10.5.17

 

 

 

FRANCE POLITICS ELECTIONS MACRON

Emmanuel Macron

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O desbravar do caminho

 

 

 

 

Emmanuel Macron ganhou folgadamente a eleição presidencial em França mas os 34% de votos em Marine Le Pen mostraram mais de um terço da França virada para o país pétainista que fora no começo dos anos quarenta do século passado, contente por Hitler a ter salvo do comunismo – e tanto pior para os judeus. Que em 1945 a França não só tenha escapado ao opróbrio da derrota mas também sido dada por um dos cinco grandes vencedores da segunda guerra mundial – juntamente com Rússia, Inglaterra, América e China – com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, deve-se ao génio do general De Gaulle que, de Londres onde se refugiara, apelara à resistência aos alemães pelas forças francesas livres, uma pequena minoria de civis e militares (a que os comunistas se aliaram mas só depois de Hitler ter invadido a União Soviética, rompendo brutalmente o pacto germano-sovético contra as democracias europeias) e, a despeito da sobranceria norte-americana , comandara a sua luta com tal eficácia militar e política que, em 1944, descera os Campos Elísios à frente dos seus como libertador de Paris.

 

A França (e a fortiori a União Europeia) precisa também agora de quem a salve e talvez tenha encontrado o salvador em Emmanuel Macron. É trabalho de Hércules mas poderá ser feito e Macron parece estar disso convencido, tal como parecem estar os milhões que foi juntando à sua volta desde que, há um ano, lançou o movimento En marche! quando ninguém o conhecia para lá do mundo político parisiense onde se sabia haver aparecido rapaz inteligentíssimo com quem toda a gente simpatizava , casado com Senhora muito mais velha do que ele que fora sua professora no liceu. Se Macron der conta do recado, é preciso ir mais atrás na história de França do que De Gaulle para encontrar figura comparável: Napoleão Bonaparte. Os tempos e as técnicas são outros e a guerra não é militar mas em tenacidade de propósito, clareza no rumo à vitória, planeamento a longo prazo de estruturas e pormenores necessários ao projecto sem por isso perder comando e controle da luta diária, as semelhanças são sugestivas.

 

Muitos comentadores franceses e alguns estrangeiros lembram em tom magistral que não há homens providenciais. (Argumento conhecido contra a história contada por feitos de Reis, por praticantes da história contada por variações do preço do centeio). Infelizmente para os comentadores, “providencial” assenta como uma luva em De Gaulle e Napoleão (até o mando lhe subir à cabeça e o desterrar para Santa Helena). Sem homens providenciais – e uma mulher, Joana d’Arc – a França não seria a França.

 

Macron terá maioria na Assembleia Nacional. As piores dificuldades vêm de fora: austeridade, imposta pelos seus amigos alemães; vandalização da verdade, desde a teoria da evolução ao aquecimento global e a tudo o resto, exemplificada pelo 45º presidente dos Estados Unidos, que disse já quase 500 mentiras provadas desde que tomou posse a 20 de Janeiro.

 

 

 

 

 

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3.5.17

 

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Paris

 

 

 

José Cutileiro

 

 

A eleição francesa

 

 

Na primeira volta da eleição presidencial francesa, as empresas que fazem sondagens em França portaram-se muito melhor dos que as suas congéneres no Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda no Norte e nos Estados Unidos da América se tinham portado (isto é, acertaram em quem viria a ganhar e a perder e com os números certos). No primeiro caso, quando do referendo sobre permanecer ou não membro da União Europeia em Junho do ano passado em que as ditas congéneres do lado de lá do Canal da Mancha, como um só homem, previram que quem queria ficar na União ganharia sem sombra de dúvida e, no segundo caso, sobre a eleição presidencial que opôs Donald Trump a Hillary Clinton (outros candidatos não contavam embora complicassem: por exemplo, candidata à esquerda de Clinton, a quem fora pedido, em vão, que desistisse antes da ida às urnas, ganhou em Michigan, Pensilvânia e Wisconsin votos que, se tivessem sido contados para Clinton, lhe teriam dado vitória no Colégio Eleitoral, isto é, na eleição) em que as congéneres transatlânticas, também com certeza absoluta, previram Clinton como o 45º Presidente, a entronizar em Janeiro. (O Clinton macho avisara que era preciso prestar atenção aos brancos pobres da ‘cintura da ferrugem’; não considerar os votos deles adquiridos sem sequer os ir ver e falar com eles mas a rapaziada – e raparigada – que mandava na campanha mandou o velho ir dar uma volta).

 

Com esse precedente, os especialistas franceses destas coisas ganharam crédito e a gente agora espera que o que nos apresentarem desta vez como resultado mais provável esteja outra vez certo. Os últimos palpites desses especialistas de que tive notícia dão 59% dos votos expressos a Emmanuel Marcron e 41% a Marine Le Pen. Como o medo de abstenção por muita gente de direita, apesar da recomendação de votar Macron dos seus chefes – Fillon, Sarkozy, Juppé – bem como por muita gente de extrema-esquerda, sem recomendação de votar Macron do candidato Jean-Luc Mélenchon, em quarto lugar na primeira volta, estava a generalizar-se, começa a sentir-se alívio por parecer muito provável que o 7º Presidente da 5ª República francesa venha a ser Emmanuel Macron. Pessoalmente, estou convencido de que Macron tem qualidades de chefia excepcionais que lhe permitirão, nas eleições legislativas de Junho, ganhar maioria presidencial na Assembleia Nacional e levar depois a França a bom porto. Ao mesmo tempo, felicito-me por não irmos ter Marine Le Pen no Palácio do Eliseu.

 

Mas além disso não haverá grande motivo para exultação. Muito pelo contrário. Quase 40% dos franceses prefeririam ser governados por gente com provas dadas de nacionalismo brutal (patriotismo é amar os nossos; nacionalismo é odiar os outros, disse Romain Gary); nostalgia de regimes nazis ou fascistas que mandaram em partes da Europa nas décadas de 30 e 40 (e na Península Ibérica até aos anos 70) do século passado; antissemitismo; racismo em geral. E 40% dos franceses é muita gente.

 

 

 

 

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2.5.17
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26.4.17

 

 

france 2017

França, 2017 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

A caça aos pobres

 

 

 

Nos Estados Unidos, os brancos (e brancas, o machismo do homem não as apoquentou) pobres, desempregados, adoentados, alcoolizados, suicidários dos Estados, antigamente industriais, que votaram Trump em Novembro passado quando 8 e 4 anos antes tinham votado Obama e que o aldrabão mal formado dos reality shows e dos concursos Miss Universo vai tornar mais desesperados ainda, sabotando o programa de assistência na saúde de Obama em vigor (não conseguiu substitui-lo por programa melhor contra o que prometera na campanha eleitoral: o núcleo duro do Partido Republicano entende que a culpa dos pobres serem pobres é dos pobres, que se adoecerem e não tiverem dinheiro para se tratarem, paciência, e que quando morrerem Deus saberá para onde mandar as suas almas) e cortando no orçamento federal inúmeras verbas destinadas a ajudarem pessoas a reintegrarem-se no mundo do trabalho - toda essa gente que esperava até de madrugada se Trump chegava atrasado aos comícios, continua a achar que só ele a entende e se bate por ela em Washington.

 

Lembrei-me deles (e delas) no Domingo à noite quando uma das cadeias de televisão francesas que cobria as eleições passou mais uma vez, já tarde, pelo feudo de Marine Le Pen nos Hauts de France (departamento que se chamava dantes Nord – Pas de Calais mas há anos reforma administrativa libertou o poeta que dormita na alma de cada burocrata francês, dando-lhe nome mais subido) e entrevistou dois apoiantes dela, homens novos da classe operária que não estavam exuberantes porque tinham esperado que ela ganhasse a primeira volta mas ficara em segundo lugar o que dá para passar à volta final mas não é tão glorioso. “Só ela é que entende o povo”; “Só ela sabe falar connosco” disseram. “Os outros são todos liberais”. (Não teriam dado ainda pela subida fulgurante de Jean-Luc Mélenchon, que chegou em quarto lugar muito perto do terceiro, orador entusiasmante, sensato sobre o meio ambiente, que tiraria a França da União Europeia e a associaria a Cuba e à Venezuela numa grande frente de esquerda. Douce France…). Filmado mais cedo na sua horta, viu-se homem de meia-idade, triste mas sorridente, que tinha sempre votado comunista mas há duas eleições votava Le Pen. “Na segunda volta tudo pode acontecer.”  

 

(Como dizia o meu professor de matemática na Valsassina, quando se irritava com incompreensão de equações simples por aluno chamado ao quadro: “Oh senhor! É bom ser burro mas não tanto!”)

 

Mas, indo ao cerne da questão: o fim do comunismo não foi a irradicação de uma doença – foi o falhanço de um remédio. E o colapso da União Soviética bem como a ética peculiar da China fizeram o capitalismo tomar escandalosamente o freio dos dentes. Não será pela terceira via de Blair nem pelo Bonapartismo aggiornato de Macron mas se não se descobrir maneira de corrigir - a bem - diferenças entre muito poucos muito ricos e muitos muito pobres, vamo-nos meter numa broncalina do camandro - ou numa Bernardette do caboz.

 

 

 

 

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19.4.17

 

 

aspirina

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O fim das Luzes?

