilhoso, oprimido por uma cáfila na qual o bandido-mor era Salazar. “Pois é” respondeu o Vitor “eu também tive um pai assim. E é grave um homem aos cinquenta anos descobrir que o pai era parvo”.

 

A identidade entre o país da Exposição do Mundo Português e o país da CPLP parece hoje quase completa. Pelo menos do ponto de vista moral. Em 1944, quando foi inaugurado o Estádio Nacional, avionette lançou sobre o público milhares de panfletos dizendo “O que nós queremos é futebol!” e explicando porquê.

 

Havia censura prévia e a imprensa – jornais e rádio – não podia contar de viagens duvidosas de secretários de estado. Agora pode e conta mas ganhamos as mesmas. Já ninguém terá vergonha na cara?

 

 

 

 

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6.8.16

 

 

P for Pamela Pinterest.jpg

 

 

 

 

palinódia
pa.li.nó.di.a
nome feminino
(do grego palinodía, canto diferente)

 

 

Como género literário da Grécia antiga era uma retractação, que servia ao autor para desdizer ou desmentir o que dissera num canto anterior. Nem sempre é fácil perceber se tais retractações eram sinceras, mas é um facto que a palinódia se tornou uma forma poética que teve a sua fortuna. Estesícoro, no século VII-VI a.C., terá sido o primeiro a usá-la. Leopardi, já no século XIX, retomou o género na «Palinodia al marchese Gino Capponi», que a certa altura diz assim: «Vendo isto/ e meditando profundamente sobre as largas/ folhas, de minhas graves, antigas/ ilusões e de mim próprio senti vergonha.»* (tradução de Albano Martins). Em português, tanto na variante brasileira como na europeia, o termo designou, pelo menos a partir do século XIX, a mudança de opinião, sobretudo política, sem rasto da retractação original. Isto é, sem vergonha.

 

 

*Così vedendo,/ e meditando sovra i largui fogli/ profondamente, del mio grave, antico/ errore, e di me stesso, ebbi vergogna.

 

 

 

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27.7.16

 

 

Marie_Eléonore_Godefroid_-_Portrait_of_Mme_de_Sta

Germaine de Staël

(Marie Eléonore Godefroid segundo François Gérard)

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

 

O passado e o futuro

 

 

 

 

 

Cosimo de Medici, o mais sábio e ponderado de ninhada de irmãos florentinos de que o mais vaidoso era Lourenço, o Magnífico, banqueiro respeitadíssimo e homem de trato exemplar - dava sempre a parede a pessoas mais velhas (no seu tempo as ruas de Florença não tinham passeios e quando nelas se andasse “dar a parede” , fosse à direita ou à esquerda, era sinal de deferência) – dominava práticas financeiras novas que no seu tempo animavam o comércio internacional europeu e era, nesse sentido, um homem virado para o futuro. Mas, por outro lado, detestava a invenção da imprensa por Gutenberg, não porque esta tivesse tirado valor à sua biblioteca de incunábulos mas porque leitura era exercício requintado que não se compadecia com a vulgaridade dos paralelepípedos de papel a que chamamos livros, saídos em quantidades industriais das prensas tipográficas. Para Cosimo, a Renascença fora manchada pelo aviltamento de uma das mais refinadas experiências humanas e, nesse sentido, era um homem do passado. Lembro-me dele às vezes, escrevendo onde escrevo agora: penas (plumas) propriamente ditas já tinham desaparecido quando aprendi a redigir mas canetas de molhar o aparo na tinta, canetas de tinta permanente, máquinas de escrever – comecei por uma Olivetti lettera 22 – que passaram a eléctricas, vi um dia no Diário de Notícias que Jimmy Carter estava a escrever as memórias dele num “word-processor”, até ao computador que uso agora e me obriga de vez em quando a pedir ajuda ao Cipriano que, sem sair do escritório dele, entra no meu écran e, enquanto o diabo esfrega um olho, em série de cliques que obedecem a gramática que não conheço, acaba com o impedimento ou corrige o desvio que me levara a telefonar-lhe. (Isto, na escrita. Quanto à leitura, enquerenço como Cosimo embora não em incunábulos mas sim em livros impressos em papel - assim fazem touros em Praças que não saem de um lugar por muitas capas que lhes metam pela frente. Não julgo que alguma vez me meta a ler um livro electrónico – é assim que se diz? – nem mesmo em leituras de verão, onde a modernice poupa imenso espaço dentro das malas de bagagem que se levem para férias.

 

A propósito, não só nisso os antigos eram diferentes dos modernos. Hoje, chegado o Verão, os europeus vão para férias. Antigamente iam para a guerra. Deixando memórias vivas, mesmo em país neutro aonde havia férias (agradeciam as mães portuguesas ao Dr. Salazar, a despropósito, pois fora Franco que travara qualquer apetite de Hitler para invasão da Península Ibérica). Lembro-me como se fosse hoje do Pai chegar ao Estoril ao fim da tarde e dizer que a guerra tinha começado.

 

Com a Europa a esfrangalhar-se, Trump na maior, o Czar e o Sultão sem ganharem tino, gente nova cheia de sangue na guelra, correcção política que não deixa pôr nomes aos bois e divórcio entre elites e povos parecido com o que alarmou Madame de Staël durante a Revolução Francesa, talvez os nossos verões tornem a pegar fogo.

 

 

 

 

 

 

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6.7.16

Xarope_de_Capile.jpg

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Errata

 

 

 

Sempre tive dificuldades com a ortografia de nomes. De gentes e de sítios. Escrevi uma vez Camões com z no fim, abaixo de O homem que for sisudo/Numa tão grande questão/Terá de tomar por escudo/A justiça e a razão/Que estas armas vencem tudo, versos que escolhera para citação de abertura em apontamento douto e terso sobre política europeia  -  mas dei por isso e emendei antes de o mandar por e-mail ao seu ilustre destinatário. Outra vez, há muito mais tempo, numa série de textos publicitários curtos, encomendados por Eduardo Calvet de Magalhães, escrevi várias vezes Carcave-los, como se carcaver fosse um verbo, mas também dei por isso antes de os entregar, comentando o percalço com Calvet. (Lembrando-me dele agora, ressinto a injustiça do seu esquecimento. O mano Manuel, pedagogo, tal renome teve que lhe deram nome de rua e tudo. O nome do mano José, embaixador, é venerado no Palácio das Necessidades como uma das sumidades diplomáticas da segunda metade do nosso século XX. Do Eduardo ninguém fala, embora tenha introduzido a publicidade moderna em Lisboa e no Porto e, entre a chegada da Canada Dry e a chegada da Coca Cola, ter imaginado o refrigerante que mais conviria a Portugal - capilé gaseificado - para publicidade do qual até inventara slogan: “A bebida que lhe corre nas veias”).

 

Na semana passada tornei a disparatar: chamei a Louise de Vilmorin, Louise de Villemorin. Quando dei por isso, avisei a Vera que corrigiu logo no blog e, por conseguinte, o bloco que anda no éter (é assim que se deve dizer?) está como deveria estar mas as poucas amigas e amigos a quem todas as semanas mando directamente o pdf  – ces êtres malhereux, aimables, charmants, point hypocrites, point “moraux”, assim lhes poderia haver chamado Stendhal, ou We few, we happy few, we band of brothers proclamaria talvez, imune a correcção política, Shakespeare quando estava em ‘mode’ heroico  ficaram com o erro por corrigir. A todas e a todos, quer tenham lido esse Bloco-Notas quer não e, se o leram, quer tenham dado pelo disparate quer lhes tenha escapado, aqui e agora deixo o nome bem soletrado da amante principal de Duff Cooper em Paris (mais tarde amante de André Malraux que depois da morte dela herdou no leito sua sobrinha Sophie, também de Vilmorin, conta esta num livro).

 

Assobios para o lado, tudo quanto escrevi acima. André Gide dizia, no Paris dos anos 20 do século passado –“ les années folles” – que às vezes lhe parecia haver mais artistas do que obras de arte. Em Portugal - na Europa - de 2016, às vezes parece haver mais comentadores do que factos a comentar. Sou suspeito por ser eu próprio comentador mas ao acordar de manhã já o mundo está a ser batido em gigantesca montanha de claras em castelo, perfumadas com o aroma do dia. Omnipresente mas efémera conversa de treinadores de bancada, lembra o mano João, com Schadenfreude de quem arranca ternas figuras à brutidão dos calcários e nelas deixa os seus estados de alma per omnia secula seculoram. Amen.

 

 

 

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29.6.16

 

 

 

Pieter_van_der_Heyden.jpg

A Nave dos Loucos - Pieter van der Heyden (1562)

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

“E agora José?”

 

 

 

perguntou Yvonne por SMS (haver quem se lembre de Carlos Drummond a propósito da maioria dos britânicos decidirem de um dia para o outro sair da União Europeia dá logo algum conforto). É pergunta retórica mas eu respondo. Agora, Yvonne, das duas uma: se, dos outros europeus, aqueles a quem a Inglaterra faz falta dentro da União tiverem mais poder do que aqueles que suspiram de alívio por a verem sair dela, tudo irá menos mal no menos mau dos mundos possíveis. Se for ao contrário vamos ter, Você e eu, fim de vida muito mais incómodo do que aquele que havíamos antecipado.

 

Vai ouvir e ler agora toda a espécie de argumentos, vindos de um lado e do outro, mas não será o valor intrínseco de qualquer deles que ditará o futuro mas sim o resultado do confronto de forças indicado acima. É sempre assim. Por exemplo, durante a Guerra (como nós dizemos; para leitoras mais novas, a Segunda Guerra Mundial) uma tarde, no Norte de África, Duff Cooper tentava persuadir Churchill dos grandes méritos de De Gaulle (Churchill, primeiro-ministro britânico e De Gaulle, chefe exilado em Londres das forças francesas livres, não precisarão de apresentação; Duff Cooper foi ministro inglês próximo de Churchill, embaixador em Paris logo a seguir à guerra, biógrafo exímio de Talleyrand e polígamo natural: a mulher, Lady Diana Cooper tinha às vezes de consolar a sua principal amante francesa, Louise de Vilmorin, dos devaneios do marido). A certa altura Winston interrompeu Duff: “Não vale a pena insistires. Tu gostas dele e eu não (You like the man and I don’t)”.

 

É o que se está a passar. Felizmente para quem pense, como eu, que União Europeia, privada de Reino Unido, seria objecto político teratológico, girafa sem pescoço ou touro sem cornos, o chefe de fila dos que lamentam a saída e não a querem apressar é Angela Merkel, ao pé da qual resmungões anti-ingleses de vários partidos e pátrias, sedentos de divórcio litigioso, são pigmeus. Vale a pena ir demorando porque os jogos não estão feitos. O referendo não era vinculativo. Referendos europeus foram repetidos. Danos nos interesses de todos causados por tão egrégia insensatez cega os olhos. Brutidão xenófoba – a começar pelos ingleses – precisa de correcção exemplar. Talvez se possa ainda virar o bico ao prego.

