23.2.12

 

Em 1838, Almeida Garrett escreve, ensaia e produz Um Auto de Gil Vicente, drama histórico em torno da partida da infanta e da representação de Cortes de Júpiter, o auto a que o título se refere. O drama foi escrito entre 11 de Junho e 10 de Julho.

estreado 15.08.1838.

Edição romântica de Hamburgo. Por ela, em 1838, Garrett faz Um Auto de Gil Vicente.

 

A estreia, no Teatro da Rua dos Condes na noite de 15 de Agosto, num espectáculo ensaiado por Emile Doux, com cenários de Palluci, é o primeiro acto público do romantismo em Portugal. [...] 

É a primeira vez, depois de séculos de interrupção, que palavras compostas por Gil Vicente são ditas no teatro. O projecto de fazer de novo representar Gil Vicente só tem continuidade sessenta anos depois (1898), final do século XIX, à aproximação do IV Centenário (1902).

 

Grande parte dos versos de Cortes de Júpiter é incluída no texto de Um Auto de Gil Vicente, com novos recortes e nova montagem, muito diferentes da sequência original. Garrett parece intuir que fazer ressurgir Vicente não é trabalho fácil, que não pode haver a veleidade mecanicista de querer representar tal e qual aqueles autos, como se fossem peças de repertório.

 

 

A ficção de Garrett implica mostrar o auto a ser ensaiado (Actos I e II) e a fazer-se (Acto II).

A representação é acidentada e incompleta: Bernardim Ribeiro, apaixonado infeliz da infanta, que tem de o abandonar pelas razões de estado e partir, executa, sem ensaio, a figura da moura Tais, para se aproximar de Beatriz, dizer outros versos e lhe meter no dedo um anel devolvido. Gil Vicente e sua filha Paula representam Júpiter e a Providência.

 

eu não quis só fazer um drama, sim um drama de outro drama, e ressuscitar Gil Vicente a ver se ressuscitava o teatro 


Representar representação é um jeito que Almeida Garrett já tinha ensaiado em 1821 n'O Impromptu de Sintra. Nos anos 30, o teatro no teatro é modernidade romântica.


 

Osório Mateus

in de teatro e outras escritas * 

“Garrett leitor de Vicente / Garrett e Vicente” [3] pp.271-272

© José Camões e Quimera Editores 

 

 

 

 

 aqui


 

 

* da Nota Editorial:

[de teatro e outras escritas] reúne uma centena de textos escritos e quase todos publicados entre 1971 e 1995. [...] Gil Vicente é objecto de eleição e, sem dúvida, a contribuição mais fértil do trabalho crítico de Osório Mateus. Os estudos sobre os autos são hoje incontornáveis e realizam, na segunda metade do século XX, uma proposta de restauro das condições primeiras da sua existência teatral. Esta perspectiva preside, aliás, desde cedo ao modo de entender o estudo dos textos a que chamamos dramáticos, e muitos dos ensaios apresentam-se hoje como lugar de teorização sobre o teatro nas suas múltiplas formas. [...] A seu modo, cada um deles consegue ser um certeiro gesto para uma história do teatro por fazer, tornando visíveis lugares-comuns ou inexac­tidões que importa identificar, abrindo outros lugares de interrogação, convocando os instrumentos adequados para o trabalho imenso que espe­ra por ser feito.



 

 

 

 

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