 

 

Em 2005, por altura da tentação de uma Constituição europeia, tinha havido dois avisos, dois “nãos” a referendos – um vindo de país onde não fica bem gastar dinheiro com mulheres e vinho e não se gosta de inflação (a Holanda); outro vindo de país onde fica bem gastar dinheiro com mulheres e vinho e uma pitada de inflação é o sal da economia (a França) – mas quem mandava nessa altura na Europa (que é mais ou menos quem agora nela manda) usou de falcatrua a que ninguém se opôs: tiraram dois ou três pratos da ementa proposta mas deixaram ficar os outros todos, apagando os nomes que lhes tinham dado e escrevendo no cardápio nomes diferentes. A malta (como o Zeca Afonso chamava à gente) esteve-se nas tintas porque se vivia ainda na tradição das trente glorieuses: o ano corrente fora melhor do que o ano anterior e o ano que viria a seguir seria melhor ainda do que o ano corrente, de maneira que, se a minha mulher-a-dias podia trocar de Toyota em segunda mão, não a aquecia nem arrefecia que eu trocasse de BMW ou o Rockefeller local – nessa altura era o Ricardo Salgado, agora ainda há menos quem se assemelhe à tribo americana – trocasse de Bentley.

 

A seguir vieram as crises começadas em 2008 e, na peugada delas, a austeridade. E a gente sem aprender. Não surpreende muito: quando se toma uma aspirina e a cabeça deixa de doer; quando, se se for preso, se pode chamar um advogado que consegue tirar-nos da cadeia ou, se a lei obrigar a que lá fiquemos, garante a nossa defesa ao abrigo de leis, até ao tribunal se se vier a chegar lá; quando, se se adoece, se tem direito a médico, tratamento e hospitalização; quando, se se perde o emprego, se tem direito a subsídio de desemprego, etc., etc., é difícil imaginar que neste baixo mundo se possa viver muito melhor do que assim.

 

De aspirina a subsídio de desemprego tudo se deve a evolução especial da humanidade na pequena península da Eurásia a que se chama Europa, durante os últimos quatro séculos. (O século de Péricles e Jesus Cristo também contaram mas, embora tenham sido conhecidos de civilizações orientais e médio-orientais, não levaram nelas milagres como os do desenvolvimento das ciências e do humanismo na Europa). Habituadas a viver com room service permanente, numa espécie de upgrading da condição humana tomado tão naturalmente como as estações do ano ou as marés, as nossas gentes não querem perceber que, como no filme de Tati Mon Oncle, “tudo comunica” e que, quem apoie o Brexit, Le Pen em França (amigo experiente aposta, dobrado contra singelo, que ela vai ganhar à primeira volta), Orban na Hungria, o gémeo sobrevivente na Polónia e também Erdogan na Turquia, Trump nos Estados Unidos, Putin na Rússia, vai apagando uma a uma as lâmpadas que nos alumiam; talvez mal e pouco mas não há outras. Fundamentalistas Corânicos ou Bíblicos (que negam a teoria da evolução) ou budistas (que limpam etnicamente a Birmânia) deixados à rédea solta darão cabo de tudo. Até da aspirina.

 

 

 

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12.4.17

 

Patrie

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Pátria

 

 

 

Em Novembro de 1994 fui escolhido para Secretário-Geral da União da Europa Ocidental, em Bruxelas. Havia quatro candidatos: um belga que desistiu quando outro belga, Willie Claes, foi escolhido para Secretário-Geral da OTAN; um político italiano substituído a certa altura por um diplomata italiano, fidalgo competente muito bem-educado – foi dele que recebi o primeiro telefonema de parabéns depois de ser eleito – e um espanhol, Enrique Barón Crespo, ex-ministro de Felipe Gonzalez, ex-Presidente do Parlamento Europeu, que a França tomara de ponta quando ele quisera mudar o Parlamento Europeu de Estrasburgo para Bruxelas (crime de lesa-majestade para qualquer alto funcionário francês, cujo lema é: L’État c’est (aussi) moi).

 

Um mês depois recebi uma carta manuscrita com estampilha francesa, remetida por Joaquín Romero Maura. Estivéramos juntos em St. Antony’s, eu antropólogo, ele historiador. Anos depois de Oxford, fui convidado para seminário sobre religião e política no Mediterrâneo, organizado em Roma por universidade americana. Numa manhã radiosa de Maio, o professor americano que presidia à reunião, careca como Mussolini, antes de começar os trabalhos anunciou gravemente que Martin Heidegger tinha morrido. “Should we do something?” Éramos uns vinte sentados a mesa quadrada e vi Joaquín, do outro lado, escrever num pequeno papel, dobrá-lo, passá-lo a vizinho do lado que o passou a vizinho do lado, até mim a quem vinha endereçado. Desdobrei-o e li: La classe obrera tiene un inimigo menos!

 

Abri o sobrescrito. A carta vinha em inglês, datada de Darkest Périgord e começava assim:      

 

Dear José,

The joy of seeing Enrique Barón loose the job almost made me forget to congratulate you on getting it. (A alegria de ver Barón Crespo perder o lugar quase me fez esquecer de te dar os parabéns por o teres ganho.)

 

Agradeci-lhe e nunca mais soube dele. Não sei se continuará historiador ou se   terá virado banqueiro; se Goody (dinamarquesa que em Oxford se recusara a viver em Summertown House, bloco de apartamentos da Universidade, porque a ideia de duzentas teses a serem escritas debaixo do mesmo teto a deixava deprimida) e ele continuam vivos, casados e felizes.

 

Gosto desta história – e mais ainda nos dias incertos que atravessamos – porque mostra o disparate sem nome dos patriotismos anti-europeus que agora vicejam e ganham raízes por vários cantos da Europa. Em França é com sentimentos assim que Marine Le Pen, na extrema direita, e Jean-Luc Mélenchon, na extrema esquerda, animam a malta – onde pululam, de um lado, beatos integristas e, do outro, devotos de Estaline e de Trotsky. Se qualquer deles os dois for eleito Presidente, a União Europeia acabou. Édouard Macron sabe isso, sabe muito mais coisas ainda e julgo que seria capaz de meter a França nos eixos sem dar cabo dela. Mas talvez lhe falte o jeito de um Bill Clinton ou de um Mário Soares para convencer pessoas burras a quererem coisas inteligentes. Carisma, chamam-lhe alguns.

 

 

 

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10.4.17

 

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fezada
fe.za.da
nome feminino
(de + z + sufixo ada)

 

Crença, convicção, grande fé. Porém, ao contrário da fé, cuja relação com a razão foi vasta e fundamentadamente explicada por Bento XVI, o «papa mau», ao tempo explicado assim às crianças e ao povo por certos sectores eclesiais, a fezada não carece de um fundamento absolutamente racional. Carece de vontade e de esperança, é certo, e em grandes quantidades; de wishful thinking, que o patriotismo linguístico tem limites, mas não se baseia em argumentos irrefutáveis, antes em sinais de leitura intransmissível. Radica no «palpite», na convicção íntima, inalienável e intimamente construída, na intuição -- mesmo certeza -- inexplicável. Ter fezada porque sim. No fundo, uma aposta contra as leis da probabilidade. Ter uma fezada no Euromilhões em dia de prémios grandes, ter fezada na vitória do Benfica em maré baixa contra um clube dado como inultrapassável. Há quem viva sem fé, não parece plausível que se consiga viver sem fezadas.

 

 

 

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5.4.17

 

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José Cutileiro

 

 

 

Primavera

 

 

 

Só me dei verdadeiramente conta da Primavera quando ela irrompeu em Oxford, no meu primeiro ano lá. Em Portugal havia uma estação cinzenta, chuvosa e fria de meio de Outubro a meio de Março e uma estação luminosa, quente e seca do fim de Março ao começo de Outubro. (E a Primavera de Cabul, em 1952, entrara e saíra também sem eu dar por ela). Com muitas árvores de folhagem permanente e pouquíssimas de folhagem caduca (ou, em Cabul, quase sem árvores), a natureza não parece morrer e ressuscitar todos os anos como acontece em partes mais temperadas da crosta terrestre do que a Lisboa e o Cabul dos meus liceus, francês em Cabul, Lycée français de Kaboul chamado da Independência, fundado em 1922, destruído pelos talibãs e reaberto em 2002; traduzido do francês em Lisboa, Escola Valsassina seguida de ano lectivo no Pedro Nunes. Nessa altura, o nosso curso dos liceus estava para o curso dos liceus em França como o Dicionário Prático Ilustrado da Lello está para o Petit Larousse: só mudava o vernáculo (e acrescentavam-se pessoas, lugares e feitos da nossa geografia e da nossa história).

 

A Primavera de Oxford foi um triunfo da vida sobre a morte para este meridional. Era ano particularmente trabalhoso para mim, a ler ou a escrever (com caneta) sentado em maples, raramente à mesa, sozinho no meu quarto de estudante de manhã à noite e pela noite fora ou ensimesmado no refeitório do colégio. De repente, a redoma estilhaçou: chegara a Primavera. As cidades portuguesas onde eu vivera tinham raízes árabes e depois da cabra o árabe é o mais implacável fazedor de desertos do mundo; intramuros, casas brancas apinhavam-se em ruas estreitas – da minha janela à tua vai o salto de uma cobra – fora de portas o baldio começava. Oxford, pelo contrário, mistura constantemente a cidade e o campo, no espaço de cada um e nos espaços de todos. Sem que eu me tivesse dado conta do que estivera a germinar, ao levantar um dia os olhos da leitura, tudo tinha mudado. Havia sol entre os ramos das árvores, entre as árvores e os telhados, nos papéis da minha mesa. As árvores, de todas as quais todas as inglesas e ingleses sabiam os nomes e que eu tratava por igual (franceses e italianos são também de ignorância penosa na matéria) tinham outra vez todas folhas e muitas das que se viam perto das casas davam também flores, brancas, encarnadas, amarelas, azuis. Do ar do dia ao sol nascente milhares de pássaros cantavam, namorando. Na minha rua, velhas que o frio escuro do Inverno guardara em casa, singravam de bicicleta a frescura da manhã, vestidas de algodões mais coloridos do que as flores das árvores - que naquela terra a viuvez não era negra.

