29.1.11

 

 

 

 

Figura (1972)

 

 

 

Jorge de Sena e Mário Cesariny foram os escritores que melhor captaram o pulsar erótico do Estado Novo. O primeiro pela ficção (Sinais de Fogo, romance sobre o agrilhoamento do regime), o segundo pela poesia (Real Quotidiano, metáfora sobre a vigilância da ditadura).

O submundo da província e da capital, das suas cumplicidades, vergonhas, ousadias, cobardias, emerge com magnificência nos dois autores. «O que importa é não ter medo: fechar os olhos/Frente ao precipício/E cair verticalmente no vício», escreve Cesariny.

Provocando o marialvismo então instituído, este rebela-se e assume o feminino da sua (nossa) androginia. Fá-lo com inteligência, com imaginação, com esplendor, com criatividade, com universalidade. A polícia de costumes humilha-o, a inteligentsia de esquerda menospreza-o. Ele não se deixa, porém, demover.

Através da metáfora, do fantástico, do perturbador, constrói um universo paralelo onde reina entre marinheiros, gatos, quartos, bares, ruas, engates, paixões, ludíbrios. A sua lucidez rola sobre as décadas como um filtro de inebriamentos. Cesariny faz-se, para sempre, um ser acima do tempo e do espaço.

Lisboa é povoada, nessa altura, por «putas, chulos, gatunos e marinhagem, uns príncipes!», exclama. Engenhosos fios de narrativa conduzem os mancebos que, ao deambularem pela cidade, conhecem os bas-fonds das transgressões secretas — e se fascinam por elas.

Depois, partem em «navios de espelhos» para guerras em África, o «último continente surrealista». Matam e regressam feitos caricaturas de heróis, heróis-travestis, vestidos coleantes, sapatos altos, cabeleiras loiras, lábios de sangue, canções de rouquidão. [...]

 

 

Fernando Dacosta

in  Nascido no Estado Novo

Editorial Notícias, 2001 / reeedição Casa das Letras, 2008  aqui

© Fernando Dacosta

 

 

Imagem:

Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006)

Óleo sobre tela aqui

 

 


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