19.12.10

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

— «Linda pastorinha, que fazeis aqui ?»

— «Procuro o meu gado que por aí perdi.»

— «Tão gentil senhora a guardar o gado!»

— «Senhor, já nascemos para esse fado.»

— «Por estas montanhas em tão grande p'rigo!»

Diga-me, ó menina, se quer vir comigo.»

— «Um senhor tão guapo dar tão mau conselho (1)

Querer que se perca o gado alheio!»

— «Não tenha esse medo que o gado se perca (2)

Por aqui passarmos uma hora de sesta.»

— «Tal razão como essa não na ouvirei (3):

Já dirão meus amos que de mais tardei,»

— «Diga-lhe, menina, que se demorou

Co'esta nuvem de água que tudo molhou.»

— «Falarei verdade, que mentir não sei:

À volta do gado eu me descuidei.»

— «Pastorinha, escute, que oiço balar gado...»

— «Serão as ovelhas que me têm faltado.»

— «Eu lhas vou buscar já muito depressa,

Mas que me espedace por essa charneca.»

— «Ai como vai grave de meias de seda!

Olhe não as rompa por essa resteva (4).»

— «Meias e sapatos (5), tudo romperei (6)

Só por lhe dar gosto, minha alma, meu bem.»

— «Ei-lo aqui vem; é todo o meu gado.»

— «Meu destino foi ser vosso criado.»

— «Senhor, vá-se embora, não me dê mais pena,

— «Que há-de vir meu amo trazer-me a merenda.»

— «Se vier seu amo, venha muito embora;

Diremos, menina, que cheguei agora.»

— «Senhor, vá-se, vá-se, não me dê tormento:

Já não quero vê-lo nem por pensamento.»

— «Pois adeus, ingrata da Linda-a-Pastora!

Fica-te, eu me vou pela serra fora (7).»

— «Venha cá, Senhor, torne atrás correndo...

Que o amor é cego, já me está rendendo.»

Sentaram-se à sombra... tudo estava ardendo... (8)

Quando elas não querem, então 'stão querendo.

 

 

variantes:

(1) Não deve ser nobre quem dá tal conselho — Minho e Beira Baixa.

(2) Eu não digo isso, que o gado se perca,

Mas que descansemos uma hora de sesta.—Beira Alta e Estremadura.

(3) Que dirão meus amos em que me ocupei.—Beira Alta.

(4) Por essas estevas—Alentejo.

(5) Meias e vestido—Ribatejo.

(6) Romperem — Coimbra.

(7) Vai guardar teu gado pela serra fora.— Beira Alta.

(8) Senta-te a esta sombra que está o mundo ardendo.

— «Eu bem não queria, mas estou querendo.»

— «Cala-te, pastora, não digas mais nada,

que a aposta que eu fiz já está ganhada.»

— «Senhor, vou sentar-me não por má tenção.

Pois sabe a verdade, que sou teu irmão.—Beira Alta.

«Sente-se a esta sombra, passemos a sesta,

Já pouco me importa que o gado se perca.»

Ó gente da casa, acudi ao gado,

Que foge a pastora c'o seu namorado.—Minho.

 

 

 

[...] O lugarejo é bem conhecido de nome e fama, chama-se Linda-a-Pastora. Porquê? Não sei. Têm-me jurado antiquários de «meia tigela» que o seu nome verdadeiro é Niña a Pastora. Mas enquanto não achar algum de «tigela inteira» que me saiba dar a razão por que se havia de chamar assim, meio em português meio em castelhano, um aldeote de ao pé de Lisboa — hei-de chamar-lhe eu, como os seus habitantes, e toda a gente diz: Linda-a-Pastora.

Namorei-me do sítio por modo que ali passei o verão todo; e dali fiz deliciosas excursões pelas vizinhanças, que todas são bonitas. Foi neste próprio e apropriado sítio que a Sr.ª Francisca, lavadeira bem conhecida do lugar, me deu a última e, ao parecer, mais correcta lição que do presente romance tinha obtido. Em outras partes do reino traz ele o título de Pastorinha; aqui era justo e natural que se lhe desse o de Linda-a-Pastora, que assentei conservar-lhe.

Na forma é um romance em endeixas, mas o fundo é de uma verdadeira pastorela do género provençal; nem a fariam mais graciosa Giraud Riquier ou Giraud de Borneill.

Tem muitas variantes, porque todo o reino a sabe e canta. Eu noto somente as principais.

 

 

Almeida Garret

in Romanceiro (III)

Edição revista e prefaciada por Fernando de Castro Pires de Lima

Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho/Gabinete de Etnografia, 1963

Leia um excerto do prefácio aqui



 

Imagem:

Desenho de Paulo Ferreira (detalhe)

in Quelques Images de l' Art Populaire Portugais aqui

S.P.N. 1937


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