 

Tudo isto já lá vai há mais de meio século. Entretanto Lisboa, Évora e Oxford mudaram como nunca tinham mudado em qualquer meio século anterior. E, mau agoiro, o clima está a pregar-nos cada vez mais partidas. Vou para a semana a Portugal. Dizem-me que vai chover enquanto no Brabante Valão se espera que faça Sol.

 

 

 

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29.3.17

 

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José Cutileiro

 

 

 

A Utilidade do Saber Inútil

 

 

 

The Usefulness of  Useless Knowledge” foi o título de um seminário que teve lugar há poucas semanas no Institute for Advanced Study, em Princeton, New Jersey, em que o director do Instituto participou – um holandês cheio de imaginação; ainda no meu tempo havia sido a vez de um inglês que fora precedido pelo americano que eu lá encontrara à chegada, na sucessão de outros americanos até ao escolhido para ser o primeiro director, quando da fundação do Instituto em 1930. Instituição das mais venerandas – senão a mais veneranda – do alto saber nos Estados Unidos da América, o seu endereço postal diz tudo: 1 Einstein Drive, Princeton, New Jersey (ignoro o nome da alameda antes de a crismarem depois da morte do grande sábio). Os directores, passado pedagogo inicial, quase todos físicos ou matemáticos, com um economista tresmalhado. Os professores, Einstein um deles, são e sempre foram de nacionalidades variadas (dantes fugia-se para os Estados Unidos da América); os “membros”, geralmente professores em universidades americanas ou de outros países que durante um ano académico estudam ou escrevem, sem responsabilidades de ensino e nobilitando o curriculum, vêm também de todo o mundo. A anglófono ou anglófona que queira conversa muito inteligente ao almoço, não sei recomendar melhor mesa que a do restaurante do Instituto. (A comida também não é má).

 

O que é uma educação útil e o que é uma educação, digamos, ornamental pode parecer simples mas não o é a não ser em casos extremos. Ler  “Hamlet” será provavelmente sempre ornamental (salvo, escreveu Bertrand Russell, no caso de alguém que esteja a planear assassinar um tio). E a ascensão do saber de experiência feito acima do saber só aprendido em livros acontece na nossa civilização com o Renascimento, primavera de que os primeiros rebentos se anunciam no Século XIV, como a regra a que se chama “Occam’s razor” – entre as várias alternativas de solução de um problema a mais simples é a mais provável – ligada a frade franciscano do mesmo nome, não estando ainda a guerra ganha em meados do século XVII quando Sir William Harvey, que descobriu a circulação do sangue tal como a conhecemos, recomendava aos alunos: “Não penses, experimenta” – “Don’t think, try”.

 

Depois chegou o século das luzes e, escarranchada nessas luzes, a Revolução Francesa. Em pano de fundo, rugindo antes e depois, a revolução industrial. A seguir, duas guerras mundiais; armas nucleares; robots; inteligência artificial. Ciência (de Silicon Valley ou de alhures) agora sempre com precedência sobre humanidades. Apetece às vezes dizer: “Não experimentes, pensa”.

 

A quantidade de coisas utilíssimas vindas de pensamentos julgados inúteis é imensa. Quem pergunte ‘O que é que vem nos livros que um homem da minha idade não saiba?’  não percebe a diferença entre o saber comum – que é vago, contraditório e gabarola – e o saber filosófico – que é preciso, coerente e humilde (outra vez Bertrand Russell).  

 

 

 

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28.3.17

 

 

B LIGHT-VINTAGE-LETTER-

 

 

 

 

bimbo
bim.bo
nome e adjectivo com 2 géneros
(origem incerta; talvez do italiano bimbo, criança)

 

Esta é uma daquelas palavras de invenção urbana e significado volátil que se usa como categoria de desclassificação. Originalmente «pacóvio», «parolo», «provinciano», «rústico», «ingénuo», por extensão passou a indicar rudeza, falta de maneiras, mau gosto e, de um modo geral, uma inadequação aos valores e representações sociais e estéticos do locutor, que assim se exclui e distancia da categoria apontada e desdenhada. Um marcador social. Por tal razão, bimbo designa com frequência o matarruano, o labroste ou lapuz, o simplório; mais raramente aponta o ignorante, o estupor, o pedante, o pretensioso, o inculto e o idiota encartado nas suas múltiplas e ramalhudas derivações modernas. O tempo fez, porém, estragos neste cenário, e a rudeza, a falta de maneiras e o mau gosto revivem em glória nos ademanes e costumes de urbanos e suburbanos, de diversa extracção e notoriedade, que se arrogam o direito de também se diferenciarem dos «bimbos». Sinal dos tempos. Mas é terreno resvaladiço, quando o significado, com tanta e sucessiva extensão, se desprende ou perde das palavras. E do juízo de quem as usa.

 

 

 

 

 

 

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22.3.17

Philips 1964

 gravador Philips, 1964

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

As coisas são o que são. 

 O que é ser? O que são coisas?

 

Quando perguntei ao Tio Zé Peidinho, pastor reformado (de gado, não de almas) como é que achava que o mundo tinha começado, analfabeto com melhor cabeça que muitos doutores que eu conheci – nesse tempo, doutores eram pelo menos licenciados em matérias estudadas em universidades e não técnicos enfeitados com o título no afã de serem promovidos a portugueses de primeira pelo tratamento que lhes passava a dar o comércio - respondeu: “Há de ter começado como tudo: de pequenino”.

 

O Tio Zé Peidinho tinha 82 anos, era muita idade nesse tempo, eu 32, e estávamos à conversa numa manhã de sol, só com barulhos de campo e de sinos da igreja da Vila às horas, meias e quartos de hora, porque escribas, acocorados ou não, precisam de saber às quantas o mundo anda. Pontualidade mais rigorosa só chegou com máquinas que exigiam disciplina no trabalho, começando no Noroeste da Europa com o que se chamou a revolução industrial. No lugar onde o Tio Zé Peidinho e eu estávamos tal revolução nunca tinha realmente chegado mas produtos e subprodutos seus tinham já feito mudar muita coisa: antes da fábrica de cartão construída na margem do Guadiana, antecipada com desconfiança (“Como se eu acreditasse que aquela merda serve para fazer papel” rosnou o secretário do tribunal da sua cadeira de lona na esplanada do Café Central à passagem lenta de um reboque carregado de maquinaria) mas que, pela primeira vez na história local, deu trabalho a operários entra o ano, sai o ano (até albufeira da barragem de Alqueva a ter deliberadamente submergido) encontravam-se na freguesia sinais claros de dependência do mundo exterior. Em casinhoto no sopé da colina havia há décadas uma bomba fabricada - e assinada - em Inglaterra para levar água do rio à cisterna intramuros lá em cima.

 

Registei a nossa conversa no gravador Philips e perguntei-lhe se queria ouvir. Ouviu atento e depois disse: “Olha que mánicazinha tã esperta!” Concordei, os dois embevecidos com aquela maravilha do progresso. Pouco tempo depois, em St.Antony’s College, Oxford, eu e um economista de turbante chamado Montek Sing que de lá foi para o Banco Mundial, ficávamos fascinados com grande fotocopiadora xerox na administração do colégio que além de nos fazer ouvir espécie de deglutição mecânica própria de tais engenhos, chispava luzes verdes. Talvez Montek e eu, o Punjab e o Alentejo, estivéssemos menos longe do campo original da espécie do que ingleses, americanos, alemães, judeus e outros que também viviam no Colégio e não me lembro de encontrar na contemplação da copiadora.

 

Remanso que acabou. Exponenciações da lei de Moore aceleram inexoravelmente o mundo digital. Física quântica tem aplicações práticas inesperadas e surpreendentes. O resto da natureza sofre ainda mais do que nós. Políticos desorientados querem diminuir trocas comerciais e produzir mais armamentos. Estamos a ficar analfabetos e não somos tão espertos como o Tio Zé Peidinho.

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20.3.17

 

J wooden letter birch

 

 

 

 

já-agora
já.a.go.ra
advérbio + advérbio
(do latim: jam + hac hora, nesta hora)

 

Bem sei que o dicionário regista palavras, unidades lexicais, e esta entrada é formada por duas, dois advérbios de tempo de significado similar, usados em conjunto em muitíssimas situações. Como noutros casos, aqui o resultado não é igual à soma das partes, o que torna ainda mais difícil explicar de forma lógica o sentido do seu uso. É uma das expressões do português mais difíceis de traduzir e de explicar, por exemplo a um estrangeiro. A saudade tem fama de não ter equivalentes, mas o «já agora» é um caso bem bicudo. Nem sequer é fácil substituir este par por outra expressão equivalente. A sinonímia que alguns dicionários propõem não é completamente convincente. Talvez a expressão «visto isto» se aproxime, mas é isso mesmo, uma aproximação. Só com uma perífrase se consegue explicitar o sentido oportunístico da expressão: «já que aqui estou», «já que é assim», «já que pergunta», etc. A expressão traduz um sentido de oportunidade em que o locutor procura tirar partido de uma dada situação. Vejamos as diferenças e as semelhanças de uso nos seguintes contextos:
1.
- Quer beber alguma coisa enquanto espera?
- Já agora bebo um café, obrigado.

2.

- Vou levar o carro à revisão e já agora mando arranjar o espelho partido.

3.
- O maioral agarra, viril, a moçoila e com a outra mão desabotoa a berguilha, quando ela escapa com um safanão. Vendo-se de mãos a abanar e de berguilha aberta, o maioral diz para si, «já agora mijo».

