10.6.11

 

 

 

 

 

 

José Pedro Croft, sem título (1988)

ferro, 11x 57 x 57*

 

 

 


[...] A Pátria, sobretudo para aqueles que vivem dentro dela, é uma realidade que nem sempre é fácil consciencializar. Sou daqueles que recuperam com facilidade as fatalidades da fortuna e, talvez por isso, fico muito grato a todos os acasos que fizeram de mim o que sou. A verdade é que não desgosto de mim assim e arranjei comigo próprio uma tal cumplicidade que nunca me zango comigo. Sem vaidade, acho que o acaso nos dá o primeiro verso e que nos cabe a nós fazer o poema.

 

Por isso, gosto de ter nascido na Covilhã, acontecimento que se deu sem me terem pedido opinião. Gosto de Portugal e da língua portuguesa e de tudo aquilo que nos diziam quando éramos pequeninos e nunca ninguém me ouvirá um queixume por ter nascido português.

 

No entanto, nem sempre fui assim: no tempo do antigo regime vivi com alguma ansiedade a condição de ser português. Não tínhamos liberdade e aguentámos uma guerra colonial que era para mim uma vergonha. O Governo tinha tomado conta de todos os valores patrióticos e religiosos e por isso era com muita dificuldade que eu conseguia ter orgulho do meu país. A tentação queirosiana é muito grande e demoramos um pouco a descobrir o que tem de provinciano isto, de gostar de Paris. Como noutro lugar direi, devo ao Brasil as pazes que fiz com a minha Pátria.

 

Hoje, não tenho dúvida que a nossa relação com uma terra e com um povo molda decisivamente aquilo que somos e constitui até uma das poucas barreiras que nos restam para opor à massificação inevitável. Esta relação não é um folclore, nem um anacronismo piegas, nem o tique do tal optimista que vai creditando a seu favor tudo o que lhe vai acontecendo. O que sucede é que a nossa ligação à terra é capaz de ser uma descoberta tardia, nomeadamente para aqueles que, como eu, acreditaram sofregamente nas «luzes» e, por isso, durante algum tempo, tiveram a veleidade de apresentar a sua candidatura a «cidadãos do mundo».

 

Aquilo a que as selectas da instrução primária chamavam «a nossa terra», que os mestres-escola impunham como tema de redacção, é afinal uma realidade que se impõe com veemência e denodo. Não quero esconder que muitos intelectuais que prezo e admiro — o exemplo que me ocorre é o de Krishnamurti — consideravam a Pátria como factor de impedimento à solidariedade humana que deve caracterizar o processo do futuro. O que acontece, é que a sua ideia de Pátria, que, aliás, estava conforme ao entendimento geral da sua época, não tem nada que ver com a Pátria que hoje nos interessa. Naquele tempo, a Pátria tinha dentro de si um fundo belicista que, a partir da defesa da fronteira, pretendia a expansão e o domínio de outros povos. Ora, hoje, a Pátria não pode ser nada disso, mas ao contrário é a consciencialização e o desenvolvimento de uma cultura específica — quase diria de uma «maneira de ser» — que é necessário pôr em diálogo com os outros povos e culturas para a realização do universal. Assim, não é fácil definir a Pátria. Diria que é um tecido de sentimentos, emoções e ideias que cada vez está mais ligado à nossa sobrevivência «cultural» se, com esse nome, quisermos designar a própria sobrevivência do «ser» expresso através daquilo que nos distingue dos outros. Como é que isto se vai resolver num futuro bastante próximo, não sei, porque a identidade de um homem como a identidade de um povo são fenómenos que julgo incompatíveis com a massificação. 

 

António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias   p.154-155

© Editorial Presença aqui

 

 

 

* Fotografia de Laura Castro Caldas

Catálogo Arte na Colecção Contemporânea da Fundação Luso-Americana, CAM-FCG, Lisboa 1992

 


link do postPor VF, às 00:24  comentar

De helena cardoso a 15 de Junho de 2011 às 20:44
a escultura do Croft é linda e foi muito bem escolhida; de facto esta "pesca à linha"...

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