4.6.11

 

 

 

 

 

Sei que era uma segunda-feira e que, na sexta-feira anterior, tinha caído o primeiro Governo constitucional. Era de manhã e eu seguia pacatamente pela Rua Alexandre Herculano, quando parou um grande carro preto ao meu lado. Era o Mário Soares:

— Ó Alçada, onde é que vai?

— Vou ali à Buchholz...

— Então venha que preciso de falar consigo.

Meti-me no carro e fui para São Bento, para o seu gabinete.

— Você é que podia falar aos seus amigos do CDS para formarmos Governo juntos...

— Se quiser eu falo.

Telefonei para casa do Diogo Freitas do Amaral e ele estava.

— Estou aqui no Gabinete do Primeiro-Ministro e tenho um recado para si. Posso ir aí?

Fui já no carro do Estado, em missão.

Tive sorte porque estava lá reunida a cúpula do CDS para analisar a crise: o Adelino Amaro da Costa, o Victor Sá Machado, o Basílio Horta, pelo menos. Disse-lhes que o Mário Soares queria fazer Governo com eles. Mostraram-me um jornal onde, na primeira página, vinha uma frase do Mário Soares, num comício do Alentejo: «O fascismo avança sob a capa da democracia.» E diziam-me:

— Mas isto é para nós...

E eu:

— Não, está-se mesmo a ver que é para o Kaúlza... Olhem: ele disse-me isto. Se vocês quiserem ao menos conversar ponham-se em contacto com ele.

Assim se fez o segundo Governo constitucional.

Passado tempo, não sei se li num jornal se me disseram que aquele Governo tinha sido feito em Paris por acordo entre a Maçonaria e o Opus Dei...

 

 

 

António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias

© Editorial Presença aqui

 

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link do postPor VF, às 09:49  comentar

De helena cardoso a 15 de Junho de 2011 às 20:35
malhas que o império tece lol

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