 

 

 

 

 

 

 

 

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15.3.17

 

Turquia, 2017

 Turquia, 2017

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Patriotas

 

 

 

Recep Tyyip Erdogän (devia haver uma espécie de v, em vez de trema, sobre o a mas falta no meu teclado embora só um tonto ou um fanático se queixaria disso: há quase um século Mustafá Kemal, depois conhecido por Kemal Ataturk – pai dos turcos – mudou o alfabeto em que se escrevia a língua turca do árabe para o nosso e ninguém se lembrou ainda de voltar para trás; conta-se de resto que o grupo de sábios encarregado da tarefa não atava nem desatava há mais de um ano quando Kemal mandou um dia vir a papelada, trabalhou sobre ela a noite inteira e de manhã fez entregar o alfabeto novo aos sábios), Recep Tyyip Erdogän, dizia eu, é déspota oriental obrigado por um século de ocidentalização da Turquia a dotar-se de constituição, parlamento e outras modernices que nunca se deveriam dar ao povo - até porque, depois de dadas, é muito difícil tirar-lhas – de maneira que procura ajeitá-las o mais possível às exigências de uma monarquia absoluta. Primeiro-ministro de 2004 a 2014 e Presidente da República desde 2014, tudo ao longo dos anos como deveria ser, em eleições livres e limpas, vai em Maio fazer um referendo para aprovar nova Constituição que torne a governação muito mais presidencial do que parlamentar. Ao contrário do que Erdogän esperara, animado não só pelos triunfos eleitorais anteriores mas também por aumento da sua popularidade a seguir a tentativa falhada de golpe de estado que tencionara matá-lo e colocou brevemente ao seu lado até oposicionistas tradicionais, sondagens agora não o deixam achar que sejam favas contadas e a campanha pelo sim não pode desleixar-se. Ora em 2014 Erdogän e o AKP, seu partido, perceberam melhor que os outros partidos turcos que os votos da diáspora eram importantes e passaram a fazer campanha no estrangeiro, o que se prepararam para repetir desta vez.

 

Entretanto, porém, aconteceram duas coisas: por um lado, políticos populistas na Europa estimulam entusiasticamente o ódio aos muçulmanos; por outro lado, traços autoritários com toques paranoides foram-se acentuando em Erdogän, envenenando também as perspectivas de adesão da Turquia à União Europeia. Por fim, arranjo manigânciado entre a União e a Turquia permite à primeira mandar emigrantes de países terceiros à segunda e à segunda receber dinheiro e vistos. Alemanha, Áustria, Suécia e Suissa, também fecharam agora a porta a ministros turcos mas os holandeses foram mais brutos, os turcos lembraram o nazismo – muito eficaz na Holanda durante a ocupação alemã – e hoje as relações políticas entre Haia e Ancara viram Clausewitz do avesso: guerra por outros meios. (Erdogän chamou à Holanda e à Alemanha “estados bandidos”). Dá jeito a uns e a outros por agradar aos mais renhidos dos seus patriotas.

 

A França mistura a República mais monárquica do mundo com Liberté, Égalité, Fraternité e autorizou o MNE turco a ir lá falar, sendo hipocritamente condenada por outros europeus e (também tem eleições à porta) pela sua própria extrema-direita.  

 

 

 


12.3.17

 

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eles
e.les
pronome pessoal masc. pl.
(do latim ille)

 

O contexto de utilização deste pronome que interessa aqui evidenciar é o da referência a uma entidade ao mesmo tempo indefinida e abstracta, embora de natureza colectiva, da qual o locutor se separa e distancia ao referir-se a «eles». Um trabalhador de uma empresa, digamos, por exemplo, caixa do supermercado, referir-se-á ao conjunto de regras que tem de cumprir e à cadeia hierárquica a que tem de obedecer – isto é, referir-se-á à empresa que integra – como «eles». Num outro exemplo, um professor referir-se-á ao Ministério a cujos quadros pertence como «eles». Em ambos os casos, o locutor exclui-se da pertença às entidades que menciona. E neste «eles» há um travo a ressentimento e a hostilidade. É toda uma visão do mundo. «Eles» são o «sistema», a autoridade, a organização. O «eu» não faz parte dessa pandilha, que olha com desconfiança (não raro justificada, diga-se). Nesse caso, constitui um enunciado de desresponsabilização: «eles» é que têm a culpa, «eles» é que disseram para fazer assim. «Eles» são, por exemplo, o hospital ou o centro de saúde, o banco, a escola, as finanças, a administração pública, a meteorologia (eles dizem que vai chover), o corpo director da empresa, a polícia, os transportes, e, mais recentemente, a internet, o Google e similares. E, no repúdio e na indignação, dir-se-á, na versão suave, «quero que eles se lixem!». O que comporta sempre um certo risco, porque «eles» estão em toda a parte e têm ouvidos de tísico. O que vale é que a gente não tem medo deles.

 

 

 

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8.3.17

 

affiche Chagall

 Marc Chagall

 

José Cutileiro

 

 

Na caixa do supermercado

 

 

No sábado à tarde, quando, com a minha mulher, empurrando num carrinho o que ia comprar, cheguei junto das caixas só estava aberta a última das três – a do velho pequeno, calvo, irritadiço e rabugento. Chamo-lhe velho, embora ele tenha com certeza mais de vinte c cinco anos menos do que eu, assim como posso chamar a antigo condiscípulo na Valsassina um rapaz da minha idade: manhas de sobrevivência que querem dar vestígio de doçura à vida e não se inventam por mal. Chamo-lhe rabugento porque, entre o ano saia o ano, faça chuva ou faça sol, no calor dos verões bons ou no frio dos invernos maus, foi sempre assim que o vi, agastado por a máquina se recusar a ler etiquetas de preço, por frutos não terem sido pesados, por não ter chegado ainda à caixa outro empregado que tivesse chamado pelo telefone, por causas de mim desconhecidas que o levem a murmurar sombriamente consigo mesmo palavras indistintas. Funambulista das relações humanas, nunca cai: não chega a ser malcriado com a clientela e nem tampouco a ser acolhedor.

 

La Grande Épicerie onde passamos depois do golf da Myriam antes de seguirmos para casa é a última escala contra mundo dos rituais da semana e quando vejo o velho na sua caixa, sempre a mesma, procuro se possível sair por uma das outras, onde as mesmas raparigas belgas, magrebinas ou ucranianas, que vão variando com as semanas, se ocupam de nós sem imposição lúgubre de personalidade. Neste sábado tal não foi possível e ainda bem porque aconteceu, inesperadamente coisa extraordinária. Enquanto passávamos as compras do carrinho para o tabuleiro rolante que vai dar à caixa o velho que falava com o cliente anterior, já despachado, deu uma gargalhada e, não me tinha eu refeito do espanto, porque não fora sequer sarcástica, mais outra e outra ainda, de riso aberto e generoso. O cliente ria também, contente, em frente dele e saiu a seguir para o parque de estacionamento. O velho voltou-se para nós e eu disse-lhe:

 

 

“O Senhor vai desculpar-me o que eu lhe vou dizer mas nunca o vi tão feliz”.

 

“Devo tomar as suas palavras como um cumprimento?”

 

“Com certeza.”

 

 

“É que nunca estive tão feliz. Nem julguei que me pudesse alguma vez acontecer. Mas aconteceu, há umas semanas. E na minha idade. Encontrei a mulher dos meus sonhos” (falávamos na sua língua, o francês da Walónia, e o que ele disse foi J’ai trouvé la perle rare que é uma das imagens conhecidas da língua francesa para referir momento assim) “Nunca pensei que me aconteceria a mim” repetiu e ria, olhando-me nos olhos, contente de estar feliz.

 

Paguei, pusemos os sacos no carrinho e saímos para o parque de estacionamento. Tinha parado de chover e pensei que se eu acreditasse em espíritos e mesas de pé de galo procuraria quem pudesse conjurar Maupassant ou Tchecov ou O. Henry para eu lhe contar a história e ele fazer dela o que quisesse. Assim, pensei que só é pessimista quem quer. E que – longe vá o agoiro – é capaz de haver Deus.

 

 

 

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5.3.17

 

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ludíbrio
lu.dí.bri.o
nome masculino
(do latim ludibrium)

Embuste, engano; habilidade ou manha conducentes ao logro. A primitiva acepção de escárnio incorporou-se no significado que vingou na língua actual, envolvendo a menorização ou o desprezo pelo ludibriado, que, não sendo propriamente néscio, faz figura de otário. Engano ou ilusão obtidos com acinte e malícia premeditados. Intrujice. Por extensão, significa também cilada, emboscada. Por analogia com o futebol, diz-se que fulano foi «fintado» com o significado de «enganado com habilidade»; ou «toureado» se a analogia for de natureza tauromáquica. Logro astucioso da percepção elevado, por vezes, à categoria de arte: com minúscula ou mesmo com maiúscula.