 

Moralistas evocarão Bertolt Brecht: “É preciso dissolver o povo e eleger outro!”. Haverá lembranças diferentes. Em 1999, quando a OTAN ia bombardear a Sérvia, Robin Cook, MNE inglês, disse a Madeleine Albright, MNE americana, que os seus juristas (lawyers) achavam que tal era ilegal. “Get other lawyers” respondeu ela. E na Cidade e as Serras quando os dois homens de Madame de Trèves, o marido, o Conde de Trèves e o amante, o banqueiro judeu David Ephraim, querem convencer Jacinto a investir numa mina de esmeraldas no Ceilão e Jacinto pergunta enfadado Ele há esmeraldas no Ceilão? o banqueiro indigna-se: “Homem, há sempre esmeraldas desde que haja accionistas!

 

Brexit? Ou talvez não?

 

 

 

 

 

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10.6.16

 

Arigato, eu.jpg

 aqui

 

 

 

O Japão é daqueles sítios que transformam as pessoas. Posso atestá-lo pela minha experiência pessoal, cumpridos três meses por lá e quase meio milénio após os meus compatriotas ali entra­rem, eles que também terão mudado após o acidente de Tanegashima (que adiante conheceremos) e dito «obrigado» por este não os ter matado. Também poderei confirmar que a experiência do Extremo Oriente é marcante quando, nos próximos capítu­los, escrever sobre os sete portugueses que aí conheci, abertos e aventureiros como lusos, mornos e simpáticos mas cada vez mais formais, trabalhadores e concentrados como os nipónicos.

 

Em 1512, durante o reinado de D. Manuel I, chegaram notí­cias de que existiria um arquipélago ao largo da China. Fora o mercador italiano Marco Polo quem o dissera, acrescentando que esse conjunto de terras rodeadas por mar era chamado «Cipanto» ou «Ji-pangu», em chinês «o local onde o sol nasce».

 

Na época os japoneses viviam isolados, pois o seu território não tem ligação por terra com nenhum outro e eles só mantinham contacto com a China e com a Coreia, de onde vieram fortes influências culturais, como a escrita, o cultivo do arroz e o budismo. «Uma ilha grande, de gente branca, de boas maneiras, formosa e de uma riqueza incalculável», escreveu Marco Polo. A descrição deixava o novo local envolto numa névoa de fabu­losas riquezas, o mistério que ainda hoje se lhe associa e que atrai portugueses, emigrantes, viajantes e exploradores de todo o mundo.

 

Já em 1540 as informações sobre o Japão eram mais claras, pois barcos japoneses ancoravam nas pequenas ilhas de Liampo, na costa chinesa, e por aí tinham contacto com mercadores lusi­tanos. Segundo uma das versões da história, um dos barcos mercadores dirigia-se para lá levando três portugueses quando foi apanhado numa violenta tempestade, indo parar à ilha de Tane­gashima, ao sul do Japão, no tal acidente pelo qual podemos dizer muito obrigado ou arigato gosaimasu.

 

 

Luís Brito

in  Arigato, eu. Os portugueses no Japão

© Fundação Francisco Manuel dos Santos e Luís Brito. Abril de 2016

 

 

 

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28.5.16

 

 

 

letter-e espelho.jpg

 

 

 

espelho
es.pe.lho
nome masculino
(do latim speculum)

 

 

Superfície regular capaz de reflectir a radiação luminosa que nela incide e que, se for plana, fornece uma imagem virtual, direita, simétrica, de igual dimensão à do objecto reflectido e sem distorção cromática. Os espelhos vulgares que temos em casa são fabricados com um vidro muito polido coberto de um dos lados com nitrato de prata a que se sobrepõe uma camada protectora de tinta preta. A parte da Óptica que estuda a reflexão da luz, e por extensão os fenómenos relacionados com os espelhos, tem o nome de Catóptrica.
O espelho, ou o efeito de espelho, é um elemento omnipresente na nossa cultura, e tal presença define a maior parte dos sentidos em que usamos a palavra. Narciso extasia-se e deseja a sua imagem reflectida na água até compreender a natureza vã desse amor sem solução (Ovídio, Metamorfoses, Livro III, 402-510). É que os espelhos não podem ser usados para mentir, pois a imagem produzida pelo objecto não se pode produzir na ausência deste, como salienta Umberto Eco no ensaio Sobre os Espelhos. E – embora se possa mentir acerca das imagens especulares –, os espelhos conservam simbolicamente a característica de assumirem uma espécie de ética de integridade (o reconhecimento da inteireza do corpo através da imagem especular de um «outro», de que falava Lacan) e uma exigência de representação da verdade. Veja-se, por exemplo, o espelho da Madrasta de Branca de Neve em relação à supremacia absoluta da sua beleza ou o diálogo de Hamlet com a mãe: «Come, come, and sit you down; you shall not budge;/ You go not till I set you up a glass/ Where you may see the inmost part of you.» [Venha, venha, e sente-se aí; não se mova; Não se vá antes de eu lhe trazer um espelho Onde poderá ver a parte mais funda de si] (Shakespeare, Hamlet, Acto III, Cena 4). Diz-se então que o espelho é implacável e insusceptível de ser enganado. A dissimulação será devolvida como dissimulação. Porém, o mesmo acontece com as ilusões de quem só vê o que quer ver, que é também, entre outras coisas, o princípio da vaidade: a imagem de um outro que nos olha com os olhos com que nos vemos, num espelho que assim se encerra e se torna impossível atravessar.

 

 

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11.5.16

 

 

Charles_Maurice_de_Talleyrand-Périgord_by_Franço

Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord,

bispo de Autun, príncipe de Benevente, 1754-1828

(François Gérard, 1808)

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

La douceur de vivre*

 

 

 

 

Amigo recolhido há muitos anos para lá da barbacã do Alzheimer deixou-nos de vez há dias. Era homem de outro tempo – como às vezes chamamos ao passado - e gostaria de ter nascido em tempo mais passado ainda. Quando fora novo e ia e vinha de Bruxelas a Lisboa de automóvel dava sempre volta larga para não passar por Paris. Porque em Paris, com a Revolução Francesa de 1789, começara a tragédia do mundo moderno.

 

Lera com certeza as Reflexões sobre a Revolução em França de Edmund Burke, publicadas logo em 1790, mas mesmo que o não tivesse feito percebia tão dolorosamente quanto o parlamentar irlandês da Câmara dos Comuns o rombo brutal às tradições que começara a ser aberto; a preferência funesta dada a princípios abstractos sobre costumes. E, se fora admirável em Burke a previsão perspicaz, o meu amigo sofrera, nos decénios da sua vida lúcida, o desenrolar sem remissão desse futuro impiedoso. Está agora na moda dizer mal da Revolução Francesa mas ele não era homem de modas: pensava o que pensava desde os seus anos (brilhantes) de universidade. Ceux qui n’ont pas vécu avant la Révolution n’ont pas connu la douceur de vivre.

 

Do que pouca gente se dava conta e muitos se davam conta achando bem. Sobretudo na Europa continental, farta de monarquias absolutas, e nos Estados Unidos da América, bêbados de independência triunfante, com escravos e índios a amortecerem a pancada. O grande poeta inglês William Wordsworth cantou a felicidade de ser vivo e ainda por cima novo nos momentos gloriosos da Revolução do outro lado do canal mas, nas suas ilhas, tal visão foi sempre minoritária. A prudência e o bom senso britânicos prevaleceram, na convicção de que todo o cuidado seria pouco. O Dr. Samuel Johnson – lexicógrafo, considerado homem tão espirituoso que em dicionários de citações inglesas só Shakespeare, Oscar Wilde e Bernard Shaw o batem em número de entradas – quando a Duquesa de Devonshire, acolhendo-o para sarau literário na sua casa de Londres, lhe disse, entusiasmada, ir ter entre os convidados dessa noite dois revolucionários de Paris, respondeu: “Watch the silver, Madam!” (“Atenção à baixela!”).

 

Coube-nos estar a assistir ao fim desse enorme sobressalto mas nem de longe foi a primeira vez que a história alarmou espíritos atentos. Há poucos anos alguém enumerou o que considerava as piores catástrofes do percurso ocidental, começando já se vê no Próximo Oriente. Por ordem cronológica: monoteísmo; cristianismo primitivo; reforma; Marx e, acrescentaria eu se Thérèse Delpech ainda fosse viva para o defender melhor do que eu o teria atacado, Freud. Desde que o Homo sapiens deu por si, a Dor humana busca os amplos horizontes e tem marés de fel como um sinistro mar.

 

“Não há-de ser nada!” diria o Senhor Engenheiro e, embora o destino não tenha sido o seu forte, está sol em Bruxelas e suspendo a descrença. O mais de tudo isto é Jesus Cristo, que não sabia nada de finanças nem consta que tivesse biblioteca.

 

 

 

*Com vénia a Talleyrand, Cesário e Pessoa.

 

       

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4.5.16

 

 

GUILLAUMET Henri1.jpg

 o avião de Henri Guillaumet

 

 

 

 

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Mar Morto e cavalinhos

 

 

 

Começo a escrever ao meio-dia da Quinta-Feira 28 de Abril. Quando a leitora me ler, a Vera, minha senhoria e decoradora de interiores na net (com o bloco aninhado no seu blog, as ilustrações são propostas por ela), terá saído da Portela na madrugada de Sábado para estar ao fim do dia na Jordânia, mais precisamente numa margem do Mar Morto, a interpretar em conferência de ONG dedicada a crianças e famílias, ficando por lá até ao próximo Sábado. Poderia, mesmo assim, ter posto o bloco no blog no começo da semana mas havia preferido que eu lhe mandasse o texto antes de partir porque, technologically challenged fora de casa, só com a malinha dos pertences, talvez não conseguisse encontrar boneco apropriado. Respondi-lhe que sem horas de fecho estritas me era muito mais difícil escrever para qualquer publicação, que o desafio me agradava e que ela poderia contar comigo.

 

Pensei na tarefa e prefigurei a táctica. Decidi antecipar trabalho no morto a publicar no Expresso de Sábado e, com efeito, acabei de o escrever ontem e mandei-o esta manhã (28) com mais de 24 horas de avanço sobre a deadline afim de ficar à vontade ao redigir o bloco. Lembrei-me de Guillaumet, aviador colega e amigo de Saint-Exupéry, cujo avião-correio caíra nos Andes deixando-o ileso mas sozinho na neve, sem comunicações. Cá em baixo deram-no por perdido mas três dias depois encontrou gente e foi salvo, para grande alegria de todos, exausto mas feliz. “Ce que j’ai fait, je te le dis, jamais aucune bête ne l’aurait fait!” declarou. Sabia que se parasse para descansar se deixaria dormir na neve e nunca mais acordaria; por isso não parara de andar. Era homem novo, os pilotos têm treino físico muito exigente mas, francês de nascimento e formação, fora o que entendia ser um triunfo do espírito sobre a matéria que lhe deslumbrara a mente. N’est pas français qui veut. Sendo o homosapiens o único animal com capacidade cerebral para o cálculo que Guillaumet fizera no cimo dos Andes, tinha provavelmente razão. Como eu tive ao avançar esta semana para Quarta-Feira a escrita do In Memoriam.

