13.3.12

 

 

 

 
 

Yorick and the Grisette

Gilbert Stuart Newton (1797-1835) 

 

 

«Estou, com o meu Yorick, o ajuizadíssimo bobo de el-rei da Dinamarca, o que alguns anos depois ressuscitou em Sterne com tão elegante pena, estou sim. ‘Toda a minha vida’ – diz ele – ‘tenho andado apaixonado já por esta já por aquela princesa, e assim hei-de ir, espero, até morrer, firmemente persuadido que se algum dia fizer uma acção baixa, mesquinha, nunca há-de ser senão no intervalo de uma paixão à outra: nesses interregnos sinto fechar-se-me o coração, esfria-me o sentimento, não acho dez réis que dar a um pobre... por isso fujo às carreiras de semelhante estado; e mal me sinto aceso de novo, sou todo generosidade e benevolência outra vez.’

 Yorick tem razão, tinha muito mais razão e juízo que seu augusto amo, el-rei de Dinamarca. Por pouco que se generalize o princípio, fica indisputável, inexcepcionável para sempre e para tudo. O coração humano é como o estômago humano, não pode estar vazio, precisa de alimento sempre: são e generoso só as afeições lho podem dar; o ódio, a inveja e toda a outra paixão má é estímulo que só irrita mas não sustenta. Se a razão e a moral nos mandam abster destas paixões, se as quimeras filosóficas, ou outras, nos vedarem aquelas, que alimento dareis ao coração, que há-de ele fazer? Gastar-se sobre si mesmo, consumir-se... Altera-se a vida, apressa-se a dissolução moral da existência, a saúde da alma é impossível.

 O que pode viver assim, vive para fazer mal ou para não fazer nada. 

Ora o que não ama, que não ama apaixonadamente, seu filho se o tem, sua mãe se a conserva, ou a mulher que prefere a todas, esse homem é o tal, e Deus nos livre dele.

 Sobretudo que não escreva: há-de ser um maçador terrível. (...)»



Garrett, Viagens na Minha Terra

 

Duas razões me levam a pôr em evidência o trecho original citado em tradução por Garrett.
 Em primeiro lugar, deixar aqui sublinhada a importância de Sterne na obra narrativa de Garrett. As Viagens de Garrett estabelecem relações, visíveis e invisíveis, quer com A Sentimental Journey quer com Tristram Shandy, da estrutura digressiva às referências ao Quixote. 
Em segundo lugar, para chamar a atenção para a tradução do nosso Autor, capaz de transpor escorreitamente o inglês de Sterne para o bom português garrettiano, de modo simultaneamente fiel e criador.

 

«...having been in love, with one princess or other, almost all my life, and I hope I shall go on till I die, being firmly persuaded, that if I ever do a mean action, it must be in some interval betwixt one passion and another: whilst this interregnum lasts, I always perceive my heart locked up -- I can scarce find in it to give Misery a six-pence; and therefore I always get out of it as fast as I can, and the moment I am rekindled, I am all generosity and good-will again;...»

Laurence Sterne, A Sentimental Journey through France and Italy by Mr. Yorick (1768)

 

 

Jorge Colaço

blog o divino (2005)

 

 

 

Jorge Colaço escreve aqui 

  

link do postPor VF, às 16:11  comentar

pesquisar neste blog
 
mais sobre mim
Translator
sitemeter
contador sapo