 

 

 

 

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1.3.17

 

 

José Cutileiro

 

Duas na ferradura

 

Ia começar a escrever mais este Bloco (chamo-lhes Bloco-Notas e a Vera consente-me tal liberdade poética por ter um grande coração; ao se referir a eles ela própria chama-lhes Blocos de Notas que é como se deve dizer) quando tive o meu filho ao telefone que, entre outras coisas, me contou haver recebido de presente a História da Segunda Guerra Mundial de Winston Churchill (versão abreviada, só com cerca de mil páginas) e estar a antecipar o gosto de a ler. Churchill dizia que a História o iria certamente tratar bem porque tencionava ser ele a escrevê-la e assim foi; embora ajudantes eminentes, eles próprios historiadores, tenham molhado a sopa como também era inevitável e costumeiro noutras artes – Miguel Ângelo não deu todas as pinceladas precisas para acabar o teto da Capela Sistina, nem tampouco foi Wolfgang Amadeus a lançar no papel todas as notas das suas partituras. O Zézinho – a graça do meu filho é José, como é a minha e como fora a do meu Pai; o nosso sistema de parentesco é cognático com forte pendor patrilinear mesmo depois da extinção dos morgadios; o diminutivo resulta de inclinação linguística portuguesa e senioridade nas famílias – é, como o pai, grande apreciador de Churchill e perguntou-me se eu sabia o que é que Winston considerava o mais forte argumento contra a democracia? Não. Eu só conhecia o mais forte a favor (o pior sistema de governo tirando todos os outros). O mais forte argumento contra era conversa de dez minutos com um eleitor médio. Em qualquer dos nossos países.

 

O que durante as décadas a seguir a guerra (1939-1945) cujo resultado permitira a sobrevivência das democracias parlamentares ocidentais (e, como moda nova, também em outras partes do mundo) fora tomado por graça elitista travessa de que a gente se ria e de que se esquecia a seguir, dói agora até ao osso…. depois da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e da escolha dos cidadãos do Reino Unido de saírem da União Europeia, no ano passado; da desfaçatez de Geert Wilders nos Países Baixos e de Marine Le Pen em França, um e outra à beira de eleições nos seus países e aparecendo muito altos nas preferências dos eleitores em sondagens de opinião – espuma fumegante sobre caldo a ferver de ódio a estrangeiros, de preferência da força sobre a razão para dirimir questões com outra gente – Trump a querer estar sempre à frente na corrida aos armamentos o que é prudente mas não devia ser badalado assim e a cortar dinheiro que faria baixar tensões e tornar guerras menos prováveis; para não falar de países de Leste na Europa em que demãos apressadas de democracia estão a estalar depressa e a deixarem à vista indecências de poder e de vida que eram o pão nosso de cada dia nas sociedades criadas e sustentadas pela União Soviética.

 

As duas na ferradura? É que o ferreiro não acerta: para lá do que vemos não percebemos nada. Sabemos que os remédios populistas receitados fazem a emenda pior do que o soneto, mas qual é o bom caminho? 

 

 

 

 

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26.2.17

 

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ventriloquismo
ven.tri.lo.quis.mo
nome masculino
(de ventríloquo, latim ventriloquus + suf. ismo)
 
 
Coisa antiga, esta da loquacidade, quando não eloquência, ventral. Trata-se de uma técnica de dissimulação articulatória destinada a fazer crer que as palavras ouvidas não são emitidas pelo locutor. Coisa de sibilas e adivinhos, posteriormente listada como bruxedo e devidamente perseguida. Aplicar o discurso «ventral» a uma segunda personagem, também presente, é um artifício mais moderno, tornado número de circo em que o ventríloquo dialoga com um boneco que assim parece ganhar vida. Uma espécie de Galateia sem intervenção divina, mas onde a vida é um simulacro. A fala não é do boneco, mas sim de quem o manipula e lhe empresta a voz e as palavras. Por analogia, é o que acontece quando certas eminências falam por interposta inexistência, isto é, por intermédio de algum boneco vivo disposto a dar expressão à paixão desses Pigmaliões por si próprios. Entre políticos faz figura de artimanha e, como no circo, todos fingem que não se dá por ela. Ainda por cima, não raras vezes, o subterfúgio passa por sinal de inteligência.
 
 
 
 
 
 
 
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22.2.17

 

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José Cutileiro

 

 

Uma Europa alemã?

 

 

 

Os Deuses estão outra vez zangados connosco, pensariam Reis e Pontífices olhando à volta e talvez mandassem sacrificar vacas ou virgens se os tempos fossem para tais estratagemas. Mas não são: já não é por aí que o gato vai às filhoses. Na Europa, o Vaticano resistiu enquanto pôde mas Angelo Roncalli, mais conhecido por João XXIII, a cuja memória Pasolini dedicou o filme O Evangelho segundo S. Mateus, convocou o Concílio Vaticano II e começou uma grande mudança, tão grande que sobreviveu aos rigores do Papa polaco e ganha ânimo novo com as larguezas do papa Francisco. O meu chorado Nuno Bragança, católico progressista como se dizia na altura mas entusiasta lúcido desse progresso, achava que se João XXIII houvesse vivido mais dez anos “tinha dado cabo de tudo”.

 

Mas o Vaticano não é membro da União Europeia e é por causa do estado desta que tanta gente hoje dorme mal. Ataques a “união cada vez mais chegada” dos europeus, prometida fará sessenta anos no mês que vem no preâmbulo de tratado assinado em Roma, têm sido bem-sucedidos e outros estão na calha. Primeiro, o chamado Brexit, em que aldrabões sem vergonha convenceram populações inglesas ignorantes e (pela primeira vez há um século) mais pobres do que os pais tinham sido, de que seriam mais ricas e poderosas fora da União Europeia do que dentro dela. Mentira patética mas, com determinação de manada de bisontes trotando para se afogar no mar, políticos e burocratas meteram mãos à obra e não se vê marcha atrás. Segundo, o chamado Presidente Trump, maluco com mau fundo, que baixou para abismos inéditos os níveis - moral e intelectual - exigidos pela função sem que tal pareça ofender a sua base eleitoral, considera a Alemanha perigo maior do que a Rússia, e está constitucionalmente ao abrigo de junta médico-psiquiátrica. Terceiro, no futuro próximo, eleição provável de populistas na Europa. Em Março o partido de Geert Wilders deverá vir à cabeça na Holanda. Como a hipocrisia holandesa – que deveria ser património cultural distinguido pela UNESCO – não o deixará governar, coligação de outros se encarregará de ir aplicando o seu programa à socapa. A seguir em França Marine Le Pen poderá ser Presidente e, querendo proteger a produção nacional e sair do Euro, fará o descabello do touro europeu, malferido pela estocada do Brexit.

 

A esperança está na Alemanha onde há eleições em Setembro. A insistência desta na manutenção indevida de enorme superavit e a sua cegueira luterana diante das dívidas que a austeridade, em lugar de aliviar, vai aumentando não deveriam animar ninguém a vê-la como base de sustentação do que restar da Europa. Mas quer Merkel quer Schulz são europeístas convictos e Senhora que ousou abrir os braços a todos os desgraçados do Médio Oriente saberá explicar aos seus que poderão deixar reestruturar a dívida grega sem sequer darem por isso.

 

Ao princípio a ideia fora europeizar a Alemanha. À vista está a germanização do que resta da Europa. É a vida.

 

 

 

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19.2.17

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locupletar
lo.cu.ple.tar
verbo transitivo e pronominal
(do latim locupletare, «enriquecer»)

 

O termo latino tende a desaparecer em favor da palavra bárbara («rico» tem etimologia gótica) com que se explica o significado do primeiro. Ainda utilizada no vocabulário jurídico brasileiro, no português europeu parece por vezes ultrapassar o significado de «ficar rico», «encher-se», «abarrotar-se» para significar também «abarbatar» ou «abarbatar-se», o que se abeira já de terrenos escorregadios. E, como é sabido, o locupletamento levanta demasiadas vezes um rol de interrogações sobre a sua origem. Como este dicionário pessoal é também um dicionário de autoridades, quem melhor do que Camilo para nos interpelar sobre temas pungentes em bom português: «No abatimento da minha pobreza estúpida ainda me resta o olho penetrante da consciência para ver e admirar a perspicácia dos homens que se locupletam, e mais ainda dos locupletados que conservam, com aplauso público, o rótulo da sua honestidade. Isto é que é saber, isto é que é a prova do grande alcance do intelecto humano!» (Vinte Horas de Liteira, 1864).

 

 

 

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15.2.17

 

 

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José Cutileiro

 

 

Dores de cotovelo

 

 

Quando eu era novo, dor de cotovelo queria dizer dor de corno mas de maneira bem-educada. Se noivo ou namorado (ou noiva ou namorada) de repente suspeitava ou confirmava suspeita de traição da bem-amada (ou do bem-amado) o incómodo moral e físico que tal provocava: um sei bem quê que nasce sei bem onde, vem sei bem como e doe sei bem porquê (viro do avesso farrapo de Camões, em vez de procurar palavras minhas, porque o tempo não está para extravagâncias e, se não pouparmos em tudo, os guardas alemães e holandeses, gabarolas do superavit, que há meia dúzia de anos nos obrigam a fingirmos que somos como eles mais ainda se darão ao gosto de nos atormentar. Há quase um século e quase ao fundo do Hemisfério Sul, apanhado em apuros quejandos, o chileno Pablo Neruda escreveu “De outro, será de otro, como antes de mis besos/ Su voz, su cuerpo claro, sus ojos infinitos.” Pablito, chamavam lhe as criadas de casa dos pais, não estava obrigado por critérios de Maastricht e, antes de se meter a compor Odes compridas e apatetadas ao camarada Estaline, tinha talento a rodos. “Ya no la quiero es cierto pero talvez la quiero/Es tan corto el amor y es tan largo el olvido.”

 

Dores de cotovelo. Não sei se o termo ainda se usa no português falado pela gente nova: não vivo cá e o meu neto é holandês. Sem ser por mal, dou por mim agora a passar mais tempo com gente velha e aí descobri rudimentos de nova forma de correcção política. Parece que, para velhas e velhos se sentirem ainda integrados, se lhes deva falar – e falar deles – como se faz com as crianças, mas adaptando. “Ai, está a mirrar tão bem! Um dia destes está mais baixo que a avó.” “Então já lhe caíram mais dentinhos?” “Desde o Natal anda a esquecer-se de quase dez palavras por dia”, etc.  Adiante – se é esta a palavra indicada – e voltemos ao cotovelo.