 

Un soneto me manda hacer Violante começou famosamente Lope de Vega, enfiando considerações sobre a arte do soneto em geral e o método da feitura daquele soneto em particular para rematar no 14º verso: contad si son catorce, y está hecho! mas eu estou ainda em 2.310 batidas – com espaços - faltando-me por isso 690 e não me parece que seja por aqui que o gato irá às filhoses. Mas uns versos puxam por outros e com o estado em que a Europa se apresenta agora, a rebolar para o fascismo, vem-me à cabeça Manuel Bandeira, no Jockey Club do Rio de Janeiro, em 1936:

 

Os cavalinhos correndo,                                                                                                          

E nós, cavalões, comendo.                                                                                                        

A Itália falando grosso,                                                                                                          

A Europa se avacalhando.

 

Cavalinhos, cavalões, o refrão vai-se repetindo, a beleza de Esmeralda faz esquecer Mussolini e outros males do mundo, enlouquecendo o poeta, tudo como deve ser, porque Manuel Bandeira sofria daquilo que o António Alçada achava ser também maleita minha: a mania de viver em epopeia amorosa.

 

Por razões técnicas longas de explicar a contagem de batidas neste texto não é evidente mas palpita-me estar pelas 3.000. Até Quarta-Feira que vem.

 

 

 

 

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13.4.16

 

 

 

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Em April, águas mil.

 

 

 

Gente mais lida do que o comum dos mortais deste maravilhoso país que tão generosamente acolhia no seu seio o meu chorado A. B. Kotter (Ei Bi para os amigos), inglês da Várzea de Colares - mais lida e mais provinciana (os piores sãos que acham que o não são, como disparou um dia a Teresa Gouveia, irritada já não me lembro com qual deles) quando, diante dos incómodos e contradições pós-equinociais do quarto mês do ano, gosta mais de dizer “Abril é o mês mais cruel” e, de preferência, dizê-lo em inglês - April is the cruellest month - papagueando a primeira e mais célebre linha do mais célebre poema moderno do século XX na língua do Bardo, The Waste Land, publicado em Londres em 1922, escrito por americano de Missouri com tal mania de ser inglês que se naturalizou, protestante, na Church of England mais precisamente depois da vinda para Inglaterra, e com tanta vontade de ser Católico Apostólico Romano que só a liturgia da High Church o contentava, educado em Harvard e vindo continuar os seus estudos de lógica formal em Merton College, Oxford, visitando também muito Bertrand Russell em Londres, que não só lhe ensinou lógica mas também lhe seduziu a mulher, muito neurótica, a quem aventuras como essa infelizmente não salvaram nem o casamento nem a saúde e acabou sozinha num hospício, enquanto o marido se foi inclinando cada vez mais para o vers libre (a mãe, numa carta a Russell, contava não dar nada por essa fantasia e esperava que ela passasse deixando o terreno à reflexão filosófica: quando T.S. Eliot veio a receber o prémio Nobel da literatura em 1948 já a Senhora tinha morrido) acompanhando muito com outro americano, Ezra Pound - que viraria fascista antes da Segunda Guerra Mundial havendo sido internado – cuja mestria poética é universalmente reconhecida, reviu e emendou The Waste Land que Eliot lhe dedicou chamando-lhe Il miglior fabbro.

 

Chuva e sol no dia de ontem levaram às ruminações acima, com 8 horas passadas no aeroporto de Lisboa, chamado singelamente da Portela (o meu nome preferido é Figo Maduro, mais aerogare do que aeroporto porque as pistas são as da Portela). Chegara a Lisboa na véspera com saída de Zaventem, aeroporto de Bruxelas, por corredores e salas improvisadas e erigidas muito depressa depois das atrocidades de 22 de Março, com pessoal dedicadíssimo que ia tratando uma a um, com vigilância atenciosa, quem rumava aos aviões. Menos de um quinto das descolagens diárias normais estão programadas e pôr a zona de embarques novamente como nova poderá levar nove meses. Depois do que se soubera de ineficácias belgas, a caminho e logo a seguir aos ataques terroristas, entrei no Airbus da TAP com admiração respeitosa e grata por aquela gente.

 

Ontem, à volta, balde de água fria. Sobre a diligência do resto do pessoal e perante indignação geral no país, os controladores aéreos belgas meteram-se a greves intermitentes que já estavam programadas. A espécie humana dá uma no cravo, outra na ferradura.

 

 

 

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10.4.16

 

 

A. Calpi Taças_n.jpg

 Galeria espaço AZ, Lisboa

 

 

 

 

Patente até 24 de Abril em Lisboa, a exposição "Colectiva" apresenta um vasto conjunto de obras confeccionadas por A. calpi desde o ano 2000 a partir de objectos abandonados, restos de colecção e materiais descartados.

 

A colecção de colagens, esculturas e assemblages, suportada por elementos de cenografia e decoração, inclui desde pequenos objectos até imponentes e delicados  "troféus" e "monumentos", erguidos dia a dia por A. calpi ao sabor do que se lhe ofereceu ao longo dum percurso criativo singular, marcado por incursões em géneros muito diversos e tendo por pano de fundo o amor pelo teatro e a alta cultura.

 

A quantidade e a diversidade de peças expostas, a sua laboriosa complexidade, e a forma como se encontram distribuídas pelos diferentes espaços da galeria conferem a esta primeira mostra a densidade de uma retrospectiva: meditação bem humorada e melancólica sobre a passagem do tempo e a vida dos objectos, cartografia dos estados de alma do artista, labirinto poético não isento de inquietação.

 

 

 

 

 

"Colectiva" de A. calpi

Curadoria: Eva Oddo [texto da exposição aqui]

 

Na Galeria espaço AZ aqui

Travessa Fábrica dos Pentes, 10

Lisboa

Exposição patente até 24 de Abril, Quinta a Domingo das 16H00 às 20H00

 

Acção dramática “Morre Pr’aí” / “Drop Dead” / “Die Hard” de 11 a 24 de Abril

 

Para adultos. Quintas, sábados, domingos e segundas às 19H30.

Nestes dias a galeria fecha às 19h30 e não será possível aceder depois desta hora.

Número limitado de lugares, sujeito a reserva por e-mail [colectivac@gmail.com].

 

 

 

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6.4.16

 

 

 

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Monumento aos soldados portugueses mortos na 1ª Guerra Mundial

António Teixeira Lopes (1928)

La Couture, França

 

 

 

 

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O primeiro pecado é ser pobre

 

 

 

Assim escreveu Bernard Shaw, irlandês saído da minoria protestante da ilha, no começo do século passado acrescentando que quando alguém diz “sou inculto mas é porque sou pobre” está a desculpar um mal com outro pior. É como se estivesse a dizer sou coxo mas é da sífilis. Escreveu também que o dinheiro não dava felicidade mas dava uma coisa tão parecida que só um perito era capaz de as distinguir. Amiga minha a quem anos de vida nos Estados Unidos instilaram bom senso revivificante nas sinóvias morais instaladas em menina e moça pelas Doroteias gosta de lembrar às vezes com algum schadenfreude que “mais vale ser rica e saudável do que ser pobre e doente”. Conheci no Alentejo profundo Senhora chamada Antónia, mulher de taberneiro-seareiro com pendor filosófico, tão enérgica, metódica, esperta e diligente na lida do seu negócio, trazendo a taberna num brinco enquanto o marido preguiçava, que eu achava que ela, tal como Wolfgang (Amadeus Mozart), Pablo (Ruiz Picasso) e William (Shakespeare) não deixava “criar gordura ao músculo do dia”.

 

Fora Portugal assim… Mas não é. Se o meu entusiasmo lírico era evidente, já o Senhor Teófilo, compadre dela e secretário da Junta de Freguesia, se queixava: “É boa rapariga, a Antónia – é pena ter aquela coisa do lucro.” Aquela coisa do lucro… O lucro ser coisa má é convicção que parece permear o país de alto abaixo e de lado a lado, desde a direita das sacristias tradicionais (as Misericórdias, por exemplo, limitavam rigorosamente o juro – baixo - a que emprestavam dinheiro) até à esquerda dos sindicatos modernos (“La propriété c’est le vol” foi Proudhon quem o disse primeiro mas não era por isso que Marx o detestava). “Hoje fiz manhã de rico!”, expressão que ouvi também no Alentejo a jovem funcionário do Grémio da Lavoura com quem encalhei no café central da terra, sentado diante de um café com leite e de uma torrada às onze da manhã, deixaria qualquer milionário americano, por um lado, indignado por se pensar que as manhãs dele eram assim e, por outro, relutante diante de sugestões de investimento num lugar onde se julgava que os ricos assim eram – talvez por ser o caso dos indígenas ricos. A América dos negócios ficara inquieta quando descobrira que Ronald Reagan descia ao seu escritório na Casa Branca às 9 da manhã, em vez de ser às 7 como qualquer protestante anglo-saxónico branco que se prezasse.

 

Algures entre a apresentação de Os Lusíadas a D. Sebastião e as três invasões francesas perdeu-se o fio à meada. O pai dizia que não somos descendentes dos que foram à Índia: somos descendentes dos que cá ficaram. Em tudo. Quarta-feira passada lembrei-me de Fernão Mendes Pinto, dizimando chineses a poder de Avé-Marias e pelouros; hoje lembro-me de um tenente-coronel reformado adorável, muito de casa do meu primeiro sogro, que na batalha de La Lys comandara uma bateria de morteiros. Contou-me que sempre que mandava um para o outro lado rezava para não matar ninguém.

 

 

 

 

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16.3.16

 

 

Montaigne

 

 

 

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All you need is love

 

 

 

E é – diga o que disser o seu administrador de fortuna ou de massa falida, gestor de conta, cabo de esquadra onde tenha de se apresentar todas as semanas até chegar a sua vez na bicha infinda de acesso ao banco dos réus nos nossos tribunais; oncologista recomendado pela mulher de um primo que se deu bem com ele e que ele há quase três anos deu por curada (enquanto o da Caixa indicado pelo médico de família não deu conta do recado e a deixou, leitora, depois de cirurgia e de radioterapia e de quimioterapia – tudo minuciosamente relatado a parentes, amigos e estranhos em estalagens do Minho - sem conforto nem esperança); centro de encontros na net fornecendo aplicação que deteta o homem – ou a mulher - ideal cinco léguas em redondo, tão rigorosa que indica probabilidades de alma gémea de 1% a 100% (está programada para incluir LGBT e, pagando emolumentos dobrados, apenas heterossexuais de qualquer sexo - de maneira que pais e mães convencionais, com aversão a riscos a possam oferecer a filhas e filhos adolescentes) ou, no caso de gente mais à antiga mas moderna bastante para ter sido primeiro convencida por e depois se ter desimaginado de Freud ou de Jung ou de Lacan, bruxo num rés-do-chão à Rua da Boavista especializado na reconquista de entes queridos cujos corações se hajam tresmalhado no vasto mundo, garantindo resultados mesmo a quem as frequências da dor já tenham ensinado a desejos deixar de ser contente (sem aldrabices: ou sucesso ou devolução dos honorários já pagos). All you need is love.

