7.1.11

 

 

Eis-me pronto a retomar Santos, o Velho. Imagine-se: quatro dezenas de garotos com possibilidades Nopa reunidos numa sala estreita. Ali, um só programa: catequese e aceleradamente. Isto a teoria. E imagine quem puder minha pessoa de criança frágil, caixilhos de solidão acolchoada contra micróbios e correntes de ar. Eu de olhos e ouvidos por abrir lançado em semelhante maralhal. Não faço a mais pequena ideia sobre se havia outras crianças de famílias fofas nessas aulas, onde reinavam padres e senhoras devotadas, alindando os interiores dos candidatos ao encontro com a Terceira Pessoa da Trindade. O que recordarei enquanto recordar é a incursão de espanto e derrelicto quando Lisboa-a-louca me acometeu, de lados vários, por interposta amostragem da minha geração em Madragoa.

 

Num país católico porque sim, só pais possessos de frenético niilismo ousam desafiar o aparente brinde que a máquina religiosa concede às vielas quando organiza actos desses, colectivos, em que ao filho de ricos é ordenado misturar-se temporariamente aos muitos filhos da mãe. Destarte, a catequese de o Velho, Santos, tornou-se uma mini-Sorbonne Maio 68. Aos meus olhos esparvoados por veludos, o desvairamento das crianças ditas populares foi um disparo de canhão batendo em cheio num museu de porcelanas. Certa Lisboa veio-me assim: um sacerdote, ou uma senhora de antepassados convenientes, debitando Dogmas a um cardume de rapazes loucos por que chegasse a hora em que, findas as aulas a sexos separados, o encontro com as catecúmenas nos corredores do velhíssimo edifício permitisse o desporto, ainda incipiente, do apalpão à tripa forra. Para ganhar balanço nessa direcção surpreendente, os rapazes desmultiplicavam-se em palavrões sussurrados, gestos franceses, e até mesmo em onanismo sorridente, pastoral. Depressa percebi: para me entender com esta, para mim nova, espécie de pessoas, eu carecia da mais sumária iniciação na bronca. Humanismos.

 

Voltando a casa, repensava o visto e o ouvido, esforço aplicado de reter o que ensinasse a navegar águas desconhecidas. Criança sem irmãos nem ir à escola excepto para exames, sentia-me, não a boiar, mas a cair num fundo. A toda a hora e transe eu procurava não esquecer aquelas palavras e modos de as juntar que eram a única moeda convertível em intercâmbio humano no país madragoante. Podia uma de duas: ou refugiar-me atrás de noções pias e, assim escorado, olhar aquela malta inquietante como quem despreza um bando de perdidos; ou recorrer a esforços inventados para tomar o rumo oposto. Tive o instinto do vital. Isto é: havia aquela gente e o seu mundo: pois cabia-me chegar ao ponto de não me acantonar, sonso, mas de alinhar. Certa noite, já deitado, comecei, baixinho, recapitulação de quantas imprecações ouvira nos últimos dias, ensaiando mesmo alguns tiques de pronúncia sem os quais, já percebera, falaria estrangeiradamente, o vexame. Uma criada ouviu o meu murmúrio, veio escutar à porta. Não tardou que arremetesse quarto adentro, numa indignação:

«E eu a pensar que o menino estava a rezar !» Custou-me arrancar-lhe a promessa de nada dizer à minha mãe.

 

Que a maioria destas crianças não tomava a catequese a sério era mais do que evidente. Que iriam quase todas à cerimónia como um molho de pombos bravos dá volta nos ares antes da trovoada rebentar, era fatal. Mas que, apesar dos palpáveis factos e contra eles, o corpo docente insistisse, isso é que me deixava estupefacto. Por maior que fosse o descalabro em matéria de disciplina colectiva e compostura individual, a teima dos treinadores de liturgia e Lei era digna de registo. Padres e senhoras disparavam, contra a impermeabilidade de uma humanidade que desconheciam, sorrisos maleáveis como cobras de água, mas tão ineficazes como as turras duma varejeira na vidraça que a separa do ar livre. Na minha intestinidade caíam, caladinhas, as sementes primeiras duma descoberta que anos mais tarde brotaria em viço verde: o universo onde eu fora parido, amamentado e agasalhado, era de cegos.

 

 

 

Nuno Bragança

in  A Noite e o Riso pp.108-111

Moraes Editores, Lisboa, 1969

 

 

 

 

 

 

 

Capa de António Mendes de Oliveira

 

 

 

 

aqui

 

 

 

link do postPor VF, às 13:25  comentar

De helena cardoso a 7 de Janeiro de 2011 às 22:08
grandes recapitulações, fabuloso

De packard a 8 de Janeiro de 2011 às 14:08
Do autor não esquecer a recente edição de Nuno Bragança, Obra Completa, 1969-1985, Lisboa, Dom Quixote, 2009. É livro de cabeceira (apesar das 734 pp.).

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