 

Alentejano arguto, há muito amigo do coração – e, ao contrário de tantos conterrâneos seus, despachado, viajado e poliglota – embrenhado agora em vida de Cristo bem narrada por erudito sábio, encontra paralelos entre a Jerusalém que os romanos acabariam por arrasar e onde Jesus foi executado (para aclamação dos seus compatriotas que preferiram salvar Barrabás a salvá-lo a ele) e os sobressaltos violentas do nosso tempo, a chocarem fascismos. (Cesário Verde percebera: “A dor humana busca amplos horizontes/E tem maré de fel como um sinistro mar”). Segundo o meu amigo, e eu estou de acordo com ele, quando nós eramos novos – eu sou mais velho uma década e picos mas nessa altura a diferença parecia muito mais pequena do que parece agora: daí a dez anos o mais novo seria como o mais velho. A vida abria-se diante nós, estrada direita até onde a vista alcançasse. Agora, daqui a dez anos o mais novo será como nada que se já conheça hoje. Fecha-se diante de nós um cotovelo que, até lá chegarmos, não percebemos para onde se irá abrir.

 

Uma broncalina do camandro, diria o meu chorado António Garcia. Ou então: uma Bernardette do caboz.  

 

 

 

 

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12.2.17

 

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tento
ten.to
nome masculino
(do latim tentus, part. pass. de tenere, ter, segurar)

 

Cuidado, cautela, precaução, sentido, atenção, mas também, por extensão, tino, juízo, contenção. Palavra que tende a cair em desuso, como outras, cilindrada pelo estreitamento lexical que caracteriza o «português contemporâneo». Subsiste, apesar de tudo, na expressão «ter tento», ter cuidado ou juízo, e em particular na expressão idiomática «ter tento na língua», ter cuidado com o que se diz. Porém, a expressão subsiste largamente pela mesma razão que o «sim» supõe a existência do «não», isto é, o que justifica o uso é a ausência de tento. Por isso se usa sobretudo em contextos de advertência (tem tento na língua, para não dizeres disparates ou tem tento na língua para não falares de mais ou para não seres deselegante) ou de observação a posteriori (aquele não se safou porque não teve tento na língua). O termo subsiste porque o cuidado e o tino vão desaparecendo e o sinal disso é a incontinência verbal, observável desde logo no discurso público (o microfone é uma das formas modernas da tentação; o telemóvel parece que também). O «tento» dos comentadores desportivos, com o significado de «golo», tem um étimo diferente (talentum), embora também nesta área haja pouco tento, na outra acepção.

 

 

 

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8.2.17

balcas

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Guerras dos Balcãs

 

 

 

Agosto de 1992 no bar do White’s. Peter Carrington fizera as apresentações. “Lord King: British Airways. José Cutileiro: ele e eu destruímos a Jugoslávia juntos”. King mediu-nos de sobrolho carregado e respondeu: “Tiveram alguma ajuda.” Muitos anos antes, outro inglês inventara fórmula lapidar, evidente nos tumultos e confrontações do nosso tempo naquela parte do mundo que Lord Carrington fora mandatado pelas Comunidades Europeias a resolver (encarregando-me a mim da Bósnia). Escrevera Churchill: os Balcãs produzem mais História do que aquela que são capazes de consumir. A ocasião mais célebre, assassinato em Sarajevo do herdeiro do Império Austro-Húngaro por estudante sérvio em Junho de 1914 levara à primeira guerra mundial – a Grande Guerra.

 

Em 1991 Mitterrand dissera a próximos seus que, se as Comunidades Europeias não existissem, as tensões com a Alemanha teriam sido ingeríveis – mas a gestão foi mais questão de maneiras do que de equilíbrio de interesses. A Alemanha impôs reconhecimento prematuro da Croácia aos franceses e aos outros parceiros (em 1945, a Croácia rendera-se aos aliados uma semana depois de Berlim), tirando força à Conferência Carrington. Depois disso, porém, salvo alguma ajuda dada aos kosovares (inimigos dos sérvios meus amigos são) portou-se outra vez com decência rara em grandes países.

 

Depois da morte de Tito em 1981 a Federação Jugoslava era construção frágil. Dominada por ele que, saído do lado vencedor da guerra, soltando-se do jugo de Estaline e sendo ajudado em troca pelas potências ocidentais declarou ter inventado regime novo, uma espécie de ‘terceira via’. Na realidade, era como se meretriz num bordel tivesse decidido sair, estabelecer-se por contra própria e chamar à nova empresa colégio de freiras. Sobreviveu à morte do fundador mas, dez anos depois, não resistiu ao fim da Guerra Fria. As guerras que se seguiram, na Croácia, na Bósnia, no Kosovo atingiram cumes de crueldade semelhantes aos das Guerras Balcânicas de 1912 e 13 – muito distantes da papelada moralista emitida por Nações Unidas e União Europeia. 

 

Já no século XX, à beira de extinção, Império Otomano e Império Austro-Húngaro digladiaram-se nos Balcãs; medram por lá memórias de ambos e uma Sérvia independente tão marcada pelas peripécias da História que o lugar mais sagrado do seu território é no Kosovo, onde a grande batalha patriótica – a Aljubarrota deles, também travada no século XIV – foi uma batalha perdida. E nhurros como touros enquerençados.

 

Consumidores de História a mais pairam constantemente, como abutres. Os Estados Unidos de Bill Clinton viram em Sarajevo governo muçulmano que lhes convinha ajudar, fizeram durar a guerra e os seus desastres mais três anos do que preciso, e inventaram depois paz que só presença militar estrangeira garante. Fortalecendo de caminho tradição criada no Afeganistão de ajudar e armar inimigos jurados do seu país e do Ocidente em geral.

 

Amiga queria saber dos Balcãs. Chegará?

 

 

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4.2.17

 

A -in-the-form-of-a-tree

 

 

adaptação
a.dap.ta.ção
nome feminino
(de adaptar, originado no latim adaptare + suf. ção)

 

Violência de primeira grandeza é a adaptação. O grande imperativo da sobrevivência e, logo, da evolução das espécies. Existindo antes da palavra que a nomeia, esta cingiu-se com propriedade em volta da ideia, aferrolhando-se numa mecânica articulatória bem reveladora das dificuldades, plena de oclusões e explosões. A-dap-ta-te! – é o que nos dizem como se manuseassem um chicote, fazendo-o estalar secamente sobre os nossos costados para que aceitemos o que temos de aceitar. Para que tomemos a forma que o mundo tomar. Para nos conformarmos. Se não quisermos ficar para trás, perdedores, perdidos, sós. Se nos adaptarmos – se nos ajustarmos, resignarmos, abdicarmos, renunciarmos, sujeitarmos – o mundo perdoa-nos inadimplências e outros deslizes de menor monta. Permite-nos até anestesiar as dores dessa violência maior, que age primeiro no íntimo para depois alastrar, sofrendo mutações cada vez mais subtis, podendo resultar, como sabemos, na desfiguração. E não vale a pena pensarmos em criar carapaças demasiado rijas — acabaremos asfixiados dentro delas. Melhor seria deixar crescer uma tromba ou um quinto membro que permitisse colaborar a maior distância, tratando-se de indispensáveis incumbências presenciais. Isso ou outra forma de acomodação que evitasse a desconfiança devida aos inadaptados, e o consequente tratamento. Por outro lado, a saturação da adaptabilidade pode ser fatal se, sem nos darmos conta, acabarmos presos, esmagados no seu terrível aperto consonântico.

 

(retirado de um diário inédito)

 

 

 

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 traje masculino - século XIX

 

 

 

 

 