 

Mais do que as duas outras coisas da cantiga – la salud y la platilla – melhor dito, é a única das três coisas da cantiga, que faz milagres comparáveis aos relatados no Antigo e no Novo Testamento, que só Deus conseguiu. (Ateu como eu não deveria escrever isto mas não encontrei melhor figura de retórica para referir the love that you need e explicações verosímeis e cabais conciliando tais estados de graça e as minhas luzes metafísicas, ler-se-iam como folhetos explicativos dentro de embalagens de remédios ou como o small print de contratos propostos por instituições financeiras. Com gentes de outras fés a questão é a mesma. Para um cristão, quem não acredite no Deus de Abraão, Isaac e Jacob não acredita em Deus, ponto final. Montaigne achava que nem sempre: quem, nascido em terras distantes, educado noutras crenças, longe do cristianismo – ou por este não existir ainda ou por estar tão longe dessas terras que nada dele lá fosse conhecido ou suspeitado – acreditasse nos deuses que Deus lhe dera poderia salvar-se. É simpático mas lógicos formais demoliram há muito a verosimilhança do argumento, conhecido no ramo por “falácia de Montaigne”).

 

Salud não faz milagres. Platilla pode fazer cópias que enganam, mas é batota. Amor, sim mas cada um sabe de si. Ignazio Silone escreve no começo de um dos seus livros: estas são algumas das melhores histórias que conheço mas não são as melhores. As melhores, guardo-as para mim.

 

 

 

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9.3.16

 

 

 

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edição FFMS 2016

 

 

Quando as notícias deram conta, a propósito do livro de Henrique Raposo, das manifestações daquela «vocação do energúmeno» de que Nemésio fala no seu belíssimo prefácio a um livro sobre Polémicas Portuguesas[1], desta vez sob a forma de auto-de-fé, senti que talvez tivesse de contrariar a minha aversão a meter o nariz onde não sou chamado. Ou admitir que havia chamamento, afinal.

 

É que de imediato reconheci o espírito – ou, melhor, a falta dele – que estava por detrás das ditas manifestações, e quase por instinto decidi que queria estar na apresentação pública do livro (e na altura nem sabia que Rentes de Carvalho usaria da palavra!). A minha vivência alentejana difere, no tempo, no espaço e na duração, da experiência de Henrique Raposo: é mais antiga, mais interior (em sentido duplo), mais longa e abrangente. Mas talvez igualmente distanciada e crítica.

 

Estimo a ousadia de Henrique Raposo, que não conheço pessoalmente, e creio que ele dá corpo a algumas intuições certeiras. Estimo igualmente a genica com que procura um paradigma diferente na abordagem do Alentejo e das suas mitologias. Mas também penso que é por vezes demasiado ligeiro, até abusivo, nas generalizações, e, malgré lui, dominado por um certo romantismo.

 

A minha ideia de ir à apresentação era, em primeiro lugar, marcar presença (coisa que só para mim contaria), aliás logo justificada ao notar a presença façanhuda e pesporrente de algumas personagens entre a assistência. Conheço bem o género. Depois, chegar à fala com o autor e dizer-lhe: parabéns pelo seu livro, que li com interesse, também eu sou alentejano, não há como ver-me livre disso e lido bem com a coisa, e gostaria um dia de trocar impressões sobre um certo número de ideias, factos e memórias.

 

Fiquei-me pela presença. O resto fica aqui dito.

 

Jorge Colaço

 

[1] Direcção de Artur Anselmo, 2 vols., Verbo, 1964 e 1967.

 

 

 

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24.2.16

 

 

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 All Souls College, Oxford

 

 

 

 

 

 

 

 

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Ao correr da pena

 

 

 

E.P., que se pronunciava I Pi porque estávamos em Inglaterra e o homem era inglês, Edward Evan Evans-Pritchard no passaporte (os ingleses são anti-jacobinos saudáveis e nem cartões de identidade admitem), Professor de Antropologia Social e Fellow de All Souls na Universidade de Oxford, nesse tempo o mais conceituado oficial do seu ofício em todo o país, baptizado na fé dos pais, dos avós, dos bisavós e por aí acima até ao reinado de Henrique VIII que mandara Roma às urtigas e fundara a igreja anglicana, convertera-se ao catolicismo contra a maré, já homem crescido. Eu vinha de país católico, fora recomendado ao Instituto de Antropologia de Oxford por Ruy Cinatti (que, ao mesmo tempo, me persuadira a mim a ir para Oxford, pois eu ia matricular-me em University College, Londres. Deste fixei regulamento se se faltasse a exame: apresentar atestado de doença ou when appropriate certidão de óbito; o caso mais extremo de insolência funcionária de que me lembre), o Ruy era católico exigente, quase jansenista - “Eu com o Antigo Testamento entendia-me; depois veio aquele gajo, glú-glú, fló-fló, estragou tudo!” – enquanto eu me dizia agnóstico mas, quem sabe, talvez fosse mesmo ateu. Pérolas a porco. Sem nunca termos falado dessas coisas, I Pi sabia.

 

Um dia, no pub, a tomar half-a-bitter, disse-me: “Sabe, para se ser católico (to be a Roman catholic) é preciso ser-se muito estúpido ou então muito inteligente”. Deixando-me na ‘no man’s land’ intermédia que me cabia, pediu-me para o ajudar com livro de memórias que lhe mandara pelo correio Hortense Powdermaker, antropóloga americana do seu tempo, que também fora aluna de Malinowski (Malinowski era polaco, de nacionalidade alemã em 1914, fazia trabalho de campo em ilhas no Pacífico do Império Britânico, e fora lá internado durante os quatro anos da guerra, depois ensinara na London School of Economics, deixando-nos uma obra prima “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”. Conhecia a sua arte de alto a baixo: “A antropologia ensina o administrador a tirar terra ao indígena seguindo os costumes do indígena”.) I Pi ia ser operado às cataratas. “O que é que quer que eu veja?” “Procure-me no índice”. Encontrei várias entradas, li-lhas, gostou do que ouviu, disse que Hortense era boa rapariga e acrescentou pormenores salazes da relação dela com Malinowski. Em coscuvilhice, intriga, ofensas e maledicência, pior do que um departamento universitário nem as cúpulas de um partido político (“enquanto há morte há esperança”) nem as/os prima-donas de uma companhia de ópera. Henry Kissinger acha que essa intensidade desmedida é devida à pequenez do que está em jogo.

 

À leitora que tenha chegado aqui acrescento: se de médico e de louco todos temos um pouco, agora de comentador também. Somos mais do que as coisas a comentar e declaro uma trégua. A Inglaterra sai ou entra? Qual dos Costas tem razão? Obama é mesmo um banana? Deixo palpites para outro dia e fico-me pelas caturrices de I Pi.

 

 

 

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19.2.16

 

 

Os textos do Romanceiro português e respectivos registos sonoros, quando conservados, vão passar a estar disponíveis online e em acesso livre na plataforma Romanceiro.pt. A preservação deste património, através da digitalização, era urgente, já que a sua manutenção nos formatos em que se encontrava (cassetes áudio e fotocópias em papel) constituía uma séria ameaça à sua preservação. 

 

A plataforma digital será apresentada amanhã, pelas 16h, na Fundação Manuel Viegas Guerreiro (Loulé), pelo coordenador do projecto, o investigador Pedro Ferré.

 

O objetivo é tornar acessível ao grande público um arquivo sem par no contexto ibérico, que alberga já perto de 14000 imagens de documentos de grande relevo no âmbito da literatura patrimonial portuguesa, nomeadamente do Romanceiro de tradição oral, e cuja expansão está prevista.

 

Nos últimos anos, os investigadores do CIAC  Pere Ferré, Mirian Tavares e Sandra Boto trabalharam o acervo da Fundação Manuel Viegas Guerreiro, que compreende 660 horas de gravação em 609 cassetes áudio ali depositadas, e onde estão guardadas 3632 versões inéditas de romances e acolhe 10096 versões de romances publicadas entre 1828 e 2010. A plataforma Romanceiro.pt é o resultado do projeto “O Arquivo do Romanceiro Português da Tradição Oral Moderna (1828-2010): sua preservação e difusão”, uma parceria entre a Fundação Manuel Viegas Guerreiro (Loulé) e o CIAC – Centro de Investigação em Artes e Comunicação/FCT (Universidade do Algarve / Escola Superior de Teatro e Cinema) com o mecenato da Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do Concurso de Recuperação, Tratamento e Organização de Acervos Documentais (2013).

 

 

 

 

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O Romanceiro é um género poético tradicional que circula desde os finais da Idade Média na memória dos povos de expressão portuguesa, galega, castelhana e catalã, difundindo-se desde então oralmente de geração em geração. Trata-se, portanto, de um património imaterial de uma vitalidade excepcional e de uma riqueza ímpar que importa preservar, numa altura em que a disseminação das novas tecnologias e dos media parece ter aniquilado talvez definitivamente a sua vitalidade e função no seio das comunidades rurais em que ainda permaneciam até há pouco tempo.

 

Remonta a 1421 o primeiro documento conhecido onde se fixa uma versão de um romance, o "Gentil dona, gentil dona", pela mão do estudante maiorquino Jaume de Olesa. Foi, contudo, o Romantismo que encetou o interesse sistemático por este género poético. Desde 1824, foram coligidas milhares e milhares de versões de romances em Portugal, em Espanha e nos países da diáspora portuguesa e espanhola, sem falar na memória romancística que os judeus expulsos da Península Ibérica nos finais do século XV transportaram com eles pelo mundo e que ainda hoje é preservada.

 

Poderíamos, para o caso específico português, referir-nos ao contributo das recolhas e publicações de versões de romances realizadas a cargo de nomes como Almeida Garrett, Teófilo Braga, Leite de Vasconcellos, Consiglieri Pedroso, Alves Redol, Michel Giacometti, Maria Aliete Galhoz, Manuel Viegas Guerreiro, entre tantos outros. Este arquivo alimenta-se, justamente, dos trabalhos de recolha e publicação do romanceiro tradicional português que estes e muitos outros interessados na literatura de tradição oral levaram e continuam a levar a cabo no presente.

 

 

 

Leia mais aqui e aqui

Entrevista com os investigadores aqui

No facebook aqui  

 

 

 

 

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3.2.16

 

 

 

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Luís Sttau Monteiro  1926-1993 

 

 

 

 

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Austeridade

 

 

 

Better nouveau-riche than no rich at all, como eles diziam em Palm Beach. Diziam e hão de dizer ainda, que a espécie por lá não está em vias de extinção. Por cá a história é outra: o primeiro de que me lembro a declarar-se nouveau pauvre foi o Luís Sttau Monteiro no tempo do Almanaque, há um ror de anos - estavam as guerras coloniais a começar.