Para em tudo ser grande, este homem singular a quem os seus contempo­râneos chamaram «o divino», como a Pla­tão, foi um dos maiores, senão o maior ele­gante do seu tempo. Poeta do amor, tão belo, que se um dia os Amores descessem à terra fariam o ninho num verso seu; ora­dor tão eloquente, que o seu verbo evocava o daqueles atenienses maravilhosos que, envoltos no seu pálio branco, arrastando as suas sandálias doiradas, discutiam sob os loureiros roxos dos jardins de Academo: diplomata, homem do mundo, grande do ir mo, ministro de Estado — Garrett levou trinta anos de vida a espalhar em volta de si, como braçados de rosas, a elegância, a harmonia, a beleza e a graça. Por onde quer que passasse, a Moda curvava-se diante dele. Ministro na Bélgica, foi tão grande o sucesso pessoal da sua elegância que por toda a parte, nas montras, nos cartazes, nos jornais de Bruxelas aparecem as «capas à Garrett», os «chapéus à Garrett», as «jóias à Garrett». Regressando a Lisboa em 1846, de tal forma o seu tipo inconfundível se impôs, tanto o imitaram e o copiaram, que todos os retratos em miniatura pintados por Guglielmi parecem, pelo talhe das bar­bas, pelo jeito das cabeleiras, peias peque­nas moscas, pelos próprios folhos das cami­sas, o retrato de Garrett. Como Brummell, tudo na sua elegância era simples, mas tudo era perfeito e minucioso. Vestia-se em In­glaterra. Mandava vir de Londres as casa­cas, as meias, os sapatos de baile, as luvas de Jouvin, a libré verde do groom, a suit of clothes com que passeava em Sintra, até os seus assombrosos pijamas matinais de xa­drez branco e vermelho, cuja pantalona afunilava em meia como a dos arlequins. Bulhão Pato descreve o trajo com que ele se apresentava nas Câmaras, o mesmo que usava nas lutas da eloquência e nas entre­vistas de amor: «Casaca verde-bronze com botões de metal amarelo recortado sobre veludo verde; colete branco, deslumbrante, grandes bandas; calça de flor de alecrim; camisa finíssima, encanudada; luvas ama­relas.» Quando tinha de pronunciar algum dos seus monumentais discursos, não es­quecia nenhum pequeno pormenor de ele­gância: ele, que não usava rapé, levava sem­pre consigo uma pequena tabaqueira de ouro para o ajudar nos gestos; e nunca, antes de começar a falar, deixava de esfre­gar as mãos para as fazer mais pálidas. Como a sua nobre figura dominava então a assembleia! Que harmonia de atitudes! Que elegância majestosa, só comparável à de Lamartine! Iluminava-se, crescia, arre­batava. E, entretanto, Garrett não era belo. Garrett lutava com a falta de dotes natu­rais. O milagre da sua elegância foi, sobre­tudo, uma obra de arte, de paciência e de génio. Tudo nele era postiço, desde o es­partilho até ao chinó, desde os dentes até às ancas, desde o chumaço dos ombros até ao bucho das pernas. Quando à noite reco­lhia a casa, depois de um baile ou de uma recepção, desmanchava-se como um puzzle. E o que tem graça, é que era ele o primeiro a rir-se dos ridículos a que o obrigavam, não só os seus defeitos físicos, mas as própria exigências da moda de 1840. Uma noi­te, o criado de quarto de Garrett adoeceu e teve de ser substituído por outro — um pobre rapaz boçal chegado da província. Quando o «divino», quase de madrugada, de calção e meia, regressava de um baile dos marqueses de Viana — o primeiro baile de Lisboa em que apareceram camélias do Japão — foi já o criado novo que, pela pri­meira vez, se apresentou para o despir. — «Começamos pelo chino, percebe?» — disse-lhe Garrett, tirando a cabeleira pos­tiça e enfiando-a na boneca. O pobre rapaz, que nunca tinha visto arrancar os cabelos da cabeça com tanta facilidade, ficou va­rado de espanto. Depois, o poeta tomou um pequeno espelho, abriu a boca, fez saltar a dentadura e deu-a ao criado: — «Tome lá os dentes. Meta-os num copo de água.» O assombro do pobre homem subiu de ponto. Imperturbável, Garrett des­piu a casaca em «busto de abelha», o colete de reflexos de prata, o espartilho, e apon­tou os chumaços das espáduas: — «Tire-me os ombros.» Em seguida, puxou uma ca­deira, assentou-se: — «Agora, tire-me as barrigas das pernas.» O criado, muito pá­lido, coberto de suores frios, teve naquele instante a impressão de que o amo ia desfazer-se todo. (Garrett percebeu, levantou-se, avançou para ele e disse-lhe, olhando-o fixamente: — «Agora, desatarrache-me a cabeça devagarinho.» O pavor do ingénuo provinciano foi tal que abalou pela porta fora e nunca mais ninguém o viu. Este epislódio pinta a figura do poeta muito melhor do que todos os retratos e todas as carica­turas. No fim da vida, no período agudo da paixão pela Ignota Dea das Folhas Caí­das, Garrett esqueceu-se por vezes de que já tinha mais de cinquenta anos e de que nem todas as idades suportam as modas excessivamente audaciosas. Quando sobra­çava a pasta dos Negócios Estrangeiros, apareceu um dia em conselho de ministros com umas extravagantes calças de qua­dradinhos brancos e roxos, que fizeram sensação em Lisboa e que chegaram a despertar receios de natureza política. — «Então, como vão esses negócios da Fa­zenda?» — perguntou o poeta ao seu colega Rodrigo da Fonseca, estendendo-lhe afec­tuosamente a mão. — «Mal, muito mal — respondeu o espirituoso Rodrigo. — Sobre­tudo, os negócios da fazenda das tuas cal­ças. Se tu apareces assim no Parlamento, deitas o governo a terra!» A sua última preocupação foi a de mandar gravar por toda a parte, na baixela de prata, nos sine­tes de uso, nas pedras dos anéis, o seu es­cudo de armas rodeado das insígnias da grã-cruz e bailiado de Malta. A morte, po­rém, que tantas vezes tem piedade do génio, não o deixou ser ridículo por muito tempo. Dois anos depois, o divino Garrett, prín­cipe dos príncipes da elegância portuguesa, rodeado de flores, compondo ainda ao es­pelho a sua última toilette, morria vítima das duas mais terríveis doenças que se conhecem no mundo: a política e o amor. Sem dúvida, foram estes os corifeus da elegância romântica em Portugal — os «in­ternacionais», aqueles cujas jóias e cujas casacas nos fizeram, por um momento, quase tão admirados na Europa do sé­culo XIX, como os coches de D. João V nos tinham feito célebres na Europa do século XVIII. Mas, ao lado destes, quan­tos outros! Quanto janota ilustre fascinou Lisboa, nessa longa parada de elegâncias que ia da plateia de S. Carlos até aos sa­lões da Regaleira, do Marrare de Poli­mento até às alamedas doiradas do Passeio Público! De quantos está ainda fresca a memória, elegantes pragmáticos, devotos fiéis do ritual da Moda, capazes de se dei­xar insultar para não desfazer um só caracol da cabeleira, de se deixar matar para não desmanchar uma só prega das calças! Alguns passam, flagrantes e vivos, diante dos meus olhos.

 

 

Júlio Dantas in O heroísmo, a elegância, o amor*

Edições Roger Delraux

© Maria Isabel Dantas, 1980

 

 

 

* Conferências proferidas no Brasil em 1923 pelo autor, a convite da Academia Brasileira de Letras, por proposta do romancista Coelho Netto:

 

O Heroísmo: O Mosteiro da Batalha

 

A Elegância: Os Elegantes do Romantismo

 

O Amor: Mulheres que Camões amou

 

 

Nota:

 

O meu agradecimento a Manuel Sant'Iago Ribeiro, que me deu a conhecer estas conferências.

 

A imagem é do blog Des bobines et des songes 


 

 


1.2.17

 

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José Cutileiro

 

Casa Branca, Nau Preta, felicidade na Austrália…

 

 

Coitada da Casa Branca. Álvaro de Campos faria troça dela mas ninguém ligava, sobretudo porque pouquíssima gente lia o estimável engenheiro ou sabia que ele era heterónimo do tradutor-correspondente Fernando Pessoa, namorado de Ofélia Queiroz, freguês do tinto do Martinho da Arcada e, dessa gente, alguma poderia perguntar-se se seria a Casa Branca de Washington (construída por escravos, incendiada pela tropa inglesa em 1812; as voltas que o Mundo dá…) ou quiçá a que dera o nome a entroncamento ferroviário da linha do Sul e Sueste, depois de Pinhal Novo, já no Alentejo, saída de ramal que ia a Évora e deitava a Reguengos de Monsaraz, enquanto as carruagens do comboio principal continuavam para Sul passando por Beja e acabando no Algarve de aquém mar.

 

Na Casa Branca do começo do Alentejo estive quando era pequeno, indo às vezes, no Verão, comprar bilhas de água à plataforma da estação; na de Washington, D.C. só uma. Jantei lá em 1999 quando o Tratado de Washington – fundamento legal da O.T.A.N. – celebrou 50 anos e, havendo a O.T.A.N acudido à Bósnia-Herzegovina depois do acordo de Dayton de 1995 em que os americanos meteram paz pelas goelas abaixo de sérvios, croatas e muçulmanos, que a engoliram com a pressa enjoada de quem bebe óleo de rícino (tal como Jacinto, em Paris, a preparar-se para Tormes) já a maioria dos proponentes da extinção da Aliança Atlântica tinham metido a viola no saco. Que nos sirva de lição que sem as sangrentas desavenças balcânicas – e com a Rússia tentando ajeitar-se mal aos instintos democráticos do bom Boris Nicolaevitch em vez de se submeter contente aos instintos autocráticos do pérfido Vladimir Vladimirovich - talvez os proponentes entusiásticos da paz perpétua Kantiana, crentes no fim da História, houvessem levado a sua avante e agora nem O.T.A.N tivéssemos.

 

Mas temo-la e, com sorte, irá resistir aos tumultos do 45° presidente dos Estados Unidos a quem a mudança da possidoneira dourada em estilo Luís XVI da penthouse de Trump Tower, na 5ª Avenida de Manhattan, instalada a seu mando e gosto, para o n° 1600 de Pennsylvania Avenue, Washington, deverá ter feito enorme confusão. Vindo daquele pastiche despropositado de monarquia absoluta, bem calhado com a sua maneira de ser - quer no pastiche quer no absolutismo - talvez nalgum pesadelo haja perguntado a si próprio se passara de cavalo para burro. Comparada com os palácios de Buckingham e do Eliseu para não falar do Kremlin, a Casa Branca quase faz ternura de tão provinciana e despretensiosa, assim uma espécie de solar de senhor local, homem de palavra – mulher ainda não houve - respeitado pelos criados, estimado na vizinhança, e seguro de ser quem é. Quando Jack Kennedy convidou duas dúzias de prémios Nobel disse-lhes que debaixo daquele tecto nunca estivera tanto talento, com a possível excepção das noites em que Thomas Jefferson lá jantara sozinho. Agora são outros tempos. Coitada da Casa Branca.

 

 

 

 

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29.1.17

 

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melancolia
me.lan.co.li.a
nome feminino
(do latim melancholia)

 

Abatimento visceral, estado depressivo. A palavra latina veio do grego e designava originalmente a «bílis negra», um dos humores descritos por Hipócrates e Galeno, entre outros, configurando um dos temperamentos humanos básicos: o temperamento melancólico. Segregada pelo baço (spleen), a acumulação disfuncional da bílis negra nos órgãos internos, nomeadamente no cérebro, produziria um tal temperamento. A melancolia tem sido objecto ao longo dos séculos de largas reflexões, cuja notícia não cabe neste dicionário. Bastará recordar, e sem falar dos Antigos, a obra setecentista Anatomia da Melancolia de Richard Burton (cujas proposições, segundo o estudo clássico de Lily Campbell, muito terão contribuído para a definição da personagem Hamlet) ou o sentimento de spleen, a malaise omnipresente na poesia de Baudelaire e um dos seus traços essenciais. O rei D. Duarte descreve no seu Leal Conselheiro (c. 1438) a crise de melancolia por que passou: «Por quanto sei que muitos foram, são, e serão tocados deste pecado de tristeza que procede vontade desconcentrada, que ao presente chamam em mais dos casos doença de humor melancólico, do qual dizem os médicos que vem de muitas maneiras por fundamentos e sentimentos desvairados, - mais de três anos seguidos muito dele padeci, e por especial graça de nosso senhor deus me pôs de perfeita saúde.» Kierkgaard, Freud e tantíssimos outros autores a estudaram e se lhe referiram, em contextos e épocas diferentes. O autor polaco Marek Bienczyk acrescenta Pessoa à extensa lista, citando o «um nada que dói» do final de um poema de Álvaro de Campos. No entanto, um momento cuja referência é indispensável, pelo significado e alcance, é a gravura (1514) de Albrecht Dürer, precisamente intitulada Melancolia, que de algum modo se tornou o paradigma da condição melancólica. James Thomson, no poema The City of Dreadful Night, descreve a figura que é o centro da composição, concluindo «she gazes/With full set eyes, but wandering in thick mazes/Of sombre thought beholds no outward sight [olha/Com olhos totalmente fixos, mas errando por densos labirintos/De pensamentos sombrios não contempla uma visão exterior.] Num texto sobre a gravura de Dürer, Cioran observou que «c'est dans la mélancolie que l'homme est seul face à l'existence». Talvez seja nesse confronto que nasce uma espécie de tristeza que se origina nos ossos e se exprime num brando alcoolismo de silêncios.

 

 

 

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25.1.17

 

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José Cutileiro

 

Um caso clínico

 

 

 

 

A seguir à vitória de Trump as bolsas subiram, o FMI disse que com ele a economia cresceria mais, as associações industriais, sobretudo as PME dentro destas, rejubilaram, comentadores de direita acharam menos pecados em Trump do que nos esquerdistas que o atacam agora por toda a parte. Com efeito, os excessos do pato-bravo bilionário de Brooklyn convidam a escrutínio igualmente exigente do folclore oposto, bem à vista na Europa nas primárias socialista de França para escolher candidato à presidência da República: o vencedor da primeira volta – e deverá vencer a segunda – ganhou popularidade que lhe deu o triunfo por propor que cada francês/a passasse a ter à nascença subsídio para a vida (em 2012, o que provavelmente fez Hollande ganhar a Sarkozy foi anunciar, a meio da campanha, 75% de imposto a rendimentos anuais superiores a 1 milhão de Euros). Os franceses – os europeus ocidentais em geral – habituaram-se a viver com room service incluído mas continuam a achar que não deveria haver gente muito mais rica do que eles.

 

Nos Estados Unidos, o Partido Democrático, cuja incompetência contribuiu tanto ou mais para a eleição do grande narcisista do que inépcia do Partido Republicano – são as elites, gargarejam quase engasgados de contentamento os populistas – entrou em movimentação frenética, uma espécie de Tea Party liberal (dizem eles lá; aqui nós diríamos esquerdista) para encontrar rumo e tento antes de 2020 e não apanharem 8 anos do pato-bravo. Vai ser animado e é impossível prever se Trump será presidente de um mandato – Carter, Bush pai – ou de dois mandatos – Reagan, Clinton, Bush filho, Obama. E aí não há politólogo que nos valha mas talvez um alienista, como chamavam dantes aos psiquiatras.

 

Porque a questão da presidência de Donald J. Trump não é do foro político. A sua tomada de medidas prometidas na campanha logo nos primeiros dias de mandato, feita embora com espalhafato próprio, está na tradição (por exemplo, democratas facilitam o aborto; republicanos dificultam o aborto), podem ser mais ou menos sensatas (por exemplo. acabar com “Obama care” antes de instalado sistema equivalente irá lesar milhões de pessoas que, na maioria, votou Trump), podem levantar objecções fundadas e criar problemas futuros (por exemplo, sair de acordo comercial com países do Pacífico) mas política com alternância no poder foi, é e será sempre assim.

 

O que é novo, a não ser em monarquias hereditárias, é pôr no topo do poder do Estado alguém egocêntrico, infantil, incapaz de reflexão prolongada, patologicamente susceptível e aí baralhando pessoa e cargo, vaidoso, vingativo (segundo biógrafos seus, nas insónias não medita: pensa em dinheiro, sexo, comida ou vinganças que estejam por cumprir). Somos todos Narcisos (as águas do lago não sabiam se ele era belo ou não porque só tinham olhado para si próprias nos seus olhos) mas ser tanto e em tão alto lugar, cola ao mundo aviso igual aos de estações elétricas: Perigo de Morte.   

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22.1.17
 

desenrascar

 

 
 
 
 
desenrascar
de.sen.ras.car
verbo
(pref. des + rasca + suf. ar)
 
 
Rasca ou rascada é, em primeiro lugar, a designação de um tipo de rede de arrasto e designou também um certo tipo de embarcação pequena. Não é de estranhar, portanto, que o termo nos tenha chegado com o significado de desenredar, desenvencilhar, desembaraçar, desemaranhar, desensarilhar, o que é natural tratando-se de redes, mas também, por extensão, de desencrencar, desencravar, desentalar, e, de forma geral, sair de um aperto, de uma dificuldade. Safar ou safar-se. O desenrascado é, por tal razão, o indivíduo desembaraçado, desenvolto. Ágil ou hábil. A lusa raça gosta de se ver como perita no «desenrascanço», em livrar-se de apuros, em improvisar uma forma de se safar. E vê isso como uma virtude. Mas uma ideia esconde a outra: um povo perito em desenrascar-se é o que está permanentemente enrascado. Perito, sim, em meter-se em enrascadas.
 
 
 
 
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18.1.17

 

 

o-povo-unido

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Lembranças do Verão Quente

 

 

 

 

Quando eu era pequeno e o Avô dizia ter estado com “um rapaz do meu tempo” eu achava que o Avô era parvo porque era velhíssimo, o seu contemporâneo sê-lo-ia também e rapazes começávamos a ser nós, os do meu tempo, de calças à golf, já com olho nas calças compridas. (O Avô veio a morrer bem mais novo do que eu sou hoje mas essa é outra história).

 

Na Escola de Belas Artes de Lisboa, vindo da Brasileira e metendo pela Rua Ivens, no Largo de S. Francisco, sendo lá porteiro o Sr. Cruz, com farda de contínuo e boné de pala azuis escuros, fazendo do vestíbulo rito de passagem entre os perigos do mundo exterior e as bem-aventuranças do seu território (“As Belas Artes é aqui?” perguntavam-lhe às vezes. “Bem”, respondia, “aqui há duas repartições. Há a Escola de Belas Artes e há a Academia de Belas Artes. Se vem para a Escola de Belas Artes é aqui. Se vem para a Academia de Belas Artes também é aqui”, seguindo-se conversa longa até indicação precisa da porta seguinte a que a visita devesse bater), as coisas refinaram. Havia movimentos artísticos e pulsões políticas. O Vasco Croft um dia disse-me, à saída de exposição de alguém do nosso tempo, meio trocista: “Brinca, brincando o tempo passa - e qualquer dia somos uma geração”.

 

Lembrei-me dessa sentença, devido às lufadas de 25 de Abril, às vezes polémicas, trazidas pelo desaparecimento de Mário Soares no dia 7 deste mês. (Disparate repete-se: Soares seria o responsável de “descolonização vergonhosa”. Ora a descolonização foi como foi porque a colonização, sobretudo nas últimas décadas, tinha sido como tinha sido – e porque a partir de 26 de Abril a tropa portuguesa se recusou a dar mais um tiro ou sequer a fingir que o poderia dar). Mas há já várias gerações para quem o 25 de Abril foi sempre no passado; o que li e ouvi neste par de semanas é diferente para os que se lembram como eu e para quem tenha uma vaga ideia dos pais lhe terem contado. E ocorrem-me coisas de que já nem me lembrava e apetece-me registá-las para que não se percam de vez. No verão de 1975, o chamado “verão quente” ardiam de vez em quando sedes do PC no Norte de Portugal, em Londres à hora do almoço o telefone começava a tocar na central e depois de posto em posto até alguém atender e nesse dia chegou ao meu gabinete. Eu era Conselheiro Cultural. Estava um sol luminoso, mais lisboeta do que londrino. Senhora de boa sociedade disse-me que tinha marcado há meses férias em Portugal mas estava assustada com o que via na televisão e nos jornais e perguntava à embaixada se era seguro ir. Respondi-lhe que era com certeza seguro. Insistiu, duvidosa. Repeti com mais pormenor e mais convicção ainda o meu louvor da hospitalidade portuguesa. Tornou a insistir. Perdi a paciência.

 

“Are you a Communist?”

 

“I beg your pardon!” abespinhou-se a minha interlocutora.

 

“If you are not a Communist you have nothing to worry about down there.”

 

“O” - e depois de um silêncio, secamente: “Thank you very much.” E desligou.

 

 

 

 

 

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