 

Era um percursor até porque, no geral, havia pouco dinheiro (o Luís um dia, irritado com Joaquim Figueiredo Magalhães, o excelente editor libertino que dirigia a revista, disse-me “Se este gajo continuar a chatear-me despeço-me e o dinheiro que ganho aqui vou prá praia e poupo-o” - Deus tenha as almas dos dois em descanso); a primavera marcelista trouxe algum; o 25 de Abril, reavivando medo salutar da União Soviética, fez os nossos aliados ocidentais abrirem os cordões à bolsa e trouxe mais; pré-adesão e adesão às Comunidades Europeias vieram cobrir o bolo de cerejas. O forrobodó continuou até a aldrabice das ‘subprimes’ e a falência de Lehmann Brothers inaugurarem a grande a crise de 2008 por mor da qual Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional, a cujas portas batemos quando reparámos que os cofres estavam vazios, resolveram, por inspiração alemã aceite por todos os governos da União, aplicar-nos o remédio da austeridade.

 

Sempre achei essa receita péssima mas nunca se deve subestimar um povo. Talvez não sejamos descendentes dos que foram à Índia e sejamos, sim, descendentes dos que cá ficaram: pouco importa. No começo do quarto quartel do século XX, em meia dúzia de meses absorvemos mais de meio milhão de refugiados das antigas colónias, sem que houvesse mortos nem feridos, sem gerar uma extrema direita raivosa e com aumento do PIB. Feito colectivo notável, capacidade de encaixe a revelar o estoicismo brando que austeridade e troika trouxeram outra vez para a ribalta nos últimos anos - e estava a fazer-nos sair da crise. Estava. A ânsia de mostrar diferença junta-se a preconceitos ignorantes e à convicção ingénua de que os outros europeus nos querem ajudar.

 

Entretanto, as pessoas que em Portugal consideramos da classe média (sem as quais não há economia que cresça nem cultura que não embote) passaram quatro anos a ver os proventos mirrarem e, pelo andar da carruagem, vão passar assim mais alguns, em vez de recuperarem o gosto do cheirinho a desafogo. Mostraram até agora compostura exemplar mas governo novo, com sangue na guelra, convicto de que o mundo há de querer tratar-nos bem (porque carga de água? Já não há quem se lembre do Syrisa?), excitado por bandarilhas de fogo cravadas pela esquerda apressada que diz apoiá-lo, poderá meter-nos por atalhos inviáveis, esgotar a paciência de quem nos pudesse ajudar e atirar a retoma para as calendas gregas.

 

E nouveaux pauvres cada vez há mais. O que é que se diria deles em Palm Beach? Que seriam melhores do que quê? Do que os pobres sem lembrança de melhores dias que houve sempre? Fraco consolo.

 

 

 

 


30.1.16

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O Retrovisor vai ter uma nova rubrica semanal, da autoria de Jorge Colaço, que tenho o prazer de apresentar aos Leitores, não porque se trate de um novo convidado, já que vários textos seus figuram neste espaço, mas para saudar a sua renovada presença aqui e dar-lhe as boas vindas.

  

Amigo de Garrett

 

Jorge Colaço começou por ser o desconhecido que, em finais de 2004, depois de ler notícias da descoberta, numa casa particular em Lisboa, duma importante colecção de inéditos do romanceiro garrettiano, tomou a iniciativa de escrever a minha irmã Cristina para a felicitar pelo achado e, perante o seu entusiasmo com a riqueza do material encontrado, adverti-la gentilmente a não esperar muito. Começou aí uma correspondência que deu lugar à amizade que eu herdei. Jorge Colaço acabaria por participar em todos os esforços de divulgação dos manuscritos e por ter nessa divulgação um papel fundamental. Modéstia à parte, a forma como este espólio foi tratado merecia ser um caso de estudo em Portugal. 

 

Retrovisor

 

No meio do esforço algo solitário que representou para mim nos anos mais recentes alimentar este blog, a chegada do Bloco-Notas foi um autêntico balão de oxigénio. Quando há dois anos José Cutileiro me propôs alojar aqui a sua crónica semanal, perguntei a mim mesma se teria sido o chamamento de gente como Cinatti, O'Neill, Nemésio ou Garrett. No caso de Jorge Colaço é simples, na minha família sempre lhe chamámos o Amigo de Garrett.

 

 

Stay tuned, o Dicionário Pessoal  de Jorge Colaço começa dia 6 de Fevereiro. Sai ao sábado.

 

 

 

 

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16.12.15

 

Trudeau aeroporto.jpgO Primeiro Ministro Justin Trudeau acolhe os primeiros refugiados sírios no aeroporto de Toronto

 

 

 

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Sem anestesia

 

 

 

A feminista marroquina Fatima Mernissi, dada a aforismos e com jeito para os inventar, escreveu um dia que o pessimismo era o luxo dos poderosos. Lembrei-me deste aforismo dela – mulher bonita que envelheceu bem, ao contrário de tantas velhas e velhos que ninguém atura a não ser a literatura e outros velhos (Alexandre O’Neill dixit) – neste tempo em que os europeus, por um lado, estão a acabar de perder o poder que dantes tinham no mundo, sendo os últimos talhes da amputação sofridos sem anestesia e, provavelmente por isso mesmo, por outro lado, são pessimistas quanto ao futuro, isto é, acharia a grande dama marroquina, alardeiam – alardeamos – ainda por cima dessa maneira manias de grandeza acima das nossas posses.

 

Li que sondagens mostram haver hoje muitas mulheres e homens convencidos de que as suas filhas e os seus filhos pequenos terão em crescidos vidas piores do que aquelas que eles próprios tiveram e estão agora a deixar de ter. Por piores presumo que se queira dizer mais pobres e não com teores mais baixos no sangue de substâncias geradas pelo nosso próprio organismo que nos façam sentir felizes, quer chova ou quer bata o sol. Porque, embora a Sabedoria das Nações apregoe que o dinheiro não dá felicidade (e muitos o recordem logo, acenando que sim com a cabeça, sempre que alguém o lembre quando se saiba de rico apanhado na tenra idade pela Grande Ceifeira), outra máquina eficaz de criar aforismos, George Bernard Shaw, ensinou-nos que o dinheiro não dá felicidade mas dá uma coisa tão parecida que só um perito é que é capaz de distinguir. (Há mais ou menos três quartos de século, romancista italiano medíocre, Pittigrili, popular em Portugal e no Brasil – ou pelo menos os exemplares dos seus livros que os meus tios maternos tinham eram naquele impressos e publicados - criara fórmula menos subtil do que a de Shaw mas perfeitamente satisfatória para as necessidades estilísticas de leitores nos Aquém e Além Mar de Gago Coutinho e Sacadura Cabral: “O dinheiro não dá felicidade, principalmente quando é pouco”.

 

Austeridade – teimosia em aplicar às nossas economias receita de alemães, por alemães e para alemães não nos deixa passar da cepa torta. Refugiados – incapacidade de entender que a Europa precisa de muito mais mão-de-obra ainda do que aquela que as guerras na Síria, no Afeganistão e alhures lhe estão a meter pelas portas dentro envenena tudo (os nossos primeiros ministros deveriam ter feito como o canadiano Justin Trudeau que foi esperar os primeiros refugiados que lhe couberam ao aeroporto de chegada). Terrorismo – desleixo de décadas em defesa e segurança e agora incitações populistas à xenofobia por chefes de governo ou de oposição fazem muito mal, especialmente a prevenção e combate ao terrorismo. (Uma política externa digna desse nome também teria ajudado – mas seria pedir muito).

 

Teimosia, incapacidade, desleixo. Sem progresso neste tripé não haverá Europa nem – ipso facto – Portugal que se segure.

 

 

 

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14.11.15

 

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 Une victime des terroristes à l'extérieur du Bataclan à Paris, le 13 novembre 2015.

(AP Photo/Jerome Delay)

 

 

 

 

Entre le tortionnaire et le corps qu'il déchire, la dissy­métrie est extrême. Le premier s'affirme délié de tout inter­dit. Le second doit se retrouver lié de partout. « Celui qui a, même une seule fois, exercé un pouvoir illimité sur le corps, le sang et l'âme de son semblable... celui-là devient incapable de maîtriser ses sensations. La tyrannie est une habitude douée d'extension... Le meilleur des hommes peut, grâce à l'habi­tude, s'endurcir jusqu'à devenir une bête féroce», écrit Dos­toïevski. La torture recèle in nuce, à l'état réduit et concentré, encore fruste et élémentaire, un style de rapport humain que seule la littérature russe ose scruter avec patience, avec sang-froid sous l'étiquette «nihiliste». Comme tous les articles en vogue sur le marché des biens et des idées, le mot eut tôt fait de se dévaluer. Ainsi crut-on démonétiser l'idée et exorciser cet inquiétant horizon de la modernité. Peine perdue. Dou­blement. D'une part, la réalité est têtue. Et Dostoïevski au retour de la maison des morts, Tchékhov visitant le bagne de Sakhaline, Soljénitsyne et Chalamov rescapés du goulag s'en­tendent à rappeler l'inhumanité de notre humanité. Par ailleurs, la littérature russe est obstinée et n'a de cesse qu'elle n'examine, tourne, retourne l'unique objet de sa méditation, une barbarie qu'elle a toujours refusé, depuis Pouchkine, d’ensevelir dans les lointains antérieurs des sociétés dites primitives ou des caractères taxés incultes. Et Dostoïevski d’insister: «D’où sont sortis les nihilistes ? mais de nulle part, ils ont toujours été avec nous, en nous, à nos côtés».

 

 

André Glucksmann

in Dostoïevski à Manhattan [4. Le cogito du nihiliste]  p. 125-126

© Éditions Robert Laffont,S.A., Paris 2002

 

 

 

 

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10.11.15

 

 

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Que répliquer à l'hégélianisme spontané qui gouverne la une des journaux ? Comment ne pas concéder que l'histoire du monde juge tout le monde et emporte tout un chacun (Weltgeschichte ist Weltgericht)? Ma réponse est brutale, je te l'expédie sous forme d'une injonction pragmatique et sai­gnante : redevenons classiques. Pas naïvement classiques, bien sûr. Casse-cou jusqu'au bout, je n'aurai de cesse avant que tu m'entendes: revenons à Racine. Oui, résiste à l'incoer­cible désir de normalité qui pousse à s'immerger dans ce qui semble le cours des choses. Oui, prête au journal télévisé l'attention détachée, mais imprescriptible, que suscite une représentation d'Athalie ou d'Andromaque. Sur la scène, à l'écran, l'éclair du définitif risque à tout moment d'accrocher ton regard. Accrocher à quoi? La question est bonne. Garde la tête hors de l'eau, redeviens « classique », et tu ne seras jamais l'homme d'une seule époque.

 

Le classique habite deux patries, la sienne et une autre. La Florence des Médicis et la Grèce, la Rome du quintocento et celle d'Auguste. Le Siècle d'or espagnol, l'Angleterre d' Élisabeth, la France du Roi-Soleil, au choix, mais jamais sans son ombre glorieuse et antique. Les classiques cultivent le sentiment paradoxal mais banal d'une plongée dans l'histoire qui les élève et les enlève hors histoire. Ils s'autorisent de l'expérience immobilisée du temps qui passe. Ces esprits à double nationalité recherchent le temps perdu plus frénétiquement que l'existence de Dieu, quitte à reconnaître, avec Proust que, perdu pour perdu, le temps est cette recherche même, dont on ne sort que mort. Il n'y a pas de train pour Cythère, mon ami. Afin de vaincre l'angoisse des quais de gare, grignote une madeleine.

 

 

 

André Glucksmann

in Le Bien et le Mal, Lettres immorales d'Allemagne et de France

© Éditions Robert Laffont, S. A., Paris, 1997

 

 

 

 

 

 

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28.10.15

 

 

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Jacob van Ruisdael 

 

 

 

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E agora, José?

 

 

 

“Isto o que é preciso, Senhor Doutor, é a gente estar bem com a lei que há” respondeu-me há meio século grande proprietário de aldeia alentejana minúscula – peixe grande em redoma pequena – a quem eu perguntara como eram as relações com o poder - com o Governo Civil de Évora; com os ministérios em Lisboa – no tempo da República (nessa altura o Estado Novo apodrecia no marcelismo e não era preciso dizer Primeira porque só tinha havido uma). Homem letrado para o seu tempo, o seu lugar e a sua condição - mesmo que o modo conjuntivo lhe escapasse às vezes - deixou-me essa pérola de sabedoria cartesiana: quem não estivesse bem sob uma ditadura (ou não estivesse bem numa democracia…) tinha obrigação de saber que se agisse em consequência o faria por sua conta e risco. Era por assim dizer a tábua rasa onde se jogava. Valeu até à semana passada.

 

Acabado este parágrafo, copio para a leitora o que velho amigo acaba de me escrever. “O País que é o nosso perdeu mesmo a vergonha. Depois de 4 anos abúlicos perante uma violência estúpida e destrutiva de pessoas, bens, património e instituições a noviciada esquerda unida prepara-se para nos servir de bandeja dentro de meia dúzia de meses mais 4 ou 8 anos de coligação PAF que acabará definitivamente com o que temos para terminar honradamente as nossas vidas. Se isto não é o finis Patria do G. Junqueiro não sei o que será”.

 

Carradas de razão: a seguir aos desmandos da obsessão neo-liberal, iremos sofrer golpadas populistas do pior oportunismo e nos próximos votos, que depressa nos irão pedir, a direita ganhará forte e feio, deixando o PS Pasokificado, como agora se diz (não esquecer que durante esta campanha eleitoral o único partido que propunha a união das esquerdas não elegeu um único deputado). Mas eu talvez acrescentasse que, com Guerra Junqueiro ou sem ele, a Pátria ganhou o costume, desde há uns 150 anos para cá, de ser vista de vez em quando a chegar ao fim por alguns dos seus filhos mais insignes. Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Alexandre O’Neill - e agora cabeças pensantes que escrevem para jornais e receiam que a crise de estima e de confiança nos partidos políticos se agrave mais, a seguir às faltas de tento, de patriotismo e de maneiras exibidas por quase todas as chefias nacionais e partidárias desde as eleições de 4 de Outubro, e ponha em perigo a democracia. (Tem sido um espectáculo triste, de que somos todos responsáveis. No tempo do Dr. Salazar, quando as coisas iam mal, achava-se que a culpa era dele – ou, para os salazaristas, do reviralho e de Moscovo. Passou a ser nossa).

 

Mas os portugueses hão de ser sempre os mesmos porque não há outros, como dizia o primeiro Duque de Palmela, a quem chamavam em Lisboa o Inglês-Mor – ou, pelo menos, assim me contou um dia o Vasco Pulido Valente. O que não torna cada finis Patria menos desagradável. Pelo contrário. No que atravessamos agora sinto-me, pela primeira vez na vida, sem saber qual é a lei que há. Muito grave.

 

 

 

 

 

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25.10.15

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A primeira série dos “Cadernos” (1940-42) foi organizada pelos três poetas referidos e engloba cinco números antológicos; a segunda (1951) foi concretizada por Jorge de Sena, Ruy Cinatti, José Blanc de Portugal e José-Augusto França com sete fascículos. A terceira teve três números (1952-53).

 

 

 

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21.10.15

 

 

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Sala de Actos do Colégio do Espírito Santo, Évora

 

 

 

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Aldeia da roupa branca

 

 

 

Amiga do coração, voltando de sessão solene universitária, passada algures em sala bonita na província deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio – assim escreveria o meu chorado A.B. Kotter, da Várzea de Colares - saíra dela tão bem impressionada que me disse “[H]oje senti-me muito feliz e orgulhosa de Portugal”.

 

Conto isto aqui à leitora metendo A.B. Kotter pelo meio porque há muitas maneiras de se ser do país de onde se é e há também diferenças marcadas de país para país. Num dos Diários do Marcello Mathias, não me lembro qual deles e é de memória que arrisco, Marcello está de visita a uma catedral inglesa (Salisbury?) quando o espaço da igreja e inscrições várias nas suas paredes, algumas sobre mortos pela Pátria em guerras contra estrangeiros, o levam de repente a perceber que ser inglês is a full time job.

 

Ser português nem sempre parece tal. Nós somos menos intensos; dá-nos a coisa nalguns dias, noutros não tanto. Por exemplo, na derrocada de honra e de bom senso que, desde a noite do passado dia 4, no rescaldo das eleições legislativas, alguns insistem em nos apresentar como construção do futuro – de um futuro cheio de amanhãs que cantam – é só em oásis de tempo ou de espaço que muita gente portuguesa se poderá agora sentir bem com Portugal.

 

O avesso – como na roupa – da apregoada brandura dos nossos costumes, refractária a guerras civis, revoluções e motins por tudo e por nada, que, sem alarde ou vanglória, cometeu o maior feito histórico do país desde 25 de Abril de 1974 – a absorção pacífica de centenas de milhares de retornados de África, muitos dos quais nunca cá tinham posto pé - revela-se no bom modo com que o país sustentou quatro anos de austeridade sem tugir nem mugir. É o reverso da medalha.

 

Ora longos períodos de apatia cívica definham a fibra do respeito por si próprio, da mesma maneira que, mutatis mutandis, longos períodos de imobilidade física vão definhando as fibras do tecido muscular e chegam, por vezes, a fazer desaparecer os músculos. Assim enfraquecida, incapaz de perceber bem quem é, atordoada pelo rumor da vida a dar socos na porta cada vez mais ensurdecedor de há século e meio para cá, desde que telégrafo, e depois telefone, telefonia, televisão, internet, redes sociais e o mais que virá, se verá, ouvirá e sentirá, mudaram de alto abaixo a nossa residência na Terra – nos foram dilacerando da tribo sem nos armar em cidadãos do mundo – a gente tenta agarrar-se à aldeia, enterrar a cabeça como as avestruzes. Na aldeia de cada um às vezes tudo parece possível: o novo primeiro ministro do Canadá vai deixar de bombardear o Estado Islâmico; os trabalhistas britânicos escolheram Corbyn para chefe; em Portugal uma suposta ‘esquerda unida’, apesar de diferenças de crença que tornam tal união impossível, entende que o povo a quer para governo, apesar dos resultados do voto de 4 de Outubro não indicarem isso de todo. Terá a nossa aldeia perdido a vergonha?

 

 

 

 

 


7.10.15

 

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Não há de ser nada…

 

 

 

Melhor: talvez até possa ser tudo. A crise da imigração, encarada ao gosto de cada um, de Helsínquia a Bucareste, de Londres a Paris, pelos políticos mais demagógicos das nossas praças – a Hungria que arrancara arame farpado cortante da sua fronteira para pessoas poderem fugir dela para o Ocidente em 1989, repô-lo agora para impedir outras pessoas de entrarem nela a caminho da Alemanha, que as quer acolher – estimula políticos que agitam espantalhos julgados de efeito seguro junto de eleitores assustados. A Europa é cristã, dizem eles, a mourama está à porta e, se a deixarmos entrar, o Estado Islâmico vai, pelo menos, encher isto tudo de terroristas, ou talvez até tomar conta do governo de um ou outro dos nossos países (como o escritor francês Michel Houllebecq imaginou para a França num romance de ficção histórica de sucesso). No Médio Oriente há quem sonhe com tais triunfos: em 1992 o Chico Quevedo, nosso embaixador em Ancara, viu numa manifestação de apoio aos muçulmanos dos Balcãs cartaz que rezava: “Não deixaremos que a Bósnia se transforme numa segunda Andaluzia”.

 

Mas o sonho não passa disso, do sonho de escassos entusiastas, e a ideia de que se poderão ressuscitar guerras religiosas na Europa - espantalho plantado por muitos desses demagogos - é profundamente disparatada. O que caracteriza a Europa – a União Europeia e os seus Estados Membros – não é ser cristã, embora o tenha sido durante séculos, a sua cultura esteja impregnada de cristianismo e parte considerável dos seus habitantes pertençam a igrejas cristãs: católicas, ortodoxas, protestantes. O que caracteriza a Europa é ninguém nela poder ser preso ou perseguido em justiça devido às suas crenças ou práticas religiosas. A separação entre estado e igreja é radical – mesmo quando haja uma igreja oficial e o chefe do estado seja também o chefe dessa igreja como acontece em Inglaterra (conhecida, além disso, por ser considerada o berço da democracia e nos ter dado a Magna Carta). Quem poderá ter problemas aqui não serão os europeus mas alguns dos recém vindos do Islão que abracem variedades deste intolerantes de outras crenças: esses, se não se adaptarem, terão de se ir embora. Guerras religiosas já as corremos do nosso seio há muito tempo.

 

Quanto à questão de fundo: os imigrantes precisam da Europa e a Europa precisa dos imigrantes. Para manter o equilíbrio de hoje entre população activa e o resto, a Alemanha necessita 500.000 migrantes por ano até 2050. Há demografias menos atrapalhadas mas, com diferenças de grau, o problema é de todos. Cabe aos políticos encaminharem as coisas de maneiras que nos convenham e, guiando-me pelo passado, julgo que tal acontecerá. Por duas razões: 1 Na Europa, quando as coisas vão bater no fundo aparecem chefes à altura (Churchill; De Gaulle; Soares em 1975). 2 Desde o começo, a construção europeia progrediu de zaragata em zaragata - e a crise da imigração vai obrigá-la a dimensão política que lhe tem faltado.

 

 

 

 

 

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13.9.15

 

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  Tomaz Kim / Joaquim Monteiro-Grillo

 

 

Nascido há cem anos, em 1915, e desaparecido em 1967, foi poeta*, professor da Faculdade de Letras de Lisboa, ensaísta, tradutor. Deu a conhecer ao público português muitos escritores da literatura inglesa e americana.

 

É justamente recordado este mês no Jornal de Letras num extenso artigo ilustrado com uma fotografia que aqui publiquei em 2009. Foi aliás a fotografia que me conduziu à descoberta do excelente texto de Fernando J. B. Martinho, de que reproduzo este pequeno excerto, a acompanhar uma tradução de Tomaz Kim que encontrei junto de recordações dele que os meus pais guardaram, neste caso uma simples folha de bom papel, bem impressa em frente e verso.

 

*  

 

Os dois volumes do que consideramos ser a segunda fase da sua obra situam-se num período em que a carreira académica do poeta iniciada em 1947 alcança justíssimo reconhecimento institucional, que a morte precoce, em 24 de Janeiro de 1967, pouco antes de atingir os 52 anos, veio, lamentavelmente, interromper. É este um período em que o poeta, fiel continuador do que há já de uma sólida tradição modernista em termos nacionais e internacionais, faz acompanhar a sua prática poética da tradução de poetas ingleses e americanos (com maior incidência na 2ª metade dos anos 40, no Diário Popular), e de textos de doutrina crítica, de Shelley e T.S. Eliot, e de ampla produção crítica e ensaística própria, que assina com o seu nome civil, Joaquim Monteiro-Grillo ou J. Monteiro-Grillo.

[Fernando J. B. Martinho in "Tomaz Kim Um poeta de tempos dramáticos" - Jornal de Letras, Artes e Ideias, Número 1172 – 2-15 Setembro de 2015] 

 

 

 

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Minster Lovell, de David Wright, tradução de Tomaz Kim

 

 

 

 

 

MINSTER LOVELL 

 

 

Now I a ghost ascend a broken stair

where no more the cold fingers of the rain

comb, or the winds caress my long brown hair;

I move among the populous passages

peopled with brown leaves and the sluggish weed,

and the wind's mutterings and memories

of sere wolds and the dark Atlantic seas.

 

 

Remembering now the dancing. O my lover

break down the cold embraces of the grave:

murder the time, recover

the lost words, the lost glances.

 

 

Remembering now the dancing. I remember

voice of the harp, the tender

not of the flute, the tremble

of the low-toned clavichord;

the whisper of the dresses

as the dancers turned and parted

as the music paused and started.

The dancers are departed.

 

 

 

Now I a virgin ghost, under the cold

and lunatic moon, forsaken. Whom these walls

already have forgotten. Whom they hold

in the dark rain of spring, in the cascade

of the clear pool that will not wet my feet.

 

 

 

O find me whom I fled

before the leaden pressure of the lid

weighs down the thin white arms and bended head.

Who only hears the voices on the stair

who cannot hear the dry grate of the lock.

 

 

 

I am bound in with darkness. In the iron

strong womb of time. The lover

clasped by a stronger, more enduring arm;

in a more proud embrace.

 

 

 

O find me. Find, recover.

Break down the cold embraces of the grave:

shatter these hasps, and scatter

eternal walls, and batter

with a white leap of light the night. Discover

the bright horizons.

 

 

 

I heard a footstep on an outer stair:

I heard a voice call once, and call my name.

I blinded in the tangle of my hair,

pressed in with darkness. Who will not recapture

the sunlight or the crocus, who will wander

in the moon's error and the winds, forgotten.

Virgin of the spring rains, among these walls.

 

 

 

Now I the ghost of a delighted bride

brought to a dark unrobing, and a bed

celibate, to surrender

a living virginity for a dead;

O this my pride to tender

to the malicious worm my slender head.

Brown hair and white limbs, who will not remember?

 

 

 

I not await him. I await no lover;

who overtakes the still feet of the years?

And I have mouldered in the dust too long,

too long my being in the. darkness fed.

Under the sallow moon I must await,

tenant of hollow winds and bitter rain,

the new birth of the crocus. Non deliver.

 

 

 

And none return. The constellations wheel

westward; and westward the reluctant moon.

None shall burst down the indurate barriers;

none open wide the doors: and none return.

Westward the moon. Inhabitant of the springs,

the short grass and the broken palaces,

I meditate the winds and the cold rain.

 

DAVID WRIGHT *

 

 

 

 

 

MINSTER LOVELL (tradução de TOMAZ KIM)

 

 

Ora, eu, um espírito, ascendo a escada carcomida

Onde não mais os álgidos dedos da chuva penteiam,

Ou o vento acaricia, a minha longa cabeleira fulva.

Caminho por entre populosas veredas

Povoadas de folhas secas e erva daninha inerme

E murmúrios do vento

E lembrança

De tantos plainos e sombrios mares atlânticos.

 

 

 

Lembro, agora, a dança... Ó, meu amado!

Desenlaça o gélido abraço da tumba:

Assassina o tempo,

Retoma as palavras perdidas, o perdido olhar...

 

 

 

Lembro, agora, a dança.,.

Lembro a voz da harpa,

O terno trinar da flauta,

O trémulo grave do clavicórdio,

O sussurro das vestes,

enquanto os bailarinos rodopiam e se separam,

Quando a música se detém e recomeça.

 

 

 

Foram-se os bailarinos.

 

 

 

Ora, eu , espírito de uma virgem,

Abandonada sob a lua fria e tonta,

A quem estes muros já esqueceram,

A quem eles retêm na chuva escura da Primavera,

Na cascata da límpida lagoa que não molhará meus pés...

 

 

 

Oh, encontra-me, a mim, de quem eu fugi,

Antes que o plúmbeo peso da tampa

Comprima os alvos braços esguios e a cabeça tombada,

Aquela que ouve apenas as vozes na escada

Aquela que não pode ouvir do ferrolho o áspero arranhar.

 

 

 

Envolta estou em treva

No fero útero férreo do tempo.

O amado,

Enlaçado por um braço mais firme e duradouro

Num mais soberbo abraço.

 

 

 

Oh, encontra-me,a mim. Busca, retoma.

Desenlaça o gélido abraço da tumba,

Despedaça estas ferragens

E dispersa os muros eternos

E desfaz a noite com um alvo arranco de luz.

Descobre os rútilos horizontes ...

 

 

 

Ouvi passos numa escada, lá fora,

Ouvi uma voz a chamar uma vez, a chamar pelo meu nome.

Eu fiquei cega no emaranhado do meu cabelo,

Confundida com a escuridão,

Eu, aquela

Que não virá acolher a luz do sol ou a flor do açafrão,

Aquela que vagueará, esquecida,

Nos enganos da lua e do vento,

Virgem das chuvas da primavera,

Entre estes muros...

 

 

 

Ora, eu, espírito de uma noiva deslumbrada,

Levada a um tenebroso desvelar

E a um leito solitário

Para render

Uma virgindade viva a uma virgindade morta...

Oh, este, o meu orgulho:

Ofertar ao verme malévolo a minha cabeça donairosa!

Cabeleira fulva e alvos membros, Quem os não lembrará?

 

 

 

Não espero por ele. Não espero nenhum amante;

Quem ultrapassará as quietas passadas dos anos?

E eu me desfiz em pó, no pó, há muito, já...

Há muito, já, meu ser das trevas se alimentou.

 

 

 

Hóspede do vento cavo e amarga chuva,

Sob a lívida lua, eu tenho de aguardar

O novo natal da flor de açafrão.

 

 

 

Ninguém o fará.

 

 

 

E ninguém regressará.

As constelações rodam para ocidente

E para ocidente, a lua relutante.

Ninguém derrubará as barreiras firmes,

Ninguém escancarará as portas

E ninguém regressará.

Para ocidente, a lua.

 

 

 

Habitante das fontes,

Da erva núbil e dos palácios em ruínas,

Eu pondero os ventos e a chuva fria!

 

 

 

 

*

 

 

Notas: 

 

Obra Poética de Tomaz Kim aqui

 

Cadernos de Poesia aqui

 

Fundada por Tomaz Kim, José Blanc de Portugal e Ruy Cinatti, a revista “Cadernos de Poesia” teve publicação intermitente, em três séries e quinze números, nos anos 1940-42, 1951 e 1952-53, revelando alguns dos poetas portugueses mais marcantes da segunda metade do século XX: além dos fundadores, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen e Eugénio de Andrade.

 

 

David Wright aqui 

 

 

 

Veja também neste blog os posts:

 

 

Exercícios Temporais

 

Tempo de Amor

 

Amigos (1950)

  

Cozinha do mundo português

 

 

 

 

 


2.9.15

 

 

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Angela Merkel (Getty)

 

 

 

 

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Deutschland über Alles (a bem)

 

  

 

Na Islândia - país com pouco mais de 300.000 habitantes que já quis candidatar-se à União Europeia e depois mudou de ideias - o governo anunciara estar pronto a receber 50 migrantes, dos milhares que este verão demandam a Europa, mas onda de indignação generosa organizou o povo on line enquanto o Diabo esfrega um olho e há lá agora 10.000 ofertas de acolhimento. Há também muitas da Noruega e, dentro da União, a Suécia, apesar de renitência vistosa da sua nova direita, vem logo a seguir à Alemanha em disponibilidade – a grande distância, devido à escala: a Alemanha é o país mais populoso da Europa; os suecos são menos do que os portugueses.

 

No fundo da tabela da solidariedade estão alguns dos países dantes do lado da lá da Cortina de Ferro, dando a Hungria, proverbialmente xenófoba, mais nas vistas do que os outros por ter erguido muro de arame farpado na fronteira com a Sérvia e ter vedado nos últimos dias o acesso à estação central de caminho de ferro de Budapeste. Um mar de migrantes, famílias inteiras que, uma vez na Hungria, se preparavam para apanhar comboio para a Alemanha, pronta a receber quase um milhão e a não os devolver ao país pelo qual tenham entrado na União Europeia, confrontou a polícia na praça em frente da estação. Quando escrevo (terça-feira) por lá estão ainda. Imagens fortes nas televisões de todo o mundo, espelhando o egoísmo escandaloso dos europeus (Mauriac, mais uma vez: “Não conheço a alma dos criminosos mas conheço a das pessoas sérias e é um horror”), egoísmo confortado pelos que sustentam, pimpões, que os europeus não têm obrigação de tratar de todos os males do mundo. (Creio que o primeiro a dizê-lo foi Michel Rocard). Também acho que não mas o problema não é esse. O problema é que a União Europeia não é, nem deveria ser, uma O.N.G. caritativa – é, ou deveria ser, um poder político.

 

Entretanto, o silêncio de Angela Merkel começava a ser ensurdecedor (pediam-lhe que mandasse na Europa mas como mandar, a seguir ao castigo da Grécia, sem evocar passo de ganso, cruzes gamadas, saudação nazi? Como ser Führer sem ser Hitler? Pediam-lhe também que mandasse nos seus mas era preciso sentir muito bem o vento para saber navegar com ele ou bolinar). Finalmente a Senhora decidiu-se, com bom coração e com boa cabeça - para além do que pareceria possível, deu à Europa a noção de que havia nesta um chefe. À evocação dos valores europeus - que explicita ou implicitamente incluem estado de direito, direitos do homem, decência cívica, solidariedade – juntou lembrança dos benefícios materiais trazidos pelos imigrantes aos países onde chegam (no caso do Velho Continente, mão de obra jovem que permita pagar pensões aos reformados).

 

É projecto político sine qua non para a Europa prosperar no mundo globalizado, meter respeito à Rússia, derrotar o Estado Islâmico e a sua insidiosa quinta coluna.

 

E para tornar a meter Montesquieu na calha. Ou Antero: “Razão, irmã do amor e da justiça”.

 

 

 

 

 

 

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12.8.15

 

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Passado; futuro

 

 

 

“Os ricos são como os ciganos. São todos primos uns dos outros” pontificava há cinquenta anos Senhora do Alentejo nem cigana nem rica. O Minho era diferente – ciganos quase não havia; disparidades entre ricos e pobres eram de menor monta - e diferente continuou a ser. Há 41 anos, em conversa fora de Portugal, Senhor minhoto - que também já lá vai - explicava “Nós, na Ribeira Lima, temos duas coisas em comum: sumos todos fidalgos e sumos todos parentes”.

 

Salpicos do que inspirou Orlando Ribeiro a descobrir Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico? Com certeza - mas há bem mais do que isso. Por muito mal que os melhores de entre nós às vezes deem por ela, que a suponham nas vascas da agonia (“Pátria para sempre passada; memória quase perdida”, acabou Eça de Queiroz O Crime do Padre Amaro, em 1875), a besta teima em não morrer. Mesmo debaixo de vergonhas que a façam sofrer, de varas no cachaço a ver se lhe baixam a cabeça para dar melhor lide a quem a queira desfeitear (novo Acordo Ortográfico; admissão da Guiné Equatorial na CPLP) não lhe receio fim à vista. Mas está a chegar a terra ignota ou, se preferirmos o arrimo do mastro da epopeia, a entrar outra vez por mares nunca dantes navegados.

 

À balbúrdia sanguinolenta seguira-se a noite negra do fascismo - para usar chavões predilectos dos inimigos jurados de uma e de outra porque ao longo das décadas gente menos intensa, isto é, a maioria, estava perto do poeta Alberto de Monsaraz que dizia viver em país ocupado mas ter boas relações com o ocupante. Íamos seguindo canones estabelecidos nas metrópoles europeias: a certa altura, devido à preeminência da França, a República esteve na moda - e vá República! Depois com Hitler (Olimpíadas de Berlim e tudo), Mussolini a marchar sobre Roma, veio a moda do fascismo (mais no sul da Europa, mas também na Finlândia e, sem poder mas com estardalhaço, mesmo em Inglaterra), os militares do 28 de Maio entusiasmaram-se – e vá Fascismo! (Na versão portuguesa, Estado Novo, que nunca esteve à altura, até porque o país era agrícola e não industrial e Salazar gostaria que ele assim ficasse: “Entre o comércio, a indústria e a agricultura prefiro a agricultura”). Quando chegou a vez dos capitães de Abril, a moda na Europa era a da Democracia (como Mário Soares percebeu e Álvaro Cunhal e Henry Kissinger não) – e vá Democracia!

 

Hoje não há apetites de mudança de regime mas é outro mundo. A República jacobina desacreditara a esquerda; o Estado Novo fascizante desacreditara a direita. A Democracia vingou sobre o segundo descrédito – o partido mais à direita chamou-se, Orwelianamente, Centro Democrático Social – entretanto URSS e comunismo foram ao ar, Tony Blair arrumou o socialismo, a virtude bem-pensante perdeu poleiro. Quem será levado a sério? Quem irá dar à besta ganas de ganhar às outras feras? O comunismo não era doença: era remédio que falhou. O capitalismo, menos mau, precisa conserto grande. Onde dorme e se exila o futuro vigor?

 

 

 

 

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5.8.15

 

 

 

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Jerónimo Bosch 

 

 

 

 

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Bases e cúpulas

 

 

 

«Não conheço a alma dos criminosos mas conheço a alma das pessoas honestas e é um horror!» disse François Mauriac. Lembro-me deste desabafo muitas vezes, a ler jornais ou a ver televisão. E, com o patrão do Mundo distraído desde o fim da Guerra Fria, no regabofe da loja a maldade humana borbulha à rédea solta.

 

A Rússia é governada pelo chefe de uma cleptocracia que mente com quantos dentes tem na boca, veta decisão da ONU que criaria tribunal para tratar do abate criminoso de avião malaio sobre a Ucrânia porque os responsáveis foram guerrilheiros pró-russos, ocupa territórios vizinhos (Crimeia; partes da Geórgia), ameaça os países bálticos, provoca a OTAN, manda assassinar inimigos políticos, fomenta na Rússia sentimento paranoide de perseguição pelo Ocidente e apesar disso tudo, ou melhor, graças a isso tudo, goza de popularidade altíssima no país.

 

Na gigantesca panela de pressão que é hoje a China, onde partido comunista único quer fazer vingar capitalismo selvagem em estufa, sem conceder direitos cívicos e políticos, as contradições – como diziam os marxistas – parecem cada vez mais próximas de fazerem saltar a tampa mas talvez seja pensamento desejado (assim o meu chorado Gérard traduzia wishful thinking) de europeus nostálgicos de mando. A bolsa de Shangai conheceu há dias grande queda, as autoridades não sabem como tratar dos fundamentos da questão, confirmando inépcia de que se suspeitava, o crescimento sustentado chinês com que o mundo inteiro conta poderá estar comprometido. Para dificultar ainda mais emendas necessárias a qualquer hipótese de decência política futura, Pequim desencadeou perseguição redobrada aos pouquíssimos advogados de direitos humanos que insistem em praticar no Império do Meio, ajudando quem proteste contra ditadura sufocante. E, para animar xenofobia, sempre útil a quem governe, está a transformar em ilhas penhascos do Mar da China, assustando Japão, Vietname, Camboja, Filipinas. O povo gosta e é sagaz contentar o povo.

 

Nos Estados Unidos, país democrático que festeja a Magna Carta com mais entusiasmo do que os ingleses, entre 17 candidatos (por enquanto) a candidato do partido Republicano à presidência do país em 2016, sondagens põem à frente Donald Trump, bilonário populista xenófobo deliberadamente ofensivo e malcriado cujo pensamento tosco e vulgaridade de sentimentos e maneiras entusiasma os militantes do partido, que são os grandes animadores de primárias.

 

Na Europa onde se vive com mais saúde, segurança e decência política do que no resto do mundo, as bases enervam-se, acusam as cúpulas de elitismo, destestam imigrantes, admiram ditadores estrangeiros, são contra “a Europa”, e enfraquecem-nos no confronto com o resto do mundo. Bases, como sempre, bem piores do que as cúpulas e, se os nossos chefes políticos não lhes souberem deitar a mão, brotarão nesta península da Eurásia (7% da população; 25% do produto; 50% da despesa social) os Hitlers e os Mussolinis vindouros.

 

N.B. O parágrafo acima não se aplica a Portugal. Por razões que historiadores futuros entenderão melhor do que nós, desde o 25 de Abril o país, de bom modo e sem estimular extremismos políticos, desempenhou duas tarefas que muitos achavam acima das suas capacidades: integrou mais de meio milhão de retornados e sobreviveu a programa europeu de austeridade. De se lhe tirar o chapéu.

 

 

 

 

 

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29.6.15

 

 

 

La vida es un sueño y los sueños sueños son. Calderón cut a play's title out of that old Spanish proverb. Life is a Dream. The rest translates: 'Dreams are dreams.'

 

On the fifth of March 1933, the banks of the nation closed. Led more by a nose for drama than by the concern proper to a son, I hustled uptown to see how the 'old man' was weathering the crisis; my curiosity was not altogether sympathetic.

 

His business was located at 295 Fifth Avenue, the Textile Building, a hive of importers, wholesalers like himself, dark-complexioned men, immigrants all, most of them Armenians but some Anatolian Greeks, as well as a few Persians, Syrians and Egyptians. These men had come overseas from the East, propelled by a dream: that here their throats would not be cut. Working in the dust of carpets, living alone in dark back rooms, depriving themselves of pleasures, they'd put the dollars together, year after year, obeying the voice in the air of America; to accumulate money; that was safety, that was happiness. They married late, unromantically, going back to their native lands, as my father had, to find a proper woman out of their own tradition, ten, fifteen, twenty years younger, then made children as quickly as possible in half-paid-for homes while dutifully continuing to feed their accounts in banks whose doors, that morning, had remained locked.

 

Generally these men entered my father's store only when they had a customer whose needs they weren't able to meet from their own stock. They'd escort this buyer to Father's place and there pick up, in place of a profit, a commission. These encounters were rare since they were a last resort. My father's competitors paid each other no casual visits. But when I walked in that morning, there they were, a dozen or more, sitting cross-legged on piles of three-by-five Sarouk or Hamadan 'mats', clumped together in static postures, like hens roosting. Motionless, inanimate, they seemed to be waiting – but for what? Occasionally a few mournful words would be mumbled, a puzzled complaint. No response was expected, none offered.

 

Skirting the motionless figures, I circled back to the small desk where I was supposed to tend the accounts-due books. With business as bad as it had been, there'd been little to do that summer. I'd typed a few letters: 'Your immediate check would be sincerely appreciated' or 'We will regretfully be forced to place your account in the hands of our lawyers.' But most of the time I'd tilted up the large stock of our book and hidden The Brothers Karamazov behind it. This had been noticed, of course, and reinforced the general opinion that I was a young man without a future.

 

On this morning I sat idle, like the others, studying the assembly of merchants, men whose skins had once been a rich olive and were now pale from worry and the cold light that concrete walls shed. They're like shipwrecked sailors, I thought, thrown up on a desert and waiting for someone to rescue them.

 

Actually my father's business had gone 'kaput' - his word — three years before, in 1929, when the market collapsed. He'd put the yield of a life's labour into a stock issued by the National City Bank. Bought at just over 300, climbing as millions cheered past 600, it then rumpled with all the others down the mountain of high finance, like the boulders of an avalanche, to 23. At that time, he'd thought of his disaster as something for which he was in some way responsible; he must have done something wrong, made some awful mistake. Had he been outsmarted? Had he been cheated?

 

But now, in 1933, on the day the banks closed, surrounded as he was by men who shared the catastrophe — no one smarter, no one luckier, he knew them all to be as ordinary as he was - Father must have begun to accept that what had happened was more serious than any mistake he could have made. The men around him were all bleeding from the same invisible lesions. In a few years many of them would be out of business. They all shared a dread of what was coming.

 

 

Elia Kazan

in  A Life   p.102-103

© Elia Kazan 1988

 

 

Elia Kazan.jpg

 

 

On board the Keiser Wilhelm which brought us to America